sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Entrevista: Daniel Catalão, jornalista da RTP, natural de Torre de Moncorvo


Obrigado pela entrevista ao “Nordeste com carinho”.

Ora essa! Não estou habituado a estar deste lado. É sempre um prazer, principalmente, voltar a esta casa (Rádio RBA).

É mais difícil estar desse lado…

Bastante mais porque é sempre mais surpreendente e inesperado saber o que nos vão perguntar.

Então vamos lá! É natural de Torre de Moncorvo, mas cedo veio para Bragança. Que recordações guarda da sua meninice da sua juventude?

Guardo as recordações, acima de tudo, da liberdade, da alegria de viver e de estar na rua que é uma coisa que cada vez existe menos. Hoje, de facto, fruto de toda a evolução da sociedade e também da tecnologia, os miúdos brincam muito mais, ou jogam muito mais, em casa e quando convivem é em torno de equipamentos electrónicos, da televisão, dos jogos.
Hoje não há tanto a brincadeira de rua, e isso é uma das coisas que eu mais prezo da minha infância: a liberdade de andar na rua e costumo dizer que, hoje, vive-se exactamente ao contrário de quando eu era garoto. Eu tentava fugir de casa para ir para a rua, para estar na rua. Hoje são os pais que querem por os miúdos na rua porque estão fartos de os ter em casa. Vivemos tempos completamente distintos.

Sendo natural de Moncorvo, cedo veio para Bragança. Guarda alguma recordação da vida em Moncorvo?

Não. De Torre de Moncorvo sou, de nascimento. A minha família é originária de lá, mas eu vim com dois anos para Bragança. Foi aqui que estudei. Foi aqui que me fiz homem e sou bragançano completo. Recordo Moncorvo, naturalmente. Não recordo o ter nascido lá. O facto de a minha família ser de lá e de vez em quando, quando era mais pequeno, de ir visitar familiares, os meus avós que lá estavam. Nunca vivi lá, portanto, restam algumas amizades pouco mais do que isso. A minha vida está, intrinsecamente, ligada a Bragança.

Como era ser estudante em Bragança no seu tempo?

Não sei se seria muito diferente do que é hoje, mas eu, por acaso, tive a felicidade… na altura havia uma grande. Só havia o liceu e a escola, a escola Emídio Garcia e a escola Abade de Baçal que era conhecida pela escola da Cadela, antiga escola industrial e as duas escolas mantinham uma rivalidade muito grande e isso é uma das coisas que eu recordo. Era uma rivalidade mesmo acesa entre as duas e eu tive a felicidade de estudar nos dois locais porque a escola era para a área de ciências e o liceu era para a área de humanidades.
Eu, desde sempre, pensei que ia seguir a área de ciências mas, quando chegou a altura de tomar decisões sérias, segui a área humanística e fui para o liceu e foi de facto um choque muito grande. A minha cabeça estava toda formatada para a escola e aquilo foi um choque muito grande, mas acabei por viver momentos muito bons. Guardo grandes recordações de todas as escolas por onde passei.
Fiz a primária na escola do Toural que vejo que hoje, de facto, está muito mais moderna. Guardo boas recordações do Largo do Toural que agora é um bairro, mas era onde nós brincávamos. Escola com a qual tive sempre uma afinidade muito grande, uma vez que eu vivia com os meus pais na Costa Grande do Castelo, numa altura em que houve um reordenamento escolar, os alunos tinham que pertencer à escola da sua zona e recordo-me que todos os meus amigos de rua estudavam em São Sebastião ou na Estacada e eu nunca me mudei. Mantive sempre uma ligação e um apego à escola do Toural.
Depois estudei onde agora é o Centro Cultural, na escola Augusto Moreno. Foi um choque muito grande porque era uma escola fechada. Não nos deixavam sair, tínhamos que pular, furar a rede, saltar para o Jardim António José de Almeida. Era a única coisa engraçada que tinha a escola, era o facto de termos que saltar, fugir e voltar a entrar pela porta principal.
Foram anos de grande rebeldia e depois guardo, de facto, essa componente de camaradagem que se vivia, muito, na escola e no liceu e que se vivia muito na rua e acho que isso é que era interessante. Era criar grupos de amizade, mas partilhando a cidade e os espaços da cidade. Não sei como é que é hoje, mas acho que havia um convívio muito maior. Tentava-se inventar muito mais motivos de distracção. Eu acho que hoje amadurece-se muito mais depressa no que concerne à independência, ganhar independência. Hoje, qualquer miúdo aos catorze anos está praticamente independente dos pais. Movimenta-se à vontade, não há grandes partilhas, com catorze anos era a altura de nós começarmos a poder sair de casa até às dez da noite.

Os últimos quinze anos foram de uma evolução tremenda a todos os níveis não só em termos de tecnologia e da própria convivência social. Eu recordo-me, miúdo ainda… uma das memórias que tenho, muito engraçadas, era a procissão de estudantes quando saiam à hora de almoço. Os meus pais viviam no Castelo, num segundo andar e eu conseguia ver a cidade toda e não havia a quantidade de casas que há hoje e uma das coisas que eu recordo é de ser miúdo e de ver, à hora de almoço, meio-dia e meia uma hora, irem em carreira, uma procissão autêntica, em direcção à cidade e acho que isso era um momento muito engraçado.
Apesar de tudo, andava-se mais a pé. Os estudantes saíam, havia uma invasão, quase, da cidade, saíam e deslocavam-se para as casas de cada um e isso enchia, a cidade. Hoje, fruto da evolução e dos automóveis e dos papás irem buscar os filhos à escola, já não há essa procissão.
Uma das coisas que me dá mais saudades é a neve. É o acordar de manhã, ter a neve e não haver aulas e irmos todos para a cidade brincar. É uma das memórias de infância que eu guardo com muita saudade.

