sábado, 10 de janeiro de 2015

Tempo de guerra

Menina como era, não sabia o significado da palavra pobreza. Apenas sabia que me faltava quase tudo porque o sentia quando o meu estômago dava sinal ou quando a fraqueza era tão grande que só apetecia dormir sob um raiozinho de sol.
Andava na escola pela primeira vez. Outubro, outono, sabia  porque a professora ensinara o nome da "estação do ano?" "Sim. Era isso... Era o ano repartido de três em três meses."
Já ouvira as pessoas da aldeia a falarem da primavera, do verão, do frio do inverno e do outono. Só tinha cinco anos. Nunca ligara muito ao que diziam. Gostava de correr e saltar, cair e levantar, chapinhar nas poças de chuva e saltaricar atrás dos passarinhos recém saídos dos ninhos...
Era feliz apesar de tudo o que não tinha e que nem sabia que existia.
Corria o ano de 1940. Fisicamente, a pequena localidade onde vivia, ficava longe da guerra cujos ecos não me chegavam.
Os velhos andavam com os olhos mortiços, sem esperança, vivendo um dia de cada vez, com a certeza de que ao dia seguiria a noite.
Eu não entendia nada daquilo. A minha mãe apenas dizia:
- "Oh filha, lá para esses países frios anda uma guerra muito má, onde já morreram muitas pessoas. Há muita miséria, muita fome, muitos filhos sem mãe. Sabes, o Presidente do Conselho, o Dr. Salazar, tira-nos tudo para mandar para lá. Ouvi isso lá em casa do fidalgo. Falavam muito baixinho, ele e o doutor de Vinhais. Não entendo muito bem essa coisa da guerra. Não sei porque é que andam em guerra. Sei que cada vez é mais difícil arranjar um cibo de pão... aqui na terrinha, se não fosse eu, os da Zulmira já tinham morrido à fome... Graças a Deus, lá me vão pagando as cestas com alguma coisa que se coma."
Com os meus cinco anos, nada do que a minha mãe dissesse, na sua simplicidade e ignorância, me fazia perder muito tempo a pensar. Tocava-me a palavra fome, que a sentia, às vezes, poucas. Sabia que os meus amiguinhos tinham mais fome do que eu. Esbugalhavam os olhos para o meu carolo de pão negro e azedo, lambuzado de unto e eu acabava por lho estender, repartido aos pedacinhos por cada um deles. Mal dava para uma dentada, mas ia enganando aquela dor de barriga que não se esquecia de doer.
"Mãe, tenho fome!"
"Ainda agora te dei um cibo de pão, filha!"
"Dei-o ao Zé, à Ana, à Maria, ao João e aos filhos da tia Quica. Não tiravam os olhos de mim..."
Do fundo da arca de castanho saía uma côdea dura, negra, amarga como a vida. A ela, a mãe juntava um pedacinho de carne gorda, assada na grelha à lareira. Que bem me sabia quando não era rançosa!
Comia calada, quieta. Olhar preso na ténue chama dos poucos paus que ardiam lentamente no lar. Era preciso poupar lenha.
"Quem não poupa lume nem lenha, não poupa coisa que tenha."
O frio ainda não se instalara. Chovia, isso sim, muito, encharcando tudo, enlameando tudo.
Lusco-fusco, regressavam a casa os últimos trabalhadores enregelados, com a roupa agarrada ao escanzelado corpo. Não havia nada que os protegesse. As suas casas tinham as fogueiras apagadas. A lenha mal chegava para fazer o caldo, se houvesse com quê.
Alguns, a tiritar de frio, traziam um sorriso feliz no rosto magro. Coisa estranha. Admirava eu à janela, a comer o meu naco de pão e chicha gorda, o riso que iluminava o olhar noturno e, então, vislumbrava um coelho, uma perdiz ou uma lebre, apanhadas em segredo.
"A minha Maria ainda por lá terá um cibinho de azeite ou banha. Que bem nos vai saber. As crianças estão tão magras! Estamos em outubro e já não temos quase nada para comer. Que será de nós?"
"Se o inverno vier difícil, que Deus nos ajude."
Assim pensavam os dois homens jovens que se apressavam para casa, ávidos de calor, prenhos de fome.
O ranger das botas nas tábuas não acordava os poucos animais que se recolhiam na loja. Acordava os filhos que dormitavam no escano junto à fraca fogueira. Corriam para o pai com sorrisos vários e os abraços pequenos enchiam o coração do rapaz-pai que os amava mais que à própria vida.
