quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Morangos

A mulher não sabia o que havia de fazer. Tinha de ir trabalhar e não podia levar a filha pois era muito longe. A menina ainda era pequena e não aguentaria a caminhada a pé.
Andava descorçoada. A mãe não estava, tinha ido para Melhe fazer as suas cestas que tanto contribuíam para que na sua casa não se passasse fome. Não sabia que fazer. Estava a ver que tinha de deixar de ganhar aquela jeira. O dinheiro, se  conseguisse ir, já estava destinado. Era para comprar um leitãozinho para criar. A porca tinha morrido ao parir e com ela levou os leitões. Ainda tentou criá-los com o leite da cabra mas, não conseguiram sobreviver. Se não tivesse com quem deixar a filha não ia, paciência!
Assim pensava a caminho da fonte onde ia buscar água para fazer o jantar. A menina com ela, muito direita e séria como se entendesse que tinha de ajudar a mãe. Pensava... de repente correu para casa da avó Elvira, subiu as escadas e chamou. Entra filha, entra! Onde está a tua mãe? Oh Natércia, anda cá rapariga! Não posso tia Elvira, são horas de fazer o jantar. Oh filha, não maces a avó! Anda, vamos embora.
Avó? Sim linda. Posso ficar consigo amanhã? A minha mãe vai ganhar uma jeira para comprarmos um porquinho e eu não posso ir porque é muito longe...
Elvira, cabelos loiros, olhos azuis, muito magra,  mãos na cintura, sorri. Aquela neta era especial.  Fina como uma raposa! Sabia sempre dar a volta às pessoas com muito jeitinho.
Claro que sim filha! Amanhã vou aos Chãos ver os estragos que a água fez nas hortas e buscar erva para a égua. Podes ir comigo e ajudas-me. Natércia, a rapariga fica comigo. Vai descansada... cá nos entendemos as duas.
A mulher ainda tentou desculpar-se e agradecer, no entanto, sentia-se aliviada e contente. Até amanhã avó!
Boa noite minha neta, porta-te bem.
Uma vez na rua, a menina escancarou a boca num imenso sorriso. Vês mãe, vês! Vou ficar com a avó. Minha malandrinha! Está bem, mas tens de te portar bem. Sabes que a avó tem muito que fazer e não precisa que lhe arranjes mais trabalho. Obedece! O avô Manuel é bravo e não gosta de brincadeiras. Ai de ti se ouço uma reclamação!
Sim, mãe! Faço tudo o que a avó mandar.
Foram para casa, lusco-fusco. Hoje eram só as duas. Umas batatinhas cozidas e uma tomatada iam mesmo a calhar. Jantaram.  Havia refrescado um pouco depois da chuvada que nem Santa Bárbara tinha conseguido acalmar.
Deitaram-se cedo e não demoraram a adormecer. Anda filha, acorda. Não mãe, ainda é de noite... anda, vá, tenho de ir trabalhar. Vais ficar com a avó. Pegou na filha ao colo e saiu para a noite. Tia Elvira, oh tia Elvira!  Entra filha, entra. Aqui lha trago. Ainda dorme, ele é tão cedo ainda! Deita-a ali no escano.  Já mata bichaste? Não, levo aqui um carolo de pão. Toma lá um moscatel para acompanhar.  A mulher saiu, embrulhada no velho xaile.
Na rua aguardava a Ana Xistra. Ligeiras e caladas meteram pés ao caminho, saltando pedras da enxurrada de ontem.
A menina dormia, a avó trabalhava. Remendava as camisas dos filhos e do homem. Não tarda que se levantem. Vão limpar os caminhos e começar a acarretar lenha para o inverno. São bons rapazes. A garota estuda em Bragança. Deus queira que ela tenha uma vida diferente da minha. O Chico e o Zé foram para os brasis, que Deus os acompanhe e ajude. O João não tarda a ir também. Resta-me o Eduardo... tantos filhos e nenhum.
A rapariguinha acordou estremunhada com o assobio do tio. Oh João, deixa a menina! Dormia tão bem, és bem maluco. O outro tio já lá vinha e o avô também.  Sentaram-se à mesa onde já estava o mata-bicho. Anda comer garota, chamou o avô. Sentou-se junto dele que lhe estendeu um cachico de pão e queijo.  Deu-lhe uma caneca de leite da Castanha que tinha parido um valente vitelo, não havia nada. Comeu com gosto. Os homens saíram que o trabalho não podia esperar. A trovoada tinha feito mais mal do que bem.
O dia começava a nascer, o sol a brilhar, tímido ainda, prometia calor. Eram assim os verões naquele buraco junto ao rio. Lavou a louça, pôs o lenço na cabeça, o avental mais velho e pegou na cesta onde colocou duas sacas para trazer a erva para o animal que se tinha mancado no regresso da feira de Vinhais.
Anda filha, vamos antes que queça muito.  Realmente, havia muitas pedras no caminho. Estava perigoso. Não caias, tem cuidado. Sim avó.
O cenário que se lhes deparou não era bonito. Os tomateiros, os feijões, os pimentos, as melancias e melões... que prejuízo! Tanto trabalho para nada. A avó estava triste.
Afastou-se. Ali perto viu frutos vermelhos a brilhar apetitosamente. Correu para eles. Como não tivesse trazido a sua pequena cesta, fez uma abada com o vestido e colheu todos quantos havia. Correu para a avó e disse-lhe: avó olhe que lindos morangos. Santa Bárbara guardou-os para si avó! Tome.
Elvira desanuviou o olhar e sorriu. Abraçou a neta e sentaram-se as duas numa pedra a comer aqueles belos moranguinhos silvestres.
As hortas pareciam renascer qual Fénix.  O olhar era outro. Encheu a cesta com os legumes e frutos que se espalhavam pelo chão. Alguma coisa se havia de fazer, logo se vê. Cortou a erva com a gadanha, encheu uma saca. Não conseguia levar as duas. Pôs a cesta à cabeça e agarrou na saca de erva. Tão fraca de carnes e tão valente. O caminho era mau, sempre a subir até às casas. Vamos embora, filha.
Queres que te ajude avó? Olha, traz aquela saca vazia. A menina apanhou-a e com as duas mãozitas juntou a erva que tinha ficado no chão, cortada e meteu-a dentro da saca. Pronto. Podemos ir.
Felizes as duas, foram subindo devagar, parando aqui e ali. A meio caminho apareceu o tio João Caetano, a cavalo na mula e carregou com os nossos carregos até à aldeia.
Dois pequenos milagres de que me recordo com um sorriso.

Mara      

Olá amigos!

Aproxima-se, a passos largos, o fim do verão. Este ano tivemos um tempinho enganador que apenas nos presenteou com esporádicos dias de verdadeiro calor.
Sinto-me depauperada nas minhas iniciais expectativas... enfim, no tempo ainda não mandamos, julgo que felizmente. Se tivéssemos a capacidade de mexer com a meteorologia, transformávamos isto de tal forma que o equilíbrio, embora nos pareça, por vezes, que o não há, deixaria de existir e este belo e perfeito planeta ficaria algo confuso, sem saber o que fazer.
Não é para falar do tempo que aqui estou pois, a minha especialidade não é essa. Quero agradecer a todos os que nos acompanham neste pequeno sonho e que continuem a colaborar connosco, sempre, com as suas opiniões e visitas.
Se, porventura, quiserem divulgar alguma actividade, informem-nos. Queremos que este blogue seja interactivo e que possa ajudar todos os transmontanos de nascimento e de coração.
Bem hajam.

Até já 

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Maria Mouca

De pequena estatura, seca de carnes, olhar brilhante e sorriso pronto, assim era  Maria. Quando falava, a sua voz sorria como se o sol acabasse de nascer. Era meiga, terna e nutria pela natureza um amor incondicional.
Nas suas idas para o campo, nunca estava sozinha, mesmo na mais absoluta solidão. Falava com as plantas, com as ervas daninhas, com as borboletas, com os passarinhos... apenas temia as cobras mas, apesar da aversão que sentia, encontrava maneira de as perdoar e dizer que, também elas tinham direito à vida.
Tinha ficado quase surda com uma bexiga aos dezasseis anos. Nessa epidemia perdeu o único irmão que tinha. Órfã desde muito nova, de pai que fora marinheiro em Lisboa e mãe que nunca dali saíra, ficou sozinha no mundo.
Sem carinho de ninguém, sem ninguém que a amparasse, sofreu. Aqueles eram tempos maus. Com o fim da monarquia e a implementação da república cometeram-se muitos excessos, muitas brutalidades.
Fez-se mulher. Amou, acreditou em promessas vãs… nasceu-lhe a filha. O homem precisava de dinheiro que ela não tinha. Casou com outra…
Fazia cestas e cestos de verga e vime. Calcorreava montes e encostas para apanhar os ramos das giestas, descia até ao rio onde as salgueiras existiam.
Os seus dias não eram monótonos. Ao raiar do dia já ela cirandava pelos caminhos, ou para ir fazer cestas onde lhe pediam, ou para apanhar o material necessário ao seu trabalho. Quando não fazia cestas e cestos, trabalhava no campo, fazendo o que era preciso.
Cozinhar não lhe agradava e, decididamente, não era o seu forte. A filha, mal conseguiu chegar às panelas, começou a cozinhar e a mãe não se importou. Importava-se, sim,  em não deixar que faltasse nada. A casa, apesar de pobre, era farta. Dinheiro não tinha mas, não faltava de comer. O seu trabalho permitia-lhe algum desafogo. Normalmente pagavam-lhe em géneros. Apenas algumas casas onde trabalhava é que lhe pagavam em dinheiro.
Os irmãos da sua única filha, quando tinham fome, iam para sua casa. Nunca saíam com o estômago vazio e levavam sempre com que alimentar, durante aquele dia, o resto da família.
Enquanto o homem gastava o que tinha e o que não tinha na bebida e no jogo, a mulher e os cinco filhos passavam muitas dificuldades, muitas fomes. Maria entendia que aquelas crianças não tinham culpa dos actos do pai e, por isso, recebia-os com todo o carinho de que era capaz.  
O seu coração era imenso, com uma pequena e dolorosa mácula: o ódio que nutria pelo único homem a quem se tinha entregue, cheia de amor.
Morreu com cem anos, surda e cega. Está enterrada na terra que a viu nascer, onde se encontram todos os que a amaram. Nunca conseguiu perdoar o único homem que amou, não apenas pelo abandono mas, por não ter sabido ser pai.