Era bom não haver aulas!

Quando havia a feira das cantarinhas e os carrosséis que ficavam ali, mesmo ao pé da escola e estorvavam imenso e então, também, não havia aulas. Por qualquer coisa não havia aulas e se houvesse nós arranjávamos maneira de não haver, com experiências nos laboratórios, mistura de químicos para que não pudesse haver… acho que eram brincadeiras bastante saudáveis. Não havia uma malícia muito grande.

Daniel, o jornalismo ocupa, há muito tempo, o papel principal da sua vida. Porquê o jornalismo?

Eu costumo dizer que só sonhei ser duas coisas na vida: piloto de aviões que não consegui porque, de facto, quando cheguei ao 9º ano percebi que a matemática não era o meu forte, era algo que se vinha cimentando já, que eu não tinha jeito nenhum para os números e, pelo contrário, já há muito que despontava a minha atenção pelas coisas à minha volta e comecei a gostar de escrever e, quando cheguei ao 9º ano, houve professores que me indicaram realmente o caminho das humanísticas e não o das ciências. Daí a minha mudança para o liceu e foi o melhor que fiz porque já era esse o meu maior interesse e escolhi logo a área de jornalismo. A partir daí nunca sonhei ser rigorosamente mais nada senão ser jornalista. Também sonhei ser astronauta mas isso, de vez em quando concretizo porque, de vez em quando, ando no mundo da lua. (Risos) Ser jornalista foi, de facto, aquilo que eu sonhei com mais força quando já tinha alguma noção do que queria e que consegui, de facto, concretizar. Felizmente, hoje, sou isso. Faço aquilo de que gosto e ainda me pagam por cima.

A licenciatura em Comunicação foi o culminar, natural, do seu percurso?

Foi uma auto exigência mais. Eu fiz um percurso muito distinto daquilo que é normal na maior parte dos estudantes que é fazerem o seu percurso académico e depois começarem a trabalhar. Eu fiz exactamente o contrário. No momento em que entrei para a universidade comecei também a trabalhar na rádio e o que teve mais importância foi, de facto, a rádio, foram os média, a comunicação, não tanto a universidade. A universidade sempre foi ficando para trás, ficando um bocado de lado mas, impus a mim próprio nunca abandonar, não desistir duma coisa para fazer outra. Prometi que não havia de deixar, foi a custo, foi-se arrastando, o custo, vários cursos porque entrei em várias universidades, vários cursos até que um dia disse: É mesmo para fazer, tem que ser feito! É uma auto exigência que eu ponho a mim próprio e acabei por fazer a licenciatura e penso que, o facto de ter um curso superior, muitas vezes, não serve apenas para ter o canudo e conseguir o emprego, é muito mais do que isso. É o obrigar-nos a ter um olhar muito mais critico, mais reflexivo, estudar o mundo que nos envolve, não nos deixarmos cair na tentação do dia-a-dia do pragmatismo do dia-a-dia. Um dos grandes problemas de todas as profissões mas, no jornalismo, isso é terrível. É ganharmos com a prática, determinadas rotinas das quais não nos conseguimos soltar e isso é a pior coisa que nos pode acontecer em todas as profissões mas, no jornalismo, é terrível porque deixamos de ter uma análise critica sobre o nosso trabalho e sobre o dos outros mas, principalmente, sobre o nosso.
A ligação ao meio académico através do estudo permite-nos fazer isso mesmo porque nos permite estudar avaliações feitas por outros, o que nos torna um pouco mais isentos e, às vezes, bastante contundentes na crítica e temos que perceber isso. Temos que ser abertos ao ponto de perceber como é que as coisas foram feitas e tentarmos entender onde é que aquilo se cruza, realmente, com a nossa actividade e acho que a ligação, por um lado, através estudo e por outro lado, pela actividade que mantenho de docência, permite-me isso mesmo, manter essa componente reflexiva em torno do que é o jornalismo, os média, o mundo da comunicação e quebrar essa rotina diária em que nos deixamos envolver e depois tornamo-nos auto flágicos. Entramos num círculo tal, que nos alimentamos a nós próprios, pensando que tudo o que estamos a fazer é correcto e é o melhor e, muitas vezes, não é e temos que perceber isso. Temos que ser críticos ao ponto de perceber que, antes de tudo, devemos ser os nossos primeiros críticos.

Saber apreciar o nosso trabalho…

Apreciar e criticá-lo porque, apreciar, todos nós nos apreciamos. Gostamos de nos olhar ao espelho e somos muito bonitos mas, quando temos que nos criticar, para dizer: Não fiz bem, é errado, agi mal… Isso é que é muito complicado e então, quando são outras pessoas a dizerem-nos a nós, isso é que nos magoa e o que nós temos que aprender a fazer é reagir, não de forma violenta, negando a crítica mas sim, encaixando-a e depois deixar passar tudo aquilo pelo crivo e dizer: “Onde é que aquilo foi justo, o que é que não foi justo, ou injusto?” Também temos que poder fazer isso senão morremos senão estagnamos, cristalizamos e dizemos: “Nós só estamos a fazer bem e não há crítica nenhuma que nos ataque.” Assim, não há evolução.

