sexta-feira, 30 de setembro de 2011

"Cão 2", "Capa com ervas" e "Crista" são mais 3 fotos de Jorge Morais



Chegámos à sexta-feira!

É verdade! A semana chega ao fim e temos mais um fim-de-semana à porta.
Para alguns de nós, é tempo de descansar, de nos afastarmos das exigências laborais. Para outros são mais dois dias de trabalho e o "fim-de-semana" acontecerá quando tiver de ser.
Estamos muito contentes com a receptividade deste nosso pequeno sonho onde tentamos, de alguma forma, contribuir para a divulgação deste Nordeste ao qual pertencemos e de algumas pessoas que fizeram o favor de aceitar conversar connosco. Cada uma, na sua especificidade, dá-nos uma visão, mais ou menos alargada, do que se faz por cá.
No próximo domingo publicaremos a entrevista realizada ao Dr. Arnaldo João Rodrigues, médico, neste momento reformado. É uma pessoa por quem sentimos grande admiração. Foi muito importante em vários momentos das nossas vidas e nas de muitas outras pessoas que tiveram o privilégio de o conhecer. Não recolhe unanimidades, claro está! No entanto, julgo ter desempenhado um papel fundamental em muitas vidas.
Quando lhe propusemos que conversasse connosco respondeu-nos que estávamos tontinhos e que ele não tinha essa importância toda. "Oh Maria de Jesus, deixai lá isso, eu não sou ninguém." "Marcolino, não vês que não tenho nada para dizer? A minha vida não teve nada de especial."
O Dr. Arnaldo trata-me pelo meu nome verdadeiro que é Maria de Jesus. Diz-me, sempre que me encontra, que preciso emagrecer (O que é absolutamente verdade. Pena não lhe dê, eu, ouvidos!).
Enfim, esperamos continuar a contar com a vossa colaboração. Bem hajam!

Mara Cepeda   

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Mais fotos de Jorge Morais: "Cabeça", "Cavalo", "Cão"



Poesia

Fluíam palavras Facilmente
Em versos curtos e audazes
Que eu sentia
Somente
Como duros capatazes

Desprovida de vontade
Sorriam para mim
Autónomas
Senhoras e donas
Do branco aziago
Recalcitrantes

Poetas de mim
Fingindo
Amando e sorrindo
Palavras roubadas
Desgostos de não ser.
Olhava impotente
O ténue véu
Em contra corrente
Descendo do céu.
O papel zombava…

Sou ninguém.
Imagem
Mar sem fronteiras
Anseio ternuras
Marés cheias
Ventre rubicundo
De filhos só meus.

Mara Cepeda

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Esperei por ti

Esperei por ti
Horas imensas
Buscando noites
Luas suspensas

As noites passaram
Em horas incertas
Dores cruzaram
Ilhas desertas

Eu aqui,
Imersa em mim,
Caminho por ti
Serenando desejos
Semeando ensejos
Vivendo tristezas
Dirimindo certezas
Acumulando horas
Fingindo demoras

Noites e dias
De mim fugias
Sonos e sonhos
Por vezes medonhos
Sem que nada seja....

Mara Cepeda

Fotos de Jorge Morais: "Asa", "Bosh" e "Braço"



terça-feira, 27 de setembro de 2011

Fotos de Jorge Morais a que ele deu os nomes de "Arbusto na neve" e "Berço"




Esta série de fotos que vamos publicando foi feita nos meses de fevereiro e março, manhã cedo para que o sol não derretesse o gelo formado durante a noite em pequenas poças de água.
O resultado foi um trabalho de excelência.

A nossa gata

Novembro. Inicio da noite no fim de uma reunião. O frio já se fazia sentir e eram horas de ir para casa depois de um longo dia iniciado antes das nove da manhã.
Ao chegar ao carro ouço uns miados de gatinho novo. Depois de pousar as coisas no banco de trás, dou a volta ao carro, espreito para baixo dele, procuro o lugar de onde possa sair o miado e... nada. Nisto lembrei-me de ver dentro do motor e, para meu espanto, os miados aumentaram audivelmente.
Estou tramada! Como é que vou conseguir retirar o bicharoco do motor?
Liguei para a assistência em viagem que, depois de um "repita por favor", disseram que mandariam alguém dentro de meia hora.
Sem outro remédio que não esperar, assim fiz, sempre fora do carro com a tampa do motor aberta.
Ainda estás aí? Sim. Estou à espera da assistência em viagem. Não podes ficar aqui assim, este tempo todo. Vou ligar para o Aristides e para o meu cunhado para ver se conseguem tirar o gato.
Sandra assim fez. Cinco minutos depois chegaram o marido e o cunhado. Escrutinaram os dois o motor e retiraram a proteção de plástico. O Rui, alto e magro, braços em conformidade, lá introduziu o braço, tateando para ver se conseguia encontrar o animalzinho. Três tentativas depois, lá vem o gato, minúsculo, assustado, friorento e faminto a miar. Passou-mo para a mão e foi amor à primeira vista. O gatinho aninhou-se junto ao meu peito e parecia estar em casa.
Se não o levar, levo-o eu. Não Rui, vou levá-lo sim. É tão lindo!
É siamês, com aquela beleza que só esses gatos são capazes de ter enquanto são pequeninos. Agradeci, ligaram-me da assistência em viagem a perguntar onde me encontrava. Respondi que já não era necessário, que já o tinha tirado.
Foi dessa forma bizarra que apareceu a nossa gata Mel, que cresceu muitíssimo e continua linda.



Mara

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Outono

O outono chegou quente.
Ouvem-se as pessoas a dizer que este calor de agora não é natural. Onde já se viu tamanho calor por esta altura?
As crianças chilreiam como pardais, contentes, vestidas como se fora verão, bebendo a luz e o calor do sol como se vivêssemos num país tropical.
Hoje, na escola, fizeram-se provas de avaliação diagnóstico. Foi difícil concentrar os alunos na prova. O sol brilhava mais do que nos outros dias. Mais do que no verão, em que eles corriam livres e, por isso, sem paredes, sem escola... não valorizavam a intensa luz do sol. Agora sim, brilha e eu estou aqui, fechado, sem poder correr lá fora.
Que maldade! Este calor, mais ou menos fora de horas, limita o chilrear das crianças "obrigadas" a ir para a escola.
Qual é o teu desejo para este ano letivo? Ser bom aluno, fazer amigos e... brincar ao sol.
Até quando poderemos suspirar de saudades por não estar lá fora, como se fossem férias? Os dias passam tão devarinho...

Mara
(Foto de Jorge Morais)

domingo, 25 de setembro de 2011

Aqui está a 11ª entrevista

Esta semana publicamos a 11ª entrevista desta série.
Desta vez, o nosso entrevistado, para além de ser nosso amigo de longa data, é um profissional de reconhecido mérito.
Excelente fotógrafo, possui um acervo de milhares e milhares de fotografias de e sobre Bragança e o seu distrito, privilegiando, naturalmente, a cidade que adotou como sua, sem nunca esquecer as suas origens - Samões, Vila Flor.
Proveniente de uma família humilde, soube, com a ajuda da mulher, singrar, tanto na vida particular como na profissional.
Tem um filho, António Jorge, que parece querer seguir as pisadas do pai no que à fotografia diz respeito.
Os seus pais já faleceram e, é justo prestar-lhes aqui uma singela homenagem pois, sempre dedicaram a sua vida ao único filho que tinham, abdicando da sua terra para lhe dar um futuro melhor.
Cabe-me uma última homenagem à grande mulher com quem o Jorge teve a sorte de casar, a Emília, professora na escola Paulo Quintela.

Bem hajam por nos acompanhar
Mara

sábado, 24 de setembro de 2011

Entrevista com Dom António Montes Moreira - Bispo de Bragança-Miranda

Vossa reverendíssima, o senhor Bispo, nasceu em Trás-os-Montes, Vila Real e saiu da sua terra com a tenra idade de 10 anos. Que recordações guarda da sua, breve, infância?

 
Recordações que nem sempre se podem concretizar mas que deixaram na minha personalidade e no retábulo da minha lembrança um perfil de saudade, de nostalgia daqueles tempos em que, de criança, andava calcorreando os caminhos da minha aldeia. Embora eu tenha saído muito cedo para fora por causa dos estudos, o meu enraizamento é essa aldeia, é Trás-os-Montes. O que avistava em frente à minha casa era o perfil da Serra do Alvão e mais abaixo à esquerda, o perfil da Serra do Marão. Estes foram os dois pontos de referência que eu recordo com mais saudade dos meus tempos de criança.

