sexta-feira, 22 de julho de 2016

A POLÍTICA E A ARENGA (Editorial do Jornal Nordeste de 19/07/2016)

Daqui a 50 anos, se for consultado um arquivo digital “super fancy”, da memória do meado de julho de 2016, quem estiver em frente ao écran, se é que ainda haverá écrans…, passará como cão por vinha vindimada (tentação retro, esta de falar em provérbios) por uma nota obscura sobre perspectivas de investimento estrutural para o nordeste transmontano, avançadas de forma pouco clara por um ministro do governo de agora, de mão dada com a responsável de uma unidade de missão para o desenvolvimento do interior.
Falaram em Macedo de Cavaleiros, onde repetiram lugares comuns sobre a localização estratégica do distrito de Bragança relativamente ao coração da Europa, o que seria, naturalmente, uma vantagem a ter em conta no contexto do país, mas principalmente da região, acrescida de uma mais valia fundamental: a conexão com territórios do país vizinho, numa Europa sem fronteiras. Lugares comuns, porque há mais de 30 anos que tal condição é celebrada, sempre com resultados pífios, ou pior do que isso.

As declarações foram proferidas numa reunião do partido que lidera o governo, nesta fase em que se vivem tempos que, para uns, são de rupturas prometedoras, enquanto outros os encaram como caminhos de alto risco, passíveis de reconduzir o país a um trajecto de certo e sabido naufrágio, para gáudio dos novos adamastores, não só tonitruantes, mas verdadeiramente sanguinários, num festim realizado sobre as milhentas misérias que repõem o mundo no verdadeiro lugar da eterna perdição.
Perante isto, as gentes do nordeste transmontano não romperam em entusiásticos hossanas, até porque lhes vão faltando as forças, sequer para respirar. Mas também porque, em tempos idos, já se ouviram responsáveis da condução política do país, proclamando quererem redimir-se, apesar de relapsos, do pecado da omissão que nos tem posto à mercê da gadanha da história.
É quase constrangedor continuar a ouvir discursos redondos, sem consequências, aparentemente destinados a funcionar como paliativos, mesmo à espera que chegue o dia em que deixaremos de perturbar o folguedo das turbas sem horizonte, como aconteceu com o famoso “pôr Bragança no mapa”.
Quando ouvimos um ministro retomar arengas recocadas, em conjugação com a responsável da unidade de missão por vir à luz, que admite ainda colocar-se a possibilidade de a região vir a ser contemplada numa redefinição da rede de ligações ferroviárias, a primeira pulsão é a do desabafo carroceiro, para depois, mais serenamente, lançar um olhar reprovador, mas misericordioso, sobre a dissimulação, talvez envergonhada, de quem aparece à flor do palco, para uma representação mal amanhada nos bastidores da politiquice nacional. Porque nós até conhecemos os planos de intervenção na rede ferroviária.
Naturalmente, os protagonistas locais que apoiam o governo, estarão a debater-se com o dilema de aplaudir mais uma opereta ou ter a coragem de dizer, olhos nos olhos, aos enviados da capital que já basta de procrastinar e ou sim ou sopas.
Esta situação de falinhas mansas, mesuras e palmadinhas não tem contribuído para nos dignificar e muito menos para mudar a nossa condição, que continua a ser a de atentos e obrigados lacaios cerimoniosos de um poder que precisa de conhecer o vigor e a coragem de que, por aqui, somos capazes.