Mara

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

A Fraga dos Cães

Era um verão quente e abafado como costumam ser os verões da minha aldeia. As hortas ansiavam por alguma frescura e, a única forma de conseguir ter algum fruto, era a rega. Tínhamos uma horta junto ao rio e para lá nos dirigíamos, minha mãe e eu.
O caminho que nos conduzia, passava, obrigatoriamente, pelas fragas amarelas. Essas fragas compõem uma paisagem belíssima, para mim, de uma beleza sem par. Cada uma delas havia sido baptizada pelas gentes daquelas terras com nomes muito específicos sobre cada uma das funções que lhe atribuíam.
Havia a Fraga dos Cães, a Fraga da Águia, o Curral das Vacas e outras de que me não recordo. Todas elas, nas suas especificidades, me encantavam de tal forma que, muda de espanto, hipnotizada pela sua beleza, ficava parada a olhar para elas.
A minha mãe, amiudadas vezes, voltava para trás, agarrava-me na mão e levava-me à força para junto da horta.
Nesse dia, no entanto, como o calor apertava em demasia, disse-me que ficasse à sombra, numa pequena reentrância existente na Fraga dos Cães enquanto ela descia até ao pé do rio para regar.
Assim fiz. Durante breves minutos, abriguei-me na dita sombra com a minha cestinha da merenda, feita pela minha avó.
Quando me pareceu que já havia passado muito tempo, deixo a frescura da pequenina caverna e aventuro-me pela inclemência do sol, até à ponta do penhasco, onde me deito e chamo pela minha mãe.  Mãe, onde estás mãe? Sai daí que cais ao poço. Já! Não vês que é muito fundo? Se caíres morres e nunca mais te encontro.
Lá em baixo, a minha mãe afadigava-se na rega, temerosa de que eu caísse ao Castro Mau. O rio Tuela corria entre as fragas e, mesmo por baixo do penedo, perdia-se, negro e tenebroso,  dentro daquele poço, com uma profundidade estimada de mais de trinta metros.
O que me era dado ver, do lugar onde me encontrava, era a negritude do poço e a ligeireza da água que lhe escapava, saltando pedras e pedregulhos que habitavam o leito do rio.
Deitada de barriga para baixo, com o meu chapeuzinho de palha na cabeça,  admirava o brilho do sol brincando com a água. Que lindo! Tanto sonhei ser princesa daquele reino que acabei por adormecer, embalada pela bela canção da água, que não sereia.
A minha mãe, afogueada pelo esforço dispendido na íngreme subida até ao cimo do penedo, suspirou de alívio ao ver-me a dormir serenamente, com um sorriso nos lábios. Acordou-me, levou-me para a sombra e, da minha linda cestinha, retirou a nossa merenda. Um carolo de pão e queijo fresco de cabra, feito pela tia Duvílde que era a melhor queijeira do lugar. Comemos.
A cesta da minha mãe ia carregada de tomates, pepinos e pimentos, uma e outra cenoura e duas pequenas melancias. Pesava. O sol não mostrava intenções de abrandar o calor. Até à aldeia era sempre a subir. Íamos parando para tomar fôlego nas poucas sombras existentes ao longo do caminho. Mãe, porque é que aquela fraga se chama dos Cães?  Oh filha! Não vais gostar da história. Não importa. Conta mãe! Outro dia, está bem? Hoje estou cansada. Não muito convencida mas, vendo o esforço da minha mãe, calei-me e esperei a melhor oportunidade para voltar ao assunto.
Chegadas a casa, a minha mãe foi à sua lida e eu escapuli-me para a rua onde já me aguardavam os meus companheiros de brincadeiras. O bando, em chilreada, correu até ao ribeiro onde as pequenas rãs verdes se espreguiçavam ao sol.

Mara

domingo, 28 de agosto de 2011

O Romance do Gramático

Acabei de ler o último livro de Ernesto Rodrigues, "O Romance do Gramático".
Eu e o Marcolino orgulhamo-nos de ter "quase" todas as obras do Ernesto.
Tenho-as lido, umas de enfiada, outras com mais parcimónia.
Como já referi, anteriormente, neste blogue, este último romance agradou-me bastante. O nosso amigo escreve muitíssimo bem. Tem um estilo difícil e exigente. Nós, simples leitores, temos de nos esforçar para conseguir destrinçar as suas, das personagens, histórias.
Este, do Gramático, trouxe-nos várias histórias entrelaçadas e o estudo de uma época específica da História de Portugal.
Vivi o ambiente de medo e fuga dos homens e mulheres daquele tempo. Tentei escapar da peste que dizimou milhares de vidas no nosso país. Vivi, com intensidade, as várias histórias de amor.
Bebi, avidamente, as palavras, as frases, o texto curvo e complexo deste belo romance.
Parabéns Ernesto.

Mara

sábado, 27 de agosto de 2011

Os pássaros

A mulher caminhava em passo ligeiro pelos caminhos empoeirados. Atrás dela, choramingando, uma menina pequena.
Era tempo de arrancar as batatas e o dia já ia adiantado. Tinha-se deixado dormir e sabia que o primo "Taludo", como lhe chamavam, já lá estava e farto de trabalhar. 
Anda filha. Espera por mim mãe. Estás a andar muito ligeira. Pronto, vou levar-te às cavalitas.
Da curva do caminho avistaram o António. Já tinha metade das batatas arrancadas. Agora era preciso apanhá-las. Bom dia primo. Que é que te aconteceu rapariga? Olha, deixei-me dormir. Nunca na vida me tinha acontecido tal coisa. E depois tive de trazer a garota comigo pois não tinha com quem a deixar. Sabes que a minha mãe está em Penhas Juntas, a fazer cestas em casa dos Almendra. A outra avó, coitada, mal tem tempo para se coçar.
Era época de muito trabalho. Todos tinham muito que fazer, mesmo aqueles que pouca ou nenhuma terra tinham. Era altura de ganhar algum dinheiro com as jeiras.
Antigamente, nas nossas aldeias, era hábito ajudarem-se uns aos outros. Utilizava-se a figura das torna jeiras. Tu ajudas-me hoje, eu ajudo-te amanhã. E os trabalhos lá se iam fazendo. 
Era o caso de hoje. António e Natália eram primos carnais mas, era como se fossem irmãos. Haviam sido criados juntos até que ele foi servir, ainda menino, para uma aldeia próxima. Acho que foi ali que lhe deram a alcunha de "Taludo", por ser rijo e valente.
A mulher disse à filha que fosse para debaixo do castanheiro para sair do sol e começou a apanhar as batatas que, felizmente, estavam boas.
António, olha um ninho! Tem muitos passarinhos. 
Ele já os tinha visto e pensava levar os passaritos para casa. Haviam de fazer uma boa tachada para comer com as batatas rilhadas. 
Para contentar a criança, pousou as ganchas, subiu à árvore e colocou o ninho no chão, à sombra. Os pássaros já começavam a estar vestidos e eram grandes e gordos. 
Depressa se arrependeu do seu acto. A menina começou a mexer com as avezinhas que desataram em enorme gritaria. São pássaros muito barulhentos. Os seus gritos são estridentes e agudos, quase ensurdecedores. Não mexas nos pássaros filha! Não vês a barulheira que fazem? Fica quieta rapariga. Olha que os mato se continuas a mexer com eles.
Durante breves segundos, o silêncio fez-se. A tentação, no entanto, foi mais forte e voltou a desassossegar os passaritos. Nova gritaria insuportável quebrou a pacatez do lugar.
Por várias vezes se repetiu a cena, sempre com o mesmo resultado, até que o primo perdeu a paciência. Atirou com a ferramenta, pegou no ninho e um por um, torceu o pescoço aos animaizinhos. 
Acabou-se a barulheira. Vês o que fizeste filha? Não te mandaram estar quieta? Eu só estava a brincar... és mau. Emburrou, fez bico e acabou por adormecer. 
A meio da manhã, fez-se uma pausa para matabichar. A morte dos passarinhos pesava na consciência da rapariguinha que continuava triste. Começou a comer e a tristeza foi-se desvanecendo até que acabou por desaparecer completamente. Era criança. A força de viver guarda em compartimentos bem acondicionados as pequenas tristezas. Outros interesses sepultam essas memórias até ao dia, em que, sem se saber porque, se libertam e urge falar delas.
Naquele tempo, o acto de matar os passarinhos, era normal. Ainda se era colector/recolector e, muitas vezes era essa a única maneira de se ter um isco para juntar ao cacho de pão ou às batatas que mal avistavam o azeite. Hoje, mata-se por desporto.

