terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Bispo de Bragança–Miranda “preocupado” com estado do património religioso.

 O bispo da diocese Bragança-Miranda manifestou preocupação com o estado de "degradação" de alguns dos mais emblemáticos templos religiosos do nordeste transmontano.

Segundo D.José Cordeiro , há templos que necessitam de intervenção, tais como a concatedral de Miranda do Douro, as igrejas de Torre de Moncorvo e Freixo de Espada à Cinta ou o mosteiro de Castro de Avelãs (Bragança).
"Temos, na região, um conjunto de imóveis religiosos referenciados e com grande valor arquitetónico, artístico e cultural. Algum desse património tem andado descurado, embora esteja a ser feito um trabalho em articulação com entidades competentes, para que algumas dessas preocupações deixem de existir", acrescentou o prelado.
A ideia do bispo diocesano passa pela criação de um circuito destinado ao turismo religioso na região, dignificando-se, ao mesmo tempo, os lugares onde a igreja se reúne para as orações.
Apesar de se iniciarem os primeiros passos por parte da Direcção Regional de Cultura do Norte (DRCN), no sentido de recuperar alguns templos, o chefe do clero no distrito de Bragança espera que todo o processo de recuperação dos templos esteja concluído "o mais brevemente possível".
"Mesmo em tempos de crise e de austeridade não se pode diminuir a aposta na cultura por é nela que está espelhada a cultura de um povo, como é caso da concatedral de Miranda do Douro que, por ano, recebe milhares de visitantes", frisou.
Fonte da DRCN avançou que têm sido efetuadas obras em vários imóveis religiosos na diocese Bragança-Miranda e, a título de exemplo, foi deixado o trabalho feito na igreja de Santo Cristo, em Outeiro (Bragança), realizado em parceria com a câmara de Bragança entre outras intervenções.

Retirado do site "rba.pt"

IPB festeja 29 anos

Em Junho a cidade de Bragança vai receber o segundo Encontro das Universidades de Ciências Aplicadas. A novidade foi avançada ontem pelo presidente do Instituto Politécnico (IPB)durante as comemorações de 29 anos daquela instituição de ensino.

“Há um grande movimento afirmativo ao nível da Europa, das chamadas Universidades das Ciências Aplicadas, no qual Portugal, que foi membro fundador, está incluído tal como o IPB”, explica Sobrinho Teixeira, acrescentando que “engloba países como a Finlândia, a Irlanda, a Dinamarca, a Alemanha, a Noruega”. “O primeiro encontro foi no ano passado em Helsínquia, e posso anunciar que de 2 a 5 de Junho Bragança irá ter o segundo encontro”, adianta.
Sobrinho Teixeira admite que o grande desafio da instituição num futuro próximo passa pela reorganização de cursos, que o ministério está a estudar, mantendo a dimensão do IPB. “O que nos preocupa é que haja uma visão nacional de uma cobertura territorial resultando numa maior concentração de formações no litoral e num subsistema em detrimento de outro” afirma, defendendo “que se deve manter a actual percentagem dos subsistemas”. “O reordenamento da rede e a reorganização de cursos tem de ter em conta estas realidades e não apenas as realidades de mercado e das apetências dos alunos. Também tem de se perceber o que é que o país precisa em termos de empregabilidade e está demonstrado que os sistema politécnico tem mais empregabilidade que o sistema universitário”.

Instituto vai ter cursos leccionados em inglês ainda este ano

A cerimónia comemorativa contou com uma Oração de Sapiência proferida pelo bispo de Bragança-Miranda, D. José Garcia Cordeiro. A entrega de bolsas, prémios e diplomas aos alunos, bem como de medalha comemorativa aos funcionários docentes e não docentes que completaram 10 e 20 anos de serviço, foram outros dos pontos altos do aniversário.
O Instituto Politécnico de Bragança vai ter cursos leccionados em inglês este ano.
De acordo com o presidente do IPB, o objectivo é trazer mais alunos para a instituição. “A decisão está tomada. Vamos agora ver quais são os cursos porque nós sentimos que para internacionalizar mais a instituição já é necessário dar esse passo e isso vai exigir um esforço muito grande”, refere Sobrinho Teixeira, acrescentando que “o objectivo dos cursos em inglês não vai ser só para os alunos estrangeiros mas também levar a que os alunos portugueses também queiram receber aulas nesta língua porque isso vai aumentar muito o seu mercado de trabalho”. Ainda assim confessa que o principal objectivo é “aumentar o número de alunos de países europeus e extracomunitários e isso só é possível dando cursos integralmente em inglês”.O anúncio de quais os cursos a serem leccionados em inglês virá apenas mais tarde. Isto vai tornar o politécnico maior. Com alunos portugueses em mobilidade mais os estrangeiros, já há quase mil. “Nós iremos escolher cursos em diferentes áreas procurando ter aqui uma abrangência grande o que irá tornar o politécnico maior e com mais capacidade” afirma. “O nosso objectivo é ultrapassar o milhar de estudantes estrangeiros tornando a cidade de Bragança mais cosmopolita” salienta.
Sobrinho Teixeira acredita que os cursos em inglês são uma medida que vai aumentar a qualidade dos parceiros da instituição.
Retirado do site "jornal.nordeste.com"

Caretos de Ousilhão

Os Caretos ou Mascarados de Ousilhão têm na Festa de Sto Estêvão o móbil da sua celebração. Cremos que terá sido a cristianização de rituais mais antigos, pré-cristãos, o alicerce de toda a actuação. Seria um expulsar das forças adversas da aldeia e casas e a propiciatória celebração das forças do bem do deus Sol ou do fogo fonte de vida. As celebrações iniciam-se a 25 de Dezembro e é conhecida por «Festa de Natal», em que o «Rei» e quatro moços, por ele convidados, fazem a «ronda» do peditório ou das Boas-Festas, de casa em casa, seguidos por um grupo de jovens mascarados que dançam, chocalham, gritam e cantam:

Estas casas estão caiadas,
Cá por drento, cá por fora,
Muntos anos vivam nelas,
Os senhores que nelas moram!

A 26 de Dezembro, os mordomos, («Rei» e dois vassais ou vassalos), acompanhados de tocadores e dos rapazes mascarados ou caretos, fazem nova ronda ou alvorada, esta em hornra de Sto Estêvão. Vão de casa em casa, pelos sete bairros da aldeia, pedindo, dançando em torno da mesa posta com iguarias e bebidas e cantando:

Alebantem-se ó senhores
Desses teus escanos dourados
Dai a esmola ao Santo Estêvão,
Que ele vos dará o pago!

Terminada a ronda, o «rei» e os vassais vão para a igreja e inicia-se a missa, que assistem junto ao altar. Ali é eleito o novo Rei e vassais ou mordomos para o ano seguinte e benzido o pão. Terminada a missa organiza-se o cortejo com carro de bois em que seguem os mordomos e as oferendas, seguidos dos mascarados e dos presentes. Dão uma volta à igreja e voltam ao largo onde está a «Mesa (corrida) de Sto Estêvão» ou «Mesa do Povo» com as oferendas e que é benzida pelo padre, passando-se ao leilão e arrematação da mesa. Enquanto isto, alguns dos ajudantes vão partindo e dando uns cibos dos trigos e vinho às pessoas. A festa continua à noite com a «galhofa» onde baila toda a minha gente. É desconfortante ver que o pão não é produzido na aldeia, vindo duma padaria de Bragança. Hoje o Rei já não convida as pessoas para sua casa para comerem e beberem como, ainda, sucede nos Reis, em Vale de Salgueiro. O peditório do primeiro dia destina-se à Igreja e o do segundo é para ajudar a custear as despesas e juntar mimos do fumeiro para comezaina dos rapazes. Abezei, como dádiva, para temperos, uma bela tira de carne de porco bísaro regalo do Anselmo. Muitos dos ousilhanenses da diáspora regressam à terra, nestes dias, para reviverem a tradição. Este ano, por calhar a uma segunda-feira teve menos gente. Fui convidado do Prof. Luís Garcia, que me deu todas as atenções e explicações, juntando em sua casa a família Flandório (Ferrador, de Vale de Salgueiro). A refeição foi junto à lareira onde os nacos e o rodeão de vitela, de Vinhais, iam assando, com um aroma e paladar divinais. O vinho «Ferrador» afastava o frio para bem longe. Para além da festa, marcou-me a harmonia e laços fraternos que unem a família do Flandório e que devem ser motivo de orgulho para este amigo. Fui tão bem recebido que me senti como mais um entre esta família, por isso lhes estou grato.

Nota: Ousilhão é uma aldeia do concelho de Vinhais, distrito de Bragança - Portugal.

