terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Tempo ruim

a violência
destas ondas confusas,
encrespadas,
sem justificação,
desassossega-me,
inquieta-me

tão alheia de mim
ando triste
como um dia de nevoeiro

as noites são compridas
como dias difíceis
os minutos são horas
de batalhas sem fim
que há que lidar
neste tempo ruim

Mara

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

VARGE – A FESTA DOS RAPAZES

Viver a celebração pagã do solstício do Inverno em convívio harmonioso com o Natal cristão é o que poderemos considerar acerca dos peculiares rituais que ocorrem no contexto das festas dos rapazes. Exemplo dos mais representativos e simbólicos deste fenómeno é o Natal celebrado em Varge, aldeia situada na Baixa Lombada, atravessada pelas águas límpidas do rio Igrejas, com a celebração da festa dos rapazes. É como se as antigas e pagãs festas chamadas Juvenálias, protagonizadas pelos jovens, estivessem, dois mil anos passados, em plena actualidade.
A festa é anunciada no Dia de Todos os Santos, com a reunião dos rapazes para a recolha da Lenha das Almas. Já no mês de Dezembro, os preparativos intensificam-se com as rondas à aldeia, todos os sábados, ao som da gaita de foles, para uma visita à casa de todos os rapazes participantes.
No dia de Natal, à hora aprazada, reunem-se os rapazes na casa da festa. Devidamente perfilados em formatura, com os mordomos, revestidos das insígnias do seu poder – um chapéu enfeitado - e o gaiteiro à frente, dirigem-se para a missa. Já no espaço do adro, a formatura dá duas voltas à igreja até parar em frente à porta principal. O gaiteiro cala-se para que todos possam entrar no espaço sagrado sem o som da música profana que, segundo as determinações eclesiásticas, “da porta da igreja para dentro não toque gaiteiro nenhum a gaita”.
No final da missa, os rapazes saem a correr para se indumentarem com seus fatos de mascarado. Chegou a hora de os “caretos” entrarem no exercício das suas funções. Transformam-se em figuras diabólicas e mágicas, sob a máscara de latão pintado, o colorido dos seus fatos, com fitas, campainhas e chocalhos à volta do corpo.
Entretanto, os mordomos saem também, transportando a imagem do patrono dos rapazes – Santo Estêvão – no percurso entre a igreja e o largo onde vão ser recitadas as “loas”.
As loas são uma espécie de revista do ano e constam da proclamação dos acontecimentos ridículos ou como tal apreciados, ocorridos durante o ano. É o ritual solene da crítica social institucionalizada. A crítica social é uma das funções dos mascarados a que o povo tem de assistir porque a ele diz respeito.
Reunido no largo, o povo aguarda com expectativa. No meio de uma algazarra enorme, o primeiro interveniente sobe ao carro para saudar o povo.
Cada um dos que se segue tem a seu cargo o relato, em verso, de um dos acontecimentos seleccionados. Recita de memória um rosário de quadras por ele próprio engendradas, com a cara encoberta pela máscara para não ser identificado. No final de cada quadra, os colegas aplaudem à sua maneira.
Alguns destes factos são representados ao vivo. Os actores são os próprios rapazes que assumem o papel das personagens intervenientes no caso: de mulher, de velho ou mesmo de animais.
A primeira representação refere-se a um conflito familiar que pôs em confronto uma mulher da aldeia e seu primo pela posse da casa deste que ele queria doar à sobrinha. No auge da discussão houve insultos e empurrões e só terminou com a intervenção da Guarda Nacional Republicana.
No segundo acto é representado o despique entre dois vizinhos, pretendendo cada um leiloar para si as terras pertencentes à confraria de S. Sebastião. Um deles chegou a vias de facto, agredindo o outro que teve que receber tratamento hospitalar.
O ritual chegou ao fim e o povo dispersa. Agora é o momento de os “caretos” darem largas às suas diabruras, de manifestarem a sua superioridade perante todos executando actos de valentia, desafiando os próprios elementos da natureza, o rigor do clima e colocando-se acima das normas sociais instituídas.
Segue-se o cerimonial mais solene da festa, a ronda das Boas Festas. Mordomos e gaiteiro à frente, organiza-se o cortejo que percorre a aldeia, de porta a porta, ao som da música da gaita, dos gritos, das pantominas e da chocalhada dos “caretos”.
Os mordomos carregam cada um sua vara, em forma de árvore com muitos ramos, onde colocam os presentes que os donos da casa lhes oferecem. Param em todas as casas e saúdam os donos que os recebem à porta.
Recebem os presentes: fruta, figos secos, roscas de pão, peças de fumeiro… e dinheiro. Bebe-se um copo e o percurso protocolar prossegue para a casa seguinte, em acto de propiciação dos bons augúrios para a natureza e para a comunidade.
Entretanto, os “caretos” desenvolvem a sua própria actividade em ordem à recolha de fundos para o financiamento da festa. Interpelam os forasteiros, exigindo-lhes um pequeno contributo, condição sem a qual não os deixam prosseguir a sua marcha.
A corrida à rosca é já ao anoitecer. Um teste à resistência física dos jovens iniciados. Os vencedores recebem uma rosca de pão, compartilhada fraternalmente por todos.
À noite, a ceia dos rapazes. Como em qualquer sociedade secreta, só eles participam na refeição, por eles mesmo confeccionada, e naquele espaço a ninguém mais é permitida a entrada. Segue-se o baile intercalado com a música do gaiteiro com a da mais moderna aparelhagem sonora.
O Santo Estêvão celebra-se no segundo dia de festa, 26 de Dezembro. O acto religioso dedicado ao santo é a missa dos rapazes. Pese embora a noitada anterior, todos marcam presença. Uma vez mais se identificam as duas celebrações: a pagã e a cristã. Uma vez mais o sagrado e o profano andam de mãos dadas.
O almoço é mais um convívio comunitário só para rapazes. Mas esta refeição reveste-se de um simbolismo muito especial – a eleição dos novos mordomos, os que irão dar continuidade à festa. A milenar tradição está entregue e em boas mãos. Para assinalar este facto, organiza-se um cortejo que se dirige para a casa dos mordomos eleitos, ao som da gaita de foles, dançando e cantando ao longo das ruas. Em cada uma das casas come-se e bebe-se abundantemente; é que a festa dos rapazes de Varge está por fim mas a sua continuidade está devidamente assegurada.
António A. Pinelo Tiza

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Um inverno - a matança do porco II

