sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Entrevista com o arquitecto João Ortega

Senhor arquitecto, começamos, sempre, pelo local de nascimento. É aí que tudo começa. Nasceu numa das maiores cidades do mundo, é caso para perguntar, o que faz um “paulista” em Bragança?

Nascer em São Paulo, penso que, foi um acidente na minha vida. Nunca me naturalizei português, continuo com naturalidade brasileira, e se tenho algumas questões em me considerar português, não tenho nenhumas em me considerar transmontano, ou seja, o nascimento em São Paulo, foi um acidente, de resto, tirando o período de formação superior, sempre estive em Bragança e, portanto, não me parece que me possa chamar “paulista”, agora, sou transmontano, certamente.
Eu diria que não há, tirando o facto de lá ter nascido, mais nenhuma relação, neste momento, com a cidade de São Paulo, ou com o Brasil; mantenho a nacionalidade brasileira, mas a minha ligação é aqui a Trás-os-Montes, primeiro por força da idade que tinha e de os meus pais serem daqui e aqui residirem e depois por uma opção de ter vindo para Bragança depois de ter acabado a licenciatura.

Que recordações guarda da sua infância e da sua adolescência? Foi uma adaptação difícil?

A minha infância decorreu muito perto de Bragança, e diria que em condições, de alguma forma, particulares e até excepcionais; os meus pais trabalhavam aqui perto num local chamado Minas da Ribeira que é um mundo à parte, porque não sendo um espaço urbano, e hoje faço essa afirmação com todo o peso que o urbano significa, também pela minha formação profissional, não sendo um espaço urbano também não era um espaço rural; a minha infância é vivida num espaço protegido, um espaço que estava bem delimitado, e que nos fornecia uma segurança muito grande; eu vivi lá até as minas fecharem em 1973, e de facto penso que era um óptimo sítio para ter vivido a infância.

Concluiu o ensino secundário em Bragança, na escola secundária Emídio Garcia; segui depois para Lisboa onde se licenciou em arquitectura e imediatamente regressou à cidade de Bragança. Não é um percurso muito usual nos dias que correm, fale-nos desse percurso.

Até à entrada na faculdade a ideia que tinha do mundo era uma ideia aqui do lugar, aqui de Bragança. A passagem por Lisboa e os cinco anos de formação superior são, necessariamente, de alargar horizontes e de ver outros mundos, no entanto, e sobretudo nos dois últimos anos de formação superior, foi-se tornando cada vez mais claro, que não era uma cidade ou um espaço com aquelas características do local onde eu queria viver e, por isso, a decisão de regressar a Bragança, que era tempo em que eu me formei, e que em conversa ainda muito recentemente com algumas pessoas mais novas que eu, estava eu convencido que eram hoje as coisas diferentes, mas afinal não são; efectivamente a saída para o ensino superior significa para Bragança, no que eu posso chamar já o meu tempo, a saída de gente que não regressou, dos que andaram comigo no liceu, regressou, anos depois, um outro que continua cá em Bragança; de resto todos os meus amigos e colegas de liceu que entraram no ensino superior, acabaram por ficar fora de Bragança, e isso, parece-me que significou e continua a significar, para Bragança, uma perda muito significativa de pessoas que certamente interessariam à região.

Sim, porque a partir do momento em que se formam é que elas podem contribuir de alguma forma para o desenvolvimento da região…

Não me parece que sejam só aquelas que se formam no ensino superior, serão todas, e penso que esta é que é a questão fundamental da região, é a necessidade de haver cá pessoas mas, certamente, aquelas que têm formação ao nível superior seriam desejáveis à região.

Acabou o curso de arquitectura e desde então tem desenvolvido a sua actividade profissional aqui em Trás-os-Montes. Nunca sentiu o apelo dos grandes centros?

Podemos encarar o apelo dos grandes centros de duas formas: por um lado a falta de qualidade de vida que um centro determina, não é uma opção a falta de qualidade que nós lá temos para viver, e nesse aspecto a minha opção de regressar a Bragança, é uma decisão consciente de que eu quero viver num local que me proporcione vida, e é coisa que entendo que uma metrópole não proporciona, hoje em dia e, mesmo no passado, embora as metrópoles sejam relativamente recentes, historicamente, as grandes áreas urbanas só começaram a crescer depois da revolução industrial e, portanto, mesmo na história não temos exemplos que possamos considerar muito antigos.

Biografia do Arquitecto João Batista Ortega

João Baptista Ortega, nascido em São Paulo, Brasil, no ano de 1963, casado;
Nesse mesmo ano termina a licenciatura em arquitectura pela faculdade de arquitectura de Lisboa, vive e trabalha e Bragança.
Trabalha em regime de profissão liberal, com atelier na cidade de Bragança. Em Maio de 1999 funda a empresa Morfopolis, oficina de arquitectura, que se encontra situada no loteamento do Sabor, nº9, também na cidade de Bragança.
Tem um vasto leque de obras entre as quais destacamos por ser uma das mais recentes a Caixa de Crédito Agrícola Mútua de Bragança, edifício destinado às novas instalações com 8 pisos na Av. João da Cruz.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

É tempo

É tempo de família
reduzido a um único fim-de-semana
Já não há horas de qualidade
apenas horas
que é preciso aproveitar
como se fossem as últimas
sem nunca terem sido as primeiras

É tempo.
passa tão rapidamente
ou tão devagar
que me custa saber
se alguma vez saberei
que dias são estes de agora

Se não fosse, já, o Natal passado
talvez sentisse alegria,
verdadeira.
A que agora sinto
ou minto
é tão pouco consistente
que os dias raiados de sol
gelam-me como as noites
cobertas de geada.

As horas arrastam-se
como fantasmas anónimos
em anónimas casas
onde já não vive ninguém...

Mara Cepeda

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Olá amigos! Aqui está, com atraso, a 24ª entrevista...

Depois deste pequeno interregno, aqui estamos novamente com a 24ª entrevista. O Nosso entrevistado desta semana é o Arquitecto João Ortega, nascido em São Paulo, Brasil e a viver e a trabalhar em Bragança para onde veio com a tenra idade de dois meses.
Nesta entrevista, fala-nos da sua profissão e da sua ideia para Trás-os-Montes.
É uma entrevista muito interessante, donde podemos tirar muitas ideias interessantes para o futuro da nossa região.

Bem hajam por continuarem connosco e pedimos desculpas por não termos conseguido colocar ontem a entrevista.

