quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Castanheiros no outono

       
O castanheiro é das árvores mais bonitas que conheço. Em qualquer estação do ano a sua mensagem é que a vida continua mesmo quando parece que a seiva não lhe corre nos anéis que compõem o seu tronco.
Estes pertencem à aldeia de Vilar de Peregrinos que dista, sensivelmente, uns escassos 6 km da minha: Brito de Baixo. Pertencem as duas ao concelho de Vinhais.
     

Que idade teria este enorme exemplar?


Mara Cepeda

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Crise

Ontem, ao fim de um dia de trabalho, desloquei-me a uma superfície comercial a fim de efetuar algumas compras.
Estacionei o carro no parque e dirigi-me ao supermercado. Junto da porta de entrada do mesmo, fui interpelada por um homem dos seus quarenta anos, convenientemente vestido, talvez pouco agasalhado, que me disse:
- Minha senhora, dê-me um dinheirinho para comprar comida.
Por norma, não costumo dar dinheiro a pedintes e devo ter feito uma expressão indiciadora dessa minha maneira de ser. Ato contínuo, apercebendo-se da minha expressão, disse, rapidamente, o senhor:
- Ou então, compre-me lá dentro alguma coisa para comer, por favor...
Não sei o que senti. A alma caiu-me aos pés, um nó instalou-se-me na garganta e entrei fazendo um leve aceno com a cabeça ao homem, que o compreendeu.
Estava frio, bastante frio até, em dia de nevoeiro denso...
Os meus olhos, marejados de lágrimas, dificultavam-me a visão. Embotou-se-me o pensamento. Ao passar junto do pão, peguei no maior que lá havia e segui, diretamente ao corredor dos frios, de onde tirei um fiambre. Passei pelo espaço destinado à fruta e coloquei alguma no carrinho. Assim segui até fazer um pequeno cabaz de produtos alimentares básicos. Dirigi-me à caixa, paguei, agarrei nos sacos e saí para o frio da noite onde me esperava o pobre homem, sem pedir mais nada a ninguém.
Entreguei-lhe os sacos e ele agradeceu, sem subserviência, dignamente e, desejou-me Bom Natal...
Agradeci. Quando cheguei ao carro, chorava já, sem pejo das lágrimas que corriam livres pela minha face.
A minha imaginação, sempre criativa, transmitiu-me uma história para aquele homem, pai de filhos, trabalhador desempregado, sem dinheiro para fazer face às necessidades da sua família. Mal agasalhado mas dignamente vestido, não tinha nenhum cigarro na mão. O aspecto era cuidado. Não se notavam vestígios de ingestão de drogas. Era digno na sua, julgo, recente pobreza.
Estamos em 2011. Como será o ano de 2012?


Mara Cepeda

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Amadeu Ferreira lançou, em Bragança, a tradução "Ls Quatro Eibangeilhos"


Ontem, pelas 15h00, no Centro de Arte Contemporânea Graça Morais, teve lugar o lançamento da tradução para mirandês da obra "Ls Quatro Eibangeilhos" de Amadeu Ferreira.
Durante a apresentação ficámos a saber que esta tradução foi feita entre 2001 e 2004, tendo-se baseado na versão latina Biblia Sacra Iuxta Vulgatam Versionem.
Apoiou-se, para uma profunda revisão, na Nouae Vulgatae Bibliorum Sacrorum Editione.
Uma nova revisão foi levada a cabo entre 2008 e 2010 e, para tirar algumas dúvidas e resolver alguns pontos formais, serviu-se de várias traduções em português e noutras línguas, utilizando mais particularmente, a Bíblia Sagrada, edição da Difusora Bíblica - Franciscanos Capuchinhos, Lisboa/Fátima.
Nesta data memorável para as culturas mirandesa e portuguesa, Amadeu Ferreira contou com a presença do Presidente da Autarquia, Eng. Jorge Nunes, do Secretário Geral da Sociedade Bíblica, Dr. Timóteo Cavaco e alguns amigos, entre os quais nos incluímos.
A apresentação da obra ficou a cargo do Dr. António Pinelo Tiza que nos ofereceu uma análise dinâmica da obra, pautada por gratas recordações das vivências havidas entre os dois, já que se conhecem desde os onze anos de idade.
Amadeu Ferreira prometeu, ainda, prosseguir na sua cruzada em prol da língua mirandesa, com a tradução de mais alguns textos da bíblia dos quais destaco "Os Salmos", O Livro de Job" e o "Apocalipse". Aguardamos ansiosamente que estas novas traduções nos cheguem às mãos.

Bem hajas Amadeu por este labor hercúleo em prol da nossa cultura.

Ontem, mãe, chorei por ti...

ontem, mãe, chorei por ti horas infindas
na noite profunda
quero-te comigo sempre
no teu colo de mulher
mãe terra
universo sem paralelo
quero-te mãe
em todas as horas que me couber viver
que dias são estes de agora?
somos nada
fomos tudo
na pequenez do lugar a que pertencemos
a criança chora as mágoas
dos dias que insistem em ser
não luz, além, nenhuma claridade
a noite pejou o dia
que dorme como quem quer esquecer

Mara Cepeda

domingo, 27 de novembro de 2011

Olá, aqui está a entrevista nº 20

A entrevista desta semana foi realizada em 2005 ao pianista Domingos António, filho de pai português (transmontano) e de mãe italiana, nascido nos Estados Unidos da América.
Foi uma entrevista difícil de realizar em virtude de as respostas serem curtas e lacónicas. No entanto, deu-nos muito prazer realizá-la pela sua vitalidade e força de viver.
É um pianista muito jovem, possuidor de um grande talento.