Apesar de ser, ainda, bastante jovem, já leva uns anos de trabalho no jornalismo. Passou pela rádio pirata, passou pela rádio Brigantia e, finalmente, ajudou a criar a rádio RBA. Fale-nos do seu percurso nas rádios de Bragança.

Nunca gostei dessa expressão, rádio pirata, se bem que, de forma romântica é sempre agradável sermos os piratas nalguma altura das nossas vidas. Foi uma altura fantástica. Sempre gostei mais da expressão rádios livres. Quem sempre esteve envolvido nesse movimento, sempre preferiu essa nomenclatura. Porque as rádios nasceram de uma lacuna da lei, aproveitando um buraco que existia e daí eu não gostar tanto da expressão “rádio pirata”. Se bem que o pirata nunca foi depreciativo. Foi sempre no sentido de conseguir aproveitar o que não existia.

Não serem ilegais…

Exacto. Não serem ilegais. Foi necessário criar uma legislação para que as rádios pudessem tornar-se legais mas, acho que as rádios e o movimento das rádios livres foram a grande escola de muitas das pessoas que estão hoje na comunicação. Foi um momento de grande irreverência e também de grande desafio à sociedade porque, realmente, quer queiramos quer não, Portugal passou quase da idade medieval para os anos oitenta. Temos que ter a noção de que Portugal acorda para a modernidade nos anos oitenta.
O vinte e cinco de Abril foi em 74. Em 75 começámos com as primeiras eleições mas, depois, houve aquela confusão toda e a partir de 1980 é quando Portugal começa a entrar, mais ou menos, numa estabilidade social e num crescimento mais ou menos sustentado. Fazendo as contas, temos vinte anos para recuperar aquilo que todos os outros países democráticos tiveram ao longo de décadas e, portanto, as rádios livres que surgem em força a partir daí, da segunda metade dos anos oitenta, vieram dar um contributo muito grande para a abertura das mentalidades e para o confronto social. Foram um grande veículo de dinamismo e de movimentação e eu já gostava de jornalismo e sempre tinha sonhado com a rádio.
Foi uma grande oportunidade quando surgiu a Brigantia e, de alguma forma, acabei por dar o contributo, aprendi muito, conheci a sociedade como ela era e acho que contribui de alguma forma para desenvolver e dinamizar a própria cidade de Bragança, com gente que se juntou e que conseguiu, de facto, pôr as pessoas a falar, a conversar, a debater. De repente começámos a confrontar as instituições que não estavam habituadas a responder a ninguém nem por ninguém e, de repente, começou a aparecer alguém que questionava e que queria saber porque as coisas eram assim e os direitos dos cidadãos e porque é que as obras não eram feitas e acho que as rádios tiveram esse papel.
Foi aí que, de facto, Portugal começou a sentir o que era o peso de uma verdadeira comunicação social. Foram as rádios que tiveram esse papel porque se aproximavam das comunidades e questionavam o pequeno núcleo.

Eram um órgão de comunicação social mais vivo…

Mais vivo e muito mais próximo porque os jornais… quando nós começámos, em 87, os jornais chegavam a Bragança a meio da tarde, às vezes, ao fim da tarde e isso foi assim até há dez anos atrás. Parece impossível o que a sociedade evolui em dez anos. Os jornais chegavam à uma da tarde a Bragança ou mais tarde. No Inverno, por causa do mau tempo, às vezes, chegavam ao fim da tarde, há dez anos, percebem? Hoje, quando vemos que, em qualquer sítio, podemos ligar-nos à Internet… parece impossível que isto tenha evoluído tanto em apenas dez anos.
As rádios, quando surgiram, foram a grande fonte de dinâmica e eu sinto-me feliz por ter participado nesse movimento que aconteceu em Bragança e em todo o país e elas foram, também, a grande escola de muitas das pessoas que estão hoje na comunicação social que puderam aprender por si próprias. Foram quase autodidactas na evolução mas depois, alguns pararam, estagnaram, não evoluíram, ou porque não quiseram, ou porque não puderam ou porque esse não era o seu interesse. Outros procuraram fazer formações, evoluíram e seguiram essa área mas, eu olho com muito romantismo e com saudade para esses tempos, porque eram tempos de desprendimento em que a única coisa que interessava, realmente, nas nossas vidas era concretizar um projecto e o projecto confundia-se com a nossa vida. Era tudo o mesmo. Era viver vinte e quatro horas em torno de algo. Não era trabalhar. Não era para ganhar dinheiro. Era para viver. Era a vida. Era aquilo. Era a nossa vida. A vida misturava-se com a rádio, com a cidade, com a região e era necessário ter muita imaginação, muita criatividade. Eu hoje penso: “Sem meios técnicos, rigorosamente, nenhuns aquilo que se fazia era extraordinário, inacreditável!

Completamente diferente daquilo que é hoje…

Não havia… foi nesse período que apareceram os telemóveis. Às vezes em jeito de graça perguntamo-nos nas redacções: “Como é que nós fazíamos as coisas antes de haver a Internet? Como é que nós fazíamos antes de haver telemóveis?” Fazia-se jornalismo na mesma e fazia-se rádio. Nós vamos para qualquer lado e pegamos no telemóvel e falamos. Antes de aparecerem os telemóveis era preciso andar a bater à porta das pessoas, pedir para nos deixarem fazer uns telefonemas. As pessoas olhavam de soslaio para nós. Quando íamos fazer directos ou entrevistas tínhamos que ligar uns fios aos telefones das pessoas, tínhamos que os convencer a deixar-nos abrir a caixa do telefone para fazer as ligações. Era uma aventura terrível mas faziam-se as coisas, tinham que se fazer e foi assim que se chegou onde estamos agora.