Saiu bastante cedo, os seus pais quiseram dar-lhe uma vida melhor…

Concretamente eu sai aos seis anos, já fiz a instrução primária fora da minha aldeia. Eram as obrigações dos estudos, o meu pai foi emigrante nos Estados Unidos e com os dólares que lá amealhou permitiu que nós, os seus filhos, tivéssemos uma formação e para isso era necessário sair.

Imagino que Braga há quase 60 anos deveria ser bastante longe. Com certeza Vossa Reverendíssima, o senhor Bispo, teve que lutar muito contra as saudades que sentia da família?

Trás-os-Montes é e, sobretudo era, na altura, mais uma terra de emigrantes em que o facto de se estar fora fazia parte do quotidiano de muita gente. Embora tivesse muitas saudades, não tive muita dificuldade em adaptar-me a viver fora, mantinha bons contactos com os meus pais, frequentes. A altura das férias era uma oportunidade para retemperar a ligação e, mesmo ausente, a presença dos meus pais estava sempre na minha vida.

Sentiu de alguma forma a presença da II Grande Guerra?

Sim. Recordo-me de duas circunstâncias. A guerra acabou dia 8 de Maio de 1945, estava eu a acabar a quarta classe. Recordo-me perfeitamente desse dia, recordo-me que nos últimos meses, estudei num colégio interno, havia lá um moço que já era mais erudito que nós, comprava o “Primeiro de Janeiro”. Recordo-me que, nos últimos meses e semanas da guerra, trazia mapas do avanço das tropas aliadas e nós íamos vendo pelos mapas aquele avanço. Recordo-me muito bem do dia do desfile que se fez espontâneo de quando acabou a guerra e, recordo-me também, das privações que resultaram do tempo da guerra, do racionamento, mesmo antes de eu sair. Eu saí de casa em 1941 para ir para esse colégio e lembro-me que isso criou em mim, uma certa austeridade, que me tem sido útil e proveitosa.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Dom António Montes Moreira


Retirado do blogue "Memórias e outras coisas"
Pertencente a Brigantia

Dom António Montes Moreira

Bispo cessante homenageado nas vésperas da saída
O bispo D. António Montes Moreira foi ontem homenageado pela Fundação Os Nossos Livros e pela Câmara de Bragança. O reverendíssimo está de saída da diocese de Bragança-Miranda. D. António fala com orgulho do trabalho que desenvolveu durante os 10 anos à frente da diocese. “Foram 10 anos para mim enriquecedores na medida em que contactei com muitos estratos da população, na medida em que eu pude servir a população, no âmbito religioso, cultural e social.
Foram 10 anos que eu apreciei na minha vida”, realça o Reverendíssimo. Do trabalho que desenvolveu em prol da comunidade, D. António enaltece o grande avanço na conclusão da catedral de Bragança como projecto mais emblemático.“Conseguimos dar um bom avanço à conclusão da catedral.
Segundo o projecto inicial ainda falta concluir um pequeno edifício que seria a casa da guarda, uma espécie de residência paroquial. Agora a parte da galeria Norte que se concluiu a previsão é que se instale lá o arquivo histórico diocesano, que está a funcionar no Paço e ali fica melhor”, constata D. António.A homenagem ao bispo cessante foi integrada no lançamento do livro “Pastorais dos Bispos de Miranda e Bragança”, da autoria de Carlos Prada de Oliveira.
O professor e investigador de História lembra que ainda não há escritos de D. António Montes nesta obra, mas diz que poderão ser integrados no próximo volume.“A Câmara prontificou-se a editar a obra e como coincidiu com a saída do sr. Bispo não me importei nada de o homenagear com esta obra. Esta obra só vai até 1780, por isso deste bispo não enalteço nada.
Talvez no próximo volume compile os documentos dele”, acrescenta o autor. D. António Montes Moreira homenageado na despedida da Diocese de Bragança-Miranda e da direcção da Fundação Os Nossos Livros, da qual fez parte oito anos.

Retirado do blogue "Memórias e outras coisas".
Escrito por Brigantia
in:brigantia.pt

Olá amigos!

A semana chega ao fim e estamos muito perto do fim de semana para recarregar baterias.
Claro que nem sempre é possível pois, muitos de nós, continuam o trabalho que têm em mãos.
Hoje é dia de clássico. Neste momento jogam Porto e Benfica para o campeonato nacional. Do que me é dado ver, está a ser um bom jogo, com um grande ambiente.
O Marcolino é portista e está muito concentrado no jogo. Agora, nem pestaneja. Esperemos que ganhe o melhor (de preferência, o Porto).
Neste domingo, o nosso próximo entrevistado é o Professor Doutor Jorge Manuel Machado Morais. É professor no Instituto Politécnico de Bragança, Escola Superior de Educação.
Embora mais velho que o Marcolino, conhecem-se desde miúdos. Sempre foram amigos e companheiros de muitos trabalhos.
O Jorge é um fotógrafo excelente. Tem milhares e milhares de fotografias e é pena que não as divulgue mais.
Para além disso é um ótimo designer gráfico. Todas as capas dos livros do Marcolino foi ele que as fez. Muitas das fotografias também.
O último livro do Marcolino, "Tempo de Silêncio", considero-o uma pequena obra de arte. É um livro de poemas e está recheado, a pedido do autor, de fotografias do Jorge. Qualquer dia publicaremos as fotos e algumas poesias.

Bem hajam por nos acompanharem
Mara

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

História nº 7

Eu e os meus irmãos sempre gostámos muito de desporto e, como tal, arranjávamos maneira de nos entreter com alguma coisa ligada ao mesmo. Para além do futebol, a nossa grande paixão era o pingue-pongue.
Mas, quem éramos nós para ter uma mesa de pingue-pongue? Não tínhamos dinheiro para isso. Tínhamos muita imaginação e improvisávamos.
Na mesa da sala de jantar púnhamos um baraço a meio e a rede estava montada, muito bem montada.
Sendo os meus irmãos mais velhos, exerciam sobre mim, um grande ascendente. Nutria por eles, uma grande admiração. Devia ter na altura, quatro ou cinco anos e, nessa idade, a tendência natural é imitar os mais velhos em todas as suas atitudes.
Queria jogar mas, eles não deixavam. Lembro-me de acompanhar o movimento da bola da esquerda para a direita, e da direita para a esquerda, esquerda, direita, até que algum deles atirava com a bola para o chão. Então, feliz, exercia a minha função: apanha-bolas.
Era ver-me a arrastar pelo chão, para debaixo da mesa,das camas, para onde quer que ela fosse. A minha alegria era enorme, de bola na mão, a sacudir o pó e o cotão da roupa, a minha mãe a ralhar que me sujava todo e os meus irmãos:
- Dá cá a bola, anda, despacha-te.
Quem ganhava, quase sempre, era o Tojé. É canhoto e, apesar disso, ou talvez por isso, não dava hipótese aos outros. Era o campeão lá de casa emesmo foradela, quando o dinheiro dava para ir ao salão de jogos.
Eu zangava-me por não me deixarem jogar e, às vezes, fugia-lhes com a bola ou encondia-lha. Fingia que não a encontrava... e, como é normal nestes casos, apanhava, armava berreiro e lá vinha a minha mãe:
- Deixai o menino! Anda cá, meu filho, anda cá! Onde tens a bola? Dá-lhe lá a bola que, quando fores grande, também jogas, estábem?
Lá lha entregava, não sem relutância mas, sempre à espera que ela caísse ao chão para a apanhar, deslizando para debaixo da cama por ser o único que cabia e, sair a sacudir a poeira, tendo a certeza da importância do papel que desempenhava. Afinal, sem mim para apanhar as bolas, não havia jogo!
A mesa dos nossos jogos ainda existe, assim como existe a recordação muito viva desse tempo.
Apesar de muito novo, recordo as nossas brincadeiras como uma festa, pese embora todas as zangas que me faziam apanhar e de ser quase e apenas, o apanha-bolas.
penso que todos nós, homens ou mulheres, sentimos em algum momento das nossas vidas, um fraco pelo desporto, seja porque é o nosso país que está em causa, seja porque até gostamos de algum dos desportistas em jogo, seja porque gostamos mesmo de desporto.
Não sou nem nunca fui excepção. Sempre gostei muito de futebol; talvez por influência dos meus irmãos, talvez por ser o desporto mais divulgado, comecei muito cedo a jogar à bola em todos os intervalos das aulas, com muita seriedade e empenho.
Estraguei muitos pares de sapatos a jogar no campo do Toural, ouvi muitos raspanetes da minha mãe, mas o bichinho estava lá e muito entranhado.
O desporto e, desde tempos imemoriais - lembremo-nos dos gregos - um aglutinador de vontades, um bem para a saúde física e mental de que o pratica regularmente.
Transmite valores importantíssimos a quem faz dele a sua vida e pode ser a grande diferença entre umavida de vícios e uma vida sã e correcta.
É um complemento indispensável à vida de todos nós e, praticá-lo é bom para grandes e pequenos.
Dá gosto ver o entusiasmo e a alegria transbordante dos adeptos de um qualquer clube quando quando a vitória lhes sorri.
Pode provocar paixões irracionais e perigosas quando os indivíduos são mal formados: tantas desgraças têm acontecido...
O desporto é alegria e saúde, é paixão. Faz sonhar e, isso é das melhores coisas da vida.