Uma vez na rua, apercebi-me de toda a movimentação à volta dos dois porcos que o meu avô mataria nesse ano. Senti pena dos animais mas, sempre fui muito consciente relativamente ao que é necessário fazer para bastar à sobrevivência do ser humano. Apercebi-me do cuidado que os homens tomavam para não magoar os bichos e concordei. Segui-os até ao cabanal onde se encontravam os meus avós, o tio João Caetano, o tio Zé Tarela e o senhor Miguel.
Tudo estava a postos para a matança do primeiro animal. Helena apareceu nesse instante. Era uma rapariga ligeiramente mais nova do que eu. Habituada a estas andanças, era destemida e corajosa. O seu pragmatismo não tinha grandes zonas cinzentas, tudo era preto ou branco. Ainda era muito jovem e, portanto, não tinha grandes preocupações. Muito trabalhadora, metia mãos a tudo que aparecesse.
Não sem trabalho, lá conseguiram prender o porco ao banco. Eram muitos homens mas todos faziam falta. O animal, vaticinavam, pesaria os seus duzentos quilos. Fiquei impressionada pois nunca julgaria que pudesse pesar tanto.
Acompanhei, a alguma distância, o posicionamento de cada homem. O animal queixava-se e grunhia em desespero. Ninguém lhe poderia valer. Todos gritavam e sentia-se o frenesim e a responsabilidade daquele instante.  Por breves momentos, cristalizou-se o silêncio. Vi a faca na mão do meu avô e ato contínuo um guincho dilacerante cortou o ar.
Doeu-me aquele estertor de morte. Fechei os olhos e tentei não ver o sangue que esguichava para o recipiente de barro que Helena tinha na mão esquerda enquanto com a direita o ia mexendo para que não coalhasse. Os homens largaram o pobre animal que já não se mexia. Riam nervosamente e davam os parabéns ao meu avô. A faca tinha chegado diretamente ao coração provocando a morte instantaneamente. Havia respeito por aquele ser que, desde tempos imemoriais, era sacrificado para alimentar as gentes da nossa terra.
Fui até ao ribeiro. O chocalhar da água das pequenas cachoeiras acalmava-me. Precisava afastar-me daquele lugar de sofrimento.
Chegou-me, ao longe, a repetição de todos os passos. O segundo animal dava luta. Afastei-me mais. Ainda tinha nos ouvidos o grito do primeiro.
Senti frio e resolvi que era melhor voltar para casa. Para meu espanto, as mulheres estavam sentadas nos dois escanos e nos pequenos tripés que o meu avô fizera, como se não tivessem nada que fazer. Reparei que havia mais um pote ao lume com água a ferver. A tia Engrácia levantou-se e deitou lá para dentro o sangue do primeiro porco. Viu a minha cara de estupefação e riu-se.
Novo grito de dor. O segundo estava morto. Uma lágrima aflorou nos lindos olhos azuis da minha avó Elvira.
O cheiro de pelo queimado entrou-me pelas narinas. Chamuscavam o primeiro animal e não demorariam a chamuscar e limpar o segundo. Fui ver. Os manhuços de palha, bem manejados por mãos experientes, cumpriam a sua função. Era interessante observar o trabalho desenvolvido pelos homens.
Perfeitamente limpo, as orelhas e o reto bem lavados, retiradas as unhas, estava pronto a ser pendurado. Pesava duzentos e dez quilos e era, efetivamente, um valente animal.
Todos os homens eram poucos para cumprir o objetivo de o suspender. Não foi tarefa fácil mas, depois de muita luta, lá conseguiram pendurá-lo numa das traves de castanho do cabanal.
Beberam, cada um, o seu copo de vinho e voltaram-se para o segundo animal. O meu avó voltou-se para o que já estava pendurado e, com mestria de cirurgião, abriu-o. Fiquei impressionada com a sua segurança. Sem danificar nenhum dos órgãos, foi retirando pela ordem ancestralmente estabelecida, todas as peças.
A minha tia, finalmente, atreveu-se a ir até ao palco principal. Deparou-se com o espetáculo do primeiro porco, imenso, já dependurado, numa das traves de castanho,  para escorrer. Nesse momento, com muito cuidado, procedia-se à retirada das tripas que seriam utilizadas para fazer os diferentes tipos de chouriços.
Engrácia, Alexandrina, Adelina, Glória e Helena preparavam-se para uma das tarefas mais difíceis de realizar: a lavagem das tripas. Agarraram nas bacias com as do primeiro animal e dirigiram-se para o pequeno ribeiro.  
O segundo porco estava quase pronto para ser suspenso ao lado do seu irmão.
Na cozinha fazia-se o almoço. O tio Zé Tarela entrou com o fígado do primeiro porco para ser assado na brasa. Isaura, atrás dele, com o recipiente do sangue que seria utilizado para fazer as chouriças doces. Graciano, já bem bebido, trazia nas mãos um bom bocado de carne da barriga que, também, seria assado na brasa para se comer ao almoço.
O guião cumpria-se na íntegra. As minhas avós, a ti Aurora, a ti Ana e, claro, a minha tia encarregavam-se da comida. Eu cirandava por aqui e por ali, tentando captar todas as cenas da matança.
Fui até ao pequeno curso de água gelada onde se enregelavam as mulheres. Nunca teria imaginado que se pudessem lavar as tripas daquela forma, nem mesmo que se pudessem usar para fazer o fumeiro. Nunca tinha pensado nisso.
Disseram-me para experimentar e eu, um pouco incomodada com o conteúdo das ditas, enchi-me de força e coragem e pus mãos à obra. Tiveram a gentileza de me dar uma que já estava vazia. Juntamente com ela deram-me umas palhas e ensinaram-me a usá-las. Ensinaram-me a escamá-las e a virá-las. A água estava absolutamente gelada. Deixei de sentir as mãos. Fui salva pela avó Maria que me veio chamar para ajudar a minha tia.
Foi a primeira matança em que participei, que me deixou lembranças indeléveis. As emoções que senti, tão antagónicas, tornaram-me mais forte. Aprendi a dar valor ao trabalho hercúleo da nossa gente que, mesmo com vidas tão difíceis, sorri e tem sempre um agrado para nos meter na mão quando fazemos “o favor” de a ir visitar.
Dois de Janeiro. Sete dias depois de ter atravessado o Atlântico e ter deixado a minha família, os meus amigos e a vida que conhecia, estava a aprender uma nova vida, tão diferente, tão abismalmente diferente e única que parecia um filme. Eu assistia, de olhos esbugalhados de espanto, ao desenrolar da história que me cabia, agora, viver.


Mara Cepeda

Aqui está a 34ª entrevista

O nosso entrevistado desta semana é o Doutor António André Pinelo Tiza, natural de Varge, concelho e distrito de Bragança.
A sua vida está intimamente ligada ao estudo das tradições relacionadas com o solstício de Inverno e a máscara transmontana e ibérica.
Publicou o livro " Inverno Mágico, ritos e mistérios transmontanos”.


  

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Entrevista 2: Dr. Hirondino da Paixão Fernandes

“E pelo Parâmio se quedou (para onde é que haveria de ir!), jogando a porca, ou brincadeira que a valha, até que entrou para a escola primária, já um tudo-nada tarde, porque tinha a “trave” - ainda recorda a intervenção (cirúrgica), no cimo das escaleiras da casa, com uma vulgaríssima tesoura de costura, “samumbém” enferrujada e “roma”, mas esterilizada... com algum "bucho" de aguardente).”
Doutor Hirondino, como seu antigo aluno, não resisti a fazer uso desta bela frase que faz parte do seu currículo e reporta-nos à sua infância. Fale-nos da sua meninice.

Não sei a bem dizer, o que deverei lembrar, tive uma meninice como todos os demais, uma meninice, como já frisou, a jogar a “porca”, o “tirolilo”, jogos que tínhamos na altura. Um pouco depois ia com as vacas para o lameiro, mesmo em período de férias e, depois foi deixar o Parâmio e vir para Bragança.

De que forma o facto de ter nascido nesta região o marcou?

Marcou-me profundamente. É esta região que tenho sempre presente em mim. Concluí a universidade e vim para Bragança. Podia ter ido para longe, mas não o fiz, fiz o estágio e vim para Bragança e, uma vez em Bragança, sabendo que, mais dia, menos dia sairia de cá, fui para Coimbra e, uma vez mais em Coimbra lá estou eu, sempre a pensar em Bragança. Prova disso a Bibliografia do Distrito de Bragança, pequenos outros trabalhos, mas múltiplos, todos eles tendo como pano de fundo coisas da nossa terra.

O bom filho volta sempre a casa, não é?

O bom filho volta sempre a casa, psicologicamente, intelectualmente, porque fisicamente tem que ficar por fora.

Como seu antigo aluno, atrevo-me a pedir-lhe que nos fale da Trave…

A Trave, já lhe soube o nome científico, é uma prisão da língua, sublingual não é? Que prende um bocadinho a língua e que nos obriga a pronunciar o “R” natural, e não o “R” pronunciado com a ponta da língua; fora disso penso que não tem outros problemas, tem esse que é o de não pronunciar o “R”.