Mara
    

Entrevista com Nicolau Sernadela - "Tio João" da RBA

Nicolau, ou devemos chamá-lo “Tio João”?

Nicolau. Tio João é só o meu nome “artístico”, se é que posso falar assim.

Fizemos esta entrevista para que nos possa contar um pouco daquilo que foi a sua vida. Vamos chamar-lhe “À procura do fim da solidão”, Nicolau Sernadela, homem da rádio desde muito novo, líder de uma grande família radiofónica. Nasceu em Bragança e a não ser o período que passou no seminário de S. José em Vinhais, julgo saber que sempre viveu em Bragança, quais são as recordações que guarda da meninice da juventude?

Todas, porque a primeira, foi uma situação de minha vida que aconteceu quando tinha apenas dois anos e da qual me lembro dela todos os dias da minha vida. Foi marcante. Lembro-me de quase tudo a partir dos dois anos, lembro-me de tudo da minha vida, em especial, esta: estavam a construir a Caixa Geral de Depósitos, eu vivia ali ao lado, vivi durante vinte anos naquela casinha muito humilde, na Rua Nova numero 23, aquelas escadinhas em frente à Caixa. Tinha então dois aninhos de idade, ainda quase não sabia andar e caiu-me uma daquelas cantarias da construção, que me deu cabo de um pé, mais propriamente um dedo, fui hospitalizado, fui operado e etc… e lembro-me, todos os dias me lembro desse marco da minha vida, e não sei porque a partir daí, lembro-me de tudo. Até aos dois anos não me lembro de nada, a partir daí lembro-me de tudo como se fosse hoje; se calhar a pedra fez com que eu ficasse um homem cheio de pedra…

É uma pesada recordação!

Sem dúvida. Prejudicou-me muito e nós os portugueses temos sempre a mania, e com razão, às vezes, de dizer “podia ter sido bem pior” porque realmente era uma criança… as pedras ainda hoje existem…. Caixa Geral de Depósitos… eram pedras de cantaria e uma caiu-me no pé estive internado e a partir daí é que me lembro de tudo. Depois a minha meninice foi muito simples, muito humilde, eu recordo isso… estive vinte anos numa casa… embora a minha vida não tenha sido tão difícil como a de muita gente mas, eu vivi numa casinha muito humilde que nem casa de banho tinha, fui sempre habituado a balde e essas coisas. Para ir tomar banho tinha que ir a casa dos meus pais. Tive uma infância muito humilde mas espectacular, porque desde pequenininho - eu dantes era gordinho, era, inclusivamente, mais gordo, em proporção, do que sou hoje e desde pequenino tinha a mania de correr a Rua Nova, aquelas ruas, eu ainda me lembro, teria três, quatro anos, de jogar à bola ao pé dos correios, na rua Almirante Reis, incrível, impensável, lembro-me, ainda, de ter aquela coisa de tentar fazer rir os outros.
No seminário também fui conhecido por todos e hoje sabem quem sou. Lembram-se que eu já na altura tinha qualquer coisa… eu, no seminário, era considerado mágico porque tinha a filosofia da magia. Desde criança, toda a gente tinha a ver comigo, porque eu sempre fui animado, envergonhado sim, muito mas, quando tinha a estrada aberta fazia rir toda a gente.
Na quarta classe embirrei que queria ser padre, “namorei os meus pais”. Convém dizer que não vivi com os meus pais, porque a minha mãe, na altura era muito doente e esteve hospitalizada em vários hospitais e eu afiz-me aos meus avós e, para mim, o meu ídolo era o meu avô. Vi que havia chegado o momento, na quarta classe, de seguir outro rumo. Estava dividido entre os meus pais e os meus avós. Cheguei ao pé dos meus pais e pedi-lhes para ir para o seminário, e fui para o seminário.

E as recordações do seminário? Normalmente é um mundo que deixa marcas.

O seminário, para mim, que não fiz tropa, foi uma tropa mais pesada, talvez, porque eu tinha apenas dez anos e, nessa altura, há vinte e cinco anos, era tempo completamente diferente. Nós, inclusivamente, estávamos aos quinze dias, aos meses que, não saíamos cá para fora e, tive a infelicidade, também, de apanhar um Reitor muito conservador. Recordo que um dia nevou e proibiram-nos redondamente de jogar à pelotada e depois fomos obrigados, todos, crianças de dez, doze anos na altura, em truzes, a jogar à pelotada, o primeiro ano contra segundo. Também sou do tempo dos retiros a pão e água de três dias, crianças de dez, doze anos, por isso é que a tropa… a minha ilusão do seminário terminou com esse Reitor.
No primeiro ano tive um Reitor que foi um espectáculo, eu não vou dizer nomes com certeza mas, aí mais me cativou, no segundo ano cortaram-me as pernas porque a lei do seminário mudou um pouco, tiraram-nos a pouca liberdade que tínhamos.
No segundo ano, com a falta de liberdade, vem outra etapa da minha vida. Embirrei que tinha de sair do seminário a meio do ano. Os meus pais não queriam, ninguém queria porque ia perder o ano… deu-me uma filosofia de vida espectacular: ai é! Então vou sair mesmo. Fiz-me doente, só que depois a doença complicou-se e apareceu mesmo. Já na altura, ainda bastante pequeno, tinha tido ataques epilépticos e, depois, porque queria estar doente não comia etc… voltaram os ataques epilépticos e ai tive que ser internado em vários hospitais. Estive no Hospital de S. João durante três ou quatro meses.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Olá!

Estamos quase no final da semana. Ainda verão no calendário mas não no dia. Hoje apresentou-se-nos um dia recheado de vento que, longe de ameno e quente, parece vestido de outono profundo. Salva-se o sol que ainda brilha em todo o seu esplendor, irradiando luz neste céu de azul único, como não há em nenhum outro lugar do mundo.
Mesmo assim, tudo segue o seu rumo e os dias passam tão depressa que, ainda ontem era primeiro de agosto e agora é quase fim de mês.  
A próxima entrevista a ser colocada, no domingo, como habitualmente, será a de António Afonso, antigo Presidente Região de Turismo do Nordeste Transmontano.
Como todas as entrevistas que realizámos, traz-nos uma nova perspectiva, um novo olhar distinto de todos os demais.
Vale a pena gastar algum tempo na sua leitura e análise. Esperamos contar com a colaboração e amizade de todos. Bem hajam.
Até já. 

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Água II

O rio Tuela corre ao fundo da minha aldeia, onde existe uma pequena praia. A água, límpida e fresca, cercada de amieiros e salgueiras, convida a mergulhos.
O espaço circundante, verde de oliveiras e vinhas que sobem até à Capela da Senhora da Saúde, convida a muda contemplação.
Esta é a minha ideia de paraiso. Quando, porventura, necessito recolher-me em mim mesma, em meditação, é para lá que vou. Basta-me fechar os olhos e pensar o marulhar da água nas pedras do rio.
A água que passa, muito rápida, não tem tempo de falar com as pedras. Os peixes nem notam que a água é sempre nova.
Encaminha-se para o Castro Mau onde também não pára. O Poço, negro como lava de vulcão quando se apaga, é uma boca infernal e bela que clama atenção.
Entre fragas, o rio segue o seu rumo, ainda certo, porque selvagem e leva com ele muitos sonhos e pesadelos, muitas lágrimas e suspiros, muitas alegrias e tristezas, trabalhos sem fim, sacrifícios sobre humanos a que serenamente assiste a água que incansavelmente passa.   
No inverno vai mais rubicundo, cheio e, por vezes, lamacento, conforme a chuva. É mais bravio, galga margens e impede passagens. No verão era o nosso refúgio, a nossa frescura. De pedra em pedra saltaricávamos, caíamos, molhavamo-nos. Quem sabia nadar, atiráva-se ao poço dos amieiros, quem não sabia chapinhava onde tinha pé.
O meu pai chamou por mim, no meio do poço verde e eu fui, qual Pedro ao encontro de Jesus. Soçobrei, perdi a fé e afundei-me inexoravelmente.
Agarrou-me pela cintura e levantou-me, bebi água, agarrei-me com garras que não sabia possuir e disse: Ai que me afogo pai. Vejo que tinhas muita sede filha, brincou. Levou-me até à margem. A minha mãe assistia com um sorriso no corpo e o meu irmãozinho nos braços.
O meu paraíso guarda aquele momento como uma belíssima tela que anjos suspendem do céu.