sábado, 26 de novembro de 2011

Entrevista com Eng. Germano Lima - Escola Paulo Quintela, em Bragança

Germano Rocha Lima nasceu em Izeda, concelho de Bragança. Vamos convidá-lo a recordar pedindo-lhe que nos fale da sua infância e juventude…

A minha infância foi semelhante a tantas outras. Éramos crianças, muito felizes, crianças que brincávamos, jogávamos ao pião, à bilharda, ao esconde-esconde… não havia televisão, mas éramos tão ou mais felizes, comparativamente com os nossos filhos, as nossas crianças neste momento. Tive uma infância feliz, uma infância com pais, apesar de o nosso pai nos deixar ainda muito novo, mas os primeiros anos, digamos até aos catorze anos, fui efectivamente feliz na minha casa com os meus amigos, onde não se falava em racismos, não se falava nessas confusões todas que temos agora de droga… enfim todos os problemas que os nossos jovens têm agora e começam relativamente cedo, neste tipo de relação com o exterior.

Onde frequentou os seus estudos, até ingressar na universidade?

Comecei exactamente em Izeda, onde fiz o primeiro ciclo, na altura com um único professor, desde o primeiro ao quarto anos, o professor Norberto que vive nesta cidade de quem tenho muito boa impressão e, de vez em quando, o vejo e relembramos os momentos que passamos juntos, curiosamente fazíamos anos no mesmo dia.
Mais tarde, frequentei um colégio, colégio Maristas durante 3 anos, posteriormente voltei para Izeda, ainda com o falecido Padre Cancela, com todas as virtudes e defeitos que eventualmente poderia ter, foi alguém que marcou a Vila. Foi alguém que proporcionou um ensino que praticamente só as grandes cidades tinham, que era o caso de Bragança, e foi aí que muitos de nós, vivendo em Izeda, tivemos a oportunidade de iniciar os nossos estudos e mais tarde seguir o nosso rumo. A partir do nono ano fui para o Porto para casa de familiares onde conclui, no antigo liceu D. Manuel II, actual liceu Rodrigues Freitas, o antigo segundo ano do curso complementar, correspondente agora ao sétimo ano e fiz ainda o último ano do propedêutico no Porto, entrando a seguir na faculdade de engenharia.

O que foi que o levou, depois de engenheiro já formado, a trabalhar nas Minas da Borralha, a enveredar pelo ensino?

As Minas da Borralha foram o meu primeiro emprego. Lembro-me que em 1985, salvo erro, fiz estágio e foi considerado já um primeiro emprego como engenheiro, em que ganhava na altura 30 contos por mês, mas 30 contos líquidos porque tinha casa, tinha comida, tinha todas as condições, digamos então que eram líquidos no verdadeiro sentido da palavra. Nessa altura tive a minha primeira experiência na escola profissional das Minas da Borralha como professor de matemática e, é evidente que adorei e, desde essa altura mais ou menos, ficou marcado o meu destino como profissional, rapidamente a família foi crescendo. Na altura a minha namorada era professora e veio para Bragança era, por isso, completamente incompatível ter dois locais de destino. Esse factor fez com que envereda-se definitivamente pelo ensino, coisa que agora é bastante complicado. Na altura fiquei vinculado ao Ministério de Educação logo no primeiro ano em que dei aulas; hoje em dia andasse anos, muitos anos, para conseguir esse vínculo.

Vive em Bragança já há dezassete anos, aqui nasceram os seus filhos, é esta a cidade onde verdadeiramente quer viver?

Foi a cidade eleita desde muito cedo, a partir do momento que deixei a parte prática do meu curso de engenharia e enveredei pelo ensino, nunca tive outra perspectiva que não fosse Bragança como local de residência.

De há sete anos a esta parte preside ao Conselho Executivo EB2,3 Paulo Quintela, fale-nos da sua escola?

Penso que a escola Paulo Quintela, neste momento, é uma referência a nível local. É uma escola onde encontrei uma grande família, uma família de professores, uma família de funcionários, uma família de alunos. É uma escola que tem evoluído com esta família, que entretanto veio crescendo. Somos hoje, dentro da escola Paulo Quintela, cerca de cem professores e cinquenta funcionários a que acrescentamos, desde há um ano a esta parte, as escolas que foram integradas no agrupamento onde perfazemos um total de mil e trezentos alunos, cerca de trezentos professores, cinquenta e cinco funcionários. É uma escola que pretendemos que seja realizada, pretendemos que quem está se sinta bem, se sinta em casa, porque só assim conseguimos que o trabalho efectivamente renda e tenhamos sucesso e vontade de fazer aquilo que fazemos.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

As obras do Polis e do PROCOM, desertificaram o centro da cidade...

As intervenções na zona histórica de Bragança, no âmbito do Polis e do PROCOM, contribuíram para afastar as pessoas do centro da cidade.
A constatação é do arquitecto João Ortega, que na passada terça-feira participou no colóquio “Reabilitação Urbana no contexto das Novas Políticas Urbanísticas”, promovido pela Assembleia Municipal de Bragança.
João Ortega afirma que o comércio saiu prejudicado, porque as intervenções dificultam a vinda das pessoas ao centro da cidade. “Estas duas intervenções, sobretudo o PROCOM, reduziram claramente a plurifuncionalidade da nossa rua, o que significa que temos os lugares arrumados para cada uma das funções, mas aquelas que não foram previstas é muito difícil acontecerem, nomeadamente o simples parar para comprarmos o jornal ou qualquer outro produto”, salienta o arquitecto.
O arquitecto, que também é professor no ensino secundário, afirma que os estudantes não conhecem o centro histórico de Bragança, uma situação que considera preocupante.
“Eu como professor sempre que tento abordar a cidade com os meus alunos há duas constatações muito preocupantes, primeiro que não conhecem a cidade e segundo que não gostam da cidade”, realça o professor.
João Ortega afirma que a solução para dinamizar o centro histórico é voltar a trazer serviços para esta zona da cidade. “Para mim, uma das questões do centro histórico passa pela recuperação da centralidade que ela perdeu. Saíram os serviços públicos e podemos enumerá-los desde os bombeiros, a outras instituições públicas, que só regressando podemos resolver o problema do despovoamento na zona histórica”, remata João Ortega.


