segunda-feira, 18 de julho de 2016

Outros Tempos - 3º capítulo



- Minha neta, sei que tenho de te contar as minhas memórias nestas tuas férias de verão. O meu tempo esgota-se. Sinto-o. Não, não digas nada. Como tu própria dizes, sou a pessoa mais sábia que conheces. Quando chegamos a esta idade, começamos a sentir o fim. Tenho oitenta e oito anos, filha. Estamos em 1991 e o mundo mudou como eu nunca pensei. Sabes, gostava de ter, agora, os teus vinte e dois anos. Quanta coisa eu faria!
- Ó avó! Ainda parece uma menina com esses seus olhos azuis a faiscar como se todas as estrelas do universo morassem neles!
- Quem te ouvir não é surdo! Riu-se com gosto.
“Ao mesmo tempo, ato contínuo, ensombreceu-se-lhe o olhar e continuou o seu relato que eu ouvia com avidez.”  
- Estávamos no fim de setembro de 1918. De nada tinham valido as visitas do médico, tantas vezes chamado pelo meu pai.
A tristeza que sentíamos pela morte da nossa irmã era tão densa que quase a podíamos tocar como se fosse uma orvalhada.
O meu pai mostrava os olhos marejados de lágrimas, ele que nunca chorava. Os meus irmãos e eu, não nos atrevíamos a aumentar a sua tristeza, embora fosse quase impossível estarmos mais tristes.
O meu cunhado, com o pequeno Francisco pela mão, chorava desconsoladamente. Com vinte e três anos era ainda muito novo. Perdera o amor da sua vida. Ficara sem chão, sem destino. Não sabia viver sem ela. Estavam destinados um ao outro desde o momento do nascimento. Tinham a mesma idade e eram os melhores amigos.
José subiu os quatro degraus que conduziam à casa com o filho ao colo. Era um rapaz alto e bonito, tão bonito que, lhe chamavam o pimpão.
Posso dizer-te que tinha tanto de bonito, como de bom rapaz. Tinha um coração maior que o mundo e nunca abandonava quem precisasse de ajuda. Além disso, era muito trabalhador e habilidoso. Tinha tanta vontade de aprender que não se satisfazia com pouco.
Pode parecer que estou a descrever-te um santo… Felizmente, filha, estou a descrever-te um homem, de quem tive a felicidade de ser amiga e que considerava como irmão.
Era, também, inteligente e esperto e soube tirar partido do que a vida lhe ofereceu sem nunca prejudicar ninguém.
O meu sobrinho tinha quatro anos e não entendia nada daquilo. A mãe adoecera no fim de maio. Desde então, não a tinha visto. Ela não queria que o seu menino ficasse doente. Desfazia-se em lágrimas de cada vez que o ouvia chamar.
Quando sentiu que a morte a levaria sem redenção, chamou o marido e ditou-lhe as suas últimas vontades.
- Meu querido marido, meu amigo, peço-te que ponhas o nosso menino nos estudos quando tiver idade.
A sua voz saía num fio, sussurrada como brisa que não se sente, vestida pelo calor do estio em tempo de segadas, tal era a febre que a consumia.
- Ajuda-o a escolher um bom curso.
Tentava respirar desesperadamente. Tossia. A minha mãe pedia-lhe que não falasse mais.
- Temos o dinheiro que os nossos pais nos deram. Deve chegar, senão, alguém...
As palavras iam saindo aos solavancos, cada vez mais inaudíveis.
- Com a tua vida, José, faz o que o teu coração ditar. Se encontrares uma mulher que te mereça, casa com ela. Vou amar-te sempre.
Estas últimas palavras saíram-lhe numa golfada de ar. Num estertor angustiante, que lhe sugava a vida.
Fechou os olhos. Respirava com muita dificuldade. Os seus pulmões deixaram de funcionar. O sofrimento era impossível de ver. Insuportáveis foram os seus últimos momentos. Pedimos a Deus que a levasse.
Finalmente, a vida deixou o seu corpo franzino. Suspirámos de alívio.
A minha mãe mandou-nos sair. Com ela, José e o meu pai.
A minha irmã Maria, com o Francisco ao colo, assistia da cozinha ao desfecho daquela situação. Saiu para a rua e, como se uma voz a guiasse, tomou o caminho do rigueiro da Calçada sem olhar para trás. Não queria sofrer mais. Tinha de tirar o menino de casa. Não podia permitir que ele ouvisse os sons do sofrimento.
A minha mãe escancarou a pequena janela do quarto e todas as janelas da casa. Abriu todas as portas e gritou o grito que tão duramente guardara no coração.
Maria abraçou o menino, apertando-o contra o peito.  
Arregaçou as mangas da camisa, foi ao lar buscar água morna que pousou na cadeira junto à cama. Da arca tirou a mais alva toalha de linho fino e pediu ajuda aos dois homens para lavar e vestir a sua menina. 
Quando acabaram, os três olharam para ela como se fosse um anjo e, finalmente deixaram cair todas as lágrimas que tinham."
Parou de falar. Chorava. Ainda não consumira a sua dor. Ainda não fizera o seu luto.

Abracei-a. Senti um nó a crescer na garganta. 
- São horas de ir dormir avó. 
Olhei para ela como se apenas agora a reconhecesse. Aquela mulher era maior que a própria vida.
Beijou-me com um breve beijo de seda. Lentamente nos dirigimos para o seu quarto e ajudei-a a meter-se na cama que ela queria imaculadamente branca.
Ajeitei-lhe a almofada e finalmente, suspirou como se não houvesse outro remédio. Sorriu o seu meigo e divertido sorriso e pediu-me o habitual chá.
- Não fiques triste filha. Os teus olhos são lindos demais para neles sepultares tamanha tristeza.
No trajeto para a cozinha, duas gordas lágrimas rolaram pela minha face. Não podia continuar com aquela situação. O sofrimento dela era infinito. 
Fiz o chá e levei-lho, adoçado com mel das nossas colmeias.

Maria Cepeda    

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