Que não é problema nenhum...

Não é problema nenhum, foi em parte anulado com a tal tesoura, esterilizada com um bucho de aguardente, porque álcool nas aldeias, na altura, não havia e os médicos também não o levavam.

Tinha de ser com aguardente…

Os organismos resistem muito e o meu resistiu a uma pequena cirurgia do corte dessa ligeira prisão sublingual. Claro que só cortou um bocadinho, não o suficiente. Já agora, este esclarecimento, cortou só um bocadinho, porque não gostei da brincadeira. Foi o Dr. Rapazote, que me disse que aquilo não era nada mas, quando senti a tesoura a cortar, ele quis cortar mais, mas depois não deixei. Até me deu jeito como professor de francês, que fui, mais tarde, pois fiquei com uma pronúncia mais correcta.

Fale-nos da sua experiência como aluno no Liceu Nacional de Bragança.

Um aluno como tantos mais, sem nada de especial, fui andando, foram passando os anos. No 5º ou 6º ano fundei o “Alvorada”, no 7º ano fui presidente da Academia e mais nada, portanto, não vejo assim nada de especial como aluno do Liceu de Bragança.

Biografia 2: Dr. Hirondino da Paixão Fernandes

FERNANDES, Hirondino da Paixão, Parâmio, 1931. 06. 07
Dizem as pessoas (lá do burgo, que outras haveriam de ser!) e rezam as crónicas (os livros de registo paroquial e civil, que outros haveriam, também, de ser!), que nasceu, como se disse, no Parâmio, pelas 9h da manhã, no ano, mês e dia indicados.
E pelo Parâmio se quedou (para onde é que haveria de ir!), jogando a porca, ou brincadeira que a valha, até que entrou para a escola primária, já um tudo-nada tarde, porque tinha a “trave” - ainda recorda a intervenção (cirúrgica), no cimo das escaleiras da casa, com uma vulgaríssima tesoura de costura, “samumbém” enferrujada e “Roma”, mas esterilizada... com algum "bucho" de aguardente).
Feito o exame de admissão aos liceus (1943), matricula-se no Liceu Nacional de Emídio Garcia (Bragança), que termina em 1950, com, viva o velho!, 13 valores.
Neste último ano, na qualidade de Presidente da Academia, e obviamente que em consoI1ância com os restantes membros da Comissão, não deixa que os festejos comemorativos do 1º de Dezembro corram sob o signo da MP (como pela primeira vez se queria que acontecesse), o que lhe valeu (e aos mais, como é evidente) ver-se sem a tradicional companhia dos democráticos senhores reitor e professores (nem um, para amostra!) no cortejo e récita de gala.
Virá, mais tarde, a ser delegado distrital desta MP! Imponderáveis do destino, ou talvez não, tudo dependendo do conceito que desta mesma MP se queira fazer.
É ainda, neste ano de 1949/1950, a mola real da fundação do jornal escolar "Alvorada".
Depois (1951) é a Universidade, de que é supérfluo falar - um curso (Filologia Românica) que se lhe veio a revelar, cada vez mais, incolor, inodoro, insípido [mas não cristalino como é, ainda, alguma (pouca) água], não tanto por culpa dos Mestres (de vários, entenda-se) quanto por erro seu, se não mais ainda de um sistema que, demasiado cedo, o forçou a optar pela alínea a) do art° 5° do decreto-lei nº 36507.

Entrevista: Professor Doutor Dionísio Gonçalves

OBS: Esta entrevista foi realizada nos finais de 2005

Professor, nasceu no concelho de Bragança, onde passou a sua meninice e início de juventude. Que recordações guarda desse tempo?

As recordações de Bragança são muito diferentes do actual mas, há uma variância, também, como hoje, que era acolhedora. O liceu era prestigiado e existia uma grande vivência entre as pessoas. Porquê, como sabe, Bragança é uma zona tão interior, uma cidade tão interior que criou sempre muitos laços entre todos nós que aqui vivíamos. Por isso também se chamava a Bragança uma mini Coimbra. Havia, de facto, um ambiente académico muito grande. É com muita saudade que eu recordo esses tempos. Nomeadamente, ainda há poucos dias comemorámos o final do curso de liceu, em 1962/1963, há quarenta e dois anos, portanto e ainda nos reunimos com muita saudade, aqui, em Bragança. (A entrevista foi realizada no final de 2005)

De que forma o facto de ter nascido nesta região o marcou?

Digamos… não posso dizer que me marcou: marcou-me pela positiva, obviamente, porque desde cedo, gostei muito do território. Gostei muito de estar ligado às questões do ambiente, meteorologia, etc. Desde criança que olhava muito para as montanhas, Montesinho e Sanábria e recolhia os dados climáticos como um hobby. Era praticamente um rapaz de liceu, digamos assim.   

Então não foi a sua actividade como oficial miliciano de meteorologia da Força Aérea Portuguesa que despertou a sua vocação?

Não, já estava desperta. Eu posso dizer, tenho hoje 62 anos (agora tem 69) e há 57 que me posso considerar uma estação climatológica, porque guardo na memória praticamente os fenómenos meteorológicos relevantes, é um hobby e, quando fui, de facto, para o exército, enfim para a minha vida militar, tive a oportunidade de fazer a vida militar na Força Aérea como técnico oficial de meteorologia onde aprofundei e tirei um curso coerente sobre a meteorologia e previsão de tempo.

Licenciou-se em Lisboa. Sentiu-se desenraizado, perdido, adaptou-se bem à vida da capital?

Não, naturalmente que me adaptei bem. Naqueles tempos nem poderia ser de outra maneira, não havia a dispersão do ensino superior que há hoje, e portanto, adaptei-me muitíssimo bem. E também tinha colegas daqui, da nossa região, outros colegas que estavam noutras faculdades. Gostei imenso de estar em Lisboa, posso dize-lo. E digamos que era ali que teria ficado se não fosse, aliás, pelo ensino superior.

Passou da capital para Vila Real. Fez o percurso inverso da grande maioria das pessoas…

Exactamente, porque aproximar-me da minha região foi sempre um grande objectivo da minha vida. Escolhi a vida académica, escolhi, profissionalmente, a vida universitária. Se não tivesse havido essa desenraização do ensino superior era mais um que estava, que tinha continuado em Lisboa. Mas também poderia ter continuado, obviamente que sim mas, quando foi criado o politécnico de Vila Real e, aliás, sou o docente mais antigo desta universidade, porque fez exactamente este mês de abril 30 anos que eu vim para Trás-os-Montes, Abril de 1975, regressei nessa altura e portanto com uma grande paixão e com uma grande dedicação. Também ajudei, à minha maneira, a construir o que é hoje a Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro.

A sua vida profissional está intimamente ligada à vida académica e ao Instituto Politécnico de Bragança. No entanto, durante alguns anos, deu o rosto ao projecto do Parque Natural de Montesinho. Fale-nos, por favor, desse percurso.