Marcolino Cepeda
(Retirado do livro "Pontes - segredando segredos", 2001, edição do autor)

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

São marias senhor!

São brancas e lindas,
são simples e puras
são flores, senhor
as que não carrego no regaço
mas que as borboletas
voejam e as abelhas,
enternecidas beijam.

O mel que transportam
em projecto já velho
que se faz amor
em cortiço promessa
vestido de flores
de sol e primavera.

São flores senhor
rosas, agora?
Não, marias, são.
Enquanto o dia durar
o sol persistir
e a aurora raiar.

Mara

O nosso jardim 1

O nosso jardim

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Tempos de crise

Elvira, vinte e seis anos, loira, olhos azuis, branca de pele, magra, corria afogueada atrás da porca e dos leitões que, sem que ninguém percebesse porque, desataram a fugir, rua abaixo como se fugissem do demónio.
Alguém barrou a passagem aos animais que por ali ficaram perdidos à espera de comando. A jovem mulher, quase sem conseguir respirar, tomou fôlego e agradeceu ao tio Rafael o favor que lhe tinha feito e com a pequena vara que tinha na mão, lá conduziu a porca para a loja. Um a um, os doze leitões seguiam a mãe.
Fechou a porta da loja, subiu os dois degraus da pequena casa, sentou-se no escano e, finalmente, chorou. Chorou como quem nunca havia chorado na vida, lágrimas grossas, do fundo da alma mais sofrida.
Elvira estava casada há apenas seis meses e já tinha passado mais do que em toda a sua anterior vida. Havia passado da fartura para a mais pura miséria, onde até o pão e as batatas tinham de ser geridos com parcimónia franciscana.
Casara por amor e sentia no ventre a presença de uma vida nova.  Aquela porca com os seus leitões era a sua única fortuna. O homem, carpinteiro, enganava a vida no cabanal, onde lentamente esculpia um carro de bois, uma charrua, umas socas e aturava os desocupados da aldeia que, ao invés de proverem o sustento dos filhos, consumiam o que não tinham no jogo e no vinho.
Eram tempos difíceis aqueles!  Os homens haviam perdido o brio e a vontade. As terras, esquecidas, ressequiam ao sol, sem ninguém que as trabalhasse. A miséria grassava de tal forma que os filhos morriam mal viam a luz. Apenas os mais capazes sobreviviam. As mulheres eram pedintes por essas aldeias fora a mendigar "pão por Deus", para enganar a fome dos filhos.
Ao virar do caminho, os maridos, como lobos esfaimados, devoravam o que devia ser para os filhos, sem deixar que chegasse à aldeia. Choravam elas, batiam-lhe eles.
Elvira trabalhava no que podia. Criava os leitões para vender na feira em Vinhais. Lavrava como podia as terras mais fáceis. Fazia as hortas, semeava as batatas, apanhava as castanhas, as nozes, o que havia. O homem, enganava a vida no cabanal...
No tempo dos figos e como eles fossem bons, madrugada fora, lá ia Elvira, cestas nos braços, colhê-los para os vender, como primícias, nas aldeias mais próximas.
O Brito era uma aldeia amaldiçoada mas abençoada ao mesmo tempo. Tudo ali vinha antes da época normal das colheitas e era bom. Era assim que ela ia conseguindo enganar a miséria imensa contra a qual ninguém queria lutar.
O filho mexia no ventre, refletindo a pobreza da mãe. Tinha pressa de nascer. Faltavam, ainda, cinco meses para completar o tempo mas, era como se soubesse que a mãe precisava de ajuda.
Na altura pagava-se em géneros. Vinha carregada com os produtos do seu trabalho e ninguém lhe saia ao caminho.
O homem, à sua maneira, trabalhava e respeitava a força da mulher, tão diferente de todas as outras do lugar. Era rico em terras mas não gostava de as trabalhar.  A vida tinha sido madrasta. Ficará órfão de mãe aos sete anos e de pai aos treze, havia ficado entregue a três tios solteiros que lhe haviam depauperado os haveres. Habituado a viver como fidalgo, não aprendera a trabalhar o campo. Caçava como ninguém e nunca faltava um coelho ou uma lebre para dar aos amigos.
Elvira suportava a vida com cada vez mais trabalho. O filho nasceu no tempo certo, a meados de agosto.
Tinham conseguido comprar uma junta de vacas e tencionavam pô-las à jeira. As galinhas e perus, felizmente, vingavam.  A porca estava prestes a parir outra vez. A vida parecia sorrir como o sol de verão em Trás-os-Montes.
Manhã cedo, levanta-se Manuel para tratar dos animais.  A Castanha dá os bons dias, a Malhada não. Lentamente, o olhar vai-se habituando à escuridão... "Oh, Santa Bárbara, oh Jesus! Elvira, anda cá mulher, vem ver esta desgraça." Elvira correu, filho no regaço a mamar. Não pode conter as lágrimas. No meio da palha jazia morta a vaca que tanto havia custado a comprar.
Desamparados os dois, sem palavras, arrenegavam da sua sorte. Que tempos estes Deus meu.

Mara

Lançamento de O Romance do Gramático

O Romance do Gramático (Gradiva), de Ernesto Rodrigues, é lançado no dia 4 de Outubro, às 18,30h, no Espaço do Autor da Bertrand Chiado, Rua Anchieta, n.º 15, em Lisboa.

A apresentação será feita por José Manuel Mendes, presidente da Associação Portuguesa de Escritores.

Inspirado na vida de Fernão de Oliveira, autor da pioneira Gramática da Linguagem Portuguesa (1536), o também poeta, crítico, ensaísta e tradutor regressa à ficção 17 anos após Torre de Dona Chama.

Ernesto Rodrigues é professor na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e presidente da Academia de Letras de Trás-os-Montes.

domingo, 18 de setembro de 2011

Amadeu Ferreira lança dois livros em Lisboa

A exemplo do que já fez em Bragança, na sede da Academia de Letras de Trás-os-Montes, Amadeu Ferreira dá a conhecer em Lisboa os seus dois últimos livros: "Tempo de Fogo" em português e "La Bouba de la Tenerie" em mirandês.
Parabéns Amadeu, por mais esta iniciativa.

Aqui está a 10ª entrevista

Dom António Montes Moreira, Bispo da Diocese de Bragança-Miranda, por ter pedido a resignação do cargo que desempenhava, vai ser substituído por Dom José Manuel Garcia Cordeiro, nomeado pelo papa para lhe suceder. O novo bispo é o mais jovem do episcopado português, com 44 anos, e foi nomeado para a sua diocese de origem.
Dom António deixa-nos depois de dez anos à frente dos destinos da diocese, onde desempenhou um bom papel.

Bem haja Senhor Bispo.

sábado, 17 de setembro de 2011

Eremita

O verde,
Por entre as árvores,
Camuflado de preto,
Transparece
De hora a hora
No meio de um deserto
De almas que, talvez, corem.

A serpente esguia
Serpenteia
Na meia-luz de dias de sol
Penetrando por frestas vazias
Carcaças abandonadas
De fantasias
E sós.

Solidões de mastros
Cegueira consentida 
Quanta liberdade inspirais!
Quanta liberdade reteis!

Eremita enclausurado
Contra a sua vontade
Que julga ver
Mas não vê!

