domingo, 1 de outubro de 2017

A ponte de vidro - Introdução a Torre de Dona Chama




O monte de São Brás tem a desafiá-lo monte que chamamos Fraga. Separa-os um abismo respeitável de vinhas, estevas e mato por onde meu avô caçava. Uma ponte entre ambos seria de grande inutilidade; mas as promessas cumprem-se, e mais bela seria essa jura de princesa moura – caso vencesse os cristãos –, se o inútil virasse espantoso tabuleiro de vidro, acaso seguro em pilares sensíveis e cristalinos.
Sempre que entro nas minhas guerras de reconquista – um novo texto, outra infidelidade ao pensamento único –, lembro-me dessa ponte adiada na voz de narrador que, perguntado pela criança que eu fui – «E depois, avô?» –, respondia no limiar da novela de estreia: «Depois isso. Não fizeram a ponte e pronto.» Seja: não é que não houvesse vidro (de facto, não havia); a beleza da tentadora dona é que não chegava. Não deverei eu, autor sobre um abismo de nada, criar outro impossível, transformando a luxúria do verbo em amor de verdade aos seres de que me vou tornando senhor?
Eis a lição da minha princesa, Eugénia, no romance da terra natal, Torre de Dona Chama (1994), longa resposta à pergunta com que fechava a novela Várias Bulhas e Algumas Vítimas (1980), onde já colocara as versões literárias, oralizantes e históricas, que se conjugavam naquele nome, mas que, agora, nos meus distantes dias de Budapeste (1985-1986), eu vinha subverter, num quadro ainda medieval, estritamente bakhtiniano. Noutros momentos, em poema e conto, retomei essas preocupações, também homenagem ao berço.
Quanto às fontes literárias, tínhamos a linhagística desembocando n’“A Dama Pé de Cabra” (com extensão, em 2005, a Fascinação, de Hélia Correia), cuja edição crítica dei em Conto Português. Antologia Crítica (2005): como ela, a nossa Chama / Chamorra era pernas de cabra, / cara de senhora. Mas esta vivia numa torre, lá no cimo do monte hoje de São Brás, donde vigiava a cristandade. Era, pois, a torre de Dona Chama. Consideram outras vozes que a sineta que na torre tocava ao meio-dia, para despegar do serviço, levava os cristãos, em baixo, no vale onde se ergue a localidade, a entredizer-se: «Na torre, a dona chama.» Chama seria, portanto, ou nome de dona, ou forma verbal. Em qualquer caso, além da erótica herculaniana, a nossa era mais ígnea – nós mesmos designamo-nos flamenses, preferível a flamulenses –, de uma luxúria sem travão, obcecada por corpos de religião adversa, que atrai a si para, cevada a luxúria, os matar no tálamo de prazer.
Ao iniciar o meu romance, sabia que a expectativa dos dois narradores – um jovem professor recém-chegado e um jornalista da terra, primo da heroína – se casava neste lugar-comum: se desapareciam homens da terra, ou eram assassinados, é que morriam nas garras de jovem órfã e rica, acastelada em luxúria. Por analogia, esperavam outros poderes locais, a começar num tio da menina, que esta, descoberta em suas maldades, fosse justiçada ou se precipitasse na morte, deixando atrás as suas riquezas.
Na versão da princesa moura, ela é descoberta na figura (pernas de cabra), vício (sexo desenfreado) e crimes (matar amantes), por cristão desconfiado, que, após o amor, não adormece e lhe retira o anel, seu salvo-conduto por corredores de guardas, e que já esporeia cavalo de medo. Quando acorda, espavorida, uivando pelo amado (mas, ao adormecer a seu lado, não o encontrara, enfim?), os cavaleiros que o perseguem gritam-lhe: «Torna, torna, cavaleiro, que na torre a dona chama.» Se ainda temos uma forma verbal – podendo também ser um elíptico «que na torre está a dona Chama» –, é, já, terceira e mais rica versão. No desespero de se ver denunciada, a princesa cobre-se de toda a sua riqueza e atira-se a um poço. Mas quem acrescentou que, contíguo, há outro poço, de peste, e que, se nunca houve escavações no monte, foi com medo de bater, não no poço das riquezas, mas no da peste, que mataria tudo em redor? Esta ideia serviu-me para desenvolver uma guerra surda entre os bons e os maus, em individuações que adiam um juízo imediato do leitor.