Mara    

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Água

Certa vez, caí ao tanque onde bebem as crias.
Como já referi, era incapaz de estar sossegada. Nessa tarde de verão deu-me para subir ao rebordo do tanque para tentar chegar à torneira onde deveria beber água.
Muito me estiquei e, de grande que era, não consegui alcançar a dita torneira. Nessas várias tentativas, caí de cabeça dentro do receptáculo.
Não fora um primo da minha mãe, teria morrido afogada. Tão rápido como um raio, agarrou-me pelo vestido de chita e puxou-me para fora. Durante algum tempo, julguei nunca mais conseguir respirar, tão grande era a minha aflição. Lentamente fui recuperando do susto e, nem sequer sei se lhe agradeci, se lhe dei um abraço, nem sei se sorri, eu que tinha sempre o sorriso pronto. Sei apenas que lhe devo a vida o que não é pouco.
Graciano, assim se chamava ele, era uma figura deveras interessante. Foi criado pela tia desde tenra idade. Filho da única irmã da minha avó que o teve enquanto solteira, foi abandonado depois do casamento dela com o tio Medo, que era assim que lhe chamavam, por ser tão tenebroso e malvado. Foi exigência sua que o menino não fizesse parte da família.
Com o passar do tempo nasceram outros filhos, muitos. Uns morreram, outros sobreviveram porque era esse o seu destino.
Graciano começou a servir como guardador de vacas na Edrosa, com a provecta idade de nove anos. Que tempos aqueles em que um menino dessa idade tinha de trabalhar para prover o seu sustento! Não foi o primeiro e também não foi o último. Muitos, antes dele e muitos depois dele, comeram o pão que o diabo amassou com o rabo.
A mãe morreu nova, vítima dos maus tratos e da má vida que o homem lhe dava. O homem morreu cedo vítima do que, agora, suponho ter sido cancro.
O meu avô, bastante mais novo e ainda solteiro, aprendeu a arte da carpintaria com o tio Medo. Entre os dois gerou-se uma amizade que parecia contrariar a alcunha que lhe haviam atribuído. Aos olhos do meu avô, este homem que a todos aterrorizava, era boa pessoa.
Graciano teve a sorte de ser acolhido por uma boa família que, mais do que criado, o tratou como filho. Foi feliz. Mais tarde, já adulto, resolver voltar para a aldeia e para junto da tia. A minha mãe, garota ainda, nutria por esse primo, amor de irmão.
A vida deu voltas e reviravoltas, saiu e voltou, casou, teve filhos do casamento que lhe morreram, teve filhos fora do casamento que também não sobreviveram. Desgosto após desgosto, não aguentou mais e regressou definitivamente ao buraco que lhe deu a existência. Tornou-se um solitário. A tia continuou a ser a única mãe que conhecera.
Diziam que comia cobras e outros bichos estranhos. Morreu de cancro com setenta e dois anos e está sepultado no pequeno cemitério da aldeia. A sua campa está voltada para a da minha avó.
Estão próximos como sempre estiveram.

Mara  

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Medo

                                      Fadiga de dor,
Que a cor não reflecte
Na angústia do branco
Escrito de verde.

Secou as lágrimas
À manga do casaco
Escondeu o vermelho
Que raiava o olhar
E partiu para sim
Te encontrar.

Não sabes que a dor
Para além de oprimir
Impede o grito
Que não podes ouvir.

E o teu sorriso torto
Que eu mais adivinho
Por entre aparatos
De lutas sem fim
Grita a cor
Deste negro festim.

Mara

Uma vida sem cor

Dor de gente,
Inconsciente dor.
Vegeta somente
Uma vida sem cor.

Na impossibilidade
De viver sem ideais
Não há vazios
De acabar,
De preencher.

No vácuo que existe
E é triste
Vivem o negro,
Duro viver
As toutinegras
Que não tentam ser.

Pode mover-se
Fingindo marés
Em prisão contida
Sem riso nem vida.
Vegeta somente
A pedir guarida.

Sem voz,
Na garganta enclausurada,
Rumoreja,
Não sabendo porque
O que a alguém
Sobeja.

Descoberta a razão
As coisas acontecem
É olhar sem ver
É olhar para mim
E apenas olhar
O mesmo olhar sem fim.
Sem direitos seus,
De olhos vendados
Para evitar dispersão
É preciso ver sempre
Na mesma direcção.

Olhar prá frente
Para trás é que não!
Olhar para o lado
É perder o norte
É sonhar ilusão.

É pressentir outras vidas
É aspirar vagos perfumes
De deusas iguais.
É ter nos teus braços
Sabores irreais.

É ser quem se é
E tentar até
Que a vida sorria
Aquilo que não é.

Mara

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Memórias

A menina brincava na rua. Só estava em casa às refeições e enquanto dormia.
Desde que começou a andar, nunca mais parou em casa. Queria mundo, queria vida. A aldeia era muito pequena e todos os adultos cuidavam de todas as crianças. Por isso, mãe e avó, ficávam quase tranquilas.
Quando era necessário procurá-la, lá ia a mãe. Viu a minha menina tia Lucinda? Não minha filha, só agora me sentei aqui.
Ti Cecília? Oh ti Cecília, a minha filha está aí? Está a comer um carolo de pão com os meus netos. Entra. Não tia, mande-ma cá, se faz favor.
Vai à tua mãe minha linda, vai lá! Leva o pão.
Oh filha, que nunca sei de ti. Mãe, sabias que a Ana tem um passarinho novo? É amarelo por baixo, na barriga, é lindo mãe, também quero um!
Não se calava. Tagarelava como uma taramela, incansavelmente. Ai filha que me cansas, dizia a jovem mãe, sorriso nos lábios, de orgulho mal disfarçado por aquela criança, linda como o sol, inteligente como ninguém.
Todos, sem excepção, a tratavam de forma diferente, ninguém sabia porquê. Até os outros meninos e meninas, da sua idade e mais velhos. Nunca ninguém, nas lutas de pedras que faziam, tinha tido coragem de lhe "furar" a cabeça. 
Tinha cinco anos. Era um ninguém de gente, franzina, leve e ladina. Corria tudo, espreitava em todos os buracos, perguntava sem fim. Só parava quieta e muda ao ouvir as histórias da tia Lucinda.
A tia Lucinda não sabia ler nem escrever. O mais longe que tinha ido, na sua já longa vida, fora a Vinhais. Era doce como mel no trato com as crianças. Ao fim da tarde, quando o sol começava a baixar, à sombra do cabanal, transfigurava-se na melhor contadora de histórias de todos os tempos.
Cercada por todos os garotos que ainda não tinham de trabalhar, iluminava-se e, a sua boca destilava as palavras mais belas, jamais ouvidas. 
Só nesses momentos, tardes-noites de verão, a menina sossegava, mal respirava com medo de perder, um suspiro que fosse, das histórias da tia Lucinda.
Mãe, sabes o conto da Gata Borralheira? Sei filha. Gostas? Muito filha. É bonito... Fechava os olhos e adormecia nos braços de todas as personagens maravilhosas que aquela mulher, completamente analfabeta de letras, sofrida pelos anos de laboriosa vida, de muitos filhos, de marido carrasco, que todos eram, lhe tinha oferecido.
Naqueles tempos em que ser mulher era sinónimo de servidão e aniquilamento, era quase um milagre a existência de tal mulher. Talvez fosse uma fada a cumprir penitência por um pecado de amor... 
Tia Lucinda, vestida de negro da cabeça aos pés, sem ser viúva, transportava consigo alma de alva brancura.

Mara

domingo, 21 de agosto de 2011

Bom dia amigos!

Aqui estamos com mais uma entrevista, a sexta. O nosso entrevistado desta semana, dispensa apresentações, tal tem sido a sua visibilidade nos orgãos de comunicação social portugueses e estrangeiros.
O "Tio João", Nicolau Sernadela, transformou-se num fenómeno mediático por razões justas e louváveis. Teve a coragem de se dar com o povo, o nosso mais genuíno povo, aquele que vive e trabalha nas aldeias perdidas de Trás-os-Montes.
Soube descer ao seu nível e, pesem embora, muitas críticas a que tem sido sujeito ao longo deste vinte anos, não desistiu. Continua, insistentemente, a alertar para a solidão em que vivem os nossos velhos, muitos entregues a si próprios, longe de filhos e netos, que esses, foram à luta para outras paragens.
Bem hajas Nicolau por esta força!

sábado, 20 de agosto de 2011

Nicolau Sernadela - Tio João

A entrevista que amanhã, domingo, postaremos é a de Nicolau Sernadela, o tio João da rádio RBA.
Este programa e o seu autor são um fenómeno social, merecedor de estudo para memória futura, no entanto, humildemente julgo, que se deve à solidão e desamparo a que estão votados os nossos idosos nas aldeias de Trás-os-Montes e de Portugal inteiro.
Nicolau Sernadela é merecedor de todo o nosso respeito e admiração por ser quem é. Foi um visionário e consegue, todos os dias, levar algum alento e alegria a muitos lares, onde o pequeno aparelho de rádio minimiza a solidão, de alguns, absoluta.
Bem hajas Nicolau. 