                                               Mara

Dom António Montes Moreira - Bispo de Bragança-Miranda

Amanhã, domingo, postaremos a entrevista de Dom António Montes Moreira, natural do Distrito de Vila Real, frade franciscano, investigador, professor, missionário...
Neste momento exerce, depois do seu pedido de resignação por ter atingido o limite de idade, o cargo de administrador apostólico da diocese de Bragança-Miranda, até à tomada de posse do novo bispo indigitado por sua Santidade, o Papa Bento XVI.
Dom António Montes é uma pessoa imensamente culta, com posições bem marcadas em determinados assuntos, como por exemplo, o aborto.
Esperamos que esta entrevista possa proporcionar mais um reconhecimento de um transmontano que, mais do que um regionalista, se considera um universalista e um humanista.

Entrevista com António José Cepeda (Tojé Cepeda)


A esta entrevista resolvemos dar o nome de “A paixão pelo futebol”.
Nascido numa pequena e remota aldeia: Gebelim, Alfandega da Fé, na terra quente muito cedo te mudaste para Bragança com os pais e os irmãos à procura de melhor vida e de estudos. Que recordações ficaram desses tenros anos?

Poucas. Eu frequentei a escola primária até à segunda classe em Gebelim. Em Fevereiro viemos para Bragança. A 13 de Fevereiro vim para Bragança, para a segunda classe. Nunca aqui tinha vindo, nunca tinha ido a Macedo que é a vila com que Gebelim tinha mais contacto, embora pertença ao concelho de Alfandega da Fé. Também nunca, naturalmente, tinha ido a Alfandega da Fé e, portanto, tudo era uma surpresa inimaginável. A maior, maior… foi no aspecto pedagógico. Eu sou canhoto. Faço tudo com a esquerda e, na aldeia, a professora já era mais evoluída do que a da cidade porque escrevi com a esquerda até à segunda classe. Aqui, obrigaram-me a escrever com a direita, de maneira que, eu tenho uma linda caligrafia, ao contrário. Não foi fácil essa mudança da esquerda para a direita, porque, o único movimento que eu faço com a direita é, exactamente, escrever. Tudo o resto faço com a esquerda. É, talvez, um dos factos mais marcantes. Um miúdo que nunca tinha saído da aldeia – tinha ido uma vez à feira a Chacim, que, embora maior, não passa de uma aldeia também. Vim, assim, para um mundo completamente novo…

É uma diferença enorme?

Uma vez tentaram explicar-me o que era um comboio e, como eu já tinha visto carros, disseram-me: “Olha, um comboio é como uma série de carros pegados uns aos outros. E esta foi a explicação que me deram, agora, daqui a imaginar o que era um comboio, era um bocadinho difícil. São estas imagens que marcam.
Na parte desportiva, quase não sabia o que era uma bola. Aos oito anos não sabia o que era uma bola e, na altura, não havia camadas jovens; a primeira e única camada que havia era a dos juniores, que foi onde comecei a jogar futebol. Os miúdos, hoje, quando chegam aos treze, catorze anos, querem desistir do futebol por pensarem que já é tarde. Não é. Eu só comecei aos dezassete anos, portanto, as pessoas têm muito tempo, se quiserem, para fazerem a aprendizagem no futebol. Foi aquilo que eu fiz o que não impediu que eu tivesse sido o segundo jogador a sair de Bragança e a encarar o futebol profissional. O primeiro foi o Pinto que saiu para o Lusitana de Évora e, depois, fui eu que saí a jogar para o Penafiel. As pessoas têm muito tempo, se quiserem seguir uma determinada carreira, não se devem precipitar porque aos doze, treze anos querem logo decidir, fazer já uma especialização no desporto, quando a especialização naturalmente chega mais tarde. Primeiro que façam a prática de todas as modalidades, do andebol, do basquete…

Embora, hoje se descubram talentos mais cedo.

Descobrem-se talentos, mas são talentos de laboratório. E, nalgumas modalidades, por exemplo, o caso da ginástica, quando comparada com o futebol, um indivíduo com 22 anos está no início de carreira, na ginástica uma atleta com 22 anos é veterana, está no fim de carreira. Aliás, uma ginasta Russa que acabou aos 24 anos já era considerada velhíssima para a prática da ginástica, naturalmente.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Tudo acontece porque tem de acontecer

Teria eu cinco anos, era verão, quente, ao fim da tarde, estava com os meus amigos a brincar na Eira da Louçana, junto ao bebedoiro dos animais. Depois de muito esvoaçar, sentámo-nos num pequeno muro que delimitava um pedacito de terra onde era hábito fazer-se uma horta, conversando, inocentemente, uns com os outros enquanto o Frederico fazia que cavava com uma enxada, um cibinho de terra, para segundo ele, semear nabal.
- Frederico, pousa a enxada que ainda te feres e podes ferir os outros!
Quem assim falava era a Bernardete, irmã do Frederico que, na altura contaria com a idade de dezoito anos, portanto, bastante mais velha dos que nós.
O rapazinho ainda protestou, dizendo que não estava a fazer nada de mal e que tinha cuidado mas,  a rapariga saca-lhe das mãos a ferramenta e vai guardá-la onde era costume fazê-lo. Não tarda a regressar trazendo nas mãos umas ganchas.
Nós, olhávamos uns para os outros e para o Frederico, já sentado ao nosso lado,  emburrado, braços cruzados junto ao peito, cabisbaixo, de olhos espetados no chão.
Bernardete aproxima-se e começa a cavar o pequeno pedaço de terra, sem outra intenção do que estar ali connosco que continuávamos sentados no muro aproveitando a leve brisa que se fazia sentir então.
Tenho a mania de nunca estar quieta com os pés e com a pernas e, indolentemente, dançavam os meus pés e pernas para a frente e para trás, com aquela serenidade de um fim de tarde quente em que não nos apetece, sequer, pensar.
Sem saber como, sinto o ferro a entrar-me no pé direito. Não senti dor, apenas uma sensação estranha como se algo grave se estivesse a passar mas eu não soubesse o que era.  As outras crianças gritavam ao verem o jorro do sangue a salpicar o chão e a Bernardete branca como um pano de linho, sem reação nenhuma, a olhar para mim como se eu fosse qualquer coisa do outro mundo, uma assombração.
Não sei como o fiz e porque o fiz. Saltei do muro, sem uma lágrima. Apenas o meu olhar assustado diria algo que eu não conseguia dizer. A pequena sandália branca que calçava era, agora, vermelha de sangue. Não via mais nada. Queria chamar a minha mãe mas a voz não me saía da garganta. Em frente à casa do meu tio Firmino, desmaiei. Alguém, ainda hoje não sei quem foi, pegou em mim ao colo e gritou:
- "Natália, oh Natália, anda cá depressa. Olha a tua filha!"
O chamamento deve ter sido tão aflitivo que a minha mãe, em nada, estava junto de mim, ao fundo das nossas escadas. Quando olhou para mim, o grito que lhe saiu da garganta foi de tamanho desespero, de tamanha dor que os séculos e séculos de civilização se transformaram em,  apenas, instinto, onde a mãe chora a sua cria ferida.
Aos poucos fui voltando a mim e o que vejo é uma bacia cheia de vermelho. Devo ter pensado como seria possível eu ter tanto sangue, tão pequena era... lentamente vi que não era apenas sangue mas, também água, onde me haviam lavado o pé. Minha mãe chorava. Eu, nem uma lágrima.
O sangue custava a estancar, mas lá foi parando depois de terem gasto todas as teias de aranha a que conseguiram deitar mão nas casas ali ao pé. (Ainda hoje, nas nossas aldeias, é hábito usar essa mezinha para fazer parar a hemorragia.) Podia ver-se, agora que o ferimento, apesar de bastante profundo, tinha atravessado o pé de um lado ao outro e quase me tinha arrancado dois dedos, era limpo. Não havia afetado nenhum tendão e, por consequência, não era tão grave como parecia.
O meu padrinho havia sido esfaqueado numa rixa ocorrida numa feira em Vinhais, onde se havia metido como mediador. Esteve muito mal, à beira da morte mas, conseguiu resistir embora ainda estivesse obrigado a fazer o penso todos os dias. Por essa razão, o grande azar do meu padrinho, funcionou para mim, como grande sorte, já que ele tinha ali todas as coisas necessárias para me curarem a mim.
Deveria ter levado uns dez ou doze pontos mas, naquele tempo, não havia urgências a que nos pudéssemos dirigir. Lá me trataram do pé o melhor que podiam e sabiam e, na falta de gaze, embrulharam-mo em panos de linho, alvos de sol, calçaram-me uma meia do meu padrinho para que não se sujassem e o choro da minha mãe cessou que não a sua preocupação. Se aquilo infetasse, não sei o que teria sido de mim.
Levei um mês a curar-me. Foi um período muito feliz da minha vida já que toda a gente me dava muito miminho e andei às cavalitas de toda a aldeia.
Recordo-me deste episódio com um sorriso e, de cada vez que olho para o meu pé direito, não me posso esquecer já que a cicatriz, por cima e por baixo do pé, continua bem visível. Admira-me não ter perdido o dedo do meio e chego à conclusão de que tudo acontece porque tem de acontecer.