A sua colaboração jornalística, em Bragança, não se ficou só pela rádio. Colaborou, também, com o “Mensageiro”. Ajudou a criar o “Nordeste Informativo”. Como foi essa experiência?

Quando comecei a escrever, comecei a trabalhar para a Agência Lusa. Também colaborei no “Mensageiro de Bragança” mas, um dos grandes desafios do qual guardo boas memórias, foi a criação do “Nordeste Informativo”que ainda hoje se mantém, felizmente, mas foi um desafio muito grande. Eu sempre tive apreço pela imprensa regional e hoje que não estou cá, sinto a importância da imprensa. Felizmente, os responsáveis do “Nordeste Informativo”fazem o favor de me enviar o jornal e é com muito agrado, sempre, que o recebo. Não é bairrismo, nem parolice, nem é provincianismo, mas é sempre agradável receber o jornal e ver as noticias porque, é óbvio que com a Internet e no dia-a-dia nós vamos sabendo das coisas mas, há sempre outras histórias que nós não sabemos, só quando há tempo… depois de receber o jornal e de tocar o papel. Eu sempre tive um grande respeito e uma grande admiração pela imprensa regional, mas sempre achei, antes de nascer o “Nordeste Informativo”, que os jornais de Bragança pecavam muito por serem, quase, jornais de autor, não serem jornais de notícias mas, sim, jornais de autor. Estavam identificados com áreas políticas e, na altura, vivia-se uma guerra muito intensa em termos políticos e os jornais serviam de palco para essa guerra e para essas disputas. Vivia-se muito disso, de opinião. Menos notícias e mais opinião e o “Nordeste informativo” surge como um jornal para preencher um espaço que fazia falta, que era um jornal escrito com técnica jornalística. Um jornal de notícias essencialmente, mas, também, de opinião. Seria perfeitamente visível Como mandam as regras do bom jornalismo, é essencial que haja uma distinção muito clara entre o que é opinião e o que é a noticia e o “Nordeste Informativo” surge desse desafio no qual eu participei e no qual me mantive algum tempo com muito prazer e com muitas dificuldades também, porque a evolução informática não era a que é hoje e fazer um jornal era, de facto, uma grande aventura e foi o primeiro jornal que começou a ser impresso numa cooperativa. Os jornais o “Mensageiro”, o “Nordeste” eram feitos aqui. Eram jornais quinzenais, semanários. Fechavam com alguma antecedência. Era impossível meter notícias de última hora porque os jornais iam para as tipografias e saíam três dias quatro dias depois de serem fechados. O “Nordeste Informativo” teve essa característica. De manhã nós podíamos ler o jornal com uma notícia que aconteceu no dia anterior à tarde porque o jornal era feito cá, o jornal era feito informaticamente, levado à zona do Porto, impresso e voltava para cima. Seguia a lógica dos demais diários e isso, penso que teve… que foi importante até para dar algum dinamismo e acho que conseguiu criar, também, alguma agitação interna porque é sempre bom entrarem elementos novos no seio de um qualquer grupo.

Além disso, como já referiu, foi correspondente da Lusa em Bragança e finalmente ingressou nos quadros da RTP, tendo trabalhado durante dois anos na delegação de Bragança e depois tendo sido transferido para a delegação do Porto. Fale-nos desse período de transacção.

O meu sonho e a minha grande paixão é e continuará a ser, sempre, a rádio. É uma coisa característica. Toda a gente que fez rádio mantém esse sonho. Não sei o que é, não sei que vírus, que bicho, não sei o que é, mas sei que toda a gente que eu conheço, todos os meus colegas que fizeram rádio, mantém essa paixão pela rádio e todos dizem: “O meu sonho é a rádio, a rádio é que é.” Toda a gente gosta da rádio. É uma coisa curiosa. A televisão, para mim, nunca me disse nada, nunca me seduziu, não era nada de extraordinário. Quando nasceu o projecto de criar centros regionais de informação da RTP fui contactado, pela Maria Ricardo Cruz que era ela que estava aqui em Bragança e eles estavam a constituir a equipa da RTP. As equipas foram constituídas pelos jornalistas da casa num concurso, para quem quisesse deslocar-se para os centros regionais. Aqui em Bragança houve a curiosidade de terem chegado ao pé de mim e de me terem dito: “Gostávamos que viesses trabalhar para a RTP para apresentar o programa”. Isso é que foi estranho. Não foi bem “Queres vir ser jornalista da casa?” Depois de conhecer o projecto, achei bastante graça e aceitei. Larguei tudo em que estava envolvido, tudo absolutamente e entreguei-me de corpo e alma à televisão. Foi um projecto extremamente engraçado porque que a televisão, naquele momento, teve exactamente o mesmo papel, eu senti o fenómeno outra vez…

…da rádio há uns anos atrás…

Exactamente. Aquilo que eu tinha explicado em relação às rádios, foi aquilo que aconteceu com a televisão. Eu acho que o período em que a RTP manteve os centros regionais foi, de facto, um período fantástico em Portugal porque, realmente, criou uma proximidade. Tudo aquilo que disse das rádios transpôs-se para a televisão. A televisão tem um impacto muito maior e, apesar de tudo, Bragança tinha muito pouco espaço de antena e durante esse período teve muito espaço de antena a nível nacional. Produziu-se muita informação na região de Bragança e eu senti tudo isso e foi um projecto giríssimo. Um projecto fantástico, também, enriquecedor profissionalmente, mas foi desgastante. Toda a equipa que trabalhava aqui, nunca trabalhava menos de 14 horas por dia. Foi extremamente desgastante para toda a gente. Eu tenho essa noção. As pessoas, hoje, recordam com alguma saudade mas, também, com essa noção de que, como se costuma dizer na gíria, “Saiu-nos da pele, saiu-nos do corpo”, mas foi muito engraçado. Depois surgiu-me aquele convite para… foi directamente do director da RTP da altura, de ir para Timor e, a partir daí, já não se proporcionou o regresso a Bragança. Fui para Lisboa e mais tarde para o Porto onde me mantenho agora.