Mara e Marcolino Cepeda

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Biografia de Doutor Chrys Chrystello - Congressos da Lusofonia

Dr. Chrys Chrystello, nascido a 2 de Outubro de 1949, prestou serviço no exército colonial português, sendo destacado para o Comando Territorial Independente de Timor, onde chegou em Setembro de 1973, regressando a Portugal dois anos mais tarde. Começou, então, a escrever o seu livro “Timor-Leste: 1973-1975, o Dossier Secreto”, antes de rumar a Macau em 1976 e, posteriormente, à Austrália, onde se fixou e naturalizou.

Ao longo de mais de três décadas de jornalismo político, trabalhou em rádio, televisão e imprensa escrita, tendo sido correspondente estrangeiro durante décadas, da Agência Noticiosa Portuguesa “ANOP/LUSA”, da RDP e da Rádio Comercial, TDM em Macau, Jornal de Notícias, Europeu, Público, entre muitos outros. Tem sido publicado em inúmeros jornais e revistas em todo o Mundo; escreveu guiões de filmes e documentários australianos sobre Timor, tem colaborado em jornais e revistas sindicais como “The Journalist”, da “Australian Journalist Association”, “The Maritime Union” (Sindicato Marítimo Australiano), “The Metal Worker” (Sindicato Metalúrgico Australiano).

Entrevista com Doutor Chrys Chrystello


Começo por lhe perguntar Doutor Chrys Chrystello, que recordações guarda da sua infância e adolescência?

Tendo nascido em Portugal, as únicas recordações que eu mantive sempre bem vivas, ao longo dos anos, dando jus à existência da palavra saudade, que, infelizmente, não tem tradução em qualquer outra língua, as recordações que eu guardo, curiosamente, sendo eu um urbano, um citadino, nascido no Porto, as recordações são todas relacionadas com Trás-os-Montes.
Os meus avós maternos eram transmontanos, a minha mãe era transmontana, saiu de Bragança há cerca de 60 anos, e, portanto, as férias acabavam por ser passadas com os meus avós, em aldeias do distrito de Bragança.
Primeiro, a liberdade dos campos, o poder deitar-me à noite nos palheiros a ver as estrelas, coisa que era impossível, já nessa altura, e, já lá vão para aí 40 anos ou mais. Era impossível, já na altura, verem-se estrelas no Porto. O simples facto de poder jogar à bola com os outros miúdos da aldeia, sei lá…, o ranger dos carros de bois, os burricos a irem com os cântaros à fonte da Crichinha na aldeia da Eucísia, os carros de bois no Azinhoso perto do Mogadouro, as idas à igreja e todos os rituais religiosos, totalmente diferentes da cidade, as procissões com rituais ainda muito antigos que já se tinham perdido nas cidades, e, sobretudo, a liberdade dos campos.

Recordações, essencialmente, todas elas, do meio rural…

Bucólicas…

Do meio rural.

Do meio rural. Eu sou do meio rural. As aldeias que, infelizmente, estão a desaparecer porque as pessoas, também, estão a desaparecer, representam aquilo que há de mais vital na cultura tradicional portuguesa. E, lamentavelmente, não se está a fazer o suficiente, para recuperarmos essas aldeias; seja através da própria imigração, por que não trazer gente dos países de Leste que tanto querem ficar cá e radicar-se e encontrar uma nova pátria, assim como eu encontrei na Austrália. Por que não trazê-los para estas aldeias desertas, dar-lhes as casas abandonadas, os campos abandonados, e, assim, revitalizar toda uma economia.
Porque, com a vinda deles haveria escolas, haveria necessidade para médicos, para advogados, para mais serviços públicos.
As aldeias deixariam de ser aquilo que são. Por exemplo, Guadramil, neste momento, tem menos de cem pessoas, todas elas, noventa e tal por cento, com mais de cinquenta anos, e, é esse aspecto desolador de ver as casas a ruir, as pessoas a ruir, é como se eu visse, também, um bocado do Portugal que eu amo, a desaparecer.

E os que não morrem lá, fogem para outros sítios, não é?

E a tentativa de fuga é muito grande. Evidentemente, que as pessoas só se apercebem depois de irem para o Porto, para Lisboa e para as grandes cidades. Só se apercebem que largam este maravilhoso distrito para irem viver no meio de cimento. Quando abrem a janela, começam a ver os vizinhos ou paredes de cimento, a poluição e tudo o mais. Mas, enfim, é a escolha dos jovens.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

O nosso entrevistado da próxima semana é o Arquiteto Ortega

No próximo domingo postaremos a entrevista do Arquiteto João Batista Ortega, natural de São Paulo, Brasil, a residir e trabalhar em Bragança desde a tenra idade de dois meses. Os seus pais são transmontanos.
Como o próprio diz, o facto de ter nascido em São Paulo foi um acidente de percurso e ele considera-se brigantino de alma e coração.

Até já

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Que a magia do Natal possa fazer-nos refletir sobre o que é verdadeiramente importante: a paz, a saúde e o amor.

Feliz Natal



Feliz Natal


Estamos quase no Natal...

É verdade! O Natal está à porta e todos sentimos que este vai ser diferente. Vamos tentar consumir menos, poupar mais, ensinar aos mais novos que o dinheiro não é infinito...
Este sentido de finitude que sentimos em relação à vida, passa a fazer parte do dia-a-dia. É bom que voltemos a sentir esta quadra como uma festa de família e não como uma vontade exagerada de consumir aquilo que se necessita e o que, pura e simplesmente, não faz falta.
Quando eu era criança, numa pequena aldeia do concelho de Vinhais, o Natal representava a vinda do Menino Jesus que, pobrezinho, me trazia uma cheirosa e bela laranja e alguns rebuçados. A minha meia esperava, pendurada na lareira, que ele viesse.
Era uma noite mal dormida... ainda o alvorecer se espreguiçava sonolento e já eu saltava da cama, descalça e mal vestida para ver o que me tinha trazido o Menino Jesus.
Eram tempos felizes esses... as minhas preocupações eram as de uma qualquer criança da minha idade nas mesmas circunstâncias.
Na noite da consoada não faltava o polvo e o bacalhau. As batatas, as couves tronchas e as rabas eram da casa. O arroz doce feito à moda antiga, tinha o sabor da tradição. Os fritos de abóbora eram melhores do que qualquer doce. O pão-de-ló, feito no forno de lenha, depois de cozer o pão, era um manjar dos deuses.
Àqueles que menos tinham, nessas alturas, nunca faltavam o pão, as batatas e um bocado de unto para temperar a sopa. O cibinho de bacalhau também lá estava, nem que fosse para dar sabor às batatas...
As minhas avós encarregavam-se de distribuir, pelos mais pobres, o mínimo indispensável para esta noite especial.
Eram tempos muito diferentes, muito austeros mas, muito felizes, porque simples e lineares.
As famílias reuniam-se à volta da lareira, sentados nos velhos escanos de carvalho velho. Contavam-se histórias de antigamente e sorria-se...
A Missa do Galo era obrigação incontestável e não havia sono que me fizesse ficar em casa. Beijar o menino era um ato solene e sagrado.
Era Natal. Repicavam os sinos na torre da igreja como que a avisar da chegada do Deus Menino, que indefeso e breve, ansiava carinho, ternura e amor.