Mara     

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Olá amigos!

Estamos quase no fim de semana. Os dias passam como se fossem horas e quando damos por ela, estamos a aproximar-nos de uma nova semana e quase nos parece que não temos tempo para viver.
No próximo domingo postaremos a entrevista de D. António Montes Moreira, Bispo da Diocese de Bragança-Miranda.
Contamos com as vossas visitas e colaboração.

Bem hajam por nos acompanharem.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

História nº 5

O rio Fervença da minha infância ainda tinha a água límpida e fresca. Ainda se podia dar um mergulho.
Nessa altura, o verão ainda era verão e o inverno ainda conservava as características de um bom inverno transmontano.
Naquele tempo, os divertimentos não eram oque são hoje e a vida era muito mais simples e natural. Parecia que as pessoas eram mais felizes...
Os invernos eram mais rigorosos. Caíam grandes nevadas. Os fusos de gelo enfeitavam os beirais das casas e os ramos despidos das árvores.
As águas gelavam nos tanques e as mulheres tinham de afastar o gelo para poderem lavar a roupa dos filhos.
Mas, o que mais me marcou foi o facto de, também, o rio gelar. No rio, ali no Jardim António José de Almeida, fazia-se umaenorme camada de gelo que permitia andar por cima dele sem que se partísse.
O António e o Abílio Reis, cujo pai tinha uma oficina de motos, andavam com elas no rio gelado. Eu assistia, admirado, àquela façanha e nunca mais me esqueci do tempo em que o Fervença se transformava numapista de gelo.
Agora, as lembranças do Fervença da minha meninice, levam-me para todos os rios que no mundo existem e sei que todos eles, gelem ou não, têm uma importância primordial.
Um rio não nasce rio. Nasce nascente, numa qualquer serra ou monte e, por aí vai correndo até se transformar em regato onde brilha o sol que bate nele e começa a ter peixes que brilham a esse mesmo sol com todas as suas cores. De regato a riacho ou ribeiro é um pulo, é um passo, e lá vai ele, lampeiro, a correr serra abaixo. Uma ou outra cascata ou cachoeira ou queda de água ou catarata, que isto da língua portuguesa tem  muitos chamiços para a mesma coisa, dá vida ao seu leito calmo para lembrar a quem olha que também a vida tem momentos mais tormentosos e agitados.
Há os que correm para outros rios que ficam grandes com os pequenos que neles desaguam e esses, muitos deles, vão direitinhos para o mar. Outros há, ainda, que formam lagos e lagoas, alguns tão grandes que quase parecem mares de água doce.
Enfim, um rio não nasce rio, faz-se rio por montes e vales, por serras e planícies, atravessando, por vezes, vários países, em direção ao seu lugar de repouso, doce ou salgado, onde se mistura e transforma, verdadeiramente, na essência da vida: a origem primeira de todos os seres.

Marcolino Cepeda
(Retirado do livro "Pontes - segredando segredos", publicado em 2001, edição de autor)   

Lançamento do livro "O Romance do Gramático"

Para relembrar o lançamento do "Romance do Gramático" (Gradiva), de Ernesto Rodrigues, inspirado na vida de Fernão de Oliveira, autor da pioneira Gramática da Linguagem Portuguesa (1536).  

Amanhã, 15 de setembro, pelas 18.30h, na Biblioteca Municipal de Bragança.

Ernesto Rodrigues, poeta, contista e novelista, crítico, ensaísta e tradutor, o também romancista regressa à ficção 17 anos após Torre de Dona Chama, nome da vila onde nasceu.

Professor na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Ernesto Rodrigues preside à direcção da Academia de Letras de Trás-os-Montes.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Onde estás?

Maria chorava lágrimas não visíveis. Apenas o olhar refletia a dor que grassava no seu coração-cérebro.
No hospital jazia em completo desacordo, o homem com quem casara por amor. Desatino, desconcerto, desassossego... que mais dizer do cérebro meio morto? Do corpo meio vivo que ficara?
Serei capaz de não refletir todas as perguntas que passeiam na consciência dos fatos ocorridos até aqui? Não sei!
Maria vê a parafernália de aparelhos, cabos, pensos, sondas... e apercebe-se dos grilhões que atam o homem, até aqui tão livre. Onde estás liberdade? Onde apartaste para caminhos dúbios, tão longe de mim?
Olhar vazio, perdido em dores que não compreende. Reconhecimento confuso de mim...
Cá cá cá, mão esquerda estendida, anseia a minha, guarida que ninguém pode ofertar.
Onde estás? Onde te encontras?
Percorro caminhos insondáveis de mim sem saber se os saberei ou poderei caminhar...
Os teus caminhos estão tão confusos, tão sem nexo, que mal sabes que há caminhos. Caminhante de meio corpo que não pode, ainda, caminhar. Talvez amanhã.
Regressaste. Amas-me, sei-o. Chamas por mim na tua linguagem incompleta e sorris o teu sorriso torto, o teu olhar ávido, confuso, passeia pela enfermaria, sem entender o que se passa. Assumes, mal retomas alguma consciência de nós, da nossa nova e difícil vida.
E António Machado, insistentemente, canta o que eu quero calar. Se o pensamento se independentiza, que fazer se não chorar?

"Caminante, son tus huellas
el camino y nada más;
Caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.
Al andar se hace el camino,
y al volver la vista atrás
se ve la senda que nunca
se ha de volver a pisar.
Caminante no hay camino
sino estelas en la mar."

Mara

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

História nº 4

As grandes paisagens emocionam-me. Sempre me emocionaram, mesmo quando pequeno.
O facto de poder visualizar, do alto de um monte, uma bela paisagem faz-me bem e, já quando segui nu atrás da banda até ao monte de São Bartolomeu, mesmo não tendo lembranças conscientes, senti,talvez, além do apelo da música, o apelo da paisagem.
Recordo-me de uma ida a Gebelim, à quinta da Berta e do Manuel Aires para participar numa festa de família. Era a Festa de São Bernardino de Sena, no segundo domingo de setembro.
Lembro-me da enorme alegria que todos sentíamos.Éramos uma grande família e todos saboreavam ao máximo, o facto de estarmos ali.
Fez-se uma grande sardinhada na quinta. O Manecas, para se meter comigo, disse que eu tinha comido dezoito sardinhas. Devo confessar, apesar da fraca figura, que comia muito bem mas, daí a comer essas sardinhas todas...
A beleza daquele vale fértil e verde preencheu todos os espaços que na minha alma estivessem vazios. É bom poder estender o olhar e beber a paz de uma grande paisagem.
Três quilómetros acima da aldeia, a capela do santo está posicionada num alto, local de onde não se avistam as casas mas, sim, todos os montes à volta. Avista-se também um grande planalto, ainda inculto, quase primário. É uma paisagem maravilhosa e, talvez tenha sido nesse dia que, pela primeira vez, conscientemente, me apercebi da força desta província de Trás-os-Montes, da sua beleza selvagem.
Nós, transmontanos, somos como filhos pródigos. Apenas valorizamos o que temos depois de o termos perdido. Esta nossa paisagem, que tanto delicia quem nos visita, passa-nos despercebida até ao dia em que se acorda com olhos de ver o mundo e, então, é o deslumbre.
Não precisamos de visualizar as mais altas montanhas para saber que elas existem. Claro que podemos tentar imaginar (ou talvez não) a sensação única que devem ter tido os poucos eleitos que do alto do Evereste avistaram o que o olhar pode alcançar. Só numa situação dessas seremos verdadeiramente confrontados com a nossa pequenez, a nossa insignificância.
Num mundo de desertos, de grandes planícies, de planaltos sem fim, perdemos e encontramos todos os dias em todos as partes do mundo, a vida e a morte, a tristeza e a alegria, o sofrimento e a felicidade.
É caso para perguntar: como podem existir tamanha diversidade, tamanhas diferenças na paisagem que pisamos?