Durante o período crítico de Timor, após o referendo para a independência no dia 30 de Agosto de 1999, o Daniel foi um dos primeiros jornalistas da RTP enviados para cobrir os acontecimentos. Fale-nos dessa experiência em Timor Leste.

O curioso… Quando surgiu o convite, o processo ainda estava no início. Estava a decorrer e a ideia da minha ida era fazer o pós referendo, ou seja, haveria o referendo, o resultado e depois do resultado eu iria para lá durante um mês ver como é que o país se adaptava. Se ganhasse a independência muito bem. Como é que Timor Leste iria ficar independente? Durante esse mês, seria esse o meu trabalho, contar as histórias. Se não ficasse, como é que ficariam as coisas? O curioso é que quando eu chego, não havia voos directos para Timor. Os voos tinham que ser feitos para a Indonésia, para Jacarta e o curioso é que quando nós fazemos a pausa em Singapura recebemos um telefonema a dizer que o referendo da independência tinha ganho, mas tinha levantado violência. Estavam a queimar os hotéis todos portanto, nós começámos a pensar: “Bem, isto já vai ser uma chatice. Como é que nós vamos conseguir entrar lá?” E, realmente, quando chegámos a Jacarta, foi engraçado quando os guardas nos perguntaram: “Mas vocês vão para onde?” - “Vamos para Timor”. Eles acharam um bocado de graça e começaram a rir-se. Nós achámos que aquilo devia estar mesmo muito complicado porque já estavam a gozar connosco. O cenário não deve estar nada agradável e a realidade, depois de chegados ao hotel, percebemos que estava toda a gente a sair e ninguém a entrar porque realmente não era possível entrar. O que havia era uma debandada em massa. Toda a gente teve de sair e aí é que começou a grande aventura da minha vida. Com a situação que se vivia o objectivo, como se sabe, quando há muita gente a fugir numa direcção há uns poucos que fogem na direcção contrária, que são os jornalistas. Os tolos é que vão sempre no sentido contrário. Se há guerras e bombas de um lado, toda a gente foge de lá, excepto os jornalistas que vão para lá. Sabendo o que estava a acontecer, o nosso objectivo era entrar a todo o custo. Estamos a falar de ilhas. Só há uma maneira de entrar. De barco é quase impossível, é impensável. Só há uma maneira que é de avião. Juntámo-nos, muitos jornalistas, em Jacarta para tentar entrar em Timor, até que se conseguiu. Depois de muito tempo, conseguiu-se arranjar um avião que nos deixasse lá. Isto coincidiu, também, com a criação de uma força internacional das Nações Unidas liderada pela Austrália, em Timor. Depois de muita insistência lá sem conseguiu organizar o tal voo para vários jornalistas e aqui é que começa realmente a loucura. Isto, só depois de passado muito tempo, depois de digerido é que nós conseguimos perceber aquilo em que, realmente, nós nos metemos. As condições de ida eram pagar 1200 dólares de voo para ir, ficar e ponto final. Só podíamos levar um saco, uma bagagem. Não podíamos levar, rigorosamente, mais nada e pronto e lá vão os loucos não sabendo para o que vão. Eu costumo dizer que: “Na maior parte das guerras, o trabalho do jornalista são guerras de hotel.” A gente vai e situa-se num local onde há um hotel…
Onde há condições de vida. Onde se pode tomar banho, onde se pode deixar a roupa a lavar e depois, de manhã, sai-se, pega-se no carro, vai-se à guerra ou então, vai-se um dia para a guerra e depois regressa-se, fazem-se os envios, montam-se as reportagens, toma-se banho, janta-se e, no dia seguinte, a gente regressa à guerra. É um bocado esse, o cenário. Em Timor não foi nada disso o que aconteceu porque, em Timor, não havia rigorosamente nada a não ser bandos armados e gente a queimar casas. Nós íamos e não sabíamos para onde. A única coisa que levámos… Recordo-me que tivemos que comprar material das forças indonésias. Eram mochilas, material de sobrevivência. Recordo-me que só não comprei o colete anti balas porque era uma coisa muito pesada enorme, medonha. Não era destes que há agora, umas fibras especiais e relativamente leves. Eram muito pesados e não levei o colete anti balas. Levei dois pares de calças, uns sapatos, dois pares de meias, três tshirts, coisas do género e o resto era água e comida porque não se podia levar mais nada, porque lá não havia nada. Quando acabassem os mantimentos, tal como aconteceu, não havia onde comprar nada, não havia onde dormir, não havia onde tomar banho, não havia onde comprar nada para beber, não havia, rigorosamente, nada e fomos nós, os loucos, para Timor fazer uma reportagem. Eu nunca tinha feito tropa, nunca fiz campismo, nunca gostei nada disso, passei um mês a dormir no chão.