Por: Teresa Batista
in: jornalnordeste.com

Bragança - V Mascararte de 1 a 7 de Dezembro


Bienal da Máscara tem como temática as figuras do "Diabo e da Morte"
A Câmara Municipal de Bragança vai organizar, de 1 a 7 de Dezembro, a quinta edição da Mascararte, Bienal da Máscara, este ano dedicada, especialmente, a reactivar figuras que outrora foram típicas do Carnaval da cidade “a Morte e a Censura”.
Um dos pontos altos do programa é, mais uma vez, o desfile internacional “cortejo dos Mascarados”, no dia 3, a partir das 15h00, na Praça Cavaleiro de Ferreira. No dia 4, às 14h30, será inaugurada a Sede da Academia Ibérica da Máscara. No dia 7, quarta-feira, dia de encerramento, às 23h00, terá lugar a “1ª Concentração de Diabos”, na Praça Cavaleiro de Ferreira, que culminará com a “queima do diabo, tendo por base a Lenda do Diabo, da Morte e da Censura de Bragança”. Entretanto, entre o dia 3 e o dia 6 a mesma Praça acolherá a Feira da Máscara.
Durante a realização de mais esta bienal têm ainda lugar exposições temáticas sobre “os diabos nas Festa de Inverno em Trás-os-Montes e Província de Zamora e exposição de trabalhos dos concursos Mascararte 2011, patentes no Centro Cultural Adriano Moreira. Haverá ainda animação musical nas ruas, com grupos como os Galandum Galundaina, no dia 3, na Praça Cavaleiro de Ferreira, entre outros. Isto alem de conferências sobre a temática e da apresentação do catalogo da Marcararte 2009.

in:mdb.pt
Publicada por Henrique Martins no blogue "Memórias... e outras coisas", em 24 de Novembro de 2012

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

A vida é tão breve...

A vida é tão breve
as memórias tão ténues...
a tristeza que sinto é real e existe.
A maioria de nós são D. Fonso Mendes de Bornes.
Pergaminhos carcomidos pelo tempo,
um assento de nascimento e morte num qualquer arquivo distrital,
um monte de pedras desmoronadas
onde a alma nunca esteve.

Mara Cepeda
(inspirado no poema "Mimória de D. Fonso Mendes de Bornes", de Amadeu Ferreira, publicado no blog "cumo quien bai de camino".

Lançamento da obra "Ls Quatro Eibangeilhos" - Amadeu Ferreira


Divulgamos o lançamento da obra "Ls Quatro Eibangeilhos", tradução para mirandês de Amadeu Ferreira, no Centro de Arte Contemporânea Graça Morais, no dia 27 de Novembro, pelas 15h00, com apresentação do Dr. António Tiza.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Noite

Um grito na noite ainda dia
porquê estou acordada
nesta hora tão tardia
faz-me tremer de indignação.
O silêncio abruptamente maculado,
tão abruptamente que o meu corpo tenso
reflete a tensão na aceleração desenfreada do pulso.
Um grito de mulher,
um doloroso grito de mulher gela-me.
Na cama vive agora um rio siberiano
onde me afogo lentamente
enregelando a alma que sempre quis pura.
Não sei quem gritou ou porquê razão o fez.
Não consigo imaginar
porquê, transida de frio e medo,
é-me impossível divagar.
Agarro-te na mão macia e quente,
Encosto-me a ti como uma lapa presa às pedras no mar.
Sufoco... de quem é o grito que dilacerou a noite ainda dia?
Quantas mulheres sufocam com os seus gritos mudos?
As horas passam transidas de medos irracionais, inexplicáveis.
As mulheres choram dores primevas
o pecado de amar sem óbice
aqueles que as enredam com inultrapassáveis ameias.

Não há primaveras árabes

Mara Cepeda

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Serra da Nogueira num dia de inverno


Eu, o meu irmão Eduardo e a minha cunhada Helen num dia de vento inclemente no alto da Serra da Nogueira, junto à Capela da Sr.ª da Serra. O Marcolino ficou no carro. Não se deixa iludir por frias aragens.

domingo, 20 de novembro de 2011

QUINTELA, Paulo Manuel Pires

Nasceu em Bragança, em 24.12.1905 e faleceu em Coimbra, em 9.3.1987. 
Estudou na Universidade de Berlim (entre 1927 e 1929) e em 1929 licenciou-se na faculdade de Letras de Coimbra, onde ficou como professor, a partir de 1933. Foi professor extraordinário de Filologia Germânica, desde 1942 e doutorou-se em 1947. Contudo somente ascendeu a professor catedrático após a revolução de 25.4.1974. De 1938 a 1968 foi director artístico do Teatro dos Estudantes da Universidade de Coimbra. Em 1960 o Goethe Institut concedeu-lhe a medalha de prata e, em 1973, a medalha de ouro.    
Obras principais: A Vida e a Poesia de Holderlin (1 947), Poemas de J.W. Goethe (1949). Esta obra (que é uma antologia) é uma versão portuguesa, com notas e comentários. E a Poesia de Georg Trakl (1960). Além de colaboração em várias revistas e de numerosas traduções.: Do Elemento Social no Drama Alemão a Partir de Lessing (dissertação de licenciatura, 1929, inédita); Antologia da Poesia Alemã (em colaboração com W. Kaiser e A. E. Beau), Lx., 1944; A Vida e a Poesia de Hoelderlin (dissertação de doutoramento), C., 1947; A Poesia de Georg Trakl (com uma breve antologia em versão portuguesa), ibid., 1960; Duas Velhas Falas sobre Shakespeare, ibid., 1965.