Retirado do site: jornal.netbila.net

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Um Inverno, quase Bragança

Manhã cedo, sono leve, salto da cama mais habituada às baixas temperaturas que se fazem sentir durante a noite/madrugada. Visto-me, vou à casa de banho onde me lavo, mal, com a água quase congelada do cântaro que ali havia deixado com esse propósito.
Fui para a cozinha onde ainda não estava ninguém. O lume estava apagado e não havia lenha para o acender, não que eu o soubesse fazer mas, se a houvesse, podia sempre tentar, quem sabe…
Sentei-me, enrolada numa manta que estava sobre o escano e aguardei, impaciente, que alguém se fizesse sentir.
Algum tempo depois, meia hora talvez, surge o meu avô. “Ó rapariga, que é que estás a fazer a pé tão cedo com este frio?” “A tia disse que vamos para Bragança.” “Isso sei-o eu, mas a tua tia gosta mais de dormir do que tu. Ainda vais ter de esperar um bocado. Deixa-me acender o lume que deves estar gelada.” Era verdade! Estava realmente com frio e tinha os pés e as mãos nada quentes.
O meu avô abriu a porta e eu fui atrás dele. Estava farta de estar ali sentada sem fazer nada. Podia ser que me ajudasse a aquecer. Estava tudo completamente branco de geada. Dos beirais das casas penduravam-se belos pingentes de gelo. A água do tanque tinha por cima uma grossa camada de gelo que eu tentei partir com uma pedra que ali havia. Esforço infrutífero. Não consegui fazer a mais pequena mossa naquele bloco. Olhei para as minhas mãos e vi que estavam vermelhas, muito vermelhas. Não me importei. Parecia uma criança à descoberta de tesouros únicos.
Junto à parede exterior da casa virada para o tanque existia uma enorme e antiga roseira, agora completamente despida de folhas mas cheia de flores brilhantes de cristalino gelo. No adro da igreja, as oliveiras da Senhora, pareciam princesas enfeitadas para o seu casamento. Tantos pingentes a reluzir no alvorecer da manhã!
Olhei em volta e apaixonei-me, perdidamente, como no poema de Florbela Espanca. A paisagem que circundava a, agora, minha aldeia, era deslumbrante, inopinadamente, descobri que era ali que eu me encontraria sempre que fosse necessário encontrar-me…
Ouvi, como num sonho, chamar por mim. Lentamente regressei ao frio. Virei-me para a casa com algum vigor e escorreguei. Não sei como, agarrei-me ao rebordo do tanque e, muito a custo, consegui equilibrar-me. Vi o meu avô, à porta, a mandar-me entrar. Encaminhei-me para casa não sem alguma dificuldade de que só agora me apercebera.
Subi as escadas e senti o bafo quente do lume aceso. O cheiro da lenha entranhava-se-me nas narinas sem que o conseguisse reconhecer. Acordava, finalmente, para a minha nova realidade de que ainda nada conhecia. O dia prometia ser longo de emoções e descobertas. O tempo tinha parado na inexistência de mim, ali, livro aberto, ávido de novos saberes.
“És bem maluquinha, filha! Com o frio que faz lá fora, tão mal agasalhada…” “Ó avô, é tudo tão lindo!” “Esta agora! Esta rapariga não é bem certa da cabeça…” O meu avô ria-se.
“Deixa-me ver as tuas mãos. Pois, estão frias como gelo. Espero que não te constipes. Aquece-te! Vamos lá fazer café.”
Foi até ao louceiro e trouxe o pote que normalmente se usava para fazer o café. Encheu-o de água e pousou no lar. Mandou-me baixar a mesa e por a toalha. Foi buscar o pão, o queijo, o presunto, uma chouriça e, claro, a chicha gorda, sua preferida. Trouxe, ainda, mel das suas colmeias. Dentro do frasco estava um favo. Abriu-o e, com a sua palaçoulo, cortou um pedacinho do favo e passou-mo para a mão em cima de uma pequena fatia de pão. “Experimenta!” Ordenou.
Assim fiz. Só quem já chupou um favo de mel pode entender aquela sensação. Lambuzamo-nos todos, sentimos na boca o mel de sabor incomparável e o sabor a cera no final. É uma experiência diferente, agradável, cada vez mais rara. Lavei as pontas dos dedos na água do lato que já aquecia ao lume. Limpei-os a um pano que por ali se encontrava.
Estava, finalmente, quente, reconfortada… A minha avó apareceu vinda do nada. Deu os bons dias. Dei-lhe um beijo. Sentou-se num tripé quase em cima das brasas. Tinha frio.
O café estava pronto, comíamos os três em silêncio, eu, apreciando os novos sabores, eles, silenciosamente sábios, dos muitos anos já vividos, observavam.
Lá fora brilhava o sol coberto de inverno, lindo!
“Bom dia! Isso é que foi madrugar!”
Bragança distava uns escassos quarenta quilómetros dali. Algumas peças de roupa numa pequena mala. O Joli a ladrar alegremente. A gata a miar aninhada junto à lareira…
“Vamos embora. Até amanhã.” “Tchau avô, tchau avó!” O pequeno e valente carro verde, retirado da garagem, responde à primeira. Patina ligeiramente. O choro dos pingentes de gelo é preguiçoso.        

Mara Cepeda
(As fotografias são do meu irmão Eduardo) 

Bragança é uma cidade atrativa para estudantes oriundos de outros países

Bragança é uma cidade atractiva para os estudantes oriundos de outros países. Quem o diz é o presidente da Câmara de Bragança, que participou, no passado sábado, no VIII Encontro de Imigrantes, promovido pela autarquia. Jorge Nunes mostrou-se satisfeito com a participação de 258 imigrantes no evento.
“Houve uma grande afluência, de pessoas de 21 países, a maioria jovens, muitos estudantes, do IPB e da Escola Prática Universal. Alguns casais com os filhos nas escolas e devidamente integrados, pessoas que trabalham, num total de 800 cidadãos estrangeiros legalizados em Bragança, o que é significativo na nossa cidade”, afirma o edil.
Mesmo assim há muitos imigrantes que já regressaram aos seus países por falta de emprego. O decréscimo da actividade na construção civil também estará na origem do regresso de alguns imigrantes aos seus países. Jorge Nunes afirma que este é um fenómeno a nível nacional.
“A nível do País e Bragança não fugirá a essa situação a redução da actividade económica e o aumento de desemprego levou algumas comunidades imigrantes a procurar outras paragens e até a rumar aos seus países de origem. Essa redução é na ordem dos 17 por cento”, constata o autarca.
Durante o encontro, os imigrantes participaram em provas desportivas e fizeram demonstrações gastronómicas dos seus países de origem, num dia marcada pelo convívio.


Escrito por Brigantia (CIR)
in:brigantia.pt

Distrito de Bragança pode perder quatro tribunais

Os tribunais de Alfândega da Fé, Carrazeda de Ansiães, Vimioso e Vinhais podem encerrar no âmbito da reorganização do mapa judiciário. Estes quatro tribunais de 1ª instância fazem parte da lista de encerramentos que o Ministério da Justiça deverá submeter a votação na Assembleia da República até ao final do ano.
  Os autarcas transmontanos estão contra esta medida do Governo. O presidente da Câmara de Vinhais diz mesmo que o tribunal local registou um aumento de processos. Para Américo Pereira a proposta do governo é um convite à justiça pelas próprias mãos.“É uma decisão péssima. O critério que utilizam é o de menos de 250 processos, com menos de uma hora de distância à comarca mais próxima e da qualidade das instalações. No que diz respeito a esses critérios Vinhais não se integra neles. Isto é um convite para que as pessoas resolvam os problemas pelas suas próprias mãos, porque ninguém está para pegar em 10 ou 15 testemunhas e levá-las para Bragança e chegar lá e ser adiado e andamos nesta vida”, afirma Américo Pereira.  A presidente da Câmara de Alfândega da Fé considera inaceitável que os cidadãos do interior deixem de ter acesso à Justiça. Berta Nunes afirma que só as pessoas com dinheiro poderão recorrer aos tribunais
“Estamos a assistir a uma série de medidas que faz lembrar que este governo quer encerrar todo o interior. O encerramento do tribunal vai fazer com que os nossos munícipes deixem de ter acesso à justiça. Porque se vamos ter apenas uma comarca e toda a gente tiver que se deslocar a Bragança para qualquer julgamento só as pessoas com dinheiro poderão ter acesso à justiça. Vamos lutar contra isso e certamente que não vamos lutar sozinhos”, garante Berta Nunes.
Já para o autarca de Vimioso o encerramento do tribunal vai contribuir para a desertificação do concelho. José Rodrigues teme pelos postos de trabalho que podem ser extintos.
“É uma situação má para o concelho, o nosso concelho está bem financeiramente, temos feito vários investimentos para fixar pessoas no concelho e agora o governo encerra o tribunal que é uma frustração para nós”, afirma o autarca.
A Brigantia tentou ouvir a posição do presidente da Câmara de Carrazeda de Ansiães, mas apesar das várias tentativas José Luís Correia esteve sempre indisponível.