Mais uma experiência nova…

Foi uma experiência de vida, por um lado profissional, por outro lado uma experiência de vida porque confrontei-me com o facto de ter de trabalhar em condições sub humanas porque, como disse, quando acabou a água acabou e era preciso beber a água que se arranjava com as pastilhas desinfectantes e, pronto, era o que fosse. Se ficássemos doentes, tínhamos que ficar. Quando acabou a comida, acabou e durante muito tempo, isso é uma das coisas que eu recordo, durante muito tempo, passava o dia com meia bolacha de água e sal e a água que tentava beber. É a diferença da guerra de hotel, da guerra do local para onde nós vamos e não sabemos exactamente o que devemos fazer, mas é a loucura do jornalismo. É isso mesmo. É o ir à procura de uma história onde quer que ela esteja e o que quer que ela custe e custa a vida a muita gente. Um dos colegas que foi comigo, um holandês, foi assassinado no dia a seguir, de manhã, e quando se vive nestas circunstâncias, não podemos paralisar de medo e temos que fazer o trabalho e deixamos de pensar: “Será que é hoje?” Este é um pensamento que está sempre. É uma explosão, é um tiro. Há sempre situações, todos os dias, que se vivem de susto.

Mas ali era a brutalidade…

O problema é que quando nós nos deslocamos para este tipo de locais, lidamos com gente para quem o valor da vida não existe. Quando nós pensamos: “É pá! Matar alguém é uma coisa terrível.”e para outros, matar alguém não é nada. É a indiferença com que nós pomos o pé em cima de uma formiga e isso não tem que nos cortar, pelo contrário, eu acho que é isso que faz de nós uma “tribo” muito especial. Correr sempre contra a maré, de onde vêem os outros todos e isso, às vezes, não é preciso ir para a rua. Eu dou sempre aquele exemplo muito engraçado, que não tem graça nenhuma, mas o exemplo em si tem: Há dois anos, ali numa localidade do Minho, havia uma notícia de que havia uma pessoa ou duas que tinham morrido, outras estava a ficar muito doentes e não se sabia, rigorosamente, o que era, não se sabia se era algo que havia no ar, na água, o que quer que fosse, portanto, a ideia era trancar as pessoas, ninguém sair, ninguém ir para lá e os jornalistas foram todos para lá. Podia ser qualquer coisa que estava no ar, respirável e morrer-se, mas os jornalistas foram. O mundo da comunicação é este. Também vão aos campos de futebol, que eu acho que são locais muito mais perigosos que qualquer guerra no mundo. Tive aventuras terríveis no futebol. São coisas inacreditáveis. Às vezes a gente olha para a guerra e diz:” Isto é um perigo!”.De facto é, mas no dia-a-dia, os jornalistas correm perigos e todos os dias temos exemplos de como as pessoas, quando estão em conjunto, ficam completamente transfiguradas. Não fazem a mínima ideia do que estão a fazer e tornam-se violentas desnecessariamente. Esta semana, (Esta entrevista foi realizada em 2007.) três colegas meus, foram barbaramente agredidos no Estádio do Beça porque se falava que Jesualdo Ferreira ia ser treinador do Porto e afinal era treinador do Boavista e os adeptos do Boavista bateram em três jornalistas. Afinal, onde está o Jesualdo Ferreira agora? O jornalista é sempre o mensageiro que leva as culpas todas. Abate-se sempre o mensageiro.

Actualmente, exerce as funções de pivot na RTPN. Como está a ser essa experiência e quais são as principais diferenças entre o canal da TV a cabo e os canais públicos de televisão?

A RTPN nasceu de alguma indefinição e relação àquilo que seria o projecto e, portanto, a determinada altura, houve uma correcção de trajectória e assumiu-se claramente um canal, não de notícias, mas um canal de informação. É um canal onde a informação tem toda a prioridade, tem alguns programas que são realmente únicos que não se encontram noutras estações, não existem e eu acho que isso faz dele um canal com algumas características especiais. De resto, é um canal de informação do mundo RTP. O mundo RTP em termos de informação é só um, não há salas. Aqui faz-se a RTPN, aqui faz-se a RTP1, aqui faz-se a RTP… não há nada disso. A produção de informação é só uma. As notícias são geridas e aproveitadas pelos diversos canais. A RTPN veio permitir expandir muito mais o espaço de informação, alargar o espaço de debate e criar, fruto se uma filosofia que é o cabo, a repetitividade e a possibilidade de as pessoas, em função da sua disponibilidade, também poderem assistir às notícias ao longo do dia. A RTPN veio criar mais um espaço, mais uma montra para a colocação da informação porque, realmente, nos canais que vivem só com um jornal à hora de almoço e um jornal à hora de jantar a informação é muito mais efémera e também obriga as pessoas a cumprirem horários e hoje a vida não se faz das nove às cinco ou das nove às sete com pausa ao almoço e pausa ao jantar. Isso acabou, não é assim.
Os horários, hoje, são completamente desencontrados. As pessoas têm os horários mais inacreditáveis e eu tenho esse exemplo. Realmente, nós temos os horários de prime time que são às oito horas mas, há muita gente que só consegue ver os noticiários a partir das nove ou a partir das dez porque é a hora a que está disponível, ou porque chega a casa ou porque, entretanto, chegou a casa mais tarde e ainda esteve a jantar e só depois é que tem disponibilidade ou então um jornal como o das 24 que foi algo que deixou de existir nos canais generalistas. O último jornal que havia desapareceu e o jornal das 24 é um jornal, hoje, com muita importância. É o último jornal do dia e é o jornal para muita gente. É, de facto, a única oportunidade que as pessoas têm de ver notícias porque passaram um dia terrível e o jornal das 24 horas da RTPN tem essa característica que é espremer tudo e dar o sumo do dia.
À meia-noite a gente procura dar o que é o essencial do essencial, actualizar as notícias, tudo o que é novidade e depois tem uma grande componente de desporto. Aliás é quase elas por elas. Não chega a ser metade, metade, mas depende se houver mais notícias. Se o desporto mandar tem, obviamente, mais espaço, mas tem essa componente de poder dar as notícias do mundo, o desporto e depois ainda fazemos a antecipação dos jornais das primeiras páginas do dia seguinte, mais a meteorologia. É um jornal que eu acho extremamente completo. Tem uma característica que eu acho muito engraçada, também, que é o jornal que dá na RTP nacional e é o jornal prime time nos Estados Unidos da América. É o jornal da hora de jantar, sete horas, sete e meia é a hora de jantar deles e, portanto, o nosso jornal da meia-noite é o telejornal deles. Para muitos emigrantes é o jornal fundamental. É aquele jornal onde eles vêem as notícias, conseguem perceber as notícias do dia. O jornal das 21 é um jornal que procura, em grande parte, reflectir sobre um assunto importante do dia, é muito normal termos entrevistas com protagonistas e pessoas que consigam, de alguma forma, esclarecer, explicar, acrescentar algo mais em relação aos assuntos que vão acontecendo. Fizemos isso, recentemente, com um debate da guerra do médio oriente, uma entrevista que fiz bastante alongada ao embaixador de Israel em Portugal.