Mara Cepeda       

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Todos os caminhos

Ando mais triste
mais só
mais eu
sem  saber que rumo seguir

todos os caminhos
são difíceis
árduos
duros de percorrer

mas são rotas
que de alguma forma
me indicam por onde ir
vou

simplesmente
porque é preciso
porque existo
e insisto

Mara Cepeda

domingo, 18 de dezembro de 2011

Zé Manuel Alves e eu antes do 25 de Abril

Embora o Zé Manuel tenha uns anitos a mais do que eu, temos vivências comuns de "revolucionários" antes do 25 de Abril.
Amadeu Ferreira lembrou que foi em casa do Zé, juntamente com o António Tiza, que ouviu Zeca Afonso. Com eles estava, também, o Francisco, irmão do Zé Manuel e colega de seminário.
Também, eu, ouvi Zeca Afonso, Sérgio Godinho e José Mário Branco em sua casa antes do 25 de Abril, com a polícia a rondar-lhe a porta e as janelas.
Nós, no mais absoluto silêncio, tentávamos ouvir os passos que, com a regularidade do tempo que não pára, soavam no passeio, mesmo por baixo da janela do quarto onde nos ocultávamos, com aquela sensação de perigo, que nos faz acreditar que nada nos pode deter. Aquela adrenalina que nos faz sentir mais vivos do que nunca.
O Zé Manuel era fantástico. A sua coragem inspirava-nos como, ainda hoje, nos inspira. A sua vida é um exemplo a todos os níveis.

Marcolino Cepeda

As Mornas e a sua Rainha

Era eu estudante em Coimbra quando pela primeira vez ouvi uma morna. Fiquei encantada com a sonoridade, com a ternura, com a delicadeza das mornas.
Cabo Verde é um pequeno país no mapa deste pequeno mundo onde habitamos. Nunca lá fui embora tenha vontade de o fazer mas, neste momento, fica incomensuravelmente mais pobre: morreu a mulher que internacionalizou a sua canção.
Cesária Évora era única. Ninguém conseguia ser como ela. A sua voz, absolutamente inconfundível. A sua presença, de uma simplicidade desarmante. Tão mulher, tão humana, com todas as virtudes e vícios que nos fazem ser o que somos.
As mornas que ouvi em Coimbra, cantadas por colegas caboverdianos da faculdade, ainda soam nos meus ouvidos. Nada me fará esquecer aquela sonoridade que se confunde, na minha alma, com o fado de Coimbra e as suas serenatas cantadas ao luar.
Cesária adormeceu num sono sem volta mas, nunca morrerá enquanto existirem as mornas que o seu povo canta.
Até sempre.

Mara Cepeda

Aqui está a 23ª entrevista

O nosso entrevistado de hoje é o Doutor Chrys Chrystello, natural do Porto, filho de mãe bragançana e naturalizado australiano.
Neste momento vive nos Açores onde tem desenvolvido importante trabalho no âmbito da Lusofonia.

sábado, 17 de dezembro de 2011

Biografia do Professor José Manuel Rodrigues Alves - fundador da ASCUDT

Professor Doutor José Manuel Rodrigues Alves, nascido em 30 de Junho de 1946, natural de Varge, freguesia de Aveleda, concelho de Bragança, casado, a viver e a trabalhar em Bragança.
Licenciado em Filosofia, pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto, tem o Mestrado em Educação e o Doutoramento em Filosofia, na área da Ética, ambos na Universidade do Minho.
Leccionou vários níveis de ensino: Ensino Secundário; Magistério Primário, Escola de Enfermagem de Bragança e no Ensino superior, na Escola Superior de Educação de Bragança.
Tem várias obras publicadas. E vasta colaboração em vários jornais e revistas da especialidade.
Foi o principal fundador da ASCUDT – Associação Sócio Cultural dos Deficientes de Trás-os-Montes, de que foi Presidente da Direcção durante mais de 9 anos e do projecto URIPSE: Unidade de Reabilitação, Integração e Promoção Sócio-Cultural da Pessoa com Deficiência, ao longo de mais de 6 anos.

Entrevista com Prof. Doutor José Manuel Rodrigues Alves - ASCUDT

Nasceu em Varge, concelho de Bragança. Que recordações guarda da sua meninice e da sua juventude?

Eu guardo recordações interessantes. Eu fui miúdo com uma experiência rural de que me orgulho muito porque sentia a liberdade e nem sempre se sente isso e, ao mesmo tempo, procurei no ambiente a realização lúdica, como qualquer criança e, portanto, entendo que dez anos que vivi na aldeia, no fundo, ensinaram-me tudo o que precisei de aprender para a vida.

De que forma o facto de ter nascido na nossa região o marcou?

É difícil responder a uma pergunta dessas. Para isso precisava ter nascido noutra região e comparar as duas mas, no fundo, sinto-me preso a esta região. É aqui que eu me sinto bem e acho que é exactamente a esta região que eu devo dar o meu melhor.

Já foi fotógrafo quando era um rapaz mais novo. Fale-nos desses tempos.