Ora, com este suicídio, voltamos ao universo literário tirado da vox populi, e pequeno deslocamento geográfico: em Lordelo, a poucas léguas de Vila Real, situa o Camilo Castelo Branco de Anátema (1851) – estreia em que a circularidade do anel é igualmente fundamental – o castelo a que o povo chamava Torre de D. Chama, na sequência da morte de Inês da Veiga:
«[...] viu abrir-se aquela janela do meio, viu uma aventesma, amortalhada de branco, chegar à janela e atirar-se dela abaixo! E depois uma voz medonha diz que bradara aqui para estes sítios: Chama!... Chama!... [...] As luzinhas apagaram-se, ficou tudo calado e meu pai, vindo para casa contar a passagem, veio aqui quase meio povo e não encontrou nada!... Enquanto a mim aquilo era moura que quebrou o seu encantamento, à voz do seu mouro que pelidava por ela: Chama! Chama! E é por isso que estes perdieiros são a Torre de D. Chama.»
A inversão narrativa – trata-se de um mouro e não de um cristão; é um homem que chama por Chama e não ela, ou os seus cavaleiros – animava-me a outras subversões.
Neste ponto, proposições da História traziam a poderosa mulher, de olhos feudais, para a topografia actual: descida do monte, ainda transformo pormenor arquitectónico da casa de Eugénia em ameias, numa alusão a torre dominando a imaginação de mortais. Num jornal da terra, A Torre de D. Chama, de 1-II-1913, explicava Francisco Manuel Alves:
«Chama era o nome próprio de mulher frequentemente usado em Portugal na idade média e mesmo antes de constituída a nossa nacionalidade, como pode verificar-se em documentos desde o séc. VIII por diante e até adoptado pela aristocracia, segundo mostram os Livros de Linhagens no Portugal. Monument. Hist. pág. 145, 148, 158, 168 do 1.º livro, p. 174, 175, 176, 178, 181 do 2.º e ainda em vários outros sítios.
Encontra-se também sob as formas chamoa ou Flamula que se equivalem.
É bem conhecida a riquíssima D. Flamula, uma das mais nobres damas do século X, senhora de várias terras na província de Entre Douro e Minho. [...]
A povoação denominada Torre de D. Chama só começa a figurar com este nome no tempo de D. Diniz [seja, na carta de foral em 25-IV-1287], sendo muito provável que a mulher que legou o nome seja uma Dona Chamoa memorada nas Inquirições de D. Afonso III ao tratarem das freguesias de Santa Maria de Serzedo e S. Miguel de Espadanedo – interrogatus unde habuit eum dicit quod audivit dicere quod dona Chamoa una mulier de ipsa vila (Serzedo) leixavit eum pro sua anima in tepore Regis donni Sancii veteris.
Trata-se, pois, de uma dona Chamoa mulher nobre e rica, natural de S. Miguel de Serzedo, povoação que hoje não existe e provavelmente ficava nos limites da actual Torre de D. Chama, que vivia no tempo de D. Sancho II que deixou os seus casais de Serzedo e Espadanedo ao mosteiro beneditino de Castro de Avelãs, junto a Bragança, com encargos de bens d’alma.
De alguma torre que essa dona tivesse como habitação, segundo o costume da época, de que restam similares em Moncorvo (Torre de Mendo ou Men Corvo) e Santa Apolónia, perto de Bragança, ficou o nome à terra da sua principal habitadora, Dona Chamoa, simplificada posteriormente em Dona Chama que suplantou e fez esquecer o primitivo de Serzedo passando assim a designar-se por Torre de D. Chama.»