Escrito por Brigantia (CIR)
in:brigantia.pt

domingo, 29 de janeiro de 2012

Embora um bocadinho atrasada, aqui está a 29ª entrevista

Esta entrevista foi realizada em 2005. Muita coisa aconteceu desde então e muitas mais obras foram realizadas por Manuel Barroco.
Manuel Barroco é natural de Quinta das Quebradas, pequena aldeia pertencente à freguesia de Castelo Branco, concelho de Mogadouro.
Dois coloridos Caretos ergueram-se na rotunda próxima do Centro de Saúde de Santa Maria, em Bragança. A rodeá-los, nove máscaras em aço oxidado surgiram em blocos de granito colocados em círculo.
Esta obra vem responder a uma aspiração antiga de Manuel Barroco que não tinha nenhuma obra exposta em Bragança. 
Nesta entrevista deixou-nos o seu pensamento, as suas ideias... mostrou a sua preocupação com o futuro do Nordeste Transmontano e apontou algumas soluções mas, falou essencialmente da sua obra e da sua forma de entender a arte. 

Bem haja por nos ter concedido esta entrevista
Mara e Marcolino Cepeda

O carro do Futuro: Eng. Aurélio Araújo; alunos Luís Correia e Carlos Mesquista do IPB

Observação: Esta entrevista foi realizada em 2005. Obviamente, muita coisa mudou nas vidas destas três pessoas. O Eng. Aurélio Araújo concluiu com êxito o seu doutoramento e os alunos Luís e Carlos estão, com certeza, no mercado laboral a desenvolver um trabalho meritório nas suas áreas de atuação. 
A eles, que se dignaram conceder-nos esta entrevista, um muito obrigado.

Mara e Marcolino Cepeda

São os mentores do veículo que representa o Instituto Politécnico de Bragança no concurso Shell Eco Marathon. Aurélio Araújo, engenheiro mecânico e professor da Escola Superior de Tecnologia e Gestão do IPB e os estudantes Carlos Mesquita e Luís Correia falam do projecto que já lhes proporcionou uma Menção Honrosa naquele concurso. 

Falem-nos um pouco das vossas vidas, por favor.

Aurélio Araújo (AA) – Eu, como já foi dito nasci nos Açores. Tive uma breve passagem pelo Canadá com os meus pis, onde frequentei, durante dois anos, a escola primária e regressei para os Açores. Tenho o percurso normal até aos dezoito anos quando fui para Lisboa tirar o meu curso. Vivi em Lisboa durante doze anos, fiz o mestrado. Fui assistente do Instituto Superior Técnico e segui sempre a carreira académica embora com breves pontos de contacto com a indústria. Entretanto saiu a oportunidade de sair de Lisboa que era uma coisa que eu na altura já desejava e vim para Bragança. Estou cá desde 98, sou professor na Escola Superior de Tecnologia e Gestão e estou a concluir a minha formação em doutoramento.

Carlos Mesquita (CM) - Sou transmontano ferrenho, nasci em Mirandela de onde sou natural mas, estou a viver em Carrazeda de Ansiães numa aldeia pequena onde fiz a escola primária, o secundário foi feito na sede de concelho, em Carrazeda de Ansiães. Candidatei-me ao ensino superior e, por mero acaso, entrei para mecânica e estou a adorar. Foi a melhor coisa que me poderia ter acontecido. Entrei para mecânica e estou no quarto ano de engenharia mecânica e espero, o mais breve possível, acabar o curso.

Luís Correia (LC) - Nasci em Mirandela, moro numa pequena aldeia pertencente a esse concelho. Frequentei os estudos normais na primária também numa aldeia vizinha porque a minha aldeia não tinha escola e, depois, fui para o secundário em Mirandela. Candidatei-me ao ensino superior e a minha intenção era mesmo mecânica. Desde pequeno sempre gostei de mecânica e concorri, mesmo, para Bragança, entrei e estou a gostar.

Professor, diga-nos o que faz um açoriano em Bragança?

Biografias de Eng. Aurélio Araújo, professor e dos alunos Carlos Mesquita e Luís Correia

Engenheiro Aurélio Lima Araújo nasceu nos Açores em 1968, licenciado em engenharia mecânica pelo Instituto Superior Técnico em 1991, concluiu o mestrado em engenharia mecânica em 1995 nesse mesmo instituto onde foi assistente entre 1992 e 1998. Desde 1998 é professor adjunto na Escola Superior de Tecnologia e Gestão no Instituto Politécnico de Bragança, onde lecciona disciplina do curso de engenharia mecânica tendo sido director do mesmo curso entre 1999 e 2002; desde 1999 é coordenador de disciplinas de projecto do curso, sendo neste momento o responsável pelo laboratório de projecto assistido por computador; prepara neste momento o doutoramento em engenharia mecânica.
Carlos João Alegre Mesquita, natural de Mirandela onde nasceu em 1982, a residir em Carrazeda de Ansiães; bacharel e a frequentar o quarto ano do curso de engenharia mecânica na Escola Superior de Tecnologia e Gestão no Instituto Politécnico de Bragança.

Luís Miguel Silva Correia, natural de Mirandela, onde nasceu em 1981, a residir em Pousadas, Mirandela e a frequentar o quarto ano de licenciatura de engenharia mecânica na escola superior de tecnologia e gestão do Instituto Politécnico de Bragança.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Um inverno - terceiro dia

A noite chegou depressa. O frio que se fazia sentir, anunciava geada. O meu avô colocou mais um pau na lareira e atiçou o lume. Eu e a minha avó lavávamos a louça do almoço. Uma bacia com água e detergente, outra com água limpa para a passar. Convém dizer que a água tinha sido aquecida no lato, o que para mim era muito estranho. 
A minha tia e o meu avô conversavam sobre o azeite produzido nesse ano. A avó Maria já se tinha escapulido. 
"Ó de casa?" "Quem vem lá?" "Sou o Graciano, venho ver a Maria." "Entra rapaz, entra!"
Ao ouvir falar em mim, deixei a louça e vim ver o sobrinho da minha avó. Era um homem pequeno, rijo, dos muitos trabalhos a que a vida o tinha obrigado. Desde tenra idade, órfão de mãe que o pai nunca o conheceu, trabalhou como criado em algumas casas mais abastadas, cresceu, casou, teve sete filhos e nenhum sobreviveu. Perdeu a mulher, pensou desistir mas, o amor da tia conseguiu trazê-lo de volta à vida, à terra.
Desde então trabalhava o pouco que tinha e sobrevivia. Ajudava e era ajudado pela minha avó. Era bastante mais velho que a minha mãe que considerava irmã.
Viu-me e abraçou-me como quem não lida com afectos há muito tempo, sem jeito, atabalhoadamente. Falava muito e eu não entendia nada. O calão funcionava como uma bengala, o que me escandalizava. Nunca me consegui habituar a este jeito de ser do povo das nossas aldeias. 
"És quase tão bonita como a tua mãe, c... a tua mãe era a rapariga mais pimpona destas aldeias todas ao redor, c..."
Bem, pelo menos fiquei a saber que a minha mãe fora uma bela rapariga, pesem embora as palavras mais castiças que usava com esmero. 
"Queres um copo, Graciano?" "Se mo dá, não digo que não, c..."
Lá bebeu o seu copito de vinho, perguntou pelos meus pais e irmãos e prometeu voltar amanhã com um "cibo de lombo da adóba dos salpições." 
"Amanhã não Graciano, vamos pra Bragança." - diz a minha tia. "E quando vindes?" "Na quinta." "Então será na quinta..." 
Despediu-se. Fez-se silêncio. O silêncio é bom.
"Ó de casa?" "Entre tia Engrácia." "Estou zangada convosco, que ainda não me fostes ver!" "E tempo? Isto, por causa da garota, tem sido um corrupio".
"Então Maria, como estás filha? Viste a minha rapariga antes de vir?" "Sim. Ela mandou-lhe uma lembrança. Vou buscá-la."
Saí, aliviada por poder tomar fôlego por breves segundos. De imediato me arrependi ao receber no corpo um frio tão denso que quase me paralisou. A casa estava bem feita, tinha paredes grossíssimas, janelas com vidros e portadas mas, mesmo assim, a aragem era quase palpável. Enchi-me de coragem e continuei para o meu quarto a fim de ir buscar a encomenda da tia Engrácia. Abri a mala e depressa a encontrei. Já mal sentia as mãos de tão geladas que estavam eu, que me considerava uma pessoa com boa resistência ao frio.
No lar, falavam animadamente. Apercebi-me que combinavam a matança do porco para sábado, logo a seguir ao Ano Novo. Lá ia participar num ritual de inverno que já conhecia de tantas vezes o ouvir contar aos meus pais.
Longe da terrinha, as lembranças são mais vívidas, tão nítidas que o seu relato se revela um filme que visualizamos na perfeição.
Estava cansada. Tinha comido uma sopa e um pedacinho de pão com chouriça e uma maravilhosa maçã que, mesmo enrugada, sabia a mel, a sol...
Abriu-se-me a boca. O lume estava quase apagado. "Até amanhã para todos. Durmam bem."
"Tu também. Se precisares de mais um cobertor diz." "Não, que quase não me consigo mexer.
Findo o terceiro dia, aguardo, ansiosamente, que venha o próximo.