Marcolino Cepeda
(Retirado do livro "Pontes - segredando segredos", publicado em 2001, edição de autor)      

domingo, 11 de setembro de 2011

Aqui está a 9ª entrevista

Esta semana, o 9º entrevistado é o meu irmão Tojé. Não por ser meu irmão mas, por ter marcado uma época no futebol do distrito de Bragança.
É, para mim, um orgulho o facto de o ter podido entrevistar. A sua vitalidade, a sua entrega, muitas vezes em detrimento da sua família e saúde, nortearam a sua vida.

Bem hajas, Tojé.
Marcolino Cepeda

sábado, 10 de setembro de 2011

Do ser e existir

           Ouvi a palavra do primeiro junquilho
Pequeno sol amarelo
Acanhado, sonolento e belo

Ouvi a palavra da primeira lágrima
A mais pura e genuína
Que rola serena pelo rosto da menina

Ouço o grito da gaivota em alto mar
Que adivinho aflito
Na ânsia de te encontrar

Busco o caminho, princípio e fim
Que, solitária, calcorreio
Nesta luta sem freio
Tão longe de mim

Ouvi o grito da mãe ao parir
O perfeito milagre
Do ser e existir

Ouço o choro do menino ao nascer
A dor imensa
Do ter de crescer

Nasce o dia, sol envergonhado
Que tudo anuncia
Que anseia a magia
De um doce pecado

Anseio a antestreia
Do marulhar da maré
Envolta em areia
Na praia que não é

As mãos, pérolas pequeninas
Tecem colares de contas
Tristezas genuínas
Em horas enclausuradas.
  
           Mara

Entrevista com Coronel Teófilo Bento - Capitão de Abril

A esta entrevista vamos chamar “À procura da Liberdade”.

Nasceu em Picote, concelho de Miranda do Douro. Sabemos que não viveu lá muito tempo. Fale-nos, por favor, desse seu começo.

Até aos seis anos vivi em Picote, depois transferi-me para Sendim, ou seja, os meus pais é que se transferiram. O meu pai era Guarda Fiscal. Podia começar já por dizer que pertencia a uma família em que havia dinheiro, porque a maior parte das famílias, como se sabe, nessa altura, não conhecia a cor do dinheiro.

Eram tempos difíceis nessa altura. O dinheiro era escasso, o que potenciava muitas famílias necessitadas…

Eram famílias necessitadas na generalidade. Em Sendim havia duas ou três famílias ricas, havia depois estas ditas remediadas, em que o chefe de família poderia ser Guarda Fiscal, tinha uma remuneração e, já tinham possibilidades de adquirir coisas com dinheiro que a maior parte das pessoas não tinha. Sem querer, isso faz-me lembrar que, li uma história da evolução económica da Europa, em que dei por mim a fazer uma comparação muito estreita entre a economia, a sociedade da idade média e a sociedade que eu conheci quando miúdo, em Picote e em Sendim. Eram os mesmos instrumentos de trabalho, os mesmos sistemas de troca de bens; trocavam-se sardinhas por ovos, por exemplo. Recordo-me de a minha mãe me contar que levava dois sacos de trigo a Carviçais, primeiro ao Pocinho e depois a Carviçais; isto é, onde chegava o comboio, para trazer sal. Isto, só para dizer, como era a situação nessa altura agora, se quiserem, comecem a fazer comparações com os dias de hoje.

Que outras recordações é que guarda da sua meninice, da sua juventude?

Além das dificuldades referidas que eram muito notórias, principalmente antes de as barragens aparecerem e começaram a dar algum trabalho, o que potenciou que algum dinheiro começasse a circular, fez com que as pessoas despertassem e descobrissem a existência de outros mundos e, também contribuiu para que nos apercebêssemos do mundo fechado em que vivíamos, o que levou, precisamente, a que milhares de transmontanos emigrassem para a França, clandestinamente, isto é, sem autorização. Quando eram apanhados, eram devolvidos, muitas vezes, em condições extremamente difíceis, porque até as pessoas da minha idade se lembram. Chamavam-se passadores as pessoas que auxiliavam esses indivíduos a dar “o salto”, assim se chamava o transferir-se para França, tentando, portanto, ganhar algum dinheiro.

Muitos transmontanos deram “o salto", realmente…

Sim, é verdade! Há pouco disse-me que esta entrevista tinha um nome que era “À procura da Liberdade”; deixe-me falar sobre isso.
É evidente que a liberdade, como a fome, como outras situações extremas, como a guerra por exemplo, só quem a viveu… ou melhor, no caso da liberdade, só quem não a teve é que sabe o que é não ter liberdade. Por mais metáforas, por mais palavreado, por mais frases que se utilizem, é difícil caracterizar uma situação extrema e a falta de liberdade é realmente uma situação extrema.
Já dei algumas entrevistas em que dizia que, só com o passar do tempo, me fui apercebendo do que era a falta de liberdade; a privação de liberdade para ganhar o seu pão, a sua vida, levou tanta gente a emigrar, clandestinamente, porque não lhes era permitido sair livremente. As pessoas não tinham liberdade para procurar melhores condições de vida.
Senti, por volta dos anos 60, ao acabar o curso na academia militar, onde era aspirante, uma necessidade premente de sair daqui, de conhecer outras culturas e resolvi fazer uma coisa que era habitual: viajar para o estrangeiro, normalmente França, Inglaterra… recorríamos a algumas associações que nos arranjavam trabalho. Trabalhava-se durante as férias o que nos dava o suficiente para viver, não diria que dava para pagar as despesas todas, mas auxiliava muito e era uma nova experiência.
Eu fui para Inglaterra. Estamos no ano de 69, precisamente no ano que apareceu a minissaia, tínhamos tido notícia dela, é evidente que em Lisboa não havia, em Portugal não havia mas, tínhamos tido notícia dela. Foi nessa altura que fui para a Inglaterra onde trabalhei num hotel. Inicialmente pensei que era para trabalhar como porteiro para ganhar umas boas gorjetas, mas afinal era trabalho não especializado, internamente, lá no hotel.
Foi uma experiência interessantíssima mas, o que mais me impressionou e, era esta a ideia que queria vincular, foi que eu tive a sensação de que tocava na liberdade. A liberdade via-se em tantas coisas… na minissaia, via-se na forma das pessoas trajarem, Londres já nessa altura era um cidade muito cosmopolita, havia indianos, havia tudo. Enfim, faziam o que queriam, cada um vestia-se como queria vivenciando os seus usos e costumes, havia “speakers corners” onde se reunia muita gente e se falava contra tudo e contra todos. Pegavam no caixote, subiam para cima dele, expunham as suas ideias livremente, de tal maneira que, se tinham audiência estava bem, se não tinham, não havia problema; às vezes, via-se um indivíduo a falar para três ou quatro pessoas, outras vezes a falar para um conjunto de pessoas. Realmente, todas essas coisas e, mesmo a actuação da polícia, ensinavam liberdade.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

História nº 3

Nos primeiros verões da minha infância e como fosse muito mais novo que os meus irmãos e irmã, a minha mãe mandava-me, às vezes, com o meu irmão José Emílio, quando ele ia à estação dos caminhos de ferro buscar gelo para o peixe que os meus pais vendiam no Mercado Municipal.
O José Emílio, no princípio, até nem se importava muito e lá íamos os dois, todos contentes. No entanto, à medida que a idade dos porquês ia tomando forma, a sua boa vontade foi declinando, subjugada ao peso das crescentes perguntas que eu fazia.
- Olha, o que é aquilo?
- É um carro.
- Para que serve?
- Para andarmos nele.
- E como se faz?
- Tem que se aprender a conduzir.
- Aonde? Como? Porquê?
Era um nunca mais acabar de perguntas, um inquérito sem fim à vista que, nem assim, saciava a minha ânsia de saber.
O meu irmão lá ia respondendo conforme podia ou até se cansar e, de vez em quando, desabafava: "Que chato és, que nunca mais te calas. Da próxima vez não te trago comigo, nem que a mãe me obrigue!"
No entanto, lá ia eu sempre que a mãe mandava. E lá iam as perguntas do quando, onde, porquê, para quê, quem, etc... Ainda hoje  o meu irmão fala nisso e continua a dizer: "Que chato eras, que nunca mais te calavas, parecia que tinhas engolido um gira discos".
Outras vezes levava-me ele, por sua livre vontade, até à fonte que fica nas costas do Castelo, ainda dentro do enquadramento das muralhas, para apanharmos girinos e rãs.
Esses passeios eram feitos ao fim da tarde e a seguir ao jantar pois, durante o dia o meu irmão trabalhava. Como, normalmente, jantávamos cedo e os dias de verão são muito grandes, tínhamos muito tempo para as descobertas.
Foi com o José Emílio que descobri como era engraçado brincar com os girinos e as rãs. Foi com ele, também, que aprendi alguns jogos de paciência para apanhar os bichos. Lembro-me que passávamos horas e horas à volta da fonte, sem outro interesse que não aquele.