Chegou a passar no jornal da uma…

Tem essa característica. A iniciativa depende de cada jornal mas são aproveitados. Não há aqui ilhas porque, se o jornal das 21, e isso acontece muitas vezes, como é um jornal que se predispõe a reflectir sobre os assuntos e que tem mais entrevistados de estúdio, é natural que essas entrevistas sejam aproveitadas para depois serem colocadas nos outros jornais e o mesmo acontece em relação ao jornal das 21, se é feita uma entrevista no telejornal que é importante, nós vamos buscá-la também. Isto para mostrar que é apenas um único universo, o universo RTP.
Às vezes as pessoas têm essa dúvida – “Vocês trabalham como e onde?” - Nós trabalhamos todos os dias, a equipa é a mesma, é única. Eu acho é que é uma mais-valia para o grupo RTP e para o mundo da informação da RTP, RTPN e, felizmente, tem progredido nas audiências, tem tido bastante aceitação e estamos muito contentes. No último ano triplicou a audiência. Isso quer dizer alguma coisa. As pessoas estão realmente a aderir bastante e hoje há cada vez mais lares com TV cabo fruto, obviamente, da segmentação de mercado e da possibilidade que as pessoas têm de serem espectadores. As pessoas são cada vez menos espectadoras das televisões, de determinadas televisões. Já não são fiéis, são espectadores de conteúdo e, portanto, vêem aquilo que gostam de ver e para isso vão à procura dos canais por satélite ou por cabo, têm um leque muito variado.

Acha que a televisão pública deveria ter uma corrente mais cultural?

Depende do que isso quer dizer. Corrente mais cultural. Eu acho que, para já, quando falamos de televisão pública, não podemos ignorar também A Dois e A Dois é hoje por hoje, dos canais generalistas abertos, o único canal que se consegue ver, porque é aquele que tem séries, é aquele que tem filmes, é aquele que tem programas, é aquele que tem documentários, é aquele que cumpre horários, é aquele que se consegue ver. A RTP1, neste momento, depois de alguma fase de indefinição, penso, que de alguns anos - três ou quatro - para cá mais assentou, reorganizou-se muito mais. É um canal que tem cumprido horários. É o único canal generalista onde conseguimos ver um filme a uma hora decente, a uma hora que era típica de ver filmes. É onde conseguimos ver boas séries, bons documentários.
Aliás, este mês, o melhor da televisão, segundo a Associação de Espectadores, foram séries alemãs e não é normal as séries europeias passarem nas televisões. Nós passamos duas séries alemãs com boa audiência, boa aceitação, que foi considerada o melhor da televisão. Isso é cultura também. Quando falamos em cultura não podemos ter apenas a noção formatada de que cultura é dar programas sobre livros, música. Isso também lá está. Se nós formos ver a programação da RTP, isso está lá tudo porque também as informações, também os noticiários, falam das actividades culturais. Eu acho que acima de tudo, o que é importante, é os responsáveis pelas televisões não se esquecerem que estão a trabalhar para espectadores. Isso é fundamental. As televisões com um pendor mais comercial vão atrás de quê? Daquilo que vende, daí hoje estarmos, basicamente, limitados. Olhamos para a TVI e vermos os “Morangos com açúcar” porque é um produto extremamente vendável, vende, comercializa-se e olhamos para a SIC e têm outro produto que custou mas que agora está a vender que é a “Floribella”. É perfeitamente normal. Se eles vendem a “Floribella” vendem a “Floribella”. Se o programa fosse sobre rebuçados num ou noutro, daria um programa sobre rebuçados. Enquanto tiverem espectadores, enquanto tiverem mercado, sejam felizes. Eu não vou criticar minimamente e acho que é extremamente perigoso criticar esse tipo de actuação porque a verdade é que se nos puséssemos no lugar do director dessas estações, pressionados pelas audiências e que são as audiências que permitem ir buscar publicidade e é da publicidade que sai o ordenado das pessoas que lá trabalham, é isso que elas têm que fazer. Acho que, mais do que criticar, são as opções pessoais. Você gosta da “Floribella”, veja-a. Onde é que dá a “Floribella”? Na SIC. Pronto. Está decidido, não há outra solução. Gosta dos “Morangos com açúcar”? Veja. Onde é que dá? Dá na TVI. Muito bem. Você gosta de ver filmes? Estamos a falar só dos canais generalistas, gosta de ver filmes, mas só tem filmes às duas, três da manhã na SIC e na TVI, a RTP dá bons filmes às dez da noite, então veja. As pessoas são espectadoras de conteúdos. Hoje não há fidelidade, ninguém é fiel a ninguém. As pessoas vão atrás do que querem. Estamos a falar dos média.
Na rádio debatem-se com um problema ainda maior porque a rádio ainda é muito mais volátil. As pessoas são muito mais voláteis na rádio do que na televisão.