Entrevista com Helena Genésio

Nasceu em Bragança, na freguesia da Sé, que recordações é que guarda da sua meninice?

Da minha meninice guardo a imagem de uma horta onde o meu avô trabalhava todas as manhãs e o prazer que me dava acompanhá-lo nesses trabalhos; guardo a imagem do rio Fervença cheio de galinhas de água, patos e maçarocos; guardo a recordação de brincadeiras no rio e nas árvores ribeirinhas onde, com outros garotos da minha idade, construía cabanas e esconderijos. Depois chegava a casa toda molhada e ouvia os inevitáveis raspanetes …foi uma infância muito feliz, uma infância dourada sob o olhar atento dos avós, dos pais.


Está bem diferente o rio Fervença hoje? Para melhor ou para pior?

Está diferente. Melhor. Ainda que a imagem que eu guarde dele seja uma imagem dourada, como as infâncias, a verdade é que era um rio muito sujo e malcheiroso. Hoje é um rio que juntamente com a zona envolvente constitui um espaço de lazer muito agradável.

Até que ponto o facto de nascer nesta região a marcou?

Marcou-me profundamente porque acima de tudo sou muito transmontana. É o oceano megalítico de Miguel Torga que trago na alma; é a paisagem transmontana que me enche o olhar; a ela regresso sempre que me afasto.

Acima de tudo uma transmontana convicta?

Uma transmontana convicta.

Estudou em Bragança até ir para a Faculdade de Letras do Porto. Que vivências é que guarda desses tempos?

Eu fiz o Liceu todo em Bragança. Não posso esquecer alguns professores que tive e que marcaram a minha conduta, as minhas opções, o meu percurso académico: o Dr. Eduardo Carvalho, o Padre Gil, a Dr.ª Luísa Rio Alves, o Dr. Pimentel, a Dr.ª Marília.

Nesses tempos era tudo mais certinho?

Não sei, era diferente, todos os tempos têm o seu tempo. Estava no 3º ano do liceu, hoje 7º ano unificado, no 25 de Abril de 74. Tudo era novo, diferente, muito colorido. Na altura não percebia muito bem o que se passava. O entendimento desse tempo, a consciência política veio depois, mas agradava-me a irreverência do momento. Eu não era uma “menina certinha” era irreverente, cheia de energia, um pouco cábula.

Sempre o estudo acima de tudo?

Não, o estudo sempre ao lado do lazer, ao lado dos amigos e ao lado dos grupos de teatro que na altura já frequentava, nomeadamente no extinto FAOJ, hoje Instituto Português da Juventude.

Então o teatro é um bichinho que já vem desde há muito?

É um bichinho que vem desde sempre. O meu pai fez teatro quando era novo, era e é um apaixonado da arte dramática; cultivou nos meus irmãos e em mim essa paixão. Desde muito cedo que as festas de Natal tinham sempre teatrinhos feitos por mim, pelos meus irmãos e primos. Assistia a muitas peças de Teatro durante as férias, nas viagens ao Porto. Em Bragança recordo-me de algumas a que assisti, dirigidas pelo Marcolino Cepeda. Portanto, o teatro acompanhou a minha infância, a minha juventude, a minha adolescência e continua ao meu lado.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Leituras

Depois de ler "La Bouba de la Tenerie", de Amadeu Ferreira que uma e outra lágrima me fez derramar, pela história em si e pela beleza da escrita, fiquei ávida de mais e, pasme-se, li-o em mirandês, analfabeta que sou nessa língua.
Brevemente lerei a sua "tradução" para português, o "Tempo de Fogo". O Amadeu diz que são dois romances diversos e aconselhou-me a ler primeiro o "La Bouba", escrito na "sue purmeira lhéngua".
Foi o que fiz, como já havia referido e não me arrependi.  
Leio agora "O Romance do Gramático" de Ernesto Rodrigues. Vou, sensivelmente, a meio do livro e tenho de referir que estou muitíssimo agradada com esta nova obra do nosso amigo.
Ernesto, como já tive ocasião de lhe dizer pessoalmente, apesar de escrever maravilhosamente, encriptava de tal forma a sua escrita que nos fazia exploradores, que não leitores.
Claro que o facto de sermos exploradores apenas nos enriquecia na tentativa de descobrir a sua alma oculta. No entanto, às vezes, queremos, apenas, esquecer o passar dos dias e das agruras dos mesmos.
Este "Romance" traz-nos as duas vertentes: a primeira, que ainda nos obriga a leitura atenta e concentrada, apesar da beleza das palavras que desde o primeiro momento nos prendem e a segunda que nos liberta e conduz para ilha de monges de paisagem paradisíaca, onde, apesar da beleza natural, não impera a beleza espiritual, nem a pureza, esperada, das almas que ali habitam.
Vou prosseguir a minha leitura. O "Gramático" chama por mim.

Mara

Bom dia amigos!

Cá estamos novamente, depois de alguns problemas técnicos, ainda não totalmente resolvidos.
Esperamos resolvê-los o mais breve possível para poder continuar com atualizações diárias.
A exemplo do que temos vindo a fazer, postaremos na página inicial a entrevista de Helena Genésio, a fim de poder disponibilizá-la, em arquivo para quem a quiser, no futuro, consultar.
Vamos, no entanto, colocá-la aos sábados, assim como todas as entrevistas daqui em diante, em vez de à 4ª ou 5ª feiras, como até aqui. O que nos leva a fazê-lo é a facilidade com que é acedida, bastando clicar na página que a contém.
A próxima entrevista a ser postada, no domingo, é a de Nicolau Sernadela, "o tio João" da RBA.
Como temos referido, e quem fez o favor de acompanhar o programa de rádio, durante os três anos da sua duração, sabe, as personalidades que tivemos o prazer de entrevistar, advém de vários quadrantes, económicos e sociais.
"O tio João" é um fenómeno social que, ao invés de nos intrigar, nos faz pensar na solidão dos nossos idosos, espalhados pelas pequenas aldeias que compõem o puzzle deste Trás-os-Montes desertificado e abandonado ao seu destino pelos nossos governantes, de há muitos anos a esta parte.
Esperamos continuar a contar com as vossas visitas e colaboração.
Bem hajam e até já.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

La Bouba de la Tenerie

Amadeu,
Acabei de ler "La Bouba de la Tenerie". Li em mirandês como me sugeriste. Consegui entender a "lhéngua", embora muitas palavras as tenha tirado pelo sentido.
A Santa Inquisição foi um dos buracos negros da história do ser humano. Em nome de Deus fizeram coisas terríveis, injustiças sem fim...
A soltura com que as palavras nascem fez-me perceber que a tua alma se recorda, talvez por respirares os ares das Terras de Miranda. São coisas que ficam e se entranham. É como se as cinzas dos sentenciados, o sangue dos torturados, os ais da dor sem fim se espalhassem pelo mundo para depois se juntarem nas terras onde esses homens, mulheres e crianças nasceram.
Só assim consigo explicar as lágrimas que fizeste nascer nos meus olhos. A dor que senti pelos actos dos homens.
Sou professora. Sei a força que as palavras têm. Sou mulher, conheço o poder das palavras. Nada é mais forte que elas, nesta torre de Babel que nos cabe viver.

Parabéns e obrigada por este livro que me fizeste ler em mirandês, língua de que nada sei. Só tu serias capaz desta proeza.