Biografia: Professor Doutor Dionísio Gonçalves

Professor Dionísio Afonso Gonçalves, natural de Bragança, é casado, tem duas filhas e um filho, nascido a 18 Dezembro de 1942.
Em 1972 licenciou-se em Engenharia Agronómica no Instituto Superior de Agronomia na Universidade Técnica de Lisboa.
De 1972 a 1975 foi assistente da disciplina de mesologia e meteorologia agrícola do instituto superior de agronomia.
Em abril de 1975 transitou como assistente para o então instituto politécnico de Vila Real, hoje Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro.
Obteve o grau de Doutor em Dezembro de 1985, com distinção e louvor em engenharia agrícola.
A sua produção científica tem abrangido a agro climatologia e o estudo de climas locais com a finalidade do ordenamento do território, defesa das culturas dos elementos climáticos adversos e contribuição da adaptação das previsões meteorológicas à escala regional e local.
Em 1992, obteve a agregação tendo sido aprovado por unanimidade e é professor catedrático da nomeação definitiva da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro.
De Outubro de 1978 a Janeiro de 1983 e Maio de 1976 a Fevereiro de 1993 foi coordenador do parque natural de Montesinho, tendo sido responsável pela sua delimitação e instalação.
De Janeiro de 1983 a Maio de 1988 foi presidente da escola superior agrária do instituto politécnico de Bragança e é presidente deste instituto desde Junho de 1988.
Coordenador do centro de investigação de montanha da fundação para a ciência e tecnologia desde Janeiro de 2002.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Um inverno - a matança do porco

Levantámo-nos cedíssimo, noite escura. As estrelas brilhavam como diamantes lapidados. O frenesim respirava-se... Era o dia da matança.
O meu avô Zéca já lá estava com o meus tios Pedro e Firmino e o tio João Caetano. O tio Zé Tarela juntou-se ao grupo com uns bons dias sorridentes. O Graciano, o Quintino e o "Ponês" desciam a rua a assobiar, iluminados pelo luar. A eles juntou-se o Elias grande. Da Portela surgiram o tio Miguel e o tio Américo, primo da minha mãe.
Na cozinha, afadigavam-se as mulheres, à volta do lume imenso, onde os potes da matança já fervilhavam. Ultimava-se o mata-bicho. A mesa estava posta. Não faltavam os figos secos e as nozes. O pão, cozido na véspera, que cheirava maravilhosamente. A tia Engrácia fritava o bacalhau e o polvo. O queijo de cabra, um naco de presunto, um salpicão da última matança convidavam à degustação. As azeitonas do ano passado, curadas pela minha avó estavam, milagrosamente, conservadas. E, claro, a carne gorda de que o meu avô muito gostava. Para beber, o famoso vinho do Videira, a aguardente e o café feito ao lume, no pote.
Os homens entraram e, depois dos bons dias, sentaram-se para comer. Um ou outro chegou-se ao lume que a manhã estava gélida. Comeram e beberam à vontade e em alegre cavaqueira. De repente, fez-se silêncio, estranho silêncio.
Encaminharam-se todos, juntamente com o meu avô Videira, para o cabanal onde já estava o banco, feito por ele, e demais apetrechos necessários para a função: a corda, a sovela, um pau, perfeitamente polido e limpo para servir de apoio ao pendurar o porco na escada de madeira que, também, ali se encontrava, um recipiente de barro com sal e vinagre para aparar o sangue, os manhuços de palha para o chamuscar, os cântaros com água para o lavar, as pedras de granito para o limpar e, obviamente, a faca, especialíssima, que apenas era utilizada para esse fim. O matador era o meu avô.
No lar e na zona do louceiro não faltava que fazer mas, isso, era trabalho das mulheres. Não se sentaram para comer, iam comendo. A minha avó, com um pedaço de pão e polvo frito na mão, observava com os seus brilhantes olhos azuis.
"Avó, tome." Estendi-lhe uma caneca com café. Acordou do seu devaneio e sorriu-me. Bebeu um pequeno gole e mordiscou o pão. A minha outra avó entrou nesse momento, ligeira e leve.
"Bom dia tia Maria! Estava a ver que não vinha." "Eu não queria vir mas, se não viesse, a minha neta ficava zangada..." "Entre avó, entre. Aqueça-se que está frio. Já lhe dou de comer." Dei-lhe o mesmo que à avó Elvira. Bebeu um bom gole de café quentinho. Sentou-se.
Por breves momentos, olhei para elas e o meu olhar marejou-se. Ali estavam duas das mulheres responsáveis pela minha existência. Velhinhas as duas, sofridas também. As suas vidas não haviam sido fáceis. Com percursos diferentes, destacavam-se pelo carácter, pelos valores que defendiam e aplicavam no seu dia a dia. Uma e outra eram exemplos na pequena comunidade a que pertenciam.
"Ó rapariga, sai-me da frente que não me deixas trabalhar! Já comeste? Come que preciso da tua ajuda."
Fui buscar uma caneca e enchi-a de café. Bebi-o com enorme prazer. Pedi que me dissessem o que havia de fazer.
Na rua, os homens lutavam contra a resistência dos porcos que não queriam abandonar a loja. Os pobres animais grunhiam desconsoladamente como se adivinhassem.
A tia Glória, mulher do meu tio Firmino, deixou escapar um breve suspiro. "Coitadinhos!"
"Helena, vais lá tu para aparar o sangue." Mandou a tia Engrácia. Helena, enquanto comia, acenou com a cabeça, soltando um vernáculo, "Pois vou, c...".
Eu, que nunca tinha assistido a uma matança, perguntei se podia ir ver.  "Estamos aqui muitas mulheres, deixa ir a garota. Não precisamos dela." "É, deixe-a ir Isaurinha. Ela ainda tem muito tempo para aprender." "Vai. Não sei se vais gostar mas vai...", disse-me a minha tia.  
Para mim, desenrolava-se um mundo novo. Aquele frenesim, aquele ambiente de festa e, ao mesmo tempo, algum constrangimento, alguma tristeza, faziam-me confusão.
Fui para a rua e recebi no rosto o ar ar frio da manhã. Não sei porquê, soube-me bem.

Mara Cepeda

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Museu da Máscara recupera tradição dez anos depois

Passados dez anos, a Morte, o Diabo e a Censura voltaram a sair às ruas de Bragança. Uma tradição recuperada pela primeira vez pela Academia Ibérica da Máscara.

António Tiza, director da Academia, explica que este era um ritual marcado pela presença das três personagens na procissão da Quarta-feira de Cinzas, entretanto extinta, e que se estendia aos bairros da cidade. “O Diabo castigava as moças com o tridente. A morte ameaçava também com a gadanha. Estando na quarta-feira de cinzas havia que chamar à atenção para que, a qualquer momento podia aparecer e ceifar as vidas às pessoas com a gadanha, que é o seu símbolo. E a censura que significa, neste caso, repreender pelos excessos que as pessoas, sobretudo os jovens, teriam cometido nos dias anteriores, no Carnaval”.
Ontem à tarde, a Morte, o Diabo e a Censura foram representados por alunos do curso de Animação e Produção Artística do Instituto Politécnico de Bragança. Partiram da cidadela e percorreram as ruas da cidade, interagindo com a população.
Quem passa por eles parece gostar de ver a tradição recuperada. Pedro Vinhas já tinha ouvido falar neste ritual. “Já conhecia mais de ouvir falar a minha mulher. Eu não sou daqui mas ouvi falar várias vezes”.
Já Paula Cunha recorda-se de ver a Morte, o Diabo e a Censura representados em Bragança há mais de 30 anos. “É uma tradição de Trás-os-Montes que acho que devia continuar. Esteve parado tempo a mais. As pessoas antigas já estão habituadas e a juventude precisa de qualquer coisa para se distrair em vez de fazerem asneiras. Assim andam a brincar e não fazem mal a ninguém”.
Tradição ligada à Quarta-feira de Cinzas recuperada pela primeira vez em  10 anos, em Bragança, pela Academia Ibérica da Máscara.

Escrito por Brigantia (CIR)
in: http://www.brigantia.pt/

Diabos saíram à rua em Vinhais

A morte fez-se acompanhar pelos diabos que perseguiram e bateram não só às meninas solteiras pelas ruas da vila, bem como a outras pessoas que apareciam. Os diabos, esses afirmam que esta é uma tradição para manter, e alguns deles começam logo desde tenra idade a vestir o respectivo fato.