Zulmira atiçou o lume e deitou mais um pau na fogueira. No louceiro composto por algumas tábuas de castanheiro bravo, aplanadas pelo tio Manuel e tão rústicas como a vida, em cima da que servia de bancada, estava um pequeno tacho de esmalte, já esboucelado, com batatas descascadas e lavadas. Ao lume, um pote com água aguardava as batatas.
Quando olhou para o marido, viu-lhe na mão um coelho selvagem, apanhado numa das armadilhas que, aqui e ali, João ia colocando, sempre com receio de que alguém o acusasse. Já não se lembrava da última vez que haviam comido tal animalzinho. Ia saber pela vida com as batatinhas que se preparava para cozer.
Sorriu para o marido que esperava de olhos fitos nos dela. Depressa foi buscar outro pote, a cebola e a azeiteira de latão comprada na feira de Vinhais.
As crianças, três, que cabiam todas dentro de um cesto, aninharam-se junto à fogueira, sentadas nos seus pequenos tripés e olhavam para os pais, à espera de que acontecesse o milagre de uma refeição abençoada.
Com a sabedoria ancestral do caçador, o pai sentou-se no seu canto habitual e começou, com a navalha que trazia sempre consigo, a tratar do coelhito. Com cuidado para não estragar a pele que venderia ao peleiro quando por ali viesse, depressa se desenvencilhou da tarefa. Abriu-o e limpou-o. Ali mesmo o lavou, num tacho que a mulher lhe deu, e o partiu.
Já crepitava o azeite com a cebola no pote. João acrescentou-lhe o coelho, Zulmira o sal, uma folha de louro e uma pitada de pimento. Mexeu com a colher de pau e tapou o pote com o testo sem o abafar. No outro pote já estavam as batatas, quase a ferver.
Sentou-se no seu banquinho de três pernas e sentiu o silêncio. Ninguém dizia nada. Apenas o estrugir do coelho e o borbulhar das batatas nos potes e o crepitar da lenha na fogueira enchiam a pequena cozinha de sons, belos e melodiosos, ao mesmo tempo que enchiam o ar de um cheiro maravilhoso que se entranhava nas narinas como se fosse o melhor perfume do mundo. E era.
João meteu a mão aos bolsos exteriores do casaco que ainda não havia despido e retirou quatro pequenas maçãs de inverno. Eram ácidas. Estavam geladas, mas foram recebidas como um doce maravilhoso e único. Os olhos resplandeciam nas carinhas redondas das três crianças. Bateram palmas e soltaram gritinhos de alegria.
“Pai, assa, pai, ali nas brasas.”
Agachou-se, agarrou nos ferros e puxou algumas brasas onde colocou as maçãs, aconchegando-as. Só então se apercebeu de que tinha a roupa molhada. Despiu o casaco, pendurou-o na ponta do escano para que secasse. Descalçou os socos, tirou as meias de lã de ovelha que a mãe lhe fizera e pousou-as na pontinha do banco.
A mãe mexia o coelho e picava as batatas com um garfo de ferro com dois dentes; tinha sido do seu bisavô. Não demorava.
Foi buscar os pratos de esmalte azul, garfos, colheres e uma caneca de lata com água para os seus meninos. O marido levantou-se e foi buscar uma garrafa meada de vinho e um copo.
Começaram a comer o seu manjar dos deuses. Os pais a ajudar os filhos. Os melhores bocados… primeiro eles. O que sobrasse seria para os adultos. Nessa noite poderiam dormir consolados. O caldo ficaria para o matabicho. Não tinham pão, só restava uma côdea dura que as crianças não conseguiam comer.
“As maçãs, pai! As maçãs!” - Gritavam felizes os três.  
“É verdade! Já me esquecia.” – Riu-se com uma careta exagerada de espanto. Olhou para os filhos e consolou-se com as suas gargalhadas.
Retirou os frutos da cinza, limpou-os, tirou-lhes a casca e partiu-os aos bocadinhos que foi distribuindo por todos, ele e a mulher incluídos.
Não demorou nada, já as crianças dormiam. Os mais novinhos, no colo dos pais. O António, de cinco anos, encostado à mãe que o abraçava com o braço livre.
Deitaram-nos na mesma cama, bem aconchegados com os pesados cobertores de lã, feitos no tear pela tia Madalena.
Deitaram-se no cubículo a que chamavam quarto. Mal passava das oito e meia da noite. Anunciava-se uma noite fria, apesar de estarmos em outubro.

(Continua.)

Maria Cepeda

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