Sim. Quando me perguntou sobre aqueles dez anos de experiência rural, eu próprio fabricava os meus brinquedos porque o meu pai era agricultor e tinha uma oficina múltipla, desde ferreiro, carpinteiro, marceneiro… tinha essas coisas todas e eu fabricava ali os meus brinquedos e isso era importante para além de poder brincar com os outros miúdos, fazer as poças e conhecer a hidráulica a funcionar, os vasos comunicantes com as canos de abóboras essas coisas todas, os jogos de regras, a sociabilidade… tudo isso se aprendeu aí nos dez anos mas, para dizer o quê, que essa oficina paterna me marcou para a vida toda. Acho que ao longo da minha vida tem sido esse sentido da oficina que me marca de várias maneiras e acho que a fotografia aparece aí também, nesse alinhamento, dessa realização pela via do fazer, da técnica, das tecnologias A fotografia entrou na minha vida a partir dos meus dezasseis anos e consegui montar o meu laboratório particular, trabalhava a fotografia a preto e branco. Eu próprio revelava. Recordo-me que para arranjar o meu primeiro ampliador, fui a Andorra comprar um, depois fui mudando de ampliadores e máquinas também e, na altura, trabalhava ligado ao jornal “Mensageiro de Bragança”, onde também trabalhava o Marcolino.
Essa experiência de fotógrafo foi uma experiência gratificante. Reuni mais de cinco, seis mil negativos que ainda tenho dessa época. Realizei também dois salões nacionais de arte fotográfica. O primeiro e o segundo promovidos pelo “Mensageiro de Bragança” mas, éramos nós que estávamos na organização. Foram salões que reuniram as melhores fotografias aqui em Bragança. Fizemos um primeiro, um segundo e era para fazermos um terceiro, já a nível ibérico mas, depois deu-se o 25 de Abril e houve aí uma desmobilização destas coisas. Começaram, as pessoas, a concentrar-se na actividade política partidária e desmobilizou-se um pouco essa dinâmica cultural que os jovens tínhamos nessa altura.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Um leve perfume

Sem deixar rasto
nem um leve perfume
Indelével

Assim passam os dias
as horas
Vazias

As vidas vazias
coabitando
dias

Sonhos.
Que ténue perfume
sentimos então…

Mara Cepeda

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Que trabalho me dão, as palavras

A palavra sorriso não sorri
nem mesmo quando
a minha boca a repete
incansavelmente

As palavras são
engraçadas,
estranhas
risonhas,
caladas

Algumas são
recalcitrantes,
teimosas,
incoerentes,
sofridas

Gosto de palavras
mesmo quando
insistem em ser difíceis
e trilham caminhos
só delas

Que trabalho me dão
as palavras!

Mara Cepeda

Um bom exemplo - quando a deficiência não é obstáculo

A entrevista que esta semana publicámos, foi-nos concedida pelo Professor Doutor José Manuel Rodrigues Alves que, apesar da deficiência visual que tem - é cego - conseguiu desenvolver a sua vida realizando os seus sonhos pessoais e profissionais.
É uma entrevista muito interessante. Dá-nos uma lição de vida que é fácil aprender.

Bem hajas Zé Manuel
Marcolino Cepeda

Natal

Quase nada
um quase nada de qualquer coisa
anda no ar,
povoa a atmosfera

as palavras soam
mais tilintantes
mais doces
mais atuantes

anda no ar
um tudo nada de carinho
atenção
solidariedade

o senseno insiste
melancolizando
o quase nada
que se espalha

lentamente,
no meu coração
árido de palavras
repleto de nostalgia

Mara Cepeda

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Rio de Onor - Forno tradicional

Não há pão melhor do que o que se faz nas nossas aldeias! Recordo-me dos tempos em que o comia quentinho, molhado no bom azeite, puro, sem aditivos. 

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Senseno

A jovem mulher e a criança seguiram atrás da senhora bem vestida. Ligeira como se nada lhe pesasse nas mãos, parecia ter pressa de chegar. Quinze minutos de caminho e lá chegaram a uma casa, aparentemente, bem cuidada.
- Esperem aqui por favor, já venho.
A rapariga, com o menino ao colo, dispôs-se a esperar pese embora o frio inclemente que se fazia sentir. O ténue raio de sol que os seguira dissera adeus. A noite aproximava-se a passos largos, o nevoeiro - senseno como se diz na minha aldeia - adensava-se, cada vez mais escuro e frio.
No cimo das escadas assomou a senhora que os tinha trazido até ali. Fez-lhe sinal para que entrassem. Com alguma hesitação a rapariga foi subindo com a criança colada ao corpo, semi-adormecida. Ao chegarem ao alto das escadas envolveu-os uma sensação de calor que, mais do que aquecer o corpo, aqueceu a alma.
- Entra rapariga! Aquece o teu menino que ainda morre de frio. Senta-te aqui.
Como se a voz da mulher tivesse o poder de anular todas as vontades, sentou-se no escano, mesmo de frente para o lume. A criança, lentamente, levantou a cabeça, soltou-se dos braços da mãe e entregou-se ao calor que emanava do lume.
Com o calor a refletir-se-lhe no rosto, agora corado, a rapariga dirigiu o olhar à senhora que tão amavelmente lhes tinha proporcionado o conforto que agora sentiam e esperou uma explicação às suas perguntas sem palavras.
- Quantos anos tem minha filha?
- Vinte, minha senhora.
- O menino é seu?
- Sim... o pai dele abandonou-nos. Foi embora porque não aguentou a pobreza em que viviamos. Não tínhamos trabalho nem casa, os nossos pais não nos podem ajudar. Enfim... sabe, a vida tem sido difícil. O meu menino tem fome e frio e eu não arranjo trabalho. Não sei o que fazer...
- Se quiser trabalhar, pode começar amanhã. Vai trabalhar para mim. Preciso de alguém que me ajude a cuidar da minha mãe que está doente. Não lhe posso pagar muito, mas dou-lhe casa e comida.
- Oh minha senhora, que Deus a abençõe! Estava prestes a fazer uma loucura... foi Deus que a colocou no meu caminho.
Chorava. Era bonita e meiga, sofrida...
A senhora mostrou-lhe o pequeno quarto que agora era pertença sua e do filho. Ao lume, pendurado nas correntes, um lato cheio de água quente.
- Tem água quente no lato e roupa limpa sobre a cama para os dois. Vão lá lavar-se e vestir-se para ver se comemos alguma coisa.
Sem palavras, com a gratidão toda no olhar, pegou no filho e dirigiu-se para o pequeno compartimento onde já se encontrava uma bacia de plástico, pronta a receber a abençoada água quente. Foi à cozinha e encheu um cântaro de água. Lavou o filho e vestiu-lhe as roupas que se encontravam na cama. Bem vestido e bem calçado, o menino sorria, quente e feliz. Sentou-o num cantinho do escano e recomendou-lhe que não saísse dali e não mexesse em nada.
Deitou a água suja nas traseiras da casa e encheu novo cântaro de água quente. Lavou-se, vestiu-se e pela primeira vez olhou para o que a rodeava.
O quarto não era grande mas cheirava a limpeza e cuidado. A colcha que cobria a cama era de lã de ovelha feita em tear manual. Não sabia o que estava por baixo mas, sabia que era bom.
- Minha senhora, diga-me o que precisa que eu faça.
- Quero que se sente e que coma. Dê de comer ao menino.
Sentou-se e baixou a mesa do escano. Surgiu uma pequena toalha de alvo linho, debruada com uma pequena bainha aberta. Fumegante, surgiu uma malga prenha de sopa. Os olhos da criança brilhavam na semi claridade que a candeia proporcionava. Carinhosamente, a mãe dava-lhe a sopa que, avidamente comia. O pedaço de pão na mão acompanhava o ritmo lampeiro da colher que não se cansava de dar de comer.
- Queres mais meu menino?
Acenou com a cabeça afirmativamente que a fome era de muitos dias. A mãe, pacientemente esperava que o filho comesse. A segunda malga acabou. O menino, finalmente quente e bem alimentado, adormeceu.
- Vá deitá-lo e venha comer também.
Assim fez a rapariga. Deitou o filho. Pousou-lhe um beijo leve na testa, aconchegou-lhe a roupa e foi para a cozinha. Já a malga da sopa esperava por ela juntamente com um naco de bom pão. Quando a primeira colherada de sopa lhe aqueceu a boca, soube-lhe a um manjar dos deuses. Comeu depressa, envergonhou-se da sofreguidão com que a ingeria.
- Coma minha filha, sei que tem fome. Não se preocupe.
Enquanto comia, as lágrimas corriam-lhe pela face, salgando a sopa. A gratidão sabia a sal. A segunda tigela de sopa foi comida com mais serenidade, ainda com fome. O pão sabia ao mel mais puro. Uma maçã brilhava verde na brancura do linho. O paraíso era ali.