“É um dia característico que estamos a tentar recuperar. Tentamos apanhar as meninas e dar uns açoites a umas meninas”, dizia um dos diabos. Outro diz que “faz questão” de continuar com a tradição”.
 Durante a tarde foi recriado um ritual em que os diabos assaltaram uma casa, de onde raptaram as jovens solteiras, com o objectivo de as levarem ao centro da vila onde de joelhos tiveram que dizer umas rezas diante da morte.
“Vêm atrás de nós e temos de fugir, se não batem-nos. Dói muito”, queixava-se uma das raparigas. Outra dizia que “era horrível”. Outra considera que “eles já não aleijam”.
Mais uma vez os diabos cumpriram a tradição nesta quarta-feira e saíram pelas ruas de Vinhais.

Escrito por Rádio Vinhais (CIR)

Nunes pediu ao ministro para não deixar morrer os transmontanos por falta de serviços

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Os habitantes do distrito de Bragança não podem ser votados ao abandono para morrer mais cedo do que o resto dos portugueses. O pedido foi deixado ontem pelo presidente da Câmara de Bragança na cerimónia de tomada de posse da nova administração da Unidade Local de Saúde do Nordeste.
Numa cerimónia que contou com a presença do Ministro da Saúde, Jorge Nunes deixou seis apelos ao governante.Entre as prioridades estão a manutenção do helicóptero do INEM 24 horas por dia, a questão do transporte dos doentes, a criação de novas valências no distrito e, sobretudo, o reforço do financiamento da ULS.“Sem se resolver essa questão não se resolvem as fragilidades do sistema”, disse, apontando “respostas prioritárias que têm de ser dadas e a cardiologia é uma dessas”, perante situações em que temos concelhos em que a taxa de mortalidade por AVC ou enfartes é 2,7 vezes superior à média nacional. “Temos duas opções. Ou resolvemos o problema ou deixamos as pessoas morrer mais cedo”, sublinhouO autarca social-democrata apontou as estatísticas que revelam que “a taxa de mortalidade no Nordeste Transmontano em doentes de enfarte ou AVC é 58 por cento superior à média nacional e no concelho mais afastado dos hospitais de referência, Freixo de Espada à Cinta, é 2,7 vezes superior”.As especialidades mais próximas ficam a mais de 100 ou 200 quilómetros, em Vila Real ou no Porto, e até em casos de urgência as distâncias têm custos para os doentes, pois as ambulâncias de emergência médica transportam o doente para o hospital e regressam à base, “ficando o doente sem transporte público e por conta própria apôs a alta médica”.Jorge Nunes sublinhou que muitos destes cidadãos, já de idade avançada, com pensões de miséria de valor médio de 255 euros, são obrigados a pagar 125 euros a um táxi se o regresso for para Freixo de Espada à Cinta, ou 150 se for durante a noiteMas o ministro da Saúde acabou por fugir com o rabo à seringa. Mostrando ignorância nalgumas matérias, Paulo Macedo deixou entender que não há mais meios para a região e esquivou-se a tirar dúvidas como a do helicóptero do INEM ou a esclarecer a questão do transporte de doentes.“Em termos técnicos, duvido muito que deva haver serviços de cardiologia em todos os hospitais do país. Não é por estar a 200 quilómetros. Há especialidades que precisam de dimensão”, frisou.Ou seja, o ministro da saúde parece ter escolhido a segunda opção deixada por Jorge NunesJá António Marçôa, o novo presidente da ULS, também pediu mais meios devido às condições do distrito, com uma área muito grande e dispersa.
E deixou algumas promessas.

“A nossa realidade exige a aplicação de recursos acrescidos, nomeadamente em transportes e recursos humanos, alguma redundância de serviços e instalações”, disse. “Todavia, não nos esconderemos nesta realidade para não agir. Aumentaremos a produtividade da ULS, eliminaremos desperdícios, sem que tal nos impeça reconhecer a necessidade de discriminação positiva para a ULS do Nordeste.”
Pouco satisfeito com as respostas, ou falta delas, do ministro da saúde, ficou Jorge Nunes, que promete continuar a lutar por melhor saúde no Nordeste Transmontano, pois é uma área vital para combater a desertificação. 
No final da cerimónia, o ministro da saúde fez ainda uma visita ao hospital de Bragança, para a qual os jornalistas estavam convidados mas de onde acabaram expulsos por um dos assessores de Paulo Macedo.

Escrito por Brigantia (CIR)

Tarde de intenso trabalho para os bombeiros do distrito

Esta tarde tem sido de intenso trabalho para os bombeiros do distrito de Bragança.Vários incêndios, um deles no Parque Natural do Douro Internacional e dois no Parque Natural de Montesinho, mobilizaram mais de 30 operacionais.
 
Em Freixo de Espada à Cinta, no lugar de Prado da Quinta, as chamas deflagraram pouco antes da uma da tarde. O incêndio foi dominado às duas e meia e só foi dado como extinto a meio da tarde.
Já em Castelo de Ansiães, em Carrazeda, as chamas lavravam desde antes das onze da manhã e mobilizaram 14 homens e quatro viaturas. O incêndio só foi controlado perto das quatro da tarde.
Com duas frentes activas lavra desde as onze da manhã um fogo em Bouzende, no concelho de Macedo de Cavaleiros.
No local, estão nove homens e cinco veículos, incluindo uma máquina de rastos.Também no concelho de Vimioso, em São Joanico, as chamas estão a consumir mato desde a uma e meia da tarde.No local estão 18 homens e seis viaturas.
Em Bragança, hoje também já houve vários, um na aldeia do Portelo e outro na aldeia de França, ambas no Parque Natural de Montesinho.  E também um em Soutelo, mais uma vez, outro na zona da Aveleda e dois em Fontes Barrosas.
Recorde-se que só este mês, nas primeiras duas semanas, a Protecção Civil registou cinco vezes mais ocorrências do que no mesmo período do ano passado.

Escrito por Brigantia (CIR)
in: http://www.brigantia.pt/

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Bibliografia reúne todos os autores do distrito

Foi apresentada na segunda-feira aquela que promete ser a referência da região na área da bibliografia. São cerca de oito mil páginas que traçam a escrita do distrito de Bragança ao nível de escritores, jornalistas e artistas.
A compilação foi feita por Hirondino Fernandes que trabalha nesta bibliografia há 40. Explica que este projecto começou através “de um núcleo de actividades da então mocidade portuguesa que permitia todo um conjunto de trabalhos extra-escola. Havia falta de bibliografia e em Bragança não havia uma única biblioteca e era preciso procurar alguma coisa que os pudesse orientar” lembra. “Nessa altura consegui mais de 800 títulos e fiquei por aí. Mais tarde vi que havia interesse e retomei o trabalho” acrescenta.
 A “Bibliografia do distrito de Bragança” reúne os trabalhos de cinco mil autores.
Para já foi lançado o primeiro de dez volumes com autores cujo apelido começa por A e B.
 
“Os restantes volumes estão quase concluídos, falta dar-lhe uma vista geral e pormenorizada para entrarem na tipografia” adianta o autor, salientando que “os restantes deverão estar disponíveis até ao final do ano, saindo um por mês. Em Março já deverá estar disponível a letra C que é muito grande, tem mais de mil páginas”.
 
A obra foi lançada no âmbito das comemorações dos 548 anos de Bragança Cidade.

Escrito por Brigantia (CIR)
in:brigantia.pt

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Em jeito de reportagem fotográfica (má, porquê com o telemóvel)...

Parabéns ao Dr. Hirondino da Paixão Fernandes pela obra de uma vida. Aguardamos, ansiosamente, os restantes volumes.
(Clique na fotografia para ver os slides)


Depois da apresentação do 1º volume da obra "Bibliografia de Bragança" e das merecidas homenagens que a autarquia entendeu fazer, seguiu-se um excelente concerto de Dulce Pontes. 
Parabéns ao Presidente da Câmara Municipal de Bragança, Eng. António Jorge Nunes. 