Aqui está a 19ª entrevista

Esta semana o nosso entrevistado é o Engenheiro Germano da Rocha Lima, natural de Izeda, concelho de Bragança.
Quando em 2005 realizámos esta entrevista, exercia as funções de Presidente do Conselho Executivo do Agrupamento de Escolas Paulo Quintela.
Foi, justamente, deste ilustre transmontano/bragançano que mais se falou por se comemorar nesse ano, o Centenário do seu nascimento.
Paulo Quintela foi e é uma referência nacional e mundial ao nível da cultura e não lhe tem sido feita justiça. Fica aqui esta pequena chamada de atenção.
A Germano Lima agradecemos o trabalho que desenvolveu durante as comemorações e o empenho demonstrado na divulgação da vida e obra de Paulo Quintela.

Bem hajas

sábado, 19 de novembro de 2011

Os meus sonhos são pequenos

Os meus sonhos são pequenos 
o caminho é longo
calcorreá-lo
é sentir os pés descalços
sujeitos a todos os estorvilhos
que tenho de palmilhar

Os meus sonhos são pequenos
as horas são breves
sobreviver-lhe
é escalar altas montanhas
expostas as todas as intempéries
que devo suportar

Carreiros orlados de estevas
conduzem às fragas que amo
onde me preservo
crisálida  
de sonhos imensos
onde tudo é permanentemente azul

Vias romanas
pontes
que me levam sempre
para a outra margem
caminho solitário
onde se inicia nova viagem

Mara Cepeda

Olá amigos!

Mais um fim de semana, mais uma entrevista.
A entrevista que amanhã postaremos tem como protagonista o Eng. Germano Lima, na altura, Presidente do Conselho Executivo do Agrupamento de Escolas Paulo Quintela.
Quando foi realizada, comemorava-se o centenário de nascimento de Paulo Quintela, ilustre bragançano. As homenagens que lhe foram prestadas são um dos temas desta conversa.

Bem hajam por continuarem a acompanhar-nos. 

Entrevista com o escultor Hélder de Carvalho

Hélder José Teixeira de Carvalho, nasceu em Carrazeda de Ansiães, distrito de Bragança. Como foi a sua infância?

Recordo com saudade e muito prazer esses momentos de juventude vividos no interior transmontano. Gostei muito das condições que tive e que sei que são bem diferentes das condições que outros encontram, sobretudo os do litoral. Vivi a juventude com muito gosto, com muito prazer e acho que não será por acaso que grande parte da minha prática de cidadão e de professor radica muito daquilo que trouxe dessa experiência de juventude.

Onde fez os seus estudos antes de ir para a Faculdade?

Realmente a partir do agora chamado ciclo preparatório, desci o Douro e fui continuar os meus estudos no porto, onde estudei no Colégio Universal e no Colégio Lúmen e aí fiz o liceu e depois ingressei em Belas Artes.

E que recordações guarda desses tempos?

Custou-me bastante a adaptação à cidade, estava de facto muito enraizado ao interior. E é evidente que também havia a questão familiar. Eu fui para a cidade sem o apoio dos pais. Éramos e somos muitos irmãos e portanto fomos um grupo de irmãos estudar. Alugou-se uma habitação e foi entre nós que a gente conseguiu, de facto, fazer aquele percurso que geralmente é acompanhado pelos pais.

Mesmo assim, o facto de ter os irmãos por perto ajudou a tornar as coisas mais fáceis?

É evidente que os irmãos ajudaram, uma delas era mais velha que eu, a suplantar a falta dos pais, e vale a pena sublinhar esta questão porque realmente isto confirma o que é na realidade. Nós, no interior, lutamos um pouco mais, sofremos um pouco mais, precisamente por não termos condições, neste caso da educação e, portanto, tínhamo-nos desenraizado do meio e da própria família para lutar e vencer, essa questão no meu caso, foi realmente uma questão que me levou a sofrer bastante, realmente custou-me a adaptar à cidade. É evidente que hoje estou perfeitamente adaptado à cidade. Mas, como digo, a fase inicial, todas as convenções e regras e os processos, os meios, os métodos, o falar, tudo isso causava alguma confusão num meio completamente ignorado. Na altura eu fui para o Porto com 14 anos e antes tinha estado no Porto duas vezes, conhecia mal a cidade, tinha poucos dados sobre a cidade.

Mas o tempo lá o habituou...

É evidente que nos fomos habituando. Começa a conviver-se e a encontrar referências que se vão também, entendendo e a gente depois há-de saber entender as normas e as regras que realmente, às vezes, são diferentes e as condições. A verdade é que a partir do momento em que se começou a estudar a gente fazia o percurso à terra trimestralmente, só no período das férias é que a gente voltava a reaver os pais e o ambiente de que tinha saído.

Acabado o liceu ingressou na Escola Superior de Artes Plásticas. O que o levou a seguir esse caminho?

É curioso, realmente houve sempre alguma apetência da minha parte para o brincar e o lidar com as matérias, com os materiais, tentar moldá-los… mesmo no desenho parece que, desde tenra idade, houve alguma apetência para desenhar, houve algum incentivo de algumas pessoas amigas. Na altura, poucas noções tinha sobre o que é que me ia esperar ao ingressar num curso de belas artes mas, realmente, depois dei conta que era por ali que eu me sentia capaz de realizar e, portanto, a experiência, apesar de o período ter sido de alguma instabilidade ao nível das estruturas, porquê ainda vou apanhar o período pós 25 de Abril mas, a experiência no curso acabou por ser frutuosa, sobretudo todo o experimentalismo que surgiu após a revolução. Aceitei aquilo com um certo agrado porque surgiu uma abertura bastante grande e a liberdade de a gente poder evoluir e sem condicionalismos de academismos e isso tudo no meu caso acho que me ensinou alguma coisa.