Por Teófilo Vaz, Diretor do Jornal Nordeste
Retirado de www.jornalnordeste.com 

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Outros Tempos - 3º capítulo



- Minha neta, sei que tenho de te contar as minhas memórias nestas tuas férias de verão. O meu tempo esgota-se. Sinto-o. Não, não digas nada. Como tu própria dizes, sou a pessoa mais sábia que conheces. Quando chegamos a esta idade, começamos a sentir o fim. Tenho oitenta e oito anos, filha. Estamos em 1991 e o mundo mudou como eu nunca pensei. Sabes, gostava de ter, agora, os teus vinte e dois anos. Quanta coisa eu faria!
- Ó avó! Ainda parece uma menina com esses seus olhos azuis a faiscar como se todas as estrelas do universo morassem neles!
- Quem te ouvir não é surdo! Riu-se com gosto.
“Ao mesmo tempo, ato contínuo, ensombreceu-se-lhe o olhar e continuou o seu relato que eu ouvia com avidez.”  
- Estávamos no fim de setembro de 1918. De nada tinham valido as visitas do médico, tantas vezes chamado pelo meu pai.
A tristeza que sentíamos pela morte da nossa irmã era tão densa que quase a podíamos tocar como se fosse uma orvalhada.
O meu pai mostrava os olhos marejados de lágrimas, ele que nunca chorava. Os meus irmãos e eu, não nos atrevíamos a aumentar a sua tristeza, embora fosse quase impossível estarmos mais tristes.
O meu cunhado, com o pequeno Francisco pela mão, chorava desconsoladamente. Com vinte e três anos era ainda muito novo. Perdera o amor da sua vida. Ficara sem chão, sem destino. Não sabia viver sem ela. Estavam destinados um ao outro desde o momento do nascimento. Tinham a mesma idade e eram os melhores amigos.
José subiu os quatro degraus que conduziam à casa com o filho ao colo. Era um rapaz alto e bonito, tão bonito que, lhe chamavam o pimpão.
Posso dizer-te que tinha tanto de bonito, como de bom rapaz. Tinha um coração maior que o mundo e nunca abandonava quem precisasse de ajuda. Além disso, era muito trabalhador e habilidoso. Tinha tanta vontade de aprender que não se satisfazia com pouco.
Pode parecer que estou a descrever-te um santo… Felizmente, filha, estou a descrever-te um homem, de quem tive a felicidade de ser amiga e que considerava como irmão.
Era, também, inteligente e esperto e soube tirar partido do que a vida lhe ofereceu sem nunca prejudicar ninguém.
O meu sobrinho tinha quatro anos e não entendia nada daquilo. A mãe adoecera no fim de maio. Desde então, não a tinha visto. Ela não queria que o seu menino ficasse doente. Desfazia-se em lágrimas de cada vez que o ouvia chamar.
Quando sentiu que a morte a levaria sem redenção, chamou o marido e ditou-lhe as suas últimas vontades.
- Meu querido marido, meu amigo, peço-te que ponhas o nosso menino nos estudos quando tiver idade.
A sua voz saía num fio, sussurrada como brisa que não se sente, vestida pelo calor do estio em tempo de segadas, tal era a febre que a consumia.
- Ajuda-o a escolher um bom curso.
Tentava respirar desesperadamente. Tossia. A minha mãe pedia-lhe que não falasse mais.
- Temos o dinheiro que os nossos pais nos deram. Deve chegar, senão, alguém...
As palavras iam saindo aos solavancos, cada vez mais inaudíveis.
- Com a tua vida, José, faz o que o teu coração ditar. Se encontrares uma mulher que te mereça, casa com ela. Vou amar-te sempre.
Estas últimas palavras saíram-lhe numa golfada de ar. Num estertor angustiante, que lhe sugava a vida.
Fechou os olhos. Respirava com muita dificuldade. Os seus pulmões deixaram de funcionar. O sofrimento era impossível de ver. Insuportáveis foram os seus últimos momentos. Pedimos a Deus que a levasse.
Finalmente, a vida deixou o seu corpo franzino. Suspirámos de alívio.
A minha mãe mandou-nos sair. Com ela, José e o meu pai.
A minha irmã Maria, com o Francisco ao colo, assistia da cozinha ao desfecho daquela situação. Saiu para a rua e, como se uma voz a guiasse, tomou o caminho do rigueiro da Calçada sem olhar para trás. Não queria sofrer mais. Tinha de tirar o menino de casa. Não podia permitir que ele ouvisse os sons do sofrimento.
A minha mãe escancarou a pequena janela do quarto e todas as janelas da casa. Abriu todas as portas e gritou o grito que tão duramente guardara no coração.
Maria abraçou o menino, apertando-o contra o peito.  
Arregaçou as mangas da camisa, foi ao lar buscar água morna que pousou na cadeira junto à cama. Da arca tirou a mais alva toalha de linho fino e pediu ajuda aos dois homens para lavar e vestir a sua menina. 
Quando acabaram, os três olharam para ela como se fosse um anjo e, finalmente deixaram cair todas as lágrimas que tinham."
Parou de falar. Chorava. Ainda não consumira a sua dor. Ainda não fizera o seu luto.

Abracei-a. Senti um nó a crescer na garganta. 
- São horas de ir dormir avó. 
Olhei para ela como se apenas agora a reconhecesse. Aquela mulher era maior que a própria vida.
Beijou-me com um breve beijo de seda. Lentamente nos dirigimos para o seu quarto e ajudei-a a meter-se na cama que ela queria imaculadamente branca.
Ajeitei-lhe a almofada e finalmente, suspirou como se não houvesse outro remédio. Sorriu o seu meigo e divertido sorriso e pediu-me o habitual chá.
- Não fiques triste filha. Os teus olhos são lindos demais para neles sepultares tamanha tristeza.
No trajeto para a cozinha, duas gordas lágrimas rolaram pela minha face. Não podia continuar com aquela situação. O sofrimento dela era infinito. 
Fiz o chá e levei-lho, adoçado com mel das nossas colmeias.

Maria Cepeda    

domingo, 3 de julho de 2016

Entrevista áudio com o Dr. Francisco Manuel Rodrigues Alves, natural de Varge

https://www.dropbox.com/s/e4fuqa0gpihb61m/DR_FRANCISCO_ALVES.mp3?dl=0

Este link dá-lhe a possibilidade de ouvir a entrevista realizada no passado dia 23 de junho, na aldeia de Varge, concelho de Bragança.

Fomos muito bem acolhidos por este casal, ele de Varge, a sua esposa de Chaves, na sua casa totalmente restaurada e belíssima, mas não descaracterizada.

A conversa que levámos a cabo com o Dr. Francisco Alves, deficiente visual, com uma história de vida que é uma lição com muitas lições dentro.

Posteriormente, publicaremos esta entrevista em formato texto.




Maria e Marcolino Cepeda