Mara Cepeda

domingo, 11 de dezembro de 2011

Brito de Baixo num dia de nevoeiro

Os dias de nevoeiro são dias tristes. No entanto, podem potenciar a nossa imaginação.

Esta paisagem pode ser apreciada num dia de nevoeiro quando se vai para a minha aldeia.

As ilhas que assomam pelo meio do nevoeiro são ilhas de encantamento. Miguel Torga sabia-o.

 
Nem tudo é o que parece! Pode ser muito mais...


(Fotos de Irene Fernandes Modesto)

Aqui está a 22ª entrevista

A entrevista que hoje publicamos mostra-nos uma pessoa com um percurso de vida invulgar.
O Professor Doutor José Manuel Alves é cego por causa de um problema genético que se transmite pelo lado masculino, no entanto, é um exemplo de vida que vale a pena conhecer.
É natural do concelho de Bragança e foi o fundador principal da ASCUDT - Associação Sócio Cultural dos Deficientes de Trás-os-Montes.

Biografia de Dr. José Fernando Lopes Monteiro de Morais Carrapatoso - Diretor da E. Sec. Miguel Torga

Dr. José Fernando Lopes Monteiro de Morais Carrapatoso, casado, a residir e a trabalhar em Bragança. 
Licenciado em biologia pela Faculdade de ciências da universidade do Porto.
Professor do quadro de nomeações definitivas do grupo disciplinar do 11º B da escola secundária Miguel Torga de Bragança.
Desde 1993 é presidente do conselho executivo da escola secundária Miguel Torga, tem desenvolvido muitas actividades de promoção da escola e da região, entre as quais destacamos a informática não apenas na vertente da aprendizagem para o utilizador, mas também na montagem de computadores, tendo criado a marca “Torga”.
Neste momento exerce as funções de Diretor da mesma escola.
O compositor de música clássica, Eurico Carrapatoso, é seu irmão.

sábado, 10 de dezembro de 2011

Entrevista com Dr. José Carrapatoso - Diretor da E. Sec. Miguel Torga

Comecemos, então, pelo princípio e, como o início é o nosso berço, diga-nos, por favor, onde nasceu?

Eu nasci em Coimbra, porque o meu pai formou-se em medicina naquela cidade e tinha a nostalgia de Coimbra, a nostalgia do Choupal, portanto, quis que os seus filhos fossem nascer a Coimbra. Naquela altura não havia em Trás-os-Montes grandes condições de saúde para as mães e ele esforçou-se para que nós, quer o meu irmão mais velho quer eu, fossemos nascer a Coimbra. Só o meu irmão mais novo é que não nasceu lá porque, embora seja o mais sossegado dos três irmãos, na altura do nascimento foi o mais adiantado e acabou mesmo por ter que nascer em Trás-os-Montes. Portanto, sou nascido em Coimbra, mas transmontano de corpo e alma.

Como foi a sua meninice e que recordações guarda da sua infância?

Eu cresci numa aldeia do distrito de Bragança, do concelho de Mirandela chamada Alvites. Uma aldeia belíssima, uma terra belíssima e, portanto, eu guardo a ideia do paraíso que eu gostaria de encontrar quando chegasse a hora do “encontro final”. A ideia que eu tenho é de uma infância extraordinariamente feliz, de uma liberdade absoluta que é muito cantada e escrita pelo escritor que dá o nome à minha escola, que é a escola secundária Miguel Torga de Bragança.
É esse o mundo simples, o mundo de certezas absolutas onde os dilemas da vida moderna nunca tiveram lugar e que era óbvio, com toda a certeza, para toda a gente, que o sol nascia a leste e se punha a oeste; que ao chegar à altura das sementeiras, semeava-se; ao chegar a altura das colheitas, colhia-se. Portanto, foi uma meninice em que nunca soube o que era o problema do stress; o problema de não ter uma família que não me apoiasse; o problema de ter muita gente doente, que é um bocado o contrário do que se passa agora nessa minha aldeia.

E onde frequentou os seus estudos até ingressar na universidade?