Potentado económico assim descrito na deficiente pontuação do Abade de Baçal interessava-me para as guerras intestinas entre falsos cristãos e mouros no trabalho, cujo desenlace se orquestra à luz da Festa dos Caretos, descrita nos seus actos de teatro de rua, que João Vieira narrou em vídeo (em que intervim) e recriou na pintura desde 1984. A lúbrica e assassina dona Chama era causa próxima de revolta que, por outro lado, rastilhara em lutas da Reconquista cristã. Assim se explica, dentro daquela terceira versão, a revolta dos cristãos animados pelo nascimento de Cristo sob o efeito do jogo e da máscara. A preparação do combate final começa na noite de 25 de Dezembro. Na tarde de Santo Estêvão, após quase 24 horas de encenação e luta, estará queimado o castelo da princesa moura.
Face a este horizonte de expectativa, o que acontecerá à minha heroína – alegadamente lúbrica, assassina e narrativamente distante, porque contada por quem a compromete? Primeiro parágrafo:
«Vivia por este tempo na torre uma dona formosa como a noite em que nos conhecemos. Sempre, ao acordar, a imaginação dos homens corria até conquistar a fortaleza e, com ela, o corpo jamais ou fugazmente entrevisto. Dizia-se que não raros tinham sido aliciados por quem, firme no seu tenebroso poder, os honrava superiormente e matava a seguir.»
Este narrador actua no quadro do esperado. Conta a terceira versão. Para o padre da terra, inclusive (antes de, muito à frente, se converter, isto é, se desfazer do preconceito...), Eugénia retoma maldade antiga. O velho professor, por outras razões, não pode defendê-la. Ela está de relações cortadas com o avô, médico. O tio, outro rico do lugar, tudo manipula, à espera de que lhe caia no regaço a riqueza da sobrinha. É a orfandade absoluta. Pior: o comandante da guarda investiga uns crimes, noticiados em Lisboa. Por isso, o primo, paixão de infância – que, todavia, sabe ser ela amada pelo seu dele grande amigo de infância –, agora jornalista, volta à terra; ao passar a narrá-la, substituindo professor digno de pouca confiança (e que nunca perceberá ter sido aliciado para noite em que, ao contrário do que julga, não teve aquele corpo de ouro), ainda acredita nos crimes da prima. Como se dá a reviravolta? Que força tem aquela jovem, e como, de moura dita lúbrica, leva a efeito a reconquista desse primo, vencendo cristãos hipócritas e afirmando-se na virgindade de corpo e alma? Eugénia não fazia desaparecer mancebos: encontrando-lhes empregos no litoral, esvaziava a terra para que o primo viesse encher o seu deserto de amor.
Enquanto assim punha o meu pequeno mundo de pernas para o ar, no interior de uma carnavalização dos seres e da linguagem própria da festa, eu estava a reverter, ponto por ponto, memória ancestral caldeada em versões históricas, orais e literárias, servindo-me de uma diligência policiária e máscaras a retirar. Àquelas versões acrescentava algo, ausente em narradores de carne e osso: eu estava há muito apaixonado pela protagonista, imagem de Dona Chama, senhora da minha torre / terra e do coração, que aí bateu pela primeira vez.
Que isso não fosse, ou dívida para com a pátria que nos deu respiração, um autor deve tentar, em quaisquer circunstâncias, mesmo quando se mostre impossível, o salto para o outro lado – talvez que, entretanto, tenha sido lançada uma tábua de salvação, quem sabe se uma ponte de vidro...