Um percurso que faz lembrar Graça Morais. Não é?

É provável. Eu não quero comparar-me, de modo algum, a Graça Morais que passa em belas artes talvez três, quatro anos antes de mim. Ainda frequentámos a escola juntos, estaria eu, talvez, no primeiro ano, portanto conheço pouco do percurso dela na escola. A verdade é que a Graça segue um rumo que lhe permite a projecção que ela hoje tem. Ela vai para os grandes centros, vai para Lisboa e para além da apetência e da capacidade inata dela, é evidente que a aproximação aos centros de decisão ajuda sempre muito para poder divulgar a nossa obra.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Natália e José

Setenta e seis recém feitos tem Natália. Setenta e nove tem José. Muitos anos de casados. Quatro filhos, quatro netos. Muitas vivências. Muitos sofrimentos, muitas alegrias. Lutas sem fim...
Hoje apanham as castanhas dos parcos castanheiros que o tempo não levou. Ontem separava-os o imenso oceano e, do lado de lá, era calor.
Todos os dias José saía de madrugada enquanto os filhos dormiam e para casa voltava já os filhos sonhavam.
Fazia a ronda dos quartos e em cada testa depositava um leve beijo, tão ténue e puro que os filhos sorriam sorrisos de sol.
A semana passava, a vida corria. O domingo resplandecia de magia quando, pela manhã, os quatro filhos saltavam prá cama dos pais.
- Qualquer dia partis a cama. Que malucos!
Natália saía da cama e sorria ao ver o imenso carinho do pai com os seus filhos que não descansavam enquanto não o faziam levantar.
Na cozinha, a mulher preparava o café da manhã: ovos estrelados, queijo, fiambre, manteiga, manteiga de amendoim, queijo de Minas, café acabado de fazer, leite quente, suco de laranja ou melancia ou mamão...
No quarto os filhos puxavam pelo pai e riam a bandeiras despregadas. José fazia-se difícil, quanto mais difícil, mais força era preciso utilizar e as crianças puxavam e riam.
- Venham tomar o café! Deixem o pai.
Dois agarrados a cada braço chegavam os cinco à cozinha. Que cheirinho!
Todos à mesa, cada um no seu lugar, falavam e riam passarinhando sem cessar, atropelando mutuamente as palavras que fluíam livres.
- Está frio homem! Já tenho as mãos que nem as sinto. Já chega! Elas não valem o trabalho que dão.
Outono em Trás-os-Montes. Os filhos casados, cada qual na sua vida por este mundo de Deus. Custa-lhes votar ao abandono o pouco que os pais lhes deixaram e, por isso, sacrificam-se na apanha da castanha. O pensamento voa para tempos mais felizes. Os risos nos ouvidos enganam os picos dos ouriços nas mãos já desabituadas destes trabalhos.
- Vamos mulher, são horas de ir para casa.
Sempre apaixonados, carregam às costas a pequena saca de castanhas. O carro não está longe.

Mara Cepeda

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Convite para o lançamento de "Ls Quatro Eibangeilhos" de Amadeu Ferreira


Amadeu Ferreira, depois de ter lançado a sua tradução para mirandês dos "Quatro Evangelhos" em Lisboa, evento de que demos conhecimento neste blogue, vai fazê-lo agora, em Miranda do Douro, no próximo dia 26 de novembro, pelas 15 horas na Sé de Miranda do Douro.

Folhas

Rodopiam,
dançam,
bailam,
em braços de ágeis príncipes,
as folhas

Em bátegas grossas
nuvens em lágrimas
fecundam a terra,
grávida de promessas,
que a primavera
há de cumprir

Aniquilam as folhas
gotas poderosas
e príncipes belos
guerreiros tenazes
cavalgam ventos
duros capatazes

Suspiro saudades
Anelo flores,
Sonhos perdidos…
Folhas bailam,
Num doce torvelinhar…


Mara Cepeda

Magusto no Agrupamento de Escolas Paulo Quintela

Os cerca de 1400 alunos do Agrupamento de Escolas Paulo Quintela, em Bragança, tiveram esta quinta-feira um dia diferente. Pelo terceiro ano consecutivo, a escola organizou um magusto para todos os alunos do agrupamento, incluindo os das escolas da zona rural.
A pequenada delirou com as actividades, sobretudo com os passeios de carroça e de burro.
"Gostei muito, sobretudo de andar de burro", conta Alexandre, um dos alunos. Outra colega gosta "de andar de burro e da música", tal como outra colega, que surge de cara pintada de negro "com a fuligem da castanha".
Este ano, o magusto serviu também para assinalar o hastear da bandeira verde, ganha no âmbito do projecto Eco Escolas, pelas actividades desenvolvidas nas áreas da Energia, resíduos, água, floresta e biodiversidade.
De acordo com Eduardo Esteves, o coordenador do programa, será para continuar.
"É o primeiro programa nesta escola, foi lançado no ano passado, a semente foi bem acolhida e germinou. Esta é a nossa primeira bandeira, esperemos que seja a primeira de muitas. O programa tem uma vertente de sensibilização ambiental. O que se pretende com este programa é envolver a comunidade educativa e os alunos. Era um programa até aqui desconhecido. Fazemos votos de conseguir uma nova bandeira no final do ano, que certifique que temos uma forte preocupação com as questões ambientais."
Ao longo do último ano lectivo os alunos participaram numa série de actividades, como uma horta pedagógica, sensibilização ambiental, recolha de resíduos, que inclui a recolha de mais de 50 quilos de resíduos eléctricos e electrónicos.
O presidente do Agrupamento, Luís Freitas, diz que este magusto foi também uma forma de celebrar o dia de S. Martinho.
"É para reviver as tradições. Decidimos sempre trazer os nossos alunos à escola sede para partilharmos todos este momento. Há vários jogos, dinamizados pelos professores, umas barraquinhas com compotas e frutos tradicionais, que os professores foram confeccionando com os alunos."
Também houve um concurso de bolos que envolveu os pais das crianças.
As castanhas foram assadas no maior assador do Mundo, emprestado pela autarquia de Vinhais.