Depois, com dez anos, infeliz ou felizmente, naquela altura, infelizmente, fui para um colégio particular, de jesuítas e que é o instituto Nuno Alvares, situado entre Famalicão e Santo Tirso. Estar nesse colégio foi uma infelicidade terrível…
Eu saí de uma aldeia que era um mundo, onde toda a gente se conhecia, eu conhecia cada cantinho, onde tudo era pessoal. Ao ir para um colégio com cerca de 600 alunos, onde o que marcava era a impessoalidade, digamos assim, eu era um número, era o 101, foi uma infelicidade terrível naquela altura, descobri pela primeira vez que também podia haver purgatório, custava-me a acreditar que houvesse. Descobri, efectivamente, que a vida era feita de encontros e de desencontros mas, estive nesse colégio, colégio Santo Tirso e, aprendi.
Agora, passados estes anos todos, acabo por recuperar coisas boas do que lá passei, nomeadamente, em termos de ensino e de condições que os jesuítas davam aos seus alunos e aquilo que tentavam incutir, parte delas com uma visão diferente... as coisas boas tento continuá-las na Escola Secundária Miguel Torga e, portanto, estive até aos 15 anos de idade no colégio Santo Tirso; depois vim para Mirandela onde fiz os 2 últimos anos de liceu.
Em Mirandela, já perto dos meus pais, fui sujeito ao contraste terrível entre o que era o ensino de qualidade no colégio Santo Tirso e uma balda, digamos assim, que havia naquela altura. Estamos a falar dos anos a seguir ao 25 de Abril, onde houve um “boom” de gente a estudar e, foram precisos muitos professores. Não havia tempo para os formar, tudo o que viesse à rede era peixe e lembro-me, por exemplo, em Mirandela que o meu professor de matemática era um rapaz um pouco mais velho do que eu. Eu tinha 16 anos e ele teria 18 ou 19. Soube mais tarde que ele teria chumbado no 7º ano. Ele ia dar Lógica e tinha o vício de dizer é lógico, é lógico, é lógico. Então, logo na primeira aula, eu disse ao professor: “O senhor está a dar lógica ou lógico?” e, ele diz-me assim: “É pá, tens razão, não percebo nada disto, não foi “nada” a palavra que ele disse, foi assim um bocadinho mais dura e saiu porta fora. Nunca mais deu aulas.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Nevoeiro

A mulher levava pela mão o filho pequeno, talvez três anos que não aparentava mais. Iam os dois ligeiros e leves. A roupa andrajosa, não via água há muito tempo.
O menino chorava. A mãe não se importava com o choro do filho, apenas seguia um caminho previamente definido.
Estava com pressa, muita pressa, aquela mulher jovem e maltratada pela vida. O que vi não me deixou indiferente e continuei a segui-los com o olhar.
De repente, a pobre mulher pára com se algo a tivesse agrilhoado ao solo. Hesitante, estende o olhar vazio à procura de algo. Pega no filho ao colo, velha, agora, de muitos anos sofridos.
Desanimada, arrasta-se até a um dos bancos da praça e senta-se...
A criança não chora já, fundida com o corpo esquelético da mãe. O tempo parou nesse momento. Tudo cristalizou como se mão invisível fechasse a porta do agora e escancarasse o portão da eternidade.
Dir-se-ia que uma estátua pousara naquele lugar, com o cruzeiro como espectador silencioso e solitário. Nem uma brisa, nem uma voz, nem um ténue raio de sol... o nevoeiro lentamente chegava, carregado de frio e densidade.
O bater de asas de uma pomba acordou o momento, não sei se serenamente. A criança choramingou enregelada. A mulher envolveu o filho num abraço tosco, levantou-se, estendeu a mão:
- Uma esmolinha por amor de Deus!
Vozes, roçar de asas, nevoeiro denso... uma senhora percorre a praça, perfeitamente agasalhada. Na mão, um saco grande de plástico, na outra um de menores dimensões.
Dirige-se à rapariga com o filho ao colo.
- Venha comigo! - Diz, imperativa.
Um envergonhado raio de sol rompe o denso nevoeiro. Nos olhos, desponta um lampejo de luz.
Lá vão os três, ligeiros mas, leves apesar de todos os carregos das suas vidas, envoltos em nevoeiro eivado por uma estranha luz...

Mara Cepeda 

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Museu judaico arranca em 2012

O embaixador de Israel em Portugal deslocou-se ao concelho de Bragança para conhecer de perto a cultura judaica presente no Nordeste Transmontano. Ehud Gol deixou em cima da mesa a possibilidade de Bragança estreitar relações de cooperação com Israel.
“Acho que é importante para mim, enquanto embaixador, visitar cada lugar de Portugal, sobretudo numa região com o passado histórico como Bragança”, explicou o diplomata. Trazer turistas de Israel para Bragança é um dos objectivos do presidente da Câmara de Bragança. Jorge Nunes realça que a construção do Centro de Interpretação Sefardita vai ter um papel fundamental na promoção turística.
“É inquestionável que a presença judaica foi muito intensa com estas terras. Pretendemos desenvolver o nosso centro de memória de interpretação sefardita. Esperamos avançar com a construção do espaço no primeiro semestre do próximo ano”, revelou o edil.
Para além da cooperação turística e cultural, Bragança também poderá vir a estabelecer relações empresariais e ao nível do Ensino Superior com Israel.

Escrito por Jornal Nordeste.
Retirado do site do Jornal Nordeste

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

A vida passa

a vida passa
deixando marcas indeléveis
que se entranham na nossa alma,
umas de alegria e tranquilidade
outras de dor e desassossego

assim alimentamos
as nossas saudades
as noites mal dormidas,
inquietas, rabugentas,
as horas imensas de não sonhar

quando alguém nos magoa,
a dor renasce no simples olhar.
no momento de agora
o eco ecoa inesgotável
em labiríntos ancestrais

a inesgotabilidade da dor,
a constância do sentimento
torna difícil o ato de, simplesmente,
respirar,
momentaneamente asmáticos

o tempo passa,
inexoravelmente
o que não passa e se entranha,
é aquilo que vivemos
e visceralmente sofremos

Mara Cepeda

V Bienal da Máscara – Mascararte em Bragança

Música, máscaras, caretos, diversão, folia e muita cor prometem animar Bragança durante a V Bienal da Máscara – Mascararte, que decorre de 1 a 7 de Dezembro, organizada pela Câmara Municipal de Bragança, pela Academia da Máscara Ibérica e pela Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Bragança.
Em conferência de imprensa, a Vereadora da Cultura da Câmara Municipal de Bragança, Dra. Fátima Fernandes, referiu que, em 2011, se pretende “recuperar algumas das tradições já perdidas, como as figuras do Diabo, da Morte e da Censura, pelo que vamos organizar a primeira concentração de Diabos, seguida da Queima do Diabo”.
O evento alia, ainda, a diversão a uma vertente mais lúdica, voltada para o conhecimento e para a aprendizagem.
“ A Mascararte tem um carácter pedagógico, já que é, também, dirigida aos alunos, que participam nos vários concursos promovidos e nas outras actividades, sendo que a figura do Diabo, temática da V Bienal, está presente na literatura portuguesa, nomeadamente na obra de Gil Vicente”, sublinhou a Vereadora da Câmara Municipal de Bragança.
Na conferência de imprensa estiveram, ainda, o Professor António Tiza, que destacou a importância das conferências e palestras integradas no evento, bem como da inauguração da Sede da Academia Ibérica da Máscara, no dia 4 de Dezembro, e o Professor Luís Canotilho, que revelou o desejo de recuperar a tradição do Diabo, da Morte e da Censura.