Mara Cepeda

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Cursos do IPB com aulas em inglês

O Instituto Politécnico de Bragança vai ter cursos leccionados em inglês este ano.De acordo com o presidente do IPB o objectivo é trazer mais alunos para a instituição. “A decisão está tomada. Vamos agora ver quais são os cursos porque nós sentimos que para internacionalizar mais a instituição já é necessário dar esse passo e isso vai exigir um esforço muito grande” refere Sobrinho Teixeira, acrescentando que “o objectivo dos cursos em inglês não vai ser só para os alunos estrangeiros mas também levar a que os alunos portugueses também queiram receber aulas nesta língua porque isso vai aumentar muito o seu mercado de trabalho”. Ainda assim confessa que o principal objectivo é “aumentar o número de alunos de países europeus e extracomunitários e isso só é possível dando cursos integralmente em inglês”.O anúncio de quais os cursos a serem leccionados em inglês virá apenas mais tarde.Isto vai tornar o politécnico maior. Com alunos portugueses em mobilidade mais os estrangeiros, já há quase mil.“Nós iremos escolher cursos em diferentes áreas procurando ter aqui uma abrangência grande o que irá tornar o politécnico maior e com mais capacidade” afirma. “O nosso objectivo é ultrapassar o milhar de estudantes estrangeiros tornando a cidade de Bragança mais cosmopolita” salienta.
Sobrinho Teixeira acredita que os cursos em inglês são uma medida que vai aumentar a qualidade dos parceiros da instituição.

Escrito por Brigantia (CIR)
Retirado do site "Rádio Brigantia"

Foz Tua: deslizamento de terras na obra da barragem faz três mortos

Um deslizamento de terras, que arrastou uma plataforma giratória na obra da barragem de Foz Tua provocou ao início desta tarde de quinta-feira, pelas 14h, três mortos. As três vítimas mortais tinham entre 30 e 50 anos de idade e estavam ao serviço das empresas SOMAGUE e Mota-Engil.
Ao local acorreram 20 homens dos bombeiros de Alijó e um helicóptero do INEM.
A GNR e uma equipa da Autoridade para as Condições do Trabalho também se deslocaram para o local.
Ainda não são conhecidas as causas do acidente, mas segundo o Comandante de Operações de Socorro de Vila Real, Carlos Silva, ao que tudo indica terá sido um deslizamento de terras a provocar o acidente fatal. A instabilidade dos terrenos também dificultou a acção das equipas de socorro da Protecção Civil, que só ao final da tarde conseguiu resgatar os corpos.

Retirado do site "Rádio RBA"

Vinhais tem um escritor prodígio

Ainda frequenta a escola secundária, mas já é um autêntico prodígio. Aos 17 anos, Vítor Alves Morais apresentou o seu primeiro livro, que será vendido no mercado normal.

Uma história de ficção, saída inteiramente da sua imaginação.
“É uma história totalmente fictícia que envolve uma criança de seis, sete anos, e ligada ao mistério das sombras”, explicou.
Na escola, já sente a admiração dos colegas, apesar de admitir que, sendo “bom aluno” a português, também não é “nada de extraordinário”.
Quanto à escrita, começou com um conto, antes de crescer um pouco mais.
Natural de Vinhais, Vítor Morais vai agora apostar num romance histórico, passado na sua terra.
“O próximo vai retratar os segredos escondidos por detrás da grande burguesia do início do Século XX aqui em Vinhais”, adiantou, explicando que isso “vai implicar muita pesquisa”. A trama vai passar-se numa aldeia cujo nome não revela, até para não ferir susceptibilidades. E foi precisamente esse receio a causar-lhe o maior problema na escrita: escolher os nomes das personagens. Isso e encontrar quem lho publicasse.
Persistente, não desistiu de ver a sua obra publicada. Encontrou na Vieira da Silva um porto de abrigo, após contactar algumas editoras de grande dimensão, mas sem resposta.
O editor, António Vieira da Silva, encantou-se com o texto. “É um texto muito simples mas com muita força. Sentimos que estamos a viver o que se está a passar. Torna-se arrepiante”, frisa, comentando que ficou “surpreendido” com a idade e escrita do autor.
Para já, foram impressos 300 exemplares, que serão vendidos nalgumas das maiores redes de livrarias do país.
Em Vinhais também estará disponível no posto de turismo. A autarquia também já avisou que o vai continuar a apoiar. Roberto Afonso, vereador da Câmara de Vinhais, exortou mesmo os mais novos a seguirem o exemplo de Vítor Morais.


António Gonçalves Rodrigues
Retirado do site "Jornal Nordeste"

Um inverno - novo cenário

Acabado o almoço e a conversa e, como finalmente, havia parado de chover, saí para a rua. Estava ávida de novos horizontes.
Pela primeira vez, desde o meu regresso, procurava dentro de mim as memórias do pouco tempo que ali vivi.
Dessas memórias insistentes e indeléveis já aqui dei conta em outros escritos.
A rua "principal" que eu conhecia dos relatos do meu pai, quando aos serões, nos falava da "terrinha", era exatamente igual.
A igreja, em frente à casa dos meus avós, reportava-me para um cenário romântico. A ela me dirigi. A porta lateral estava aberta. A semi penumbra invadiu-me como se de outra atmosfera se tratasse. 
Entrei. Habituei-me à pouca luz e dirigi-me ao altar-mor. Ajoelhei-me e benzi-me. Rezei, talvez, uma Ave-maria...
Reparei que as paredes eram feitas de pedra e caiadas de branco. Os altares, pobres. Santa Bárbara, pequena, olhava-me nos olhos como a relembrar-me... Não sei o que senti. Havia pessoas enterradas no chão da pequena igreja e era necessário quase pairar não fosse ofender alguém.  
Respirava, a custo, aquela atmosfera. Lembrei-me da minha irmã mais velha, que não conheci e que havia falecido com dois anos e meio com uma dessas doenças infantis que nem os meus pais conseguiam dizer qual fora. Sentia-a pelas lágrimas da minha mãe, tantas vezes choradas, em tardes quentes de solidão paulista. "A minha menina, a minha linda menina..." 
Como é óbvio, não estava enterrada na igreja mas, sim, no adro, debaixo da oliveira da Senhora como tantas vezes ouvira à minha mãe.
Chorei pela perda de todos nós. Chorei por mim. 
Ouvi a voz da minha avó Maria, tão íntima, que conheci no ato do meu nascimento,  em casa, com a parteira, tia da minha mãe, irmã do meu avô Zeca. Ficou para sempre como uma tatuagem na alma. Saí da igreja para o sol que agora fazia. "Olá avozinha!" "Minha rica filha." 
Sorriu o seu sorriso desdentado, o imaculado cabelo branco a escorregar para fora do lenço verde, às flores pequeninas... "Anda que te vou mostrar onde pusemos a tua irmãzinha." 
Segui-a sem contestar e, embora sem vestígios visíveis de alguma sepultura, apontou-me para um tufo verdejante de erva, salpicado por alguns pequenos malmequeres brancos, mesmo por baixo da oliveira. "Estão aqui muitos anjinhos, filha. Não é só a tua irmã. Não havia cemitério quando ela morreu."
Uma pequena lágrima aflorou nos seus olhos doentes de cataratas, fugaz. Agarrou-me na mão e cobriu-ma de beijos. Abracei-a e apercebi-me da sua leveza que em nada combinava com a sua carinha redonda.  
Saímos daquele espaço que eu tinha pejo de pisar, descemos a meia dúzia de degraus que nos conduziam à rua enlameada e quase morro de susto ao ver algumas vacas que se encaminhavam para a bica onde deveriam beber antes de ir para a loja.  
Com uma rapidez impressionante, até para mim, voltei-me e subi os degraus como se voasse, supersónica. "Não tenhas medo, filha. Elas não fazem mal." 
Até podia ser verdade mas, nada me faria ficar onde elas me pudessem alcançar.  Sentia um medo irracional destes animais, provocado por uma peripécia passada de que não possuía memória consciente.
Com o coração aos saltos, deixei que bebessem e que o boieiro as levasse. Tremiam-me as pernas. As minhas avós riam-se, o meu avô balançava a cabeça como se dissesse: "estou tramado contigo, rapariga."
Fim de tarde, lusco-fusco, os morcegos começavam a voejar por ali. A redescoberta do meu pequeno mundo teria de esperar.