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Excepcionalmente...

... para um acontecimento de excepção - o lançamento da obra  "Bibliografia do Distrito de Bragança (série Escritores, Jornalistas, Artistas)" - é com imenso prazer que publicamos hoje, uma entrevista realizada em 2006, ao Dr. Hirondino da Paixão Fernandes que, segundo o próprio:

"Foi um prazer estar aqui a conceder uma entrevista a que só a amizade de um velho aluno me poderia obrigar. Foi a primeira vez na vida e, talvez, a última, pois não gosto nada destas coisas."

Não poderíamos deixar de o fazer nesta altura, desrespeitando a ordem a que nos tínhamos obrigado (seria a 50ª entrevista a ser publicada), pois este é um momento de júbilo para todos os transmontanos que têm orgulho de o ser. 
Muitos Parabéns Doutor Hirondino!
Lá estaremos para lhe dar um grande abraço (20 de fevereiro de 2012, no Teatro Municipal de Bragança, às 18 horas).

Marcolino e Mara Cepeda

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Aqui está a 32ª entrevista

Esta semana, o nosso entrevistado é o Professor Doutor Dionísio Afonso Gonçalves, ex-Presidente do Instituto Politécnico de Bragança.
É um transmontano de nascimento, alma e coração e a sua obra, ao longo da vida, tem sido em prol da nossa região.

Bem haja Senhor Doutor
Mara e Marcolino Cepeda

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Bibliografia do Distrito de Bragança

Decorre no dia 20 de Fevereiro de 2012, às 18h00, no Teatro Municipal de Bragança (Sala de Actos do Município), a apresentação da Bibliografia do Distrito de Bragança (série Escritores, Jornalistas, Artistas), de Hirondino Fernandes.
Iniciativa integrada nos 548 anos de Bragança Cidade, inaugura-se, assim, uma série de volumes onde se encontrarão todos os nossos autores e artistas. 
Saudamos um trabalho hercúleo, de décadas, que honra o Distrito, e relevamos a sacrificada devoção e generosa entrega à nossa cultura deste sócio honorário da Academia de Letras de Trás-os-Montes.

Enviado por Academia de Letras de Trás-os-Montes

Entrevista: Procurador Geral Adjunto, Dr. Nuno Augusto Aires

É natural da Cardanha, Torre de Moncorvo. Tem, com certeza, recordações da sua infância. Quer falar-nos delas?

As recordações são as próprias de uma criança, que nasceu, viveu e cresceu numa aldeia onde não havia condições, onde os meninos iam descalços para a escola, apesar de eu já ter direito a uns sapatos, tinha lápis, e tinha as pedras pela circunstância do meu pai ser comerciante. Essa situação facilitava-me a obtenção desses bens e, portanto, atravessei a minha meninice a viver ao lado das crianças pobres da minha aldeia. Desde cedo aprendi o que eram as carências e as misérias, porque ainda me recordo quando eu estava no comércio do meu pai, que as pessoas iam comprar 2 tostões de café, 5 tostões de pimento, 100 gramas de açúcar. As pessoas iam-se abastecer e mandavam assentar no livro, e só ao fim do ano quando vinham das cegadas e conseguiam algum pecúlio a trabalhar intensamente, é que pagavam toda a despesa do ano. Depois, porque era uma aldeia que, do ponto de vista da propriedade, 90% da propriedade estava concentrada em 3 ou 4 famílias, e havia 30 ou 40 casas que eram chamados os remediados. Tudo o resto era uma pobreza que comia e sobrevivia muito mal, com uma auto-suficiência miserável à base de hortaliças e do que o campo dava, sem mais.

A sua juventude foi passada em Trás-os-Montes ou saiu, a exemplo de muitos transmontanos, para estudar?

Quando estava na altura de fazer a quarta classe, os meus pais entenderam que eu devia estudar e fui então, fazer a preparação para o exame de admissão, à terra do meu pai, Gebelim e, aos dez anos fui para o liceu de Bragança. A minha juventude foi passada em Bragança que é uma cidade que eu guardo no coração e foi aqui que vivi toda a minha juventude, pois só ia à Cardanha nas férias.

Custou-lhe muito a mudança para Bragança?

Foi um choque enorme, porque nós, crianças da aldeia com um sistema de vida rural e muito limitado, vínhamos para Bragança que, naquele tempo, quer se queira quer não, era uma cidade, onde havia pessoas, nomeadamente alguns professores, que não sabiam compreender as vivências de uma pessoa da aldeia, que tinham o universo e o mundo limitado, por serem colocados numa cidade, num mundo completamente desconhecido e, alguns professores, pelo menos um, do ponto de vista pedagógico, era a negação do pedagogo. Tínhamos que suportar esse professor três vezes em três disciplinas, à volta de umas doze vezes por semana. Nós entrávamos na sala de aula aterrorizados com esse professor. O método de ensino dele era o pau, ponteiro com dois metros e, quando não sabíamos, descarregava-nos o ponteiro pela cabeça, pelas pernas, por onde lhe apetecia...
Era a negação da pedagogia e do professor propriamente dito mas, por outro lado, havia professores que eram muito atenciosos, muito carinhosos, nomeadamente, a esposa desse professor que era uma ternura e, nunca me esqueço e me esquecerei durante toda a vida, que nos tratava por filhos “- Anda cá meu filho, meu filho isto, meu filho aquilo” e, portanto, o que anteriormente referi, era o único professor que tinha esse comportamento, mas foi uma excepção muito marcante, que causou muitos prejuízos nos alunos do Liceu de Bragança na década de sessenta.

Como muitas pessoas do seu tempo, foi obrigado a ir para o Ultramar. Fale-nos do seu percurso.

Biografia: Dr. Nuno Augusto Aires, Procurador Geral Adjunto

Nasceu em Cardanha, concelho de Torre de Moncorvo, em 18.8.1948.
É Procurador Geral Adjunto no Tribunal Central Administrativo.
Fez os estudos secundários em Bragança e em Chaves.
Cumpriu o serviço militar entre 1969 e 1972, como oficial miliciano. Fez o curso de Comandos em Lamego, foi colocado nos Açores e foi mobilizado para Cabo Verde.
 No regresso prosseguiu o curso de direito na Faculdade de Direito de Lisboa, ao abrigo do estatuto de estudante militar e trabalhador.
Entre 1975 e 1977 foi professor do ensino secundário na Escola de Olhão e de preceptor na Casa Pia de Lisboa.
Em 18 de Março de 1977 ingressou no Departamento das Condições de Trabalho da Direcção Geral da Função Pública, onde permaneceu até à sua nomeação para Agente do Ministério Publico, no Tribunal do Trabalho de Beja (1978).
Em 11.9.1979 foi colocado na Comarca de Lisboa, até 1982.
Seguiu se o 5° Juízo Cível de Lisboa e 3° Juízo Correccional de Lisboa (1982). De 22.11.1982 a 31.12.1988 trabalhou no 9° Juízo Correccional de Lisboa e até 17.9.1990 no 4° e 14° Juízos Cíveis de Lisboa.
Em Julho de 1990 foi promovido a Procurador da República. Esteve ligado a alguns famosos processos, como aquele que ficou conhecido por "Primavera Adiada".
Em 9.3.1992 foi transferido, a seu pedido, para os Tribunais administrativos e fiscais, tendo sido colocado no Tribunal Aduaneiro de Lisboa.
Por deliberação de 23.5.1996 foi colocado no Supremo Tribunal Administrativo. E em 17.9.1997 foi colocado no Tribunal Central Administrativo, onde ainda se encontra (2002) em funções.
Mas entretanto foi promovido a Procurador Geral Adjunto. Também foi vogal do Conselho Superior de Justiça da Federação Portuguesa de Andebol, desde 1992, sendo actualmente vice-presidente.
Desde 21 de Março de 2001 é Presidente da Direcção da Casa de Trás os Montes e Alto Douro, de Lisboa. Em 2001, já nessa qualidade, participou e foi eleito Presidente da Direcção da Federação das Casas de Trás os Montes e Alto Douro da diáspora. Igualmente nessa dupla qualidade é Vice-presidente da Comissão Executiva do III Congresso e Presidente da Mesa do mesmo Congresso, realizado em Bragança, entre 26 e 28 de Setembro de 2002.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Olá!