Escrito por Ernesto Rodrigues

Campanha alegre pela terra triste (Editorial do Jornal Nordeste - 26/09/2017)



As campanhas políticas já eram alegres, ao que parece, nos tempos idos em que Eça de Queiroz se dedicava ao jornalismo, no século XIX, quando o país fazia que andava, mas não andava na senda do progresso.
Aquele vulto maior das nossas letras lançava um olhar irónico, por vezes ácido sobre os protagonistas do rotativismo parlamentar em acelerado desgaste, enquanto, na margem, um republicanismo radical ia somando pequenos e grandes sucessos, até que a 31 de Janeiro de 1891 se propôs tomar o poder. Dezanove anos depois lá chegaria, montado no episódio sangrento do regicídio, fruto da ousadia carbonária, mas também da omissão dos que diziam defender a monarquia constitucional.
As campanhas eram, afinal, expressão de uma alegria tola de caciques, que esperavam do povo a embevecida vénia a suas mercês, que se passeavam de caleche pelo Chiado, seroavam em São Carlos e aportavam, ao fim da manhã seguinte, a São Bento, exalando perfume espanhol.
Reconhecidas as distâncias, a febre da alegria, da animação, do frenesim continua a ser marca das campanhas, século e meio depois.
Tornou-se um “must” o ritual das caravanas automóveis, ruidosas, coloridas, apressadas, para impressionar eleitores. Pretende-se medir o impacto das propostas políticas pela extensão do desfile de automóveis.
Espera-se que a participação de condutores tenha correspondência em votos, que deixe uma impressão de maré arrasadora para desanimar os concorrentes, no fim de contas impor as emoções às convicções, fazendo da decisão política um acto mais visceral do que racional.
A expressão da vontade democrática esteve e estará sujeita a estas contingências, porque a crueza da vida não se compadece com os cenários românticos dos sonhadores de mundos perfeitos. Basta lembrarmos o que se passa em países de gente mais fina, onde a boçalidade triunfa, porque lá também não faltam patêgos a olhar para o balão, sem se questionarem sobre os espectros que se insinuam no horizonte.
Por isso se impõe que um elevado sentido cívico oriente os cidadãos que participam na intervenção política. Na situação que vivemos neste interior, o passeio trepidante pelas povoações pode ser quase uma forma de desprezo ostensivo por quem se confronta todos os dias com o fim da esperança, o desânimo que convida à desistência, a amargura do futuro impossível, apesar da festa estridente que vai passando e só deixa a dor do silêncio esmagador sobre as tristezas que não encontram ouvidos nas caravanas.
Há décadas ainda se viam crianças e jovens espantados, sorriso de orelha a orelha, olhos de alegria, a disputar brindes coloridos. Apesar da festa que viveram não puderam ficar e, hoje, votam noutras paragens, decidindo presentes e futuros que se sobrepõem ao destino dos que por aqui ficaram e só chegam ofegantes, de cajata e olhos baços, ao largo da aldeia, quando os carros já rolam para nova algazarra.
Talvez fosse mais avisado encontrar tempo para, ao menos, os ouvir. Assim se poderia tomar consciência de que não há festa que chegue para matar a tristeza, que promete ficar para sempre.

Escrito por Teófilo Vaz, Diretor do Jornal Nordeste
Retirado de www.jornalnordeste.com


quinta-feira, 21 de setembro de 2017

O centralismo e o arraial mediático (19/09/2017) (Editorial do Jornal Nordeste)




Com a pré-campanha a terminar, houve nova corrida, nova viagem dos responsáveis dos partidos maiores, por enquanto, pelas terras do distrito.
Já fazem parte da nossa condição política estas romarias apressadas, antes que a verdadeira campanha, pastosa e entediante, nos incomode todos os dias com paleio redondo, por entre praças e ruelas, mercados de peixe ou de trapos e festarolas.
Das verdadeiras questões das três centenas de municípios pouco ou nada será dito, a discussão não terá espaço e, provavelmente, a abstenção terá lugar no pódium da demissão cívica, miséria das democracias neste início do terceiro milénio, tempo em que as utopias parecem dar o último suspiro.
Lamentámos muitas vezes a distracção, o descuido, o alheamento calculado do poder central. Clamámos por deslocações ao país real. Houve momentos em que nos pareceu que os apelos teriam sido ouvidos. Realizaram-se presidências abertas, conselhos de ministros pelo país, mas os resultados foram insignificantes.
Ainda acreditámos que tais iniciativas, mobilizando a comunicação social, levariam à praça pública nacional as questões que nos tornam a vida num inferno todos os dias. Mas, afinal, os grandes media também não se importam com o tal país, porque os objectivos editoriais continuam a ser determinados pela lógica das audiências que a superficialidade sustenta e não pela observação das realidades duras do país.
Entende-se mal, por isso, que no último fim de semana tenham sido deslocados quantiosos meios, carros de directos e muitos jornalistas para responder a solicitações de editores que não sabem, nem querem saber do que por aqui se pensa, se sente, se discute. Resultaram peças que se empastelaram na guerrilha do rating, das afirmações de Centeno, das virtudes e pecados da geringonça.
Foi interessante assistir em triplicado à montagem e desmontagem do arraial mediático, com proficiência e olhares de soslaio para a informação regional, com o fito de apanhar as chegadas dos líderes lisboetas aos lugares dos comícios. Depois era o enfado enquanto se apresentavam as candidaturas locais, até que falassem os senhores da capital.
Significativo da distância que também separa a comunicação social nacional da vida dos portugueses do interior foi o facto de que, mal acabava o discurso do poder central, imediatamente se desligavam as câmaras, se recuperavam os cabos, se fechavam os computadores. Só os órgãos regionais e locais ficavam para ouvir os candidatos aos municípios, cumprindo a função que lhes compete. Donde se conclui que o país real, envelhecido e despovoado, que não interessa aos políticos de Lisboa, também não tem lugar nos órgãos de comunicação, tão centralistas como aqueles.
Não se poderia esperar muito mais, porque, em grande parte dos casos, sendo como são pessoas como quaisquer outras, os editores e os jornalistas continuam a olhar para estas terras como um fim de mundo, talvez incomodativo para as próprias consciências.
Assim não vale a pena deslocar tais meios, porque a atenção não passa de uma aparência e, como sabemos, as aparências iludem e de ilusões já nós temos o saco cheio.