Mara Cepeda

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Um inverno - mudança de plano

O almoço estava maravilhoso. Tão simples e natural que fez despertar em mim, velhos sabores há muito esquecidos. Comemos distendidamente e, como por milagre, a minha tristeza encostou-se a um canto em deleitada contemplação.
Conversámos sobre "todos os do Brasil" como dizia a minha tia e eu lá lhe fui dando notícias pormenorizadas sobre cada um deles.
A minha avó ouvia, de olhos brilhantes, de lágrimas, talvez, as notícias dos seus três filhos, ali emigrados, e dos netos. Tinha saudades. Sabia que não os voltaria a ver a todos. Sabia que não conheceria os netos... 
"Coma mãe, antes que arrefeça." "Não vês que estou a comer, filha." "Sim! Muito que ainda não mexeu no prato!" "Anda, mulher, come..." 
Olhei para ela com imensa ternura, dei-lhe um beijo e insisti que comesse. Sorriu-me o seu sorriso travesso e levou a primeira garfada à boca. 
Lá fora, parara de chover. O nevoeiro dava mostras de querer levantar. Um raiozinho de sol anunciava-se timidamente. "Que bom, parou de chover!" 
Continuámos a conversar e a minha tia insistia na ideia de que nunca na sua vida iria ao Brasil. "É país que não visitarei. São todos índios e selvagens..." "Tia, me espanta que diga isso sendo professora! O Brasil é um país lindo, maravilhoso. O povo é hospitaleiro e afável." "Sim, e a violência e a criminalidade?" "Existe, é um facto, mas proporcionalmente. Eu nunca fui assaltada lá e você sabe que me levantava muito cedo para ir para a faculdade. Tinha de apanhar o ônibus das seis da manhã para começar as aulas às oito." "Tiveste sorte. O teu pai e os teus tios já foram assaltados umas poucas de vezes..." "Algumas, é verdade, mas sem violência, muito calmamente. É só não oferecer resistência e disponibilizar o dinheiro." "Aí está! Isso é vida?" Os meus avós ouviam, suspensos, a nossa conversa. "O que eu queria era tê-los todos cá.", disse o meu avô. 
Defendi o país que me tinha acolhido de braços abertos e que amei (e amo), mal pus os pés no aeroporto de São Paulo. Tudo era novo, único, deslumbrante... Os sabores, as cores, os cheiros apoderaram-se do espaço a eles reservado e empurraram para o fundo do compartimento os que conhecia. Era uma pequena rapariguinha, curiosa, capaz de me abrir ao mundo e a tudo o que ele me oferecia. 
Adaptei-me como se ali tivesse nascido. Integrei-me com uma facilidade admirável. Fiz amigos como quem bebe uma água de coco. Tudo era perfeito...
Portugal transformou-se num lugar longínquo.  Da minha aldeia conservei o azul do céu, tão lindo que até dói e o rio, no verão, que era só risos e chapinhar na limpidez e frescura das suas águas puras. 
Até a perfeição tem as suas pequenas máculas e essas são poderosíssimas. Vão corroendo o brilho e, aos poucos vamo-nos apercebendo que a felicidade que sentimos está algo enevoada. Interrogamo-nos, refletimos, continuamos com a nossa vida, casa faculdade, faculdade trabalho, trabalho casa. Família, porto de abrigo. 
Acabado o curso, a decisão irrompe no almoço de domingo e apresenta-se como facto consumado: "Pai, quero ir para Portugal. Vou começar a lecionar lá." "Mas filha, você vai ficar sozinha, ainda não é altura de nós regressarmos." "Eu vou primeiro, depois vão vocês..." "E vai para onde, vai ficar com quem?" "Com a sua irmã, né?"
Nova mudança de plano, panorâmica despreocupada.

Mara Cepeda

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Bragança - Premiar a criatividade

 

Já foram entregues os prémios do concurso de contos e presépios. Descubra os vencedores

Um inverno - take 5

O interessante nesta minha nova vida era o contraponto entre o modo de vida que eu conhecia e a nova que estava, lentamente, a apreender.
Eram tão diferentes como o dia e a noite. Tão absolutamente desiguais, que pareciam proceder de planetas diferentes.
São Paulo é uma das maiores metrópoles do mundo onde a vida não pára, onde se trabalha durante a noite como se fosse dia, onde não há tempo para viver as pequenas coisas porque o ritmo é acelerado pelas exigências do mercado.
A minha aldeia é um microcosmo, um resumo do universo, onde tudo enferma de uma pequenez estonteante. Há tempo para tudo. As pessoas andam devagar, sem pressas, sem stress. O ritmo a respeitar é o das estações do ano, do dia e da noite.
Eu, olhar escancarado de espanto, via o tempo passar. Fui acordada do meu devaneio pela minha tia que me dizia se eu queria descascar as batatas. “Não sei tia, nunca descasquei.” “Só me faltava esta, uma patriciazinha que nunca fez nada!” “Deixa tia, eu experimento!” “Não, que ainda te cortas e essas mãozinhas estão mimosas demais para a faca.” “Eu ajudava a minha mãe a limpar a casa quando tinha tempo. Não diga que eu não fazia nada.” “Vê-se!”
Amuei. Se havia coisa de que tinha orgulho era de não fugir às minhas responsabilidades. Podia não estar habituada a cozinhar mas aprendia depressa. Não sabia lidar com os potes na lareira mas aprenderia.
Peguei na bacia das batatas e numa faca e comecei a tarefa. Descasquei a primeira enquanto a minha tia se afadigava a preparar o guisado de coelho. Afogueada, vira-se para mim: “Gostas de coelho?” Acenei afirmativamente. “Pois és cá uma descascadora de batatas como outra nunca vi! Metade da batata fica na casca, bem podem os porcos!”
Levei algum tempo a assimilar o que tinha ouvido. Notava-se no meu ar interrogativo.
A minha tia soltou uma gargalhada, a minha avó tirou-me a bacia do colo. “Deixa que eu faço isso, filha. Vai lavar as mãos.” Ria-se com o seu sorriso inconfundível. Gostava da minha avó, da sua meiguice e ternura…
Entrou o meu avô com uma garrafa de vinho na mão, perguntou se o almoço ainda demorava. Sentou-se no seu lugar, num escano pequeno de costas para a rua. “Está frio. Não pára de chover. Já não tenho que dar aos animais. A égua começa a ficar impaciente de estar na loja…”
“Parece que está a aliviar pai. Vamos lá ver se melhora durante a tarde. Amanhã vou para Bragança com a garota. É preciso que ela compre roupa adequada que aqui não é Brasil.” “Quando voltais?” “Na quinta-feira para a passagem de ano.”
Assistia a tudo como se fosse telespectadora de uma qualquer novela. Sentada num lugar onde pouco ou nada incomodava, junto da arca do sal que estava incrustada na parede, encolhida, não de frio, mas de incerteza.
O cheirinho que se evolava do pote do coelho, fazia fome. Como mais tarde vim a descobrir, era do monte, caçado pelo meu avô. As batatas estavam quase cozidas.
Levantei-me para por a mesa. “Tia, onde está a toalha?” “Não te preocupes, comemos aqui. Traz essa toalha que está em cima do fogão.” “Temos um fogão?!” Exclamei admirada.
“Claro que temos um fogão, ou achas que no verão cozinhamos ao lume?” A minha tia não perdia a oportunidade de se meter comigo e com a minha ignorância.
“Deixa a rapariga. Basta-lhe a saudade dos pais e dos irmãos.”
Foi a deixa para que as lágrimas corressem livres pela minha face. Levantei-me. “Vou ver se ainda chove.” Abri a pesada porta da rua e respirei o ar gélido. Desci o degrau que dava acesso ao terraço e caminhei para a grade de proteção onde me encostei. Olhei para a única rua do lugar, para o largo da Louçana, para a casa da tia Engrácia… As lágrimas continuavam a correr, depurativas. Chorava a minha antiga vida…
Senti que a porta se abria. Enxuguei com a manga do casaco o rosto. Suspirei.
“Vá, anda lá! Estava a brincar contigo para ver se te animava um pouco… Vamos comer. Vais ver uma coisa nova que ainda não descobriste. Foi o teu avô que fez.”
Entrámos. Agradeci o calor e vi o lar como se fosse a primeira vez que o via. O lato estava novamente ao lume, pendurado no ferro que vinha de dentro da chaminé. Dentro dele estavam as cascas das batatas e outras coisas que ainda não sabia reconhecer.
Os pratos estavam empilhados na mesa juntamente com os copos, os talheres e os guardanapos de pano.
“Senta-te ao lado da avó.” “Mas, é preciso por a mesa…” “Ora senta-te. Vais ver uma coisa interessante.” Assim fiz. A minha avó mandou-me encostar ao espaldar do escano e puxou, por cima das nossas cabeças, uma mesa.
“Que legal, avó!” O meu avô observava. Sorrisinho no canto da boca. Peguei na toalha que a minha tia me estendia e pu-la em cima da mesa. O avô partia o pão e distribuiu-o por todos. A minha tia fazia os pratos e entregava-os. Cheirava divinamente. Que venha a próxima cena.