Neste domingo postaremos a entrevista realizada ao Professor Dionísio Gonçalves, ex-Presidente do Instituto Politécnico de Bragança. 

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Miranda do Douro – Requalificação dos Moinhos do Parque Urbano do Fresno

No âmbito do Projecto Fluvial – Novas cidades Fluviais do Século XXI, foi realizada uma empreitada denominada ”Requalificação dos Moinhos do Parque Urbano do Fresno”.
Esta obra permitiu a recuperação arquitectónicas dos cinco moinhos existentes na envolvente do Parque Urbano do Rio Fresno.
Esta obra teve o custo total de 35 863,51€ financiados em 75% pelo Feder, com o valor de 26 897,63€.
Para além disso, pretende-se dar uma nova dinâmica naqueles espaços que outrora foram fonte de trabalho dos mirandeses.
Para tal, vai ser recriado o Ciclo do Pão, através de diversos painéis alusivos ao tema, visitas guiadas, demonstração do trabalho agrícola e diversas atividades pedagógicas.
Tudo isto, para enriquecer aquele espaço e ao mesmo tempo recordar e preservar as memórias do povo mirandês.


FONTE: Câmara Municipal Miranda do Douro

NERBA estuda projectos para a região

O Núcleo Empresarial da Região de Bragança, o Nerba, vai desenvolver projectos estratégicos, em parceria com a Associação Industrial Portuguesa, para ajudar as empresas a enfrentar a crise. As associações reuniram-se ontem, em Bragança, para delinear as acções a implementar no terreno.
O presidente da AIP, José Eduardo Carvalho, acredita que os projectos que deverão avançar no distrito de Bragança vão fortalecer o tecido empresarial.
“Temos quatro eixos estratégicos fundamentais, a inovação, a cooperação empresarial, a internacionalização e o financiamento. São as acções dentro destes eixos às que nós damos prioridade”, garante.

 O presidente do NERBA afirma que o próximo passo é seleccionar os projectos que mais se adeqúem ao distrito de Bragança. Eduardo Malhão acredita que há projectos que ainda vão avançar este ano.
“A agenda de projectos da AIP é muito grande e depois podíamos ter dificuldade em implementar pela escala e especificidade da nossa região. Mas são desde a criação de um fundo de capital de risco à criação de micro-crédito que sejam valorizados em termos de economia local”, explicou o presidente do Nerba.
Para Eduardo Malhão esta reunião também teve um forte contributo para mudar o rumo do associativismo na região.

 “O associativismo, tal como outras áreas, parou no tempo. Temos de fazer um caminho de evolução e de serviços que prestamos à comunidade”, diz.
As ideias dos empresários para a região de Bragança.


Escrito por Brigantia (CIR)
in:brigantia.pt

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Carnaval das escolas de Bragança saiu à rua

Cerca de 1100 crianças das escolas primárias da cidade de Bragança participaram esta terça-feira na festa de Carnaval das Escolas.
A iniciativa é organizada há 13 anos pela Junta de Freguesia da Sé, mas agora com um novo figurino, como refere o presidente, Paulo Xavier.
“Há 13 anos fazíamos o desfile pelas artérias da cidade mas não dava mais, por causa do frio. Desde há dois anos que fazemos na discoteca”, diz.

 As crianças passaram uma tarde animada cheia de música e dança com muita magia à mistura.
“Tem muitas coisas boas e pessoas mascaradas muito bonitas”, diz Maria, que gostaria de ter ido mascarada de Branca de Neve. Já o pequeno Guilherme mascarou-se “de careto”. Já Catarina diz que “é uma festa bonita e com muita diversão”. Já Alexandro confessa que gosta “do Carnaval”, porque pode “estar disfarçado”.
Na sexta-feira a junta de freguesia organiza também o Carnaval dos idosos das IPSS’s da cidade.


Escrito por Brigantia (CIR)
in:brigantia.pt

Retirado do blogue "memórias... e outras coisas..."

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Um inverno - Maria, a minha avó

Fui a casa da minha avó Maria buscá-la. Já não tinha desculpas para se "esconder". Sempre fizera da sua vida o que bem entendera mas, por mim, condescendia. "Avó?" "Entra filha, entra..."
A pequena casa da minha avó era de uma simplicidade desconcertante. Minimalista a raiar a insuficiência. Era a primeira vez que ali entrava e o meu olhar refletiu a tristeza que senti.
Ela apercebeu-se e explicou-me que os móveis que a minha mãe havia deixado não lhe faziam falta e por isso os tinha dado aos sobrinhos, "coitadinhos", que precisavam mais do que ela.
"Mas, avó, a senhora deu a sua cama?!" "Ó filha, não preciso dela. Anda ver onde durmo." Pegou-me na mão e levou-me para o minúsculo compartimento a que ela chamava quarto. Não quis acreditar no que os meus olhos viam mas, não tive outro remédio senão render-me à evidência. O que ali havia era muito menos que o mínimo para um mínimo conforto.
Encostado à parede, um catre onde apenas ela caberia. Alguns cobertores, suficientes para não sentir frio. Uma pequena arca rústica de madeira de castanho onde guardava os seus tesouros que se resumiam a algumas fotografias da filha e dos netos, uns sapatinhos que me haviam pertencido e que ela guardou religiosamente, uma fita de seda de um dos meus vestidos, um chapéu de palha com aplicação de pequeninas flores azuis que reconheci como meu... alguns lençóis de linho bordados à mão com o monograma da família, mais algumas peças do mesmo teor com uma boa centena de anos, que foram passando de pais para filhos e que ela, milagrosamente, não havia dado a ninguém.
No canto oposto ao da cama estava um guarda roupa improvisado feito com um ferro espetado nas paredes onde ela pendurava a sua roupa que, contra corrente, era bastante. Como proteção, alguém improvisara umas cortinas que proporcionavam algum recato ao "roupeiro".
Esculpidas na parede, três prateleiras, cada qual com a sua função. Na mais alta, os seus santos. Nas outras duas bibelôs que a minha mãe lhe havia trazido do Brasil, uma candeia, algumas velas e duas caixas de fósforos.
Mostrou-me tudo com alegria e com uma agilidade impensável para uma pessoa de oitenta anos. Era feliz se os outros fossem felizes. Notava-se algum arrependimento por não ter uma casa em condições para mim, mas aceitava que eu tivesse de ficar em casa dos meus outros avós.
Na cozinha, dos muitos potes que a minha mãe deixara, restavam três. Pratos, apenas meia dúzia, antiquíssimos, alguns, poucos, talheres e todas as malgas onde eu comia a sopa. todas diferentes e tão antigas como os pratos, cada uma mais bonita que a outra, com diferentes desenhos e decorações.
Chorei. O dique abriu-se e deixou sair todas as mágoas que me corrompiam. Abracei a minha querida avó e perdoei-lhe o facto de viver tão miseravelmente por culpa sua. Bastava-lhe. Era essa a sua receita de felicidade.
"Vamos avó, vai jantar connosco." "Não filha, eu tenho comida que trouxe de casa do Graciano." "Come amanhã, agora quero que vá comigo. Está muito frio aqui." Só então reparei que não havia lume. Era noite e não havia luz.
Abotoou o casaco, compôs o lenço meteu qualquer coisa a um dos seus bolsos secretos. Peguei-lhe na mão que, inacreditavelmente, estava quente. "Tens as mãos frias, filha."
Saímos para a rua, fechou a porta e guardou a chave num dos seus compartimentos secretos. Abracei-a e senti o seu amor imenso, tão grande que arrebatava. Depressa chegámos a casa dos meus avós paternos.
Não tinha demorado mais do que uma hora e estava cansada como se tivesse caminhado por montes e vales numa cruzada sem fim.
"Já cá estás? Olá tia Maria, sempre veio? Só a sua neta conseguia esta proeza!" A minha tia estava sentada num dos tripés, finalmente sossegada. Os meus avós também. Receberam-nos carinhosamente. Acomodámo-nos as duas e eu agradeci pelo calor reconfortante. À luz da candeia fez-se silêncio. Cada um enredado nos seus pensamentos vivia, à sua maneira, o primeiro dia deste novo ano.
Joli estalou o silêncio com o seu latido. "Ó de casa! Pode-se entrar?"
A vida continua sem pesares que, esses, competem-nos a nós.    