Retirado de:
Brigantia

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Melancolia

Não me adulteres o pensamento
que eu queria só de leitura,
esquecimento.
Não quero preocupações,
hoje não,
talvez amanhã de manhã
eu seja outra que não a que lê em solidão.
Talvez seja mulher.
Agora só quero ser o que leio,
pedra,
montanha,
mar revolto,
onda que quebra violentamente na praia,
bacalhoeiro à deriva nos mares do norte.
Tudo, menos ser quem sou...
relutante na resposta,
desatenta, 
obrigada,
forçada
e tu.
Terei, talvez,
uma lápide
no cemitério da terra onde vivo.

Mara Cepeda

Fotos de Freixo de Espada à Cinta - Agosto de 2011

domingo, 13 de novembro de 2011

O escultor Hélder de Carvalho concedeu-nos a 18ª entrevista

Hélder José Teixeira de Carvalho é natural de Carrazeda de Ansiães.
Desenvolve a sua atividade profissional em duas vertentes: a escultura e o ensino.
Tem muitíssimas obras expostas em Portugal e no estrangeiro.
Leciona no Instituto Politécnico de Bragança.
Esta entrevista foi realizada em 2005 na Rádio Bragançana - RBA.
Foi um prazer realizar esta entrevista que nos mostrou alguém muito humilde, muito exigente consigo próprio, trabalhando no sentido de melhorar sempre, conferindo aos seus trabalhos um potencial de criatividade e genuinidade.

Obrigados

sábado, 12 de novembro de 2011

Chuva

Não sei que poder exerce em mim um dia de chuva.
Sinto que, mais do que os incómodos ou benefícios que possa causar,
me traz melancolia...
Nem sempre foi assim.
Em São Paulo, era eu menina,
quando vinha da escola e chovia
ia a pé para casa, molhava-me até aos ossos.
Chegava a casa feliz, quente, de alma lavada
a minha mãe ralhava e eu, simplesmente, não ouvia.

Entrego-me a este devaneio,
a este desassossego porque chove.
Estamos no outono
nas cores de atapetam o chão
nas folhas que ainda insistem em permanecer nas árvores.
O vento ainda não concluiu o seu trabalho de deitar abaixo as folhas.
Diverte-se a despentear cabelos ao vento.
É frio o vento de outono
É fria a água de outono
Não libertam
Não aquecem o corpo e a alma
Desassossegam, deste desassossego que não consigo explicar.

Mara Cepeda

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Castanheiros

«A Bela Adormecida» - pelo Russian Classical Ballet

Teatro Municipal de Bragança
04-12-2011
16h00
Entrada: EUR 10,00
Reservas: 273302740 / 27330274 (reservas)

Espectáculo promovido pelo Classic Stage e protagonizado pelo Russian Classical Ballet, com música de Pyotr Ilych Tchaikovsky, libreto de Ivan Vsevolojsky e Marius Petipa, coreografia de Marius Petipa, cenografia de Evgeny Gurenko, figurinos de Irina Ivanova e desenho de luz de Denis Danilov.
"A Bela Adormecida", baseado no conto de Charles Perrault "La Belle au bois Dormant", bem ao estilo francês do século XVIII, é considerado um dos bailados que maior interesse desperta junto do grande público. Dançado por todas as companhias do mundo, esta obra-prima de Tchaikovsky é, sem dúvid,a uma das mais belas páginas do ilustre compositor russo.
A relação da música de Tchaikovsky com a coreografia de Petipa é de tal forma perfeita que seria difícil imaginar outra leitura da partitura. Por isso, música e coreografia numa simbiose genial fizeram com que esta peça fosse considerada a obra emblemática da dança clássica.

Entrevista com Doutor António Rodrigues Mourinho

Chamamos à entrevista “à procura das tradições”.

Nasceu em Sendim, Trás-os-Montes. De que forma o facto de ter nascido nesta região o marcou?

O facto de ter nascido na região de Miranda, posso dizer-lhe que me marcou praticamente toda a minha vida. Apesar de eu ter saído aos doze anos, fui estudar para o seminário das missões de Tomar, os missionários da Boa Nova. Estive um ano fora, mais precisamente, um ano e três meses. No natal de 1956 vim para o seminário de Vinhais já no segundo ano. A minha vida cultural passou-se praticamente toda na região do nordeste e senti e vivi tudo o que há de bom; tudo o que há de falta; tudo o que há de grande na alma da nossa gente, neste povo que não passa fome e não passa fome porque trabalha e era isto que nós gostaríamos de ver as novas gerações fazer, que continuassem a trabalhar e que não se fintassem naquilo que vem do alto, seja dos governos, seja das juntas, seja das câmaras, seja dos Governos civis e até nem dos próprios pais. Os pais estão para os ajudar, mas eles têm que fazer esforço se quiserem um dia enfrentar a vida. Desculpe eu desviei-me um pouco mas, é isto que eu penso.

Guarda boas lembranças da sua juventude?