Mara Cepeda

domingo, 22 de janeiro de 2012

Eis a 28ª entrevista

A entrevista que agora publicamos foi realizada a um professor do Instituto Politécnico de Bragança, engenheiro Aurélio Araújo, natural dos Açores e aos alunos Luís Correia e Carlos Mesquita, naturais do distrito de Bragança, por terem sido premiados por um projeto de construção de um carro movido a gasolina e que faz cerca de 1000 km com um litro de combustível.
Entendemos ser importante divulgar esta intituição de ensino universitário que tanto tem contribuído para o bom nome da região.

sábado, 21 de janeiro de 2012

Um inverno - take 4

A minha avó Elvira afadigava-se, junto ao louceiro, num frenesim de esfrega aqui e lava ali... "Avó, quer ajuda?" "Não filha, já está." Lá vem ela, cabelo loiro escuro, olhos azuis, nariz judeu, magra, muito magra, sorriso malandro de menina travessa, pele tisnada pelos muitos sóis que já tinha vivido. Traz na mão o dito lato, muito limpo por dentro, que por fora era quase impossível visto o fumo que recebia, pendura-o, atiça o lume com mais alguma lenha... "Vai buscar um cântaro de água à bica. A água que temos em casa não chega para encher o lato."
A minha tia assistia divertida à cena e ria-se com as minhas caretas. Não entendi nada, ou quase nada do que a minha avó havia dito e preparava-me para lhe perguntar o que é que eu tinha de fazer. "Anda comigo. Vou mostrar-te o que a avó te pediu para fazer."
Salva, finalmente, da minha profunda ignorância desta língua estranha! Saltei do escano e segui a minha tia, célere como uma lebre a fugir aos caçadores.
Acompanhei-a até onde estava o móvel a que eles chamavam louceiro e eu armário e vi, junto à banca, quatro utensílios de plástico azul, cada qual com a sua asa. Ela pega em dois e eu imito-a. Levou-os até à mesa, onde os pousou, vestiu o casaco, calçou uns sapatos velhos que ali tinha e disse-me: "Agasalha-te. Veste este casaco, não quero que te constipes."
Saímos para a rua onde ainda chovia. Um nevoeiro denso cobria a paisagem que eu ainda não tinha podido ver. O dia estava triste, tão triste que quase convidava ao desassossego, permitindo tristezas várias, daquelas que por vezes atacam sem razão. Eu tinha tantas razões para estar triste que não era difícil o contágio.
A "bica" ficava mesmo ali ao lado do nosso terraço, era só descer as escadas e contorná-lo. Era inverno e, por isso, não havia falta de água. A torneira estava aberta e a água transbordava do tanque enlameando ainda mais o caminho.
"Ó raparigas! Que estais a fazer? Espera, tu és a minha neta! És parecida com o teu pai, ora aí está!" "Olá tio Zeca! Pois é, é a Maria." "Estás pimpona! Dá cá um beijo..."
Deixei-me beijar e abraçar pelo pai da minha mãe de quem ela pouco falava. Quase não fora pai. A minha mãe só tivera a sua mãe que tudo provera. O que era inequívoco é que eles eram extremamente  parecidos. Não havia dúvidas nenhumas em relação à paternidade.
O meu avô Zeca falava muito, muitíssimo. Enchemos os quatro cântaros e encaminhámo-nos para casa. Ele segui-nos, ajudou-me a levar um cântaro, assim como à minha tia.
"Ó Videira, com quê então, cá temos a nossa neta!" Tonitruou com a sua voz grave. O meu avô vinha do quarto onde fora desfazer a barba e com o seu sorriso fino, escondido por um bigode chaplinesco, acenou com a cabeça concordando. "Entra Zeca, chega-te ao lume."
Despejámos dois cântaros de água para dentro do lato. Sentei-me, observadora. Senti-me observada.
A conversa estava animada embora eu não entendesse metade do que ali se dizia. Olhei para o lato que começava a ferver e ouvi-me dizer: "Avó, acho que a água está quente. Como faço agora?" "Já vou filha. Espera que eu trato disso." Vi-a pegar numa caneca de alumínio e deitar água para dentro de dois cântaros. Pegou neles e dirigiu-se para a casa de banho. Despejou a água na banheira e eu vi que a água estava amarela, tão amarela que quase parecia sumo de laranja.
"Avó, a água está suja! Como é que eu vou tomar banho com essa água?" "A água não está suja, está assim por ter sido aquecida no lato, ao lume." Vai buscar um cântaro de água fria para temperar esta.
Para mim, a água estava suja. Disso não tinha dúvidas mas, depois de todo o trabalho da minha avó, entendi que tinha de tomar o meu banho, mesmo que ficasse mais suja do que estava. Assim fiz. Numa casa de banho sem água nas torneiras, fria como uma geladeira, com o ar a entrar pelas frinchas da janela, banhei-me. Foi o banho mais rápido da minha vida.
Saí do banho a cheirar a fumo. Vesti-me o mais rapidamente que me foi possível e corri para a lareira para me aquecer. O avô Zeca ainda lá estava. A minha avó e minha tia faziam o almoço. Eu estava meio anestesiada, meio adormecida como se sonhasse um estranho sonho. Sentia-me personagem de um qualquer filme, pronta para assistir à próxima cena.

Mara Cepeda

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Entrevista: Engenheiro Machado Rodrigues

Nasceu em Bragança, na freguesia da sé. Que recordações guarda da sua meninice e juventude?

Bom, as minhas recordações são, naturalmente, muito boas e são muito boas porque Bragança, quando eu era menino, era uma terra muito diferente daquilo que é hoje. Não digo que hoje seja pior, é diferente. Desenvolveu-se, cresceu, as relações entre todas as pessoas da cidade são naturalmente mais longínquas e naquela altura Bragança era uma terra pequena em que toda a gente era muito próxima e independentemente dos estratos sociais havia de facto uma vivência muito forte, de grande ligação entre as pessoas.
Eu tive a felicidade de viver sempre na Rua Direita, a Rua Direita era o centro de Bragança, era a rua mais comercial de Bragança. Vejam bem, nestes anos todos, a volta que isto tudo levou! E tinha outra característica que era a de ser o núcleo onde toda a população estudantil da cidade se encontrava. O Liceu era junto à Sé, ainda todos nos lembramos disso. Havia o Liceu dos rapazes, o Liceu das raparigas e a escola Industrial era a meio da Rua Direita na entrada para a Rua dos Gatos e, portanto, a população estudantil vivia e frequentava aqueles dois quarteirões da Rua Direita.

A Escola Industrial era onde é hoje o Instituto Português da Juventude?

Era onde é hoje o IPJ, exactamente, e era, exactamente, aí que eu vivia em frente àquela viela que vai para a antiga Praça do Mercado. Sempre foi aí a minha casa. Depois, era na Rua Direita que se localizavam todas as livrarias e papelarias da cidade e, portanto, era onde todos os estudantes confluíam. Havia a livraria do senhor Mário Péricles, junto da viela que hoje se chama a viela do senhor José Machado. Dizem-me que eu aprendi a andar no balcão, da livraria do senhor Mário Péricles. Era a livraria da viúva do Geral da Assunção, em frente à minha casa, onde é hoje a casa do Benfica; um bocadinho mais abaixo a gráfica Transmontana e já na entrada para a viela que vai para a antiga Escola Industrial, portanto para a Rua dos Gatos, era ainda uma outra livraria de um senhor simpatiquíssimo que como era conhecido cá por Antoninho testa a arder e era, efectivamente, ali, o núcleo da vivência da juventude e da população escolar, e toda a gente se conhecia naquele grande ponto de encontro e por isso a minha vida, enquanto na escola primária, vinha de manhã para a escola da estação, a escola da estação era já praticamente fora da cidade, já era uma longa caminhada…

Com que sentimento encara a perda de todos esses itens de que falou, existentes na Rua Direita?

Eu encaro com um sentimento de alguma nostalgia, mas encaro também com um sentimento de acompanhar as realidades da evolução do mundo e das cidades. Acho que apesar de tudo há condições para fazer viver os centros das cidades, os centros históricos que hoje estão bastante desertificados e essas condições passam por variadíssimas iniciativas. Ainda não perdi a esperança de que havemos de ver, com resolução de várias questões que têm sido inibidoras, refluir população aos antigos centros de maior animação, porque à semelhança do que se tem passado noutras cidades por essa Europa fora, uma reconstrução de qualidade tem transformado essas zonas em zonas residenciais de muito bom nível.