Retirado do site da Câmara Municipal de Bragança

Rede Europeia da Máscara vai nascer em Bragança

inauguracao_sede_mascara.jpgBragança poderá vir a criar uma rede europeia da Máscara. O objectivo é congregar debaixo de um mesmo projecto parceiros e investigadores da Máscara um pouco por toda a Europa.
A autarquia já candidatou este projecto ao programa Cultura 2000, mas foi recusado.
No entanto, o presidente da câmara de Bragança, Jorge Nunes, acredita que agora será de vez.
“Poder agregar numa rede um conjunto de meia dúzia de actores a nível europeu que partilhem informação e poder haver participação recíproca. A candidatura já avançou”, revelou Jorge Nunes, adiantando que o chumbo foi por “aspectos de ordem administrativa”.
O anúncio foi feito ontem, durante a inauguração da sede da Academia Ibérica da Máscara, dentro das muralhas do castelo de Bragança.
O espaço vai servir, de acordo com o presidente da Academia, António Tiza, para os trabalhos regulares da Academia. Disfraz
“A academia dispõe agora de um espaço de trabalho, que a direcção poderá usar para reunir, planificar. E todos os sócios têm este espaço à disposição”, explicou. Paralelamente, existe também um site na internet à disposição de quem se interesse pelas máscaras e trajes típicos do Nordeste Transmontano.
O presidente da câmara de Bragança abriu ainda a porta a uma ampliação do espaço do Museu da Máscara.
“Precisa de um espaço maior pelo facto de a temática da máscara ter ressurgido noutras localidades, particularmente de Espanha. E outras localidades, mesmo fora da Península Ibérica, nos têm solicitado para acolhermos os seus trajes e o espaço já não tem essa área disponível”, explicou Jorge Nunes.
Ao todo, o Museu da Máscara acolhe cerca de 12 mil visitantes por ano.
Para além disso, e devido à componente das gaitas de foles, que integram a tradição transmontana dos Caretos, também o Conservatório de Bragança será ampliado. Inicio
“Porque há alguma incompatibilidade sonora entre as várias disciplinas que se leccionam”, devido à aposta que se fez na gaita de foles. “Não há festa sem gaiteiro e eram quase todos de idade”, explicou Jorge Nunes, explicando a existência de uma disciplina relacionada com as gaitas de foles.
Novidades avançadas na inauguração da sede da Academia Ibéria da Máscara, ontem, em Bragança.A recuperação do interior de uma casa na zona histórica da cidade custou cerca de 18 mil euros, suportados pela autarquia. 

Escrito por Brigantia
Retirado do site da Rádio Brigantia 

LEQUE - ganhou prémio de voluntariado

Uma distinção merecida mas inesperada. A Leque - Associação Transmontana de Pais e Amigos de Crianças com Necessidades Especiais, de Alfândega da Fé, venceu a segunda edição do prémio Manuel António da Mota, que premeia o voluntariado.
O prémio tem um valor pecuniário de 50 mil euros, sendo que esta segunda edição tinha como objectivo premiar “organizações promotoras de voluntariado que se distingam no desenvolvimento de actividades e projectos inseridas em programas de voluntariado de relevante interesse social e comunitário”.
O júri entendeu que a Leque se distinguiu entre dez finalistas pelo facto de dar uma “resposta integrada”, designadamente por apoiar directamente crianças com deficiências, mas também dar apoio “psicossocial” às suas famílias.
Pesou também o facto de esta associação estar instalada numa área do território nacional (zona sul do distrito de Bragança) pouco servida por equipamentos que dêem resposta a este problema.
O júri deste galardão decidiu ainda atribuir menções honrosas às restantes nove candidaturas finalistas.
Celmira Macedo, a responsável pela Leque, admite que não esperava esta distinção.
“Sinceramente, não esperava. Os projectos eram todos muito bons. Quando os vi fiquei um pouco desanimada porque havia projectos extraordinários. Fiquei surpresa quando percebi que tínhamos ganho a esses projectos, o que quer dizer que o nosso é um projecto de excelência”, destaca.
No entanto, a responsável pela Leque, revela que já há destino para os 50 mil euros do prémio Manuel António da Mota.
“Neste momento ficou o compromisso, na cerimónia, que este prémio seria o primeiro passo para a construção do centro de noite”, adianta, sublinhando a componente de voluntariado da instituição, que tem apenas dois funcionários. “Tudo o resto é feito com base no voluntariado”, frisa.
 Mas não só. Celmira Macedo acredita que haverá mais vantagens para a associação para além dos 50 mil euros.
“Vai permitir outro tipo de parcerias e dar visibilidade à Leque, pois esteve presente o Primeiro-Ministro. E, sobretudo, conseguimos sensibilizar a Segurança Social da necessidade de estabelecermos o acordo atípico”, sublinha, adiantando que o serviço de apoio nocturno não será construído de raiz, “pois o dinheiro não dá para tanto”, mas reconvertendo um espaço existente.
A Leque existe há dois anos, tem actualmente 17 utentes e funciona em Alfândega da Fé.
É também responsável por um projecto pioneiro, a escola de pais, que ajuda os pais a lidar com crianças com necessidades educativas especiais.
Agora viu o seu esforço reconhecido pela fundação Manuel António da Mota.


Escrito por Brigantia
Retirado do site da Rádio Brigantia

domingo, 4 de dezembro de 2011

Um pôr-do-sol outonal

Fim de tarde, à saída da Escola.
Parei porque era impossível não parar.
A foto não faz jus à beleza deste maravilhoso pôr-do-sol.
É nestas alturas que eu sinto muita pena de não saber pintar para captar estes momentos.