Lembro-me de muitas coisas da minha infância. Fui criado em Duas Igrejas, com o meu tio, o padre Mourinho que Deus haja até aos sete anos, depois fui para Sendim onde fiz a instrução primária junto dos meus pais mas, de vez em quando, vinha para Duas Igrejas e habituei-me a ver por lá muitas coisas que ele, o padre Mourinho, ia vendo e recolhendo, ia executando, ia escrevendo e isso foi para mim um incentivo mas não tenho consciência de lhe ter copiado nada.

Nasceu nessa altura o seu amor pela história?

O meu amor pela história já nasceu comigo. Sempre gostei de história. No meu quarto ano do seminário a primeira nota que tive a história foi um oito mas, depois isto começa-se com um nada e termina-se como Deus quer e como as pessoas querem.

De que forma viveu e vive o facto de ser um filho da língua mirandesa?

A língua mirandesa não é uma desilusão mas, um destino que quase todas as línguas minoritárias levam. Eu falo a língua mirandesa, falo sendinês. Quero dizer-lhe que na minha infância nem os meus irmãos falavamos mirandês e não falamos mirandês, eu disse-o bem claro aqui há dias numa reportagem do jornal de noticias. Disse que naquela altura os meus pais e muitos outros pais não gostavam que se falasse sendinês, não gostavam que se falasse mirandês e havia professores que também não gostavam que os alunos falassem mirandês e ainda não há muito tempo na escola de Miranda do Douro os professores se queixavam que os alunos confundiam o português com o mirandês e hás duas por três misturavam o português com o mirandês e hoje muita dessa gente que escreve mirandês está a fazer um português/mirandês ou um mirandês/português e às vezes não faz nada. Nós que estudámos, que saímos da nossa terra, que estudámos nas universidades temos, às vezes, certa dificuldade em falar mirandês e se o quisermos falar temos que o falar muito devagar para não meter neologismos para não meter portuguesismos, porque a língua foge-nos para aí. Ainda não vi um universitário que tivesse saído da sua terra e que estudasse na universidade, ou que estudasse nos próprios liceus longe  daqui e mesmo aqui depois de ter estudado o português, não os vejo a falar correctamente o mirandês e por isso mesmo é que o mirandês está em perigo de ser absorvido pelo português.

Acha que se corre o risco de misturar as duas coisas e perder-se o mirandês de origem?

Tanto se corre o risco que nós vemos coisas que se escrevem para aí num mirandês aportuguesado que não tem jeito nenhum. Há uma catedrática da universidade de Lisboa que há trinta anos fez uma tese sobre o mirandês, percorreu as aldeias muito discretamente, até em segredo, passados trinta anos volta à terra de Miranda e diz que o mirandês está completamente deturpado. O mirandês, como eu o ouvi falar há cinquenta anos e o sendinês como eu o ouvi falar da parte dos meus pais, do meu próprio padrinho, que Deus haja, que falava com a minha avó um sendinês correcto. Há muita gente que não quer distinguir mas, nós temos de distinguir. O sendinês tem uma fonética própria, tem uma morfologia própria. O sendinês tem muitos termos castelhanos e tem termos que não sabemos de onde vêm mas, temos que os procurar no hebraico ou até no próprio árabe. Nos finais do século XV e durante todo o século XVI Sendim foi uma colónia judaica das maiores, ali escondida e de Espanha para Portugal vieram os judeus e com os judeus veio a própria língua e ali tudo se misturou. Eu estou agora a juntar todas as palavras castelhanas que há no sendinês, desde nomes próprios, nomes de frutos, nomes de ruas, nomes de elementos arquitectónicos, elementos da natureza. O sendinês, acho que é uma coisa à parte, embora seja mirandês é preciso respeitá-lo religiosamente. Leite de Vasconcelos faz essa distinção e ninguém como ele a podia fazer, porque há cem anos em Sendim falava-se o sendinês nítido, falava-se o mirandês puro. Porque é que hoje não se vai procurar essa pureza de linguagem? Eu não concebo uma língua que não seja uma língua pura, o próprio português, há dias ouve um congresso sobre a língua portuguesa em que participou o Presidente da República e disse que o português estava cada vez  mais decadente, porquê? Porque não se lê, porque não se escreve, porque não há gramática nos liceus. A língua vai-se degradando. O próprio Eça de Queiroz fala da língua portuguesa como uma língua remendada, ele próprio vai meter termos ingleses e franceses. Eu admiro o Camões, admiro e admirarei sempre os clássicos em tudo, eu admiro os clássicos na história, eu admiro os clássicos na pintura, na escultura, na arquitectura e na literatura, principalmente, Camões.

18ª entrevista

Aproxima-se o fim-de-semana e, a exmplo do que temos feito até aqui, postaremos a entrevista nº 18. Desta vez, o nosso entrevistado é o escultor Hélder Carvalho.

Magusto de São Martinho

Em muitos lugares é hábito fazer-se o magusto. Ontem fizémo-lo no Agrupamento de Escolas Paulo Quintela. Contámos, para além de todos os alunos, professores e funcionários do agrupamento, com o maior assador de castanhas do mundo, pertença da Câmara de Vinhais.
Foi um dia diferente, onde todos os alunos tiveram oportunidade de desenvolver diversas atividades. Puderam, por exemplo, andar de carroça, andar a cavalo num lindo ponéi, escrever quadras alusivas ao tema do S. Martinho no Mural das Quadras, dançar, cantar, comprar compotas e outros alimentos confeccionados por professores, alunos e funcionários e, claro, comer as castanhas assadas no gigantesco assador.
Para os pais realizaram-se dois concursos: um literário que previa a escrita de um conto sobre o Outono Transmontano; outro de sobremesas confecionadas com castanhas. Relativamente a este último, é de referir que apareceram sobremesas maravilhosas dificultando a tarefa do júri na escolha das melhores.
Os textos do concurso literário estão a ser analizados pelo júri que, brevemente, divulgará o vencedor.
É de referir que ontem não choveu embora o dia se tenha mostrado farrusco, cinzento...