Biografia: Engenheiro Machado Rodrigues

Luís Manuel Machado Rodrigues é natural de Bragança onde nasceu a 4 de Setembro de 1939, na freguesia da Sé, é casado com uma conterrânea: Ana Maria e tem um filho.
Frequentou a escola primária da estação e o Liceu nacional de Bragança tendo concluído o ensino secundário no colégio dos Jesuítas em Santo Tirso;
Engenheiro mecânico, pela Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto; Trabalhou em empresas de vários sectores, desde a indústria ao turismo, à construção e à área financeira, exercendo desde há trinta anos funções de administração;
Actualmente integra e co-integra funções de administração dessas diversas empresas; Foi vice-presidente da Confederação de Turismo de Portugal e Associação dos Hotéis de Portugal;
Foi deputado da Assembleia da República, eleito como independente e cabeça de lista do PSD pelo distrito de Bragança entre 1999 e 2003;
É membro da Assembleia Municipal de Bragança, sucessivamente eleito desde 1990.
É sócio do Lyons Clube de Bragança;
Fez parte da comissão organizadora das comemorações do 10 de Junho que, em 2004, tiveram lugar na cidade de Bragança.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Um inverno - terceiro ato

A minha avó Maria, muito tímida, não queria comer, não queria dar trabalho, não queria pesar a ninguém. Habituada desde tenra idade a bastar-se a si própria e a suprir o sustento de cinco sobrinhos e, mais tarde, uma filha, era independente como as águas que corriam no Tuela de então.
Vivia só, absolutamente só, na sua humilde casa, com menos que o mínimo indispensável à sua sobrevivência como vim a descobrir.
Não quis ir connosco para o Brasil por ter pena de deixar os sobrinhos. A filha, já com dois filhos pequenos, tentou tudo para a convencer a ir consigo mas, não foi capaz de a demover. Ficou. Muitas vezes, ao chegar da escola, encontrava a minha mãe debulhada em lágrimas por "ter abandonado a minha mãe" e lá me contava que ainda tinha, frente aos olhos, a imagem da despedida, em que nós os três, ela, meu pai e eu, pois o meu irmão ainda era um bebé, dentro do táxi mergulhado na poeira do caminho, era verão, olhávamos a sua figurinha a acenar-nos, lenço na mão, a enxugar os olhos cheios de lágrimas de saudades, talvez de arrependimento...
Nessa manhã, quando bateu à porta da casa dos meus avós paternos, vinha tão feliz que quase parecia um passarinho novo a saltaricar por aqui e por ali. Olhava para mim como se eu fosse a coisa mais bela que houvera visto em toda a sua já longa vida.
Tinha quase oitenta anos a minha avozinha. Ouvia muito mal e via mal também, no entanto, ainda ia a todas as feiras a Vinhais, a pé, carregada de cestas para vender. Regressava da mesma maneira, carregada de coisas que havia comprado ou que lhe havia dado em troca das cestas.
Sozinha, fazia as suas hortas quando era tempo de as fazer e tinha sempre coisas para dar. Pouco comia e tudo ou quase tudo o que produzia era para dar a quem precisasse. Apanhava as castanhas dos seus castanheiros e as azeitonas das suas oliveiras. Era ajudada pelo seu sobrinho, quase filho que também ficava com o rendimento que porventura se apurasse. A minha avó Maria não era deste mundo. O seu mundo, único e raro, só conhecia o verbo dar ou dar-se aos outros que dela necessitassem.  A sua vida simples e frugal só admitia uma mágoa que timidamente repetia: "O malandro do teu pai levou-vos para tão longe! Malandro!" Dizia-o com imensa amargura, incapaz de perdoar, ela que perdoava tudo a todos e que pedia desculpas a uma erva daninha quando tinha de a arrancar...
Trazia no bolso do avental uma barra de chocolate grande e grosso, daquelas usadas para fazer chocolate quente. Saca do chocolate e dá-o à minha avó Elvira, juntamente com um pacote de bolachas maria que ainda agora não sei de onde as terá tirado.
Obrigada a sentar-se junto do lume, viu que a minha tia lhe preparava um bom naco de pão com queijo e uma caneca de café quentinho. Relutou muito para a aceitar e só aceitou porque eu lho pus nas mãos. A mim, não sabia dizer não. Sorriu: "Ó filha, eu não tenho fome! Isto é muito!" "Coma avó, coma..."
Continuava a chover incessantemente. Com os acontecimentos ali desenrolados, havia-me esquecido da chuva e da pouca claridade da cozinha. Como era possível ainda não haver luz ali, nem água nas torneiras? Como poderia eu tomar banho? Como faziam aquelas pessoas para viver?
Comi, sentindo estranhos sabores na minha boca. O pão era diferente, o presunto, apesar da gordura, que deixei, tinha um sabor especial. O café, feito daquela forma estranha, era bom, forte e aromático... Sentia-me confortada, quase feliz, algo melancólica e assustada.
"Vou embora filha, tenho que ajudar o Graciano. Ele matou um porquinho..." "Não vá avó. Não vê quanto chove agora? Vai se molhar toda!" "Depois eu volto... Até loguinho." Disse, falando para todos. Deu-me muitos beijinhos sem dentes, que poucos tinha. Ao vê-la sair apercebi-me que as suas roupas escondiam muitos mistérios. Trazia com ela muitos bolsos e dentro dos bolsos muitas coisas para dar. Saiu ligeira e leve como uma borboleta. Puxou o xaile para a cabeça, embrulhou-se o melhor que pode e enfrentou a chuva. Fiquei a vê-la afastar-se, rua acima, até desaparecer. "Sai daí que está frio e ainda te constipas. Fecha a porta." Aqui estava outra palavra estranha. No Brasil a gente apanhava um resfriado, não uma constipação.
"Avó, eu queria tomar banho... como é que eu faço?" "Deves estar muito suja, filha... e ainda por cima está frio..." "Eu sei, mas..." "Está bem, vou aquecer-te água no lato e depois podes lavar-te na banheira da casa de banho."
Fiquei a pensar no que seria "um lato" mas, dispus-me a esperar que as coisas acontecessem. Estava cumprido o terceiro ato.  

Mara Cepeda

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Miranda do Douro: Criado grupo de pessoas no facebook para ajudar a manter Centro de Música Tradicional "Sons da Terra"

Um grupo de pessoas está a utilizar a rede social "Facebook", com o objetivo de ajudar "a manter de portas abertas" o Centro de Música Tradicional Sons da Terra (CMTST).
O CMTST tem sede em Sendim, no concelho de Miranda do Douro, e apresenta-se como uma instituição relevante no panorama cultural da região e frequentada por investigadores das tradições da Terra de Miranda que, geograficamente, se estende desde Outeiro até Lagoaça.
"O CMTST pode estar em risco de fechar devido à falta de apoios. Por esse motivo e dado o trabalho desenvolvido, é preciso combater a indiferença de algumas instituições perante o trabalho realizado", disse à Lusa, Amadeu Ferreira, o criador da página do Facebook e também investigador e escritor de língua mirandesa.
Amadeu Ferreira justifica a atitude com o facto de as redes sociais serem o ponto de encontro de muita gente e, nesse sentido, pensou em abrir uma página de um grupo de amigos do CMTST, de forma a divulgar o trabalho e colaborar na recolha do património imaterial da Terra de Miranda.
Agora, cada um dos aderentes à pagina do Facebook compromete-se ao longo do ano a adquirir um disco das cinco edições lançadas pelo centro de música tradicional, de forma angariar uma valor de cerca de cinco mil euros, indispensável para a manutenção das actividades do espaço cultural.
Apesar da crise, a lista de subscritores da página já ultrapassa 250, quando inicialmente se calculava a adesão de apenas uma centena de pessoas.
"Temos de chamar as pessoas para o apoio e contribuição para fortificação das actividades culturais. Cada CD tem o preço de dez euros e o número de discos a adquirir são cinco", rematou Amadeu Ferreira.
Confrontado com a situação, o diretor do CMTST, Mário Correia, já disse que não estava à espera desta movimentação.


in:rba.pt
Retirado do blogue "Memórias... e outras coisas"