Mara Cepeda

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Um inverno - 1º de janeiro

"Anda, vamos ao forno ver se o leitão e a carne já estão assados. As pessoas já devem estar a chegar." Levantei-me de um pulo e segui-a. Tinha muita curiosidade em ver o famoso forno da tia Engrácia que, tantas vezes, a minha mãe havia referido, no Brasil. 
Depressa alcancei Isaura que já estava à porta do forno a chamar "Ó Engrácia?" "Uuuuuuh! Entra!" Empurrámos a porta rústica, muito rústica, que não tinha chave, apenas um trinco de madeira que encaixava numa reentrância aberta na própria madeira da ombreira.
A escuridão invadiu-me. Não imaginava que pudesse ser tão escuro, um local onde se fazia pão tão alvo. Aos poucos, fui-me habituando e consegui distinguir o verdadeiro forno onde, um belo braseiro, aquecia o ambiente. Um cheiro muito agradável desprendia-se dos vários tabuleiros que se encontravam dentro dele. Nossos, eram apenas dois.
"Então, o que achas? Parece que nunca tinhas visto um forno, rapariga! Tantas vezes aqui entraste quando eras pequenina, ao colo da tua mãe!" "Não me lembro de nada, tia Engrácia, nadinha!" "É natural, filha. Estava a brincar."
"Esta rapariga levantou-se com os azeites hoje. Agora já lhe estão a passar..." Olhou para mim e sorriu, ao mesmo tempo que falava com a tia Engrácia.
"Então, o que foi que te fizeram? Aposto que foi o teu avô!" "Não foi nada, só tenho saudades do Brasil e as coisas aqui são muito diferentes." "Ah pois são!" "Nunca tinha visto as pessoas irem prá cama antes da meia noite na passagem de ano. Senti muitas saudades dos meus irmãos, dos meus pais, enfim, de todos...Hei-de habituar-me aos poucos..." Calei-me. Não podia alardear a minha imensa melancolia vestida de desilusão. Não conseguia entender que se fossem deitar deixando-me só na minha primeira passagem de ano em Portugal, tão longe dos meus afetos, do carinho de toda a minha família.
A tristeza, que se havia afastado ligeiramente, voltou triste. Não era situação que me agradasse e tentei afastá-la. Insistente, recalcitrante, continuava comigo.
"Ó Isaura! Anda cá depressa." Chamou a minha avó da varanda. A minha tia saiu e foi ver o que se passava. Fiquei. Analisava "o forno" para recordar os relatos da minha mãe. Vi as masseiras, as pás, as vassouras para o varrer, as espátulas para cortar a massa, o lençol de linho para a embrulhar, os cobertores para a cobrir, todos muito bem dobrados dentro de uma canastra... tudo aquilo que a minha mãe nos contava. Não sabia os nomes dos utensílios mas reconhecia-os.
Fui, por alguns momentos, atenta observadora. As diferenças eram tão abismais, tão profundamente Idade Média, que eu sentia alguma dificuldade em acreditar-me nos finais do século XX. Teria embarcado numa qualquer máquina do tempo?
A tia Engrácia, de preto dos pés à cabeça, uma saia comprida, um enorme avental branco a protegê-la, uma blusa de mangas compridas apertada até ao último botão, um lenço negro a proteger os cabelos brancos, um xaile cruzado e amarrado nas costas e uns socos nos pés, obra perfeita do meu avô, exímio sapateiro... decididamente, pensei, as minhas conjeturas pareciam-me legítimas.
"É muito escuro." Ouvi-me dizer. "Pois é, filha. Ainda não temos luz no Brito. Andam a falar que a vão por e até já se vê que andam a fazer umas medições. Vamos ver se não demoram muito..."
Entrou esbaforida e apressada com alguns panos limpos nas mãos. "Já estão os nossos tabuleiros tia Engrácia?" "Já os vou tirar."
Com uma habilidade impressionante, retirou os tabuleiros e colocou-os numa espécie de mesa que ali havia. Peguei num pano e coloquei-o por cima do leitão que tinha um aspeto muito apetitoso. Agarrei noutros dois panos mais velhos e ajeitei-os de forma a pegar no tabuleiro para não me queimar. A minha tia fez o mesmo com o outro e seguimos as duas para casa, não sem algum esforço.
No lar, sentadas nos escanos, estavam três pessoas. Pousei o meu tabuleiro em cima do fogão e o outro foi colocado na bancada.
"Anda cá que te quero apresentar estas pessoas." Obedeci. "Este é o meu padrinho e tio, irmão da minha mãe. Esta é a minha prima Denérida. Esta é a Fernanda, minha amiga e colega de que já te falei."
A todos cumprimentei com delicadeza. A minha tia estava feliz e via-se que gostava muito de ter, ali, aquela gente.
A minha avó Maria não tinha querido vir porquê "não queria atrapalhar". Não me agradou deixá-la sozinha mas, aceitei que não se sentisse bem, com pessoas que não conhecia.
A mesa estava posta. O meu avô cortava as carnes e eu e a minha tia fazíamos as travessas. Sentámo-nos e desfrutámos de uma maravilhosa refeição. O leitão estava, como se diz no Brasil, pururuca, estaladiço, perfeito. As "carnes" eram vitela e lombo de porco e deviam estar ótimas. Fiquei-me pelo leitão de que ainda recordo o sabor. Acompanhei-o com grelos guisados com alho.
Comeu-se muito bem e o almoço acabou tarde. Levantámo-nos, avivámos o lume com dois bons toros de oliveira e aproveitámos o calor reconfortante que emanava da lareira.
O padrinho da minha tia não falava muito. Observava. Era muito parecido com a minha avó, os mesmos olhos azuis, os mesmos traços que se repetiam em Denérida que falava muitíssimo e era sobrinha da minha avó, filha de uma sua irmã mais velha.
Fernanda, transbordava energia. Algo mais velha que Isaura, estava habituada a mandar e mandava. Entravam em conflito frequentemente porquê ambas, embora não tivessem laços familiares de nenhuma ordem, tinham personalidades semelhantes.
Ali estava um bom exercício para me afastar das minhas tristezas. Aproveitei a oportunidade e alheie-me tentando entender o que diziam. Continuava a ser difícil, já que me parecia que os portugueses falavam depressa demais.
Por volta das cinco despediram-se. Fernanda encarregar-se-ia de os deixar em suas casas.
Anoitecia. O gelo tomava o seu lugar na noite, dependurando-se dos beirais, vestindo a nudez das árvores, esculpindo efémeras esculturas nas margens do rio e nas pequenas cascatas do ribeiro que corria célere como se quisesse escapar ao artista que insistia em enfeitá-lo de translúcidas imagens.
Era inverno, sentia-o na alma que acordara fria.