Mara Cepeda 

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Outono

Chove muito neste outono bragançano.
Como todos os dias, coloquei o telemóvel para despertar às sete horas e levantei-me com vontade de não o fazer. O dia chovia já, ininterrupta e constantemente.
Sempre gostei da chuva e do vento. Sempre gostei do aconchego de um livro enquanto lá fora chove.
Nada mudou nesse aspecto mas, agora, entra em mim tamanha melancolia que me misturo na chuva que cai e molha os campos.
Envolvo as castanhas que, desamparadas caem, enlameando-se na terra que lhes dá a vida.
Apanham-se as castanhas envoltas em dores nas costas e nas pernas de quem faz delas desafogo das muitas contas que é necessário pagar.
Os velhos continuam, insistentemente, a sua tarefa de as apanhar, esquecidos por quase todos, nas nossas pequenas aldeias.
Custa-lhes vê-las a forrarem o chão que tanto custou a ganhar e, mesmo com grandes sacrifícios que poucos jovens querem assumir, juntam-nas, porque o dinheiro faz muita falta, porque os filhos e os netos gostam delas e é "preciso dar-lhe uma mãozinha de castanhas".
Trás-os-Montes produz toneladas e toneladas deste fruto que em tempos alimentou muitas famílias, literalmente.  
A Terra Fria oferece, com a melhor das boas vontades, aquilo que pode, sujeita às condições atmosféricas.
É quase S. Martinho e o verão que todos os anos dá o ar da sua graça não quer chegar. O cheiro a castanhas assadas não se espalha pelo ar. A chuva não deixa, o vento não o traz.
Faz frio no outono de Bragança e a chuva entristece mais do que liberta.
  
Mara Cepeda

Olá amigos!

Por motivos de ordem pessoal não conseguimos postar novas mensagens no nosso blogue durante estes três dias. Vamos fazê-lo hoje, pedindo muitas desculpas por este pequeno interregno.
Continuamos a contar com a colaboração de todos.

Bem hajam por continuarem a acompanhar este nosso pequeno contributo para a divulgação de Trás-os-Montes.

sábado, 5 de novembro de 2011

Aqui está a 17ª Entrevista.

O entrevistado desta semana é o Professor Doutor António Rodrigues Mourinho, natural de Sendim, concelho de Miranda do Douro.
Contamos com a sua participação.

Bem hajam

Entrevista com o Padre Jaime Nuno Cepeda Coelho

Nasceu em Soeima concelho de Alfandega da Fé. É, portanto, um transmontano. Fale-nos da sua infância na aldeia.

A minha infância foi uma infância normal, de uma criança normal, de uma criança da aldeia. Era filho de uma professora da aldeia e tinha a alcunha de “professor” que me indignava e por causa da qual tive algumas lutas com os meus companheiros, coisa de que agora me rio.

Mas essas lutas até eram saudáveis…

Sim. Não havia sangue. Era só para saber qual era o primeiro que conseguia deitar o outro abaixo e terminava tudo.

Que condicionalismos fizeram com que fosse jesuíta?

Foi a passagem de um missionário em Soeima. Um missionário jesuíta que eu muito admiro que era o padre Ferraz que, infelizmente, já faleceu. Impressionou-me. Não me lembro o que dizia mas impressionou-me a maneira como ele falava de Jesus. Depois soube que ele era jesuíta e em vez de ir para espiritano, onde já tinha um irmão mais velho a estudar, decidi ir para jesuíta porque os meus pais criaram-nos a todos com muita independência. Lembro-me que quando tinha nove anos perguntaram-me para onde queria ir e eu é que lhes perguntei a eles e eles disseram: “ Como tu já és um homem, tu decides e depois avisas-nos” e assim foi a minha vocação para jesuíta.

Fale-nos um pouco da sua vida de seminarista.

Fiz o curso que se faz nos liceus. Era um seminário muito aberto em Macieira de Cambra no concelho do Porto. Comíamos bem, tínhamos bons professores, de maneira que foram uns anos muito felizes na minha vida em que aprendi a nadar no rio Caima e estudei muito e depois fui para os jesuítas, oficialmente, em Braga onde entrei na Universidade da companhia de Jesus.

Há quantos anos está no Japão e como foi a sua adaptação a uma cultura tão diferente da nossa?

Estou há quarenta e quatro anos. Adaptei-me porque vivia com outros estrangeiros, tínhamos uma boa organização lá e já tínhamos uma grande tradição portuguesa no Japão porque fomos os primeiros a chegar lá em 1543 e eu, quando cheguei lá, foi como se entrasse em casa própria porque tinha lido muito sobre o Japão e entendo-me com os japoneses como me entendo com os portugueses.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Poema irmão

Peço desculpa, Amadeu, pelo abuso, pela veleidade de tentar escrever em mirandês. Prometo não o voltar a fazer até ter aprendido alguma coisa dessa língua que admiro e respeito.
Agradeço a correção do meu textinho que mais não é do que uma tentativa bastante pobre de poetizar.

O pequeno poema "ye lhargo l delor" é baseado num belíssimo poema de Amadeu Ferreira, publicado no seu blogue "cumo quien bai de camino". Admiro muito a forma como consegue transmitir as suas ideias, os seus sentimentos, através da escrita, tanto em mirandês como em português.
Os meus gatafunhos nunca se poderão comparar à sua escrita. Eu tento encrever, Amadeu Ferreira escreve como verdadeiro poeta que é.

Mara Cepeda