Mara

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Tristezas

As minhas memórias de menina trazem, algumas, um sorriso aos lábios, outras uma tristeza profunda ao coração. 
Não havia a fartura que há hoje e o enorme desperdício a que nos habituámos. Era tudo regrado e poupado. Eu tive a sorte de nunca passar necessidades. Tive sempre mais do que o essencial. Muitos dos meus camaradas não tinham. Alguns comiam pão quando a minha avó, que quase alimentava meia aldeia com o fruto do seu trabalho, lho dava.
Não era uma criança tranquila, definitivamente. Andava sempre em bolandas pela aldeia e pelos campos mais próximos, sempre acompanhada pelo resto da garotada. 
Os rapazes e raparigas do meu tempo trepavam a árvores, subiam montes, desciam fragas, nadavam no rio e trabalhavam. 
Caíam, esfolavam joelhos e braços, furavam cabeças à pedrada uns aos outros, que também havia pequenas guerras, mas éramos todos muito felizes porque não conhecíamos outra coisa.  O nosso mundo era quase perfeito.
A perfeição acabava quando alguns pais batiam nas mães e nos filhos. A violência doméstica sempre existiu, mesmo nos pequenos paraísos.
Ao falar deste tema, abre-se-me, como num filme, uma das cenas mais dolorosas a que já assisti na vida. A aldeia em peso corria para um pequeno casebre existente a meio da única rua do lugar, onde os gritos irados e bêbedos do homem eram emitidos ao ritmo das pancadas que dava à mulher, mãe dos muitos filhos que tinha. Ela já não gritava, não chorava... apenas aparava os golpes e pontapés que, o monstro insano em que se tinha transformado o marido, lhe dava. 
Estava ao colo da minha mãe. Sem entender verdadeiramente o que se passava, via sangue nas roupas, nas pernas, na cara da mulher. Essa imagem deixou uma marca tão funda, tão triste em mim que, nunca mais conseguirei esquecer. 
Alguém acabou com aquela tortura, não sei quem foi. A besta foi levada dali para fora, a mulher foi amparada na queda iminente. Alguém, outras mulheres, cuidaram dela e da filharada. O homem, depois de apartada a bebedeira, chorava como uma alma perdida. Durante alguns dias desapareceu dali. 
Contar este episódio é extremamente doloroso para mim. Era tão pequena que só muito mais tarde consegui entender o que vira.
Muitas vezes, a minha mãe e eu, ainda falamos sobre aquilo. A mulher espancada ainda era sua família. Digo-lhe que aquele homem devia ter sido preso e proibido de alguma vez voltar a ver a mulher e os filhos. Ela diz que aquilo era a bebida, a fome e a pobreza a falarem... Não sei.
Recordar, às vezes, é muito doloroso. Não sei porque me veio ao pensamento esta tragédia. Estamos de férias, é verão. 
Hipoteticamente, não me deveria passar pela cabeça esta memória. O nosso cérebro é um mundo por descobrir.
Hoje tive um dia feliz. Fui à minha aldeia, embebi a alma naquela maravilhosa paisagem. Passei diante da casa onde, durante muitos anos, funcionou a escola. Ao lado dessa casa ainda existe o pequeno casebre...
   
   

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Agosto IX

Tínhamos um burro, animal simpático e teimoso como todos. 
Enquanto o tivemos, facilitou muito a vida à mãe e à avó. O animalzinho era trabalhador e, fora as pequenas birras que ia fazendo de vez em quando, cumpria perfeitamente a sua função. Digamos que era mais um da família.
A minha avó, cesteira de profissão, nutria pelo animal grande amor e compaixão. Tratava-o o melhor possível, salvaguardando, obviamente, as devidas distâncias (a minha avó tinha perfil para defensora dos animais). 
Teria eu três anitos quando se deu o que vou contar. As estações do ano, como é natural, seguiam o ritmo que lhe competia, perfilhando-se umas atrás da outras, ininterruptamente. 
Passou o inverno arisco, a primavera floriu e semeou todos os frutos num esplendor de flores, aconteceu o verão, o burro adoeceu. 
A mãe e a avó ficaram imensamente tristes e, mesmo sem grandes posses, chamaram o veterinário. O diagnóstico foi o pior que se poderia esperar. O animal não tinha salvação. Estava gasto. Não podia mais. Era deixá-lo até que desse o último suspiro o que não demoraria muito.
Assim foi. Nesse mesmo dia, durante a noite, finou-se o nosso burro. Apesar da tristeza, tratou-se de o retirar da loja e de o enterrar por causa da bicharada. Procurou-se um lugar suficientemente longe das casas para que o cheiro inerente à sua decomposição não incomodasse e, foi esse o fim do asno que tantas alegrias nos havia dado.
Foi o meu primeiro funeral. Sim, não é caso para rir. A minha avó, durante a sua longa vida, fazia questão de me lembrar, embora eu não tenha do acontecimento a mais ínfima memória, que me fartei de chorar pelo burro. Dizia ela que durante dois ou três dias choraminguei pelo jumento como se por uma pessoa fosse.
Não sei que afeição desenvolvi pelo burrico com aquela tenra idade. Talvez fosse a doçura natural destes animais que me cativou e o facto de muitas vezes, o ter cavalgado com a minha mãe. Sei lá! O certo é que nunca mais tivemos nenhum.

Mara

Olá

Espero que continuem a acompanhar-nos nesta jornada. Agradecemos a todos aqueles que nos tem dado a honra de estar connosco.
Obrigados

domingo, 14 de agosto de 2011

Agosto VIII

Desde manhã, corria todas as ruelas da aldeia com as outras crianças. Os pais nunca sabiam onde estavam os filhos e, por mais que tentassem, era muito difícil saber. Nada os segurava.  Ti Ana, viu a minha menina? Não sei dela desde manhã. Vi-a passar com os outros lá para os lados da Pereira. Vou ver se a encontro. Até logo ti Ana. 
Os meninos e meninas daquele tempo eram livres como pássaros. Seriam a essência da liberdade se não tivessem fome e sede. Por isso brincavam e corriam. Os roncos dos seus pequenos estômagos enganavam-se com as amoras das silvas e as azedinhas das paredes. 
Era verão, agosto, o calor, naquela aldeia cercada por montes junto ao rio Tuela era quase insuportável. As ruas eram pó. Todas as fontes de mergulho estavam secas. No ribeiro da Calçada nem gota. Os animais sofriam, as pessoas também.  Mal havia água para matar a sede. As mulheres, madrugada dentro, saiam das suas camas para tentar recolher alguma água, produzida pela semi frescura da noite. Para arranjar dois cântaros de água corriam-se todas as fontes. Os grilos e as cigarras cantavam, os vaga-lumes iluminavam a escuridão. Ao longe uivavam os lobos, também sedentos, também com fome. 
Os homens dormiam inquietos, as crianças sonhavam sonhos perfeitos.
Raiava o dia. A aurora espreguiçava-se lentamente, sacudia os cabelos dourados e sorria.  Homens e mulheres, meios sonâmbulos, vestiam as delidas e remendadas roupas e saiam para o campo antes que "quecesse". Algumas crianças dormiam ainda, outras iam com os pais e avós, tios e tias. 
Tão pequenos e já trabalhavam como adultos. Francisco tinha sete anos e lavrava a terra com a parelha de vacas. Era tão franzino que mal se via mas, os animais sabiam quem mandava. A charrua pesava como chumbo e o ferro cortava a terra exangue. 
A avó contava esta e outras histórias dos seus filhos, meu tios e meu pai. O tio Francisco, em particular, era o meu preferido, aquele a quem mais amava e sofria com o seu sofrimento passado como se me tivesse acontecido. 
Desta vez não estava com os outros meninos que passarilhavam pelos campos. Mãe, estou aqui! Até logo avó.
Correu para a rua, envolveu a mãe num imenso abraço, olhos turvados de lágrimas.

Mara   

sábado, 13 de agosto de 2011

Entrevista com Helena Genésio

Daqui a apenas algumas horas, vamos postar a entrevista da Dr.ª Helena Genésio, Directora do Museu Abade de Baçal.
Contamos com a sua visita. Leia e comente. Queremos saber a sua opinião.

Até já.

Agosto VII

O peixinho ficou no cesto. A alegria era tanta que ela mal se conseguia manter quieta para o apanhar. Com muito cuidado saiu do rio. Escorreu-lhe a água e, lá no fundo, estava um minúsculo peixinho, muito menor que um carapauzinho dos que é proibido apanhar e que, mesmo assim, às vezes, encontramos numa qualquer tasca, frito e acompanhado por um arroz de tomate malandrinho. 
Mãe, apanhei um peixe mãe! Olha mãe! 
Oh filha, isso é tão pequeno, o que é que vais fazer com ele? Deita-o fora, isso não serve para nada. 
Não mãe vou levá-lo, vou assá-lo e vou comê-lo ao jantar. 
A mulher ria-se, encantada com as certezas da filha. O que mais desejava era que ela fosse feliz. O pai estava tão longe, lá para o Brasil. Que saudades tinha do único homem da sua vida!
A menina tinha seis meses quando ele se foi embora, portanto não conhecia o pai.
As cartas, apesar de muitas, eram tão poucas! Oh rapariga, olha a tua roupa a ir pelo rio abaixo. Parece que estás no mundo da lua! Esta gente nova... 
Obrigada tia Lucinda. Levantou-se, agarrou a saia e foi atrás da roupa que lhe fugia arrastada pela correnteza. 
Mãe, o meu vestido! Mãe, olha a saia da avó! E ria-se. Chapinhava na água límpida do Tuela, correndo atrás da roupa.
Quando tudo voltou à normalidade, mãe, filha e demais comandita sentaram-se para comer as singelas merendas. A roupa estava à cora. O sol apertava. Era necessário acabar de a lavar e pô-la  a secar para que, pelo menos, escorresse. O caminho até à aldeia era íngreme e exigente. A trouxa era grande e se a roupa estivesse molhada, mais difícil se tornaria. 
As mulheres afadigavam-se para que tudo estivesse pronto a boa hora. As crianças brincavam. A menina guardava cuidadosamente o seu "enorme" peixe.
Fim do dia, lusco-fusco, trouxas atadas e colocadas à cabeça. Ai que isto pesa Senhor!
A subida é penosa. A alegria esvai-se com o cansaço. As crianças já não riem. Vão devagar. Cada uma leva a sua pequena trouxa. Os mais pequeninos vão pela mão das mães. Impressiona a força destas mulheres.
Chegámos, graças a Deus! Até amanhã raparigas.
A menina corre pela rua acima. Leva muita pressa. Ana, oh Ana! Que queres? Olha o que eu trouxe. O quê? 
Abriu a pequenina mão e mostrou o peixinho. A tua mãe tem o lume aceso? Tem. Vamos assá-lo? Vamos!
Felizes como um dia de primavera correram para casa e, finalmente, realizaram o desejo de um dia inteiro. 
Comeram-no. Nunca mais saborearam nada assim.
Era noite. As estrelas cintilavam no imenso azul, negro como um abismo.
 