Escrito por Teófilo Vaz, Diretor do Jornal Nordeste

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

No país das maravilhas… (05/09/2017) (Editorial do Jornal Nordeste)




Em fim de férias, quando a maralha tuga serpenteia pelas autoestradas maravilha, tejadilhos pejados de malas e embrulhos, ocupando de forma displicente as faixas centrais, com o pára-brisas de trás tapado por roupa e sacaria, a RTP transmitiu a gala da versão do passatempo 7 Maravilhas, desta vez dedicado às aldeias do velho rectângulo. 
O distrito de Bragança esteve representado na escolha final por Podence e Rio de Onor, depois de Montesinho ter perdido a corrida na penúltima fase. Naturalmente sabemos que concursos deste género são folhetins para entretenimento e festa. Mas, pelos vistos, os municípios de Bragança e de Macedo de Cavaleiros empenharam-se na iniciativa e terão considerado que, assim, cumpriam o desígnio de valorizar o que ainda resta de característico, mesmo de especial nestas terras.
No espectáculo final, em Piódão, não faltaram governantes, ministros e secretários de Estado, responsáveis por pastas importantes para o desenvolvimento de políticas que poderiam conduzir ao reequilíbrio do território e ao desenvolvimento de condições de vida para populações que têm sofrido os efeitos de décadas e décadas de políticas desastradas e irresponsáveis. 
Estiveram, naturalmente, em fato de festa e ninguém os questionou sobre os problemas que as populações têm sentido, quase até à agonia, convivendo com o fim da esperança, envelhecendo sem retorno e esperando que filhos e netos não se esqueçam da terra para sempre.
Mas não perderam a oportunidade para, outra vez, arengar sobre, agora sim, atenção ao interior, acenando com a varinha mágica, que não produziu, até agora, festejadas ilusões porque a mestre de cerimónias, a ex-responsável pela Unidade de Missão para o Desenvolvimento do Interior, se desiludiu ela própria e foi trabalhar a sério para os trópicos.
A secretária de Estado do Turismo recuperou mesmo a promessa de nos pôr no mapa, parafraseando Guterres em 1995, ou seja 22 anos depois, talvez acreditando que a nossa memória já se desvaneceu sem remissão.
Rio de Onor, Podence e Montesinho são três, entre centenas de aldeias deste terrunho, que expressam a angústia da proximidade dos dias do fim, apesar do ânimo das claques que deram cor ao programa televisivo. Basta lembrar que a vencedora (Rio de Onor) dispõe de um parque de campismo sem ocupação, apesar de ser famosa desde o tempo em que o antropólogo Jorge Dias ali realizou estudos notáveis sobre o comunitarismo, a variante dialectal, a arquitectura e a relação com a natureza.
Não estamos por este nordeste a evoluir num conto de fadas, nem nos devem confundir com a pequena Alice que palpitava com as maravilhas estonteantes, guiada pelo coelhinho branco, um criado obediente da rainha de copas. Nem estaremos para aturar as madurezas do gato, os subterfúgios e os sorrisos felinos, quase gargalhadas zombeteiras, perante o enlevo da rapariga.
A dureza da vida quase nos petrificou. Por isso, era tempo de vermos tidas em conta as ásperas realidades e percebermos que alguém estaria disponível para mudar de rumo, permitindo que as maravilhosas aldeias não se reduzam a memórias difusas num futuro que pode ser espantosamente doloroso.

Escrito por Teófilo Vaz, Diretor do Jornal Nordeste
Retirado de www.jornalnordeste.com