Um inverno - segundo ato

Depois do desfile de todas as pessoas da aldeia pela casa dos meus avós para ver a criatura estranha que tinha regressado a casa, finalmente, sosseguei. Tinha frio no corpo e na alma e uma vontade desmesurada de falar com os meus pais.
Não havia telefone, não tinha como falar com eles. Restava-me escrever. Nessa mesma noite iniciei um período de escrita laudatória que não tinha limite de páginas. Apenas pegava no papel, corriam as palavras a preencher os espaços delimitados pelas linhas da folha fina e pautada.
A noite estava fria e puseram-me a dormir num quarto existente na parte nova da casa que havia sido feita pelo meu pai, numa das suas vindas a Portugal. O quarto era espaçoso, ficava perto da casa de banho e os cobertores que tinha na cama pesavam como todas as minhas dores e angústias.
Deitei-me, saquei do papel e da caneta e comecei  a escrever com uma ânsia, com uma avidez que quase parecia um alcoólico a correr para a última garrafa.
Gelei-me. Apaguei a vela e tentei dormir... tinha os pés tão frios que foi impossível conciliar o sono. O dia raiou e encontrou-me desperta, sem vestígios de cansaço apesar da noite mal dormida. Chovia desconsoladamente enquanto, triste, me vestia.
Cheguei à cozinha e encontrei a lareira acesa. Sentei-me num tripé muito perto do lume e esperei. Tudo era novo, único, quase irreal, quase medieval... parecia o cenário de um filme, dos muitos que eu havia visto, de princesas e príncipes onde tudo acaba bem porque sim.
Entrou o meu avô, vindo da rua, vestido com um impermeável a escorrer água. Nas mãos trazia alguns paus para o lume.
"Bom dia avô." "Bom dia filha. Já matabichaste?" "Já o quê?" O meu avô riu-se. "Já comeste?" "Não, levantei agora. Tinha frio. Não consegui esquentar."
Lentamente, comecei a aquecer e a sentir-me bem. O meu avô pôs um pequeno pote ao lume para fazer café e começou a partir um pão enorme com a sua faca palaçoulo e entregou-me uma fatia. Foi  à arca de madeira que estava junto ao louceiro e tirou queijo e um bocado de presunto. Partiu o presunto e deu-me um pedaço. "Come. Vais ver que bom é! Vai buscar uma faca para o partires. É mais fácil de comer." Sem saber muito bem onde poderia encontrar uma faca, dispus-me a procurá-la lá para os lados do armário onde o meu avô tinha ido buscar o presunto e o queijo. "Traz um bocado dessa chicha gorda que está na mosqueira. Vou assá-la." "O quê avô? O que é uma mosqueira? O que é chicha? Onde está isso?"
"Estamos bem arranjados contigo rapariga..." Riu-se e veio, com a calma de um bom professor, mostrar-me o que era cada uma das coisas que me havia pedido.
Quem se ria agora era eu. Como era possível que a mesma língua fosse tão diferente de um país para outro?
Abriu-se a porta que dava acesso à sala e aos quartos e lá apareceu a minha tia, ensonada ainda, mal disposta pelo barulho que fazíamos.
"Que não se calam! Já uma pessoa não pode dormir descansada nas férias! Já há café? Tenho fome. A mãe?"
"Já vem. Foi dar alguma coisa à porca parida."
"Então? Dormiste? Tiveste frio?" Finalmente, olhou para mim com um sorriso e chegou-se ao lume. Viu que eu já tinha na mão um naco de pão com presunto, que ainda não tinha começado a comer pois estava a tentar compreender o que se passava à minha volta. Estava a assimilar todas as coisas que havia ouvido e a tentar compreender a última frase do meu avô. Devia ter uma expressão perplexa no rosto o que despoletou uma gargalhada da minha tia.
"Anda, come que isto vai aos poucos. Com o tempo entendes tudo."
Entrou a minha avó Elvira, muito magrinha, muito leve, muito risonha e doce. "Bom dia avó!" "Bom dia filha. Dormiste bem?"
Acenei que sim com a cabeça e levantei-me para que ela se chegasse ao lume. Vinha gelada e molhada. Sentou-se e olhou para mim como se fosse a primeira vez. O meu avô pôs uma grelha nas brasas e cortou um bocado generoso de carne gorda em cima da grelha. O silêncio reinava. O meu pensamento corria veloz.
"Ó de casa?" "Entre tia Maria" - disse ligeira a minha avó Elvira.
Uma figurinha pequena e magra, de cabelos brancos e sorriso pronto assomou à porta e entrou timidamente. Era a minha outra avó, mãe da minha mãe que, depois de dar os bons dias, me abraçou e beijou repetidamente. "Sente-se tia Maria, sente-se...vai matabichar connosco." Insistiu a minha tia, fazendo com que se sentasse junto ao lume.
Ali se encontrava o meu núcleo familiar de então. Estava prestes a começar o terceiro ato. 

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Aldeia de Morais é o “umbigo do Mundo”

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A aldeia de Morais, no concelho de Macedo de Cavaleiros, é o umbigo do mundo! Pode parecer estranho, mas a afirmação é de relevo no mundo da geologia.
Ao que parece foi ali, precisamente ali, que há milhões de anos, se deu a colisão entre dois continentes e que depois gerou a constituição actual do planeta Terra.
Esta explicação foi transmitida ontem aos alunos da secundária de Macedo por Eurico Pereira, professor na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto e autor da carta geológica do concelho.
“Num espaço de poucos quilómetros tem concentrado aquilo que normalmente só se vê em milhares de quilómetros de extensão” explica Eurico Pereira, mentor da carta geológica de Macedo de Cavaleiros, acrescentando que “tem concentrada uma cadeia orogénica com um continente, um oceano de permeio e outro continente” que corresponde “à parte inicial de um ciclo geológico” em que “o oceano fecha dando-se a colisão dos continentes”.
O maciço de Morais é assim uma das coisas mais extraordinárias da geologia global, pois é o testemunho da colisão de dois continentes, que deram depois origem ao “Gonduana”, chamado de super continente, que milhões de anos mais tarde gerou a cartografia do mundo dividido em cinco continentes, tal e qual o conhecemos hoje. Há então em Morais vestígios de um continente que entrou em ruptura e deu lugar a um oceano. Das imensas rochas que comprovam uma crosta oceânica, os diques são como que o “bilhete de identidade”. Ainda assim “encontram-se em poucos sítios” salienta Eurico Pereira, mas é possível encontrá-los no vale do Rio Azibo “na zona subjacente ao Mosteiro de Balsamão” e na chamada ponte das Barcas, em pleno Vale do Sabor, a sul de Talhas, mas que para esteve investigador “é uma zona mais inacessível”.
Morais, Sobreda, Paradinha e Balsamão formam uma crosta oceânica completa, já visitada por escolas de Paris. Aliás no Pontão de Lamas, no IP4, vê-se onde começa o maciço de Morais, com a presença de xistos “borra de vinho” ou por exemplo no campo de futebol de Macedo, onde as rochas verdes, indicativas de basalto, provam a ruptura do continente com o oceano.

Escrito por Brigantia
Retirado do site Rádio Brigantia

Achados na barragem do Baixo sabor ainda sem futuro

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Ainda não há uma solução para os achados de Cilhades, um antigo povoado em Felgar, no concelho de Torre de Moncorvo, que será submerso pela barragem do Baixo Sabor.O local tem sido alvo de investigação por parte dos arqueólogos responsáveis por acompanhar os trabalhos de construção da barragem.Mas, depois da descoberta de um cemitério medieval, ainda não há futuro para os achados. Os achados crescem a olhos vistos mas ainda não há destino para eles.Ontem, numa visita ao local, com a companhia dos responsáveis da EDP pelo empreendimento (e onde o IGESPAR não participou, apesar de ter sido convidado), foi possível observar já algumas medidas de contenção dos curiosos, como grades a delimitar a escavação num antigo cemitério medieval ou placas a avisar os curiosos que estão perante uma escavação arqueológica, algo também possível de observar mais acima, no castro pré-românico ali existente. Medidas que não existiam há duas semanas, aquando da primeira visita ao local.De acordo com Filipe Santos, arqueólogo responsável por aquele sítio, tem havido cada vez mais pessoas a visitar o local das escavações, em busca de tesouros escondidos, o que tem causado constrangimentos. “As pessoas pensam sempre que há nestas escavações objectos de grande valor. Isso não é verdade. Tem valor patrimonial mas não tem valor monetário”, frisa.Na última semana já foi possível encontrar o primeiro túmulo com ossadas masculinas, algo que ainda não tinha sido sinalizado.Também já apareceram armas, utensílios agrícolas ou moedas, para além de vestígios do dia-a-dia como vestuário do período romano ou mesmo lajes com gravuras rupestres e dois altares romanos, para além de um fosso defensivo no castro, mais acima.Tudo vestígios que conferem importância ao local.“Podemos dizer que são raros. Não se encontram diariamente. Já se sabia à partida que Cilhades era um lugar especial”, explicou ainda.Mas esta visita ao local foi organizada com o intuito de demonstrar que não houve nenhuma tentativa de esconder informação sobre aquelas descobertas.Pelo menos, é o que garante Lopes dos Santos, o responsável pelo projecto do Baixo Sabor.Por isso, a EDP até quer fazer visitas guiadas ao local.“Neste momento estamos a lançar um programa de arqueologia na escola. Vamos fazer mais divulgação e não temos interesse de esconder nada.”Certo é que na primeira visita ao local, houve relatos sobre alguma informação que não chegaria ao IGESPAR. Algo desmentido agora pelo próprio instituto de conservação do património. Ana Catarina Sousa, subdirectora do IGESPAR, diz que as escavações têm sido acompanhadas ao pormenor.“Não. O IGESPAR tem uma extensão em Macedo de Cavaleiros e o arqueólogo vai, se não diariamente, pelo menos semanalmente fazer inspecção à obra”, garante.No entanto, diz que ainda é cedo para uma solução para aqueles achados.“Temos de avaliar o conjunto. Como as escavações não se concluírem, não o podemos fazer.”A verdade é que a população de Felgar espera que os achados continuem na sua terra, através da criação de um espaço próprio para os acolher.O Museu Abade de Baçal, em Bragança, já terá mostrado interesse em acolher o espólio, mas Aires Ferreira, o presidente da câmara de Torre de Moncorvo e natural de Felgar, defendeu à Brigantia, em declarações não gravadas, que a antiga escola primária poderá ser recuperada para acolher todos os achados.
Essa solução será apresentada à Direcção Regional de Cultura do Norte numa reunião, ainda esta tarde.

Escrito por Brigantia
Retirado do site Rádio Brigantia