Mara Cepeda

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Agosto VI

Mãe, posso ir?
Não filha, hoje não. É muito longe e está muito calor.
Eu quero mãe, por favor.
Não, hoje não.
Era noite ainda. No céu, as estrelas cintilavam contentes, como se dançassem a Danúbio Azul, num imenso salão de baile pintado de azul noite.
A mulher vestia-se. Com uma mão cheia de água lavou o rosto e calçou os gastos sapatos que usava para os trabalhos no campo; dispunha-se a sair.
A menina saltou da cama qual saltão verde dos campos e correu para a porta.
Eu também vou mãe, eu quero ir. Choramingava.
Com carinho, a mulher dizia-lhe que não que não podia. Mais choro, mais teimosia, que teimosa era ela. 
A mãe perdeu a paciência, estava atrasada. Os outros esperavam-na já. A caminhada era longa e o dia ia ser muito comprido. O fidalgo tinha muito pão para ceifar. Da aldeia ia uma tropa de vinte, rapazes e raparigas. Deu-lhe uma nalgada e fê-la voltar para a cama. 
Saiu para a rua e sentiu frio. A madrugada estava fresca. Corria um vento agreste. Embrulhou-se no delido xaile e disparou pela ruela abaixo. A menina chorou até voltar a adormecer.
Chegou esbaforida junto dos companheiros de jornada. Parece que não querias vir rapariga. Mais um cibinho e íamos embora. Foi a menina, queria porque queria vir comigo. Tive de lhe sacudir o pó para que me deixasse vir. Bem, vamos lá embora rapazes. 
Era fim de julho, quase agosto e ainda havia pão para cortar. Era tempo de muito trabalho, de muita canseira. Tinha de ser, o dinheiro fazia muita falta e era quando se ganhava algum.
Era uma vida difícil. Tinham de caminhar muitos quilómetros por dia, de uma aldeia para outra, à procura do seu sustento. Os dias eram quentes como um deserto e desde que se começava a labuta até que se matava o bicho passavam muitas horas. 
Bebia-se muito vinho e pouca água. O vinho era farto, a água escassa. O calor era tanto que parecia que o vinho não tinha força suficiente para embebedar e não embebedava. Esvaia-se pelos poros sem deixar mácula. 
Quando chegavam as mulheres da casa com o almoço, as mãos eram um prolongamento da foice. Procurava-se uma sombra. As pernas e as costas recusavam-se a dobrar. No entanto, o cheiro bom da comida, alegrava a alma e o estômago. Cantava-se, ria-se, dançava-se ao som do realejo que alguém levava no bolso como fiel companheiro. 
Dava-se tempo ao calor para se afastar um bocadinho e a foice voltava à vida. Quase autónoma, independente do pensamento que voava. Uma mulher iniciava um canto e todas as outras a acompanhavam. "Quem canta seus males espanta". 
Era verão, quase agosto. Era-se feliz com tão pouco. Sofria-se tanto sem saber!

Mara Cepeda

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Entrevista com Telmo Verdelho

Entrevista realizada em 13 de Março de 2004

Nasceu no concelho de Mirandela, Vale de Gouvinhas, como passou a sua meninice e que recordações guarda desse tempo?

Tive uma infância que pode ser lembrada como um lugar aprazível, como a de quase toda a gente. A consciência que eu guardo e que, de certo modo cultivo, é que fui uma criança muito mimada, muito protegida, muito estimada. As crianças em Vale de Gouvinhas eram todas tratadas com imensa ternura. Até a minha mulher, quando chegou à aldeia, nunca antes tinha ido a Trás-os-Montes, notou esse facto, reparou que as pessoas tinham uma paciência e uma vivência lúdica e de felicidade em relação às crianças que lhe não parecia comum.
As lembranças de infância que eu guardo, não sei se as selecciono, são duma quase plena satisfação, são a expressão do acolhimento, do bem-estar, de um natural carinho que as pessoas repercutiam no encontro do dia-a-dia. Não me lembro de uma expectativa de sorriso frustrada, por entre a pequena multidão de rostos, de pessoas de todo o tipo, de todas as idades, de todas as condições, que preenchiam o horizonte do quotidiano, nesse lugar e nesse tempo, já agora tão remoto, e que nunca mais poderá ser revivido.


São, portanto, boas as recordações que guarda dessa altura?

São óptimas. Houve, naturalmente dias de sol e dias de chuva, e tempestades em copos de água, como em todas as infâncias e adolescências. Nesse tempo não se consideravam crime os “castigos corporais” aplicados oportunamente, com moderação e sem ira. Era uma forma de comunicação muito imediata que ensinava a reconhecer o corpo como instância de informação e de acção responsável. Era uma prática pedagógica tradicional, considerada eficaz. É claro que a eficácia não é um critério absoluto de perfeição, em todo o caso, acho que não se deve ser fundamentalista, há um nível de naturalidade nas relações humanas que pode integrar alguma informação físico-corporal.
Pela minha parte, mesmo sob este ponto de vista, não tenho muita razão de queixa. Tive um espaço familiar muito acolhedor que de algum modo compensava uma certa imoderação nos castigos físicos aplicados na escola primária pelo professor que era muito espartano e um tanto áspero.
Eu tinha uma família muito numerosa. Em casa éramos habitualmente quinze pessoas, mas além deste quadro vernacular, havia sempre muita mais gente que frequentava a casa para participar nos trabalhos agrícolas, ou no âmbito de um assíduo relacionamento com a aldeia. Esta comunidade era um espaço de realização e de entrada no mundo que me parece irrepetível. Infelizmente o nosso quadro familiar hoje não pode ter essas condições. Foi uma experiência que se integra na história do tempo passado.

Avançando agora no tempo, a princesa do Tua tornou-se efectivamente uma bela cidade. Sente com certeza orgulho das suas raízes e da sua terra?

Obviamente, gosto de Mirandela, mas não devemos ser presumidos e sobretudo acho que fica sempre bem uma certa modéstia na avaliação do que é nosso. No que respeita a Mirandela, tenho razões para ser bastante crítico, mas prefiro assumir essa atitude quase como uma conversa de família. É a minha "tribo". Não é necessário desconsiderá-la entre os de fora. Há alguns aspectos, em todo o caso, que podem vir à colação. Mirandela foi uma terra que cresceu naturalmente, como muitas outras, nos últimos cinquenta anos. Cresceu até um pouco desimpedidamente e é claro que esse crescimento, assim casualmente ordenado ou desordenado, não pode evitar alguma disformidade. Por outro lado, não consigo ultrapassar a impressão de que houve demasiado cultivo das aparências. Este fogo de vistas condiciona e prejudica toda a nossa vida pública, a política nacional e a política regional. Mirandela também teve não poucos prejuízos. Não faço ideia, por exemplo, sobre o que se passa com o famoso metro, nem sei se ainda funciona. É absolutamente necessário que as pessoas saibam quanto é que custa e em que condições se mantém um objecto daqueles, porque eu julgo que uma terra não pode dar-se ao luxo de manter brinquedos que são excessivamente caros, quando pode dar qualidade de vida de modo muito mais barato e mais eficaz. E neste caso, concretamente, oferecer um transporte colectivo mais funcional e menos dispendioso.

Talvez dar outras condições sociais às pessoas?

Enfim, ser realista. Não trocar a projecção ficcionada, a projecção quixotesca, a projecção da promessa por uma realidade que se deve realizar, por uma qualidade de vida que pode ser garantida, afastando toda a ideia de efeito fácil. À parte isso, é preciso dizer que Mirandela ganhou muito com a tomada de consciência do seu lugar, das suas potencialidades, do seu enquadramento regional, da condição hidrográfica que a tornam um lugar interessante para viver. Não posso deixar de dar o testemunho de todas as pessoas que encontro por esse mundo fora, que são de Mirandela ou que conhecem Mirandela, e que, unanimemente, me dão a opinião de que é uma terra de boa gente, de muitos encantos naturais e em franco progresso. Eu nunca vivi propriamente em Mirandela, sou de Vale de Gouvinhas, que é uma aldeia um tanto distante e, portanto, não tenho essa experiência mais directamente sentida por quem habita na própria cidade.