Aqui está a 21ª entrevista

A entrevista que hoje apresentamos é a realizada ao Dr. José Fernando Lopes Monteiro de Morais Carrapatoso, Diretor da Escola Secundária Miguel Torga em Bragança.
Esta escola tem sido notícia pelas melhores razões, como por exemplo, o número de alunos que têm conseguido entrar nos cursos de Medicina ou pela criação de uma marca própria de computadores.
José Carrapatoso é uma pessoa muito dinâmica e divertida. Denota um otimismo contagiante e fala muito, com vivacidade e paixão.
Foi um gosto entrevistá-lo.

sábado, 3 de dezembro de 2011

Entrevista com o pianista Domingos António - Gomes

É filho de pai transmontano, mãe italiana, nasceu nos Estados Unidos da América, estudou em Moscovo. Que universalidade! O mundo é a sua pátria?

Sim, pode-se dizer que sim. Eu gostava de viajar por todo o mundo.

Sente-se como em casa em qualquer parte do mundo?

De maneira nenhuma.

Qual é o sitio onde se sente melhor?

Acho que todos podemos dizer que é a nossa casa, o nosso santuário mas, talvez, onde nascemos, isso para nós é a nossa casa e nunca mais deixa de ser. Ou pelo menos o lugar onde nós temos as primeiras recordações mas, podemos chegar a ter um lugar que gostamos ainda mais e considerarmos isso a nossa Meca, o nosso santuário que se pudéssemos escolher jamais o deixaríamos.

Qual é esse lugar?

Isso é segredo.

O que o trouxe para Portugal?

Como se diz? Destino.

Foi um bom destino?

Não sei. Não é um grande sonho mas…

Mas pode ser um bom princípio?

Não sei, de facto não sei. Vamos ver.

Sentiu muitas dificuldades na integração?

Sim, de facto senti.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Museu de Arte Sacra de Vinhais

O Museu de Arte Sacra de Vinhais está inserido no conceito de ecomuseu e foi criado há dois anos. É composto por oito núcleos que abarcam áreas diversas pelo concelho todo. Estes oito núcleos abrangem patrimónios arquitectónicos, arqueológicos, festas e romarias e água, considerada medicinal, usada pelos antigos em tratamentos.Estes núcleos foram escolhidos entre as 105 aldeias do concelho, num território com cerca de 700 Km2 onde foram assinalados alguns pontos de interesses desses núcleos. 
É dentro do núcleo museológico que está inserido o Museu de Arte Sacra da Ordem Terceira de São Francisco, considerado a “jóia da coroa” dos equipamentos culturais de Vinhais. Este projecto, para além das salas de exposição, integra as Capelas dos Senhores dos Perdidos e da Oração de Jesus no Horto, a Igreja do Seminário e a de São Francisco. O objectivo da Câmara de criar um conceito de ecomuseu, para além de marcar a diferença no distrito por ser o único com estas características, foi tentar aproveitar melhor os seus recursos naturais e humanos, passando o território a ser visto como um museu vivo, para atrair mais turistas. O conceito é que haja uma interacção entre o visitante e a comunidade.
A Igreja de São Francisco, um complexo do século, foi majestosamente edificada assim que foi autorizada a construção de um convento franciscano em Vinhais. Esta estrutura é dividida em duas partes, uma delas onde está a Igreja que pertence à Ordem III de S. Francisco e é a única com estas características no concelho. Ali podem ver-se frescos antigos bem conservados, as cores continuam vivas e os elementos decorativos parecem querer narrar os seus séculos de existência.Composta pelo primeiro piso e o piso intermédio está a Galeria Central onde se encontra a exposição permanente onde h. Neste museu todas as salas para visitar estão interligadas, pertencem a edifícios e organismos diferentes. A ligação faz-se pelos corredores, num chão de madeira que range crónicas antigas. A Galeria Central dá-nos acesso ao Coro da Igreja de Nossa Senhora da Encarnação, conhecida pela “Igreja Grande”. Este pertence ao Seminário de Vinhais, antigo Convento de São Francisco.
Descendo umas escadas de pedra até ao rés-do-chão (recepção) há uma colecção de crucifixos e está exposta uma peça mensal, sendo substituída por peças de outras igrejas do concelho através do acordo celebrado com a Diocese, ou a particulares proprietários de objectos de arte sacra em casa e que emprestam. 
É a “peça do mês”. Do rés-do-chão, por uma entrada estreita e com um cheiro intenso a água benta, tem-se acesso também à Capela de Nossa Senhora das Dores, uma capela pequena, mas muito bonita em termos de talha e escultura e com uma intensidade de sofrimento quase real quando se vislumbra o altar. A santa em tormento com sete flechas cravadas num corpo que “derrama” fios de sangue. Por cima da cabeça está Cristo na cruz. Uma das particularidades desta capela está exposta sob forma de ex-votos, que serviam de oferenda aos milagres realizados. 

O museu encerra apenas às terças-feiras e, desde a sua abertura, que o número de visitantes tem vindo a crescer significativamente graças a excursões de turismo sénior e a escolas e turistas de todo o país que alimentam um recurso turístico cada vez mais divulgado e conhecido no distrito de Bragança. A aposta na cultura na região transmontana supera as expectativas de quem a visita e exemplos disso é o Museu de Arte Sacra de Vinhais.

in:welcomenordeste.net
Retirado do blogue "Memórias... e outras coisas", de Henrique Martins 

Saudade

de ti que cantas nas pedras do rio
da água que corre ligeira
e nunca é a mesma
e é sempre igual

das palavras que calo
das palavras loucas que digo
no ato mesmo de as dizer
do não conseguir
do não querer

do passarinhar insensato das crianças
que correm sem medo pela rua abaixo
dos pássaros que voam assustados
com o chilreio de risos e gritos
que alegremente me fazem ser

que saudade do azul tão azul
que habita o céu que me viu nascer
manhãs frescas como ondas
num mar que sempre foi meu

Mara Cepeda

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Tão tu

Vi-te
Tão triste
Tão puro
Tão tu
Que me apeteceu abraçar-te
Dizer-te:
Não tenhas medo

Contar-te um qualquer segredo
Que te fizesse sorrir.

Olhar para ti
Momentos antes de dormir
E ter a certeza
De existir.

Mara Cepeda

Oliveiras

O azeite de Trás-os-Montes e Alto Douro é um dos melhores do mundo.
A paisagem não fica atrás.

Olá amigos!

Agradecemos o carinho com que nos têm acompanhado neste pequenino projeto.
Esperamos conseguir contribuir para que se fale do Nordeste Transmontano.
Damos a conhecer algumas pessoas ligadas a esta região e que fizeram o favor de nos conceder estas entrevistas.
Queremos, acima de tudo, continuar a amar esta terra de paisagens belas e o seu povo que ao longo dos séculos soube lutar pela sua terra.

Bem hajam