Marcolino Cepeda
(Retirado do livro "Pontes - segredando segredos", de 2001, edição do autor)

A meias

"Assi soubira tous outros mundos
se yá nun houbira campo
se las palabras nun cunsíguen ser
solo palabras
de la mano de alguien

i nun buolbes ls uolhos
pa l rostro de naide.»

Com a ajuda de Amadeu Ferreira, meu primeiro texto em Mirandês. Perdoem-me os mirandeses e sendineses, por não saber a vossa língua.
Obrigada Amadeu pela paciência.
Mara

Boa tarde!

Estamos quase a chegar ao fim de semana. É altura de postarmos nova entrevista, a exemplo do que sempre fazemos, aos domingos. A próxima é a de António José Cepeda (Tojé para a família e os amigos). Foi jogador e treinador de futebol e professor de Educação Física. Neste momento está reformado. É natural da aldeia de Gebelim, Alfândega da Fé, mas desde os oito anos vive em Bragança.

Até já

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

História nº 2

Por volta dos meus quatro anos e, dentro da normalidade, apanhei o sarampo. Até aí nada de novo. É perfeitamente natural que as crianças tenham estas doenças infantis, na sua forma benigna, e que se livrem delas no prazo medicamente instituído. Foi o que, com certeza, aconteceu comigo.
No entanto, como o que conta é a originalidade, resolvi dar algum colorido ao meu obrigatório repousar e comecei a fazer uma exigência deveras extravagante.
Queria, porque queria, um sombreiro aberto por cima da cama e comecei a fazer birras e a choramingar.
Os meus pais tinham de ir trabalhar, os meus irmãos tinham de ir para as respectivas escolas e eu tinha de ficar sozinho por algum tempo. Ou porque não quisesse ficar sozinho, ou por me sentir de alguma forma protegido, comecei a choramingar e a dizer que queria um sombreiro.
- Para que é que queres o sombreiro, meu filho? - perguntava a minha mãe.
Não sabia, apenas sabia que queria um sombreiro. A minha mãe lá me levou o guarda-chuva, mas continuei a choramingar, "que não era assim, que o queria aberto..."
Como a minha mãe não conseguisse entender o meu pedido, foi falar com o meu pai que, depois de me ouvir, lá acertou com o desejo: abriu o guarda-chuva e pendurou-mo no tecto do quarto, por cima da cama.
Depois de ver a obra feita, fiquei feliz da vida, não fosse cair uma grande trovoada que me molhasse todo. Acabaram-se as birras e o choro.
Ainda hoje ao falarmos deste episódio rimo-nos a bom rir ao pensar nele.
É caso para dizer que uma pessoa, quando é criança, tem umas ideias originais e engraçadas.
Efectivamente, nem sequer imagino o porquê da minha insistência na colocação do guarda-chuva aberto, pendurado no tecto. Deduzo, hoje, que seria talvez para me proteger de qualquer eventualidade ou, apenas, uma perrice de criança debilitada pela doença que, não sendo grave, acaba por abater.
A criança avança pelo seu caminho de nuvens e de sonhos e tudo para ela deveria cingir-se a isso; no entanto, sabemos que não é bem assim.
O crescimento das pessoas faz-se, também, pelos obstáculos que vamos enfrentando no dia a dia e a vida, por vezes, não é nada fácil.
Penso que as crianças não devem sofrer. O sofrimento destes pequenos seres incomoda-me e penso que deve incomodar toda a gente. Por vezes sofrem e muito, e não são só as doenças que porventura se manifestam ao longo da sua vida.
Não quero dizer com isso que para crescer é necessário sofrer. Não. Quero dizer que o nosso crescimento pessoal faz-se com todas essas coisas porque temos de passar, até mesmo, as doenças infantis.
É assim que o menino se vai tornando homem, aos poucos, devagar. Convém que tudo aconteça a seu tempo, sem tropelias, para que a evolução se faça correcta e adequadamente.
Todos nós nascemos da dor. Mas, já que dela nascemos, não deveríamos ser poupados a ela durante toda a nossa vida?
Não sei, não tenho resposta para isso e talvez ninguém tenha. Sei apenas que a dor será um caminho para algo mais que nós não compreendemos e que tão mal aceitamos.

Marcolino Cepeda
(Retirado do livro "Pontes - segredando segredos", publicado em 2001, edição do autor)

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

As meninas brincam

                                      As meninas brincam
Por entre flores e violetas.
Montadas nas bicicletas
Fazem lindas piruetas.

Uma borboleta de asas azuis
Executa um bailado frisado
Voejando risos o dia acabado.
A mãe reflecte o parco ordenado.

Um pardal debica nas áridas ameias
A grande tristeza espalhada a esmo.
Entontece a vida esforço supremo
Sorriso triste, olhar mais ameno.

Um pardal debica nas áridas ameias,
Linda borboleta de asas azuis;
As meninas brincam entre violetas,
Enganando a tristeza nas bicicletas.

Mara

terça-feira, 6 de setembro de 2011

O ROMANCE DO GRAMÁTICO

Ernesto Rodrigues apresenta, no dia 15, às 18,30h, na Biblioteca Municipal de Bragança, O Romance do Gramático (Gradiva), inspirado na vida de Fernão de Oliveira, autor da pioneira Gramática da Linguagem Portuguesa (1536).

Poeta, contista e novelista, crítico, ensaísta e tradutor, o também romancista regressa à ficção 17 anos após Torre de Dona Chama, nome da vila onde nasceu.

Professor na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Ernesto Rodrigues preside à direcção da Academia de Letras de Trás-os-Montes.

Palavras


Que palavras são estas que me acompanham antes da minha existência no útero da minha mãe?
São elas que tão dolorosamente me escapam através do suor que, da minha doce pele de mulher, emana.
E mãe sou dos filhos que não terei, tempos de ternura, de carinho, tão limpo e suave como a canção da chuva que, mansamente, cai dos telhados adormecidos num dia triste/alegre de Outono, envolto em perfumes de Primavera.
Que as minhas palavras embalem e serenem angústias que, porventura, vidas desavindas, tragam em carrosséis de emoções à flor da pele.
A palavra é tudo.
É silêncio quando o ruído impera.
É aurora quando raia o dia…
Mostra-nos tal como somos e estamos.
É a amiga que, num murmúrio, me dá guarida naquele momento de séria tristeza.
É a alegria que sinto quando uma voz já antiga, me conta uma história de bruxas malvadas, maçãs vermelhas e envenenadas, que o amor liberta com a expressão: “Tão linda!”
Mas se a palavra fosse apenas isso, melodia, feitiço, lua cheia, voz de comando, sorriso… seria pobre, avara, andrajosa, uma concha vazia na areia da praia…
É o menino que balbucia,
a soprano que canta a sua peça favorita,
o marulhar da água nas pedras limpas do rio,
o sussurro do vento nas espigas de trigo,
o trautear de uma canção que se ouviu de manhã cedo ao acordar e que nos acompanha durante todo o dia,
o soluço que o peito já não pode calar…
A palavra é o silêncio de um dia de chuva, quando a noite tarda a chegar.
Não existe quando a alma está deserta de música.

Mara

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Outro blogue interessante

Henrique Martins gere o blogue "Memórias e outras coisas". É um blogue extremamente interessante, muito bem feito e de muita qualidade.
Realmente, é de memórias que a vida é feita e são essas lembranças que nos empurram no sentido de sermos futuro.
O endereço é: 5l-henrique.blogspost.com

Básicos teoremas

O que os meus olhos vêem
não se compadece
com básicos teoremas.