Santa Bárbara

A mulher e a filha caminhavam, ligeiras e leves, pelo calor insuportável do meio dia.
Agosto quente, aquele. Tornava a vida difícil a quem não tinha outro meio de subsistir para além do trabalho árduo, nas poucas terras que possuía. 
O mais difícil era arranjar água onde nem gota havia. Os tempos eram outros e aquela pequena localidade tinha de se bastar a si própria, já que não existia água de rede. 
Só muitos anos mais tarde é que a câmara fez a captação de um enorme nascente localizado no Serro. Hoje não há problemas de falta de água, mesmo quando regressam todos os imigrantes, e são muitos, para matar saudades da sua Terrinha.  
Lá vinham elas, abrasadas e céleres, a menina pela mão, já cansada e a pedir colo. A mãe, cansada também, sabia que não podia adiar muito mais, pegar na filha. Que calor inclemente! Porque terei eu trazido este anjo comigo? Nunca mais aprendo.
Mãe, tenho calor e tenho sede. Estou tão cansada!
Está bem filha, vamos lá, só mais um cibinho. Estamos quase a chegar e já bebes água.
Sim, mãe...
Com a menina ao colo, a mulher quase corria. Parecia que qualquer coisa não estava bem, não sabia explicar, era um sentir... uma sensação estranha.
Estava muito cansada. Mais do que ver, intuiu o sol a turvar-se, tudo escureceu, um vento rude e quente fustigava-lhe o corpo. De repente, como se o inferno se abrisse, rebentou a trovoada que estrondeava como se o mundo fosse acabar, os raios cegavam. Começou a chover, bátegas grossas como punhos, quentes como caldo. Em poucos minutos estavam encharcadas. A aldeia nunca mais se deixava ver.
A chuva era tanta e tão forte que em pouco tempo corriam ribeiros pelos caminhos, apareciam pequenas cascatas que galgavam montes e fragas e se despenhavam sem dó onde calhava. Pedras desciam pelos campos em declive. A mãe reflectia no olhar o pavor que sentia.
Minha Santa Bárbara, minha mãe, protege-nos!
Mãezinha, tenho medo!
Já vejo a aldeia filha. Já estamos a chegar. Vamos buscar a Santinha. Vamos pô-la à porta da igreja. Vais ver como a trovoada pára. Podes andar um bocadinho agora?
Colocou a filha no chão e, mão na mão, correram até à pequena capela. A porta, naquele tempo, estava, sempre, aberta. A mulher precipitou-se para o altar de Santa Bárbara. Pegou nela com cuidado e respeito e rapidamente a levou para a porta.
Como por milagre, quase de imediato, a negritude do céu começou a esvair-se, os raios de sol romperam as trevas, a chuva começou a abrandar...
A Santa parecia sorrir. O verão voltava em todo o seu esplendor.

Mara Cepeda

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Agosto V

Por vezes, quando o dia ainda dormia, a mãe tentava que a filha ficasse na cama. Levantava-se o mais silenciosamente possível, leve como uma leve brisa e lentamente saía do modesto quarto onde dormiam, ela, a filha e a avó. 
Era um verão, quente, seco, muito seco. As fontes de mergulho, sem água, não respondiam às necessidades mínimas da aldeia. O ribeiro dava os últimos suspiros, ansioso por uma chuvada para retemperar forças. Apenas o rio levava água. Era para lá que queria ir a mulher que, na véspera, tinha feito uma enorme trouxa de roupa para lavar. 
Ficava um pedacinho distante e era necessário carregar com o fardo às costas. Por isso queria deixar a menina, ainda tão pequena, em casa, protegida daquele calor infernal. Mal pôs o pé fora do quarto: Mãe, eu também vou.
Não filhinha, ainda é noite escuro, há estrelas no céu. Ficas com a avó, está bem? 
Não mãe, vou contigo. Quero pescar um peixinho para assar.
De sono muito leve, ainda hoje assim sou, acordava, pulava da cama, pé no chão, meio despida, agarrada à saia delida da minha mãe, não desistia por nada deste mundo, do meu objectivo.
Sem outro remédio que não levar-me, a minha mãe acrescentava a parca merenda, calçava-me as chinelas, vestia-me o vestido e lá íamos as duas, noite estrelada, ao encontro das outras mulheres que também iam lavar ao rio.
Caminhávamos em grupo, silenciosamente, pelo caminho empoeirado, emanando ainda, alguma-pouca frescura. A manhã mostrava já, ténue claridade. Raiavam pequenos braços de sol e as mulheres iam aumentando o tom de voz à medida que o dia clareava.  As crianças riam e saltavam como cabritinhos.
Descia-se até ao rio Tuela, de águas límpidas e cristalinas, onde, de mão em concha, qualquer um matava a sede. Onde os pescadores apanhavam a bela truta, as enguias vivas e demais peixes que abundavam nos nossos rios de então.  
Lá chegadas, cada uma ia para o seu lugar habitual e lavava a sua pedra, gasta pelo correr constante da água. Saias e mangas arregaçadas eram horas de começar. Lá vem o dia, preguiçoso ainda.
A menina sorri. Sente a frescura da água nas mãos pequeninas e diz: Vou pescar um peixinho! Mãe, empresta-me o cesto. Vou pescar um peixe para o jantar.
A mãe ri. Minha tontinha! Não vês que eles não se deixam apanhar? Ah, mãe!
Pego no cesto e, sem me afastar demasiado, vou à "pesca". As mulheres lavam. As crianças brincam, riem, molham-se, atiram-se para a água como se fosse o paraíso.
Sou imensamente feliz. Estou toda encharcada. Uma chinela solta-se-me do pé e vai, rio abaixo, arrastada pela corrente. Corro atrás dela a gritar e a rir. Magoo os pés nas pedras do leito mas não sinto nada. Alguém a apanha e ma entrega. Cuidado não a deixes ir embora senão vais descalça para casa. Não importa! Viro costas, pego no cesto e vou apanhar um peixinho para o jantar.
Era verão e a vida sorria.

Mara Cepeda


segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Contamos consigo

Olá,
Agosto está quase a meio e ainda não encontrou o caminho para um verão como deve ser. Esperamos que o encontre agora para as Festas da Cidade de Bragança e muitas outras festas que acontecem um pouco por todo o lado em Trás-os-Montes.
O nosso blogue é que não vai de férias. Continuaremos a postar uma entrevista por semana, conforme prometido. 
Esperamos continuar a contar com a colaboração de todos.
Até já.

domingo, 7 de agosto de 2011

Professor Telmo Verdelho

Mais um domingo, mais uma entrevista. O entrevistado desta semana, Professor Doutor Telmo Verdelho é natural de Vale de Gouvinhas, Mirandela. É o maior especialista português em lexicografia. Vejamos o que disse numa comunicação realizada sobre “O problema das Línguas no Ano Europeu das Línguas”. 

Iniciou a sua palestra a falar acerca da importância e do significado do plurilinguismo num espaço geográfico, político e cultural como o da União Europeia, em que diversas Línguas se encontram sedimentadas, há alguns séculos, nos diferentes países que a constituem. No entanto, a pluralidade linguística não é sinónimo de divisão, podendo mesmo funcionar como factor de coesão entre os países da União Europeia.
O Professor Telmo Verdelho, de uma forma abundantemente documentada, apresentou-nos a história do ensino das Línguas, iniciado na Idade Média a partir do ensino do Latim, que sofreu um forte incremento sobretudo a partir do séc. XVI. Data desta altura a publicação dos primeiros dicionários.
Hoje, segundo o Professor Telmo Verdelho, o ensino das Línguas alterou-se significativamente, sendo cada vez maior o interesse posto na aprendizagem de várias Línguas estrangeiras, sobretudo nos países da União Europeia.
Efectivamente, 93% dos pais europeus dizem que é importante que os seus filhos aprendam outra Língua para lá da Língua materna e 72% acham que é importante estudar uma Língua estrangeira. Entretanto 26% dos europeus dizem que sabem falar mais do que 2 Línguas, para lá da Língua materna.
No entanto, como referiu o Professor Verdelho, nos últimos anos tem-se acentuado a tendência para que o ensino das Línguas seja incrementado fora do sistema oficial do ensino.
Alguns dados curiosos apresentados pelo Professor Verdelho dizem respeito ao número do Línguas existentes no mundo. Há quem chegue a falara em 35 mil Línguas, embora outros não apontem mais de 200. Em todo o caso, segundo o Professor Verdelho, o número mais consensualmente aceite será o de 5 mil Línguas.
Todavia, nem todas têm a mesma importância e o mesmo papel. Efectivamente, dessas 5 mil, mais de uma centena tem menos de 300 falantes e apenas 50 delas têm mais de 20 milhões de falantes. Por outro lado, 4 990 Línguas são faladas por menos de 20% da população mundial.
Depois de referir que as Línguas se matam umas às outras, o Professor Verdelho falou dos problemas que se colocam às Línguas na era da informação como aquela em que vivemos nos dias de hoje. A esse propósito salientou que se produziu mais informação nos últimos 30 anos do que nos 5 000 anos anteriores. Só nos Estados Unidos da América editam-se mais de 9 mil publicações por ano.
Assim se compreende facilmente que estejamos próximos da exaustão linguística.