Se o simples e ancestral
rumorejar das pedras do rio
te transmite a alma
da água que passa,
para onde te levam
as suas liquefeitas palavras?

Mara

domingo, 4 de setembro de 2011

Setembro

Setembro começou chuvoso e carrancudo. Deve ter sido influenciado pelos sentimentos de todos nós que, de alguma forma, vemos fugir o verão e antecipamos os dias mais curtos, as noites mais longas.
Aproxima-se, a passos largos, o inverno que o Outono tenta, em vão, retardar. Em Bragança, diz a sabedoria popular que, são três meses de inferno e nove meses de inverno. A realidade é que este ano, o vento tem sido uma constante, só que agora,  é desagradável, frio até.  
Costuma dizer-se que ao acabar a Senhora da Serra, acaba o verão. Ainda faltam quatro dias, vamos ver o que será mas, se nos é possível pedir, que sejam dias de sol e calor, afinal, ainda estamos na estação mais quente do ano.
A minha avó contava-me a história das Sete Senhoras Irmãs que se avistavam umas às outras e que falavam todas as manhãs. Eram elas a Senhora da Serra, em Bragança, no alto da Serra da Nogueira, a Senhora da Saúde de Vale de Janeiro, concelho de Vinhais,  a senhora das Neves na Serra de Bornes,  no concelho de Alfândega da Fé, a Senhora da Assunção em Vilas Boas, Vila Flor, a Senhora da Luz em Constantim e a Senhora do Naso no concelho de Miranda do Douro e, por último, a Virgem do Castelo, em Prenha,  província de Salamanca, em Espanha, em frente a Peredo de Bemposta.
Diz a lenda que esta Virgem terá sido encontrada no rio Douro e que foi levada para o país vizinho, onde a colocaram virada para "nuestros hermanos", no entanto, ela acabava sempre, voltada para Portugal. Depois de muita insistência, ganhou a Santa e lá se encontra, virada para as suas irmãs. A minha avó tinha uma fé imensa em cada uma delas e a todas rezava, todos os dias.
As únicas que ela conhecia eram a Senhora da Serra e a Senhora da Saúde. Nunca, enquanto teve saúde, deixou de ir às suas festas e sofria grande desgosto por não poder visitar as outras Irmãs.
As pessoas da minha aldeia deslocavam-se a pé a estes dois santuários marianos. A Senhora da Serra exigia uma caminhada de mais de vinte quilómetros que eram feitos com muita fé e alegria. Rapazes e raparigas, homens e mulheres, percorriam os velhos caminhos de peregrinação, sem um queixume, apenas com uma fé inabalável nos desígnios de Deus.  Era ali, que as raparigas ganhavam o dinheiro, vendendo as cestas, confeccionadas, propositadamente para a ocasião, com que compravam vestidos e sapatos para a festa da Senhora da Saúde.
Este Santuário ficava muito mais perto da minha aldeia. Atravessava-se o rio, subia-se o monte e, em menos de três horas avistava-se a ermida.  Era o culminar do verão pois, antigamente,  a festa realizava-se em meados de setembro, depois da Senhora da Serra. Agora celebra-se no último domingo de agosto por causa dos imigrantes.
Todos os anos, desde que nasci e até ir para o Brasil, fui com a minha mãe à Senhora da Saúde. Não tenho lembrança consciente dessas aventuras mas, ao avistar a pequena capela branca no alto do monte, sinto uma nostalgia que não consigo explicar.
Estes sete santuários atraem, desde há muito tempo, muitos peregrinos. São locais de grande beleza que convidam à contemplação. O facto de estarem todos localizados no alto de montes e serras permite panorâmicas únicas.
Costumo dizer que a Senhora da Serra é a Senhora do vento. Nunca lá fui, fosse de verão ou de inverno, que não sentisse a força de Zéfiro, em todo o seu esplendor. Gosto da solidão que ali se vive, fora do tempo das novenas e das missas, onde o vento é rei e senhor daquele lugar.

Mara

Cá está a 8ª entrevista

Mais um domingo, nova entrevista.
Esta transporta-nos para um período muito feliz da vida da generalidade dos portugueses: A Revolução dos Cravos.
Entre os vários Capitães de Abril que fizeram esta revolução, estava um transmontano e teve por missão, ocupar a RTP.
Nesta conversa, conta-nos a sua experiência e dá-nos uma ideia de como nasceu este movimento.
Esperemos que nos acompanhem em mais esta jornada.

Obrigada a todos.

sábado, 3 de setembro de 2011

Entrevista com António Afonso

Resolvemos chamar a esta entrevista “À procura da diferença”. Nasceu em Vimioso com quantos anos saiu de lá?

Eu nasci, realmente, em Vimioso, porque o meu pai era Guarda Fiscal e, na altura, trabalhava em Vimioso. Esteve em Vale de Frades e em Vale de Pena e, portanto, os três irmãos, nascemos cada um nessas freguesias, em Vimioso em Vale de Frades e em Vale de Pena. Vivi em Vimioso até perto dos três anos. Em Vale de Frades vivi durante cinco ou seis anos e em Vale de Pena fiz a quarta classe.

Os guardas-fiscais e os professores sempre foram um tudo/nada saltimbancos. Três filhos, três localidades diferentes. E depois?

A partir daí vim estudar para Bragança para o Liceu e aqui me mantive desde os dez anos até aos dezanove ou vinte. Frequentei a Escola do Magistério Primário. Depois dos vinte e um anos deixei Bragança e fui para Macedo de Cavaleiros. Costumo dizer que me orgulho de ter nascido em Vimioso e de ter passado uma parte importante da minha vida aqui em Bragança onde continuo a trabalhar. Considero, no entanto, que já sou mais de Macedo em virtude de viver lá já há muitos anos.

Tem muitas ligações à terra de origem, Vimioso?

Em Vimioso tenho a família, a maioria da família, os meus irmãos estão um em Macedo e outro aqui em Bragança, assim como o meu pai. O resto da família continua em Vimioso e em Vale de Pena que é a aldeia do meu pai e é uma anexa de Pinelo onde também tenho muitos primos e tios. Vimioso, Pinelo e Vale de Pena são as localidades onde se encontram as minhas raízes.

Nasceu em Vimioso, vive em Macedo de Cavaleiros e trabalha em Bragança. É este o triângulo mais importante na sua vida?

Sim. São mais de quarenta anos ligado a estas três localidades. Estive fora durante um curto período que, não chegou a um ano, em Lisboa na Assembleia da República. Fora isso, estive sempre aqui no distrito e essencialmente nestas três localidades.

É toda uma vida passada em Trás-os-Montes.

Sim, e orgulho-me de facto de ser um nordestino, um transmontano e não renego as origens. Neste momento considero-me um Macedense por adopção porque, de facto, cada vez mais se diz que nós somos donde estamos. Não pertencemos ao local onde ocasionalmente nascemos, embora não renegue o lugar onde nasci. Gosto muito de Vimioso e vou lá quando posso. Poderia dizer, também, que me considero de Bragança, em virtude de ter passado aqui, um dos períodos mais importantes da minha vida. Gosto muito desta cidade onde desenvolvi grande parte do meu percurso profissional, só equiparado ao de Macedo de Cavaleiros.
Estive muitos anos em Macedo de Cavaleiros como Delegado Escolar, mas aqui, em Bragança, trabalhei na antiga Direcção Escolar e agora no Turismo. Por tudo isso, me considero um brigantino. No fundo sou um homem do nordeste, e neste momento sinto-me bem a fazer aquilo que faço, ser responsável pelo Turismo.
O meu trabalho na Educação, competia-me a colocação de professores, proporcionou-me uma ideia global do que é o distrito, o que me ajudou nas funções que agora exerço. Considero-me um nordestino porque, de facto, procuro nas iniciativas que apoio, e até nas visitas que faço, não privilegiar um concelho em detrimento de outro. Tanto vou a iniciativas aqui em Bragança, como a Freixo de Espada à Cinta ou a Torre de Moncorvo, ou a Vimioso e a Miranda do Douro. Tento responder positivamente a todos os convites que me fazem dos vários pontos do distrito. Procuro, ainda, adquirir conhecimentos específicos sobre cada concelho, para melhor poder defender e “vender” algumas das coisas mais interessantes que por cá temos.