Porque na maior parte dos casos há muitas…

Nós, fruto dos canais satélite, temos gente que passa a noite em frente à televisão e não vê um único programa. Vê sete, doze, quinze ao mesmo tempo e não vê um único programa do princípio ao fim que é uma das coisas de que nós temos de ter consciência. Ninguém se senta e vê um programa do princípio ao fim, é muito difícil…

A não ser que seja mesmo muito bom…

Porque o comando à distância é terrível. A paciência das pessoas é cada vez menor. Ninguém suporta ver nada. Acho que as próprias pessoas que fazem críticas deviam parar ou por uma câmara lá em casa e ver o que é que elas próprias fazem. Quando elas dizem: “Tem que ser é a cultura.” E a gente mete aí duas horas de Mozart, azar do caneco porque o tipo não gosta de Mozart, só gosta de Chopin, mas o programa cultural está lá, ele vai aturar aquilo se gosta de Chopin? Não, só vai ver Chopin e os que gostam de Mozart e os que gostam de Vivaldi e os que gostam de heavy methal e os que gostam dos Chutos e Pontapés e etc…não é cultura também? É! Acho que a programação… enquanto houver canais generalistas tem que haver uma programação muito diversificada porque é preciso ter consciência de uma coisa: os canais generalistas estão condenados a prazo. Vão perder cada vez mais, por isso eu disse por as pessoas andam atrás dos conteúdos. Os canais generalistas estão em queda. Isso é uma questão que vai acabar por acontecer.

Diga-nos, como transmontano, até que ponto devemos defender a nossa nordestinidade.

A cem por cento obviamente. Aliás, eu, onde quer que vá, onde quer que esteja, digo sempre que sou de Bragança e se há característica engraçada é que isso acaba por nos abrir as portas o que é inacreditável. A quantidade de gente que nós conhecemos porque, em todo o lado, em todo a canto, a qualquer sítio que nós vamos, há sempre alguém que é da terra. Se não é de Bragança é de Vinhais, se não é de Vinhais é de Miranda, se não é de Mirandela, é de algum lugar do distrito. Eu tenho essa experiência onde quer que vá e só continuo a achar que esta identidade se sente mais, quando as pessoas estão fora, do que quando as pessoas estão dentro. É o ter o prazer de se dizer que se é transmontano e o ser-se transmontano e lutar-se por Trás-os-Montes e depois outra coisa é sê-lo cá.
Sê-lo cá é muito diferente. Há uma maior tendência para o “bota abaixo” para o desânimo, para a crítica fácil, para a crítica banal e muito menos para a colaboração no sentido de melhorar as coisas. Eu acho que os transmontanos ganham mais identidade ou sentem-na mais quando estão fora, do que quando estão dentro. Quando estão dentro confesso…acho que… sinto isso com toda a honestidade, acho que há alguma coisa de especial nos transmontanos. Têm algo que é único porque as pessoas são daqui ou são dali, de uma região ou são doutra, mas acho que os transmontanos têm realmente alguma coisa muito especial, particularmente, os de Bragança. Não é bairrismo, mas acho que ser de Bragança é uma coisa ainda mais especial.

Diga-nos, por favor, em breves palavras, que futuro tem o nordeste transmontano?

Tem um futuro montanhoso com muitas pedras pelo caminho. Isso não há dúvida nenhuma porque o país continua a cair para o litoral. Isso é inevitável e não é fácil porque está envelhecido. Há muita gente que vai acabar por morrer e a renovação demográfica não é feita e isso está a ser muito difícil.
Há dias fiz numa conferência em Vila Real onde a plateia era essencialmente da universidade, e era essencialmente de jovens do secundário e eu comecei por lhes perguntar se sabiam o que era uma espécie em vias de extinção. “Sabemos.” Disseram todos e eu disse: “Bem, vocês são uma espécie em vias de extinção.” e ficaram todos de boca aberta e eu disse: “Pensem bem. Vocês são, realmente, uma espécie em vias de extinção”. Porque não há praticamente garotos, há cada vez menos jovens em Portugal e na região. A grande espécie em vias de extinção aqui, é o homem. Eu acho que as pessoas ainda não pararam para pensar nisso.
Os governantes, aqueles que têm hipótese de, com uma assinatura, resolver as coisas, ainda não pensaram nisso. A grande espécie em extinção é o homem e é preciso tomar cuidado quando nós defendemos os parques, as zonas. Toda esta região é um parque natural e, portanto, têm que pensar bem nisso porque, senão será uma zona de flora e de fauna muito reduzida e na qual se insere o homem que é uma espécie que vai desaparecer. Qualquer dia pagam para aqui viver o homem transmontano para que não desapareça.

O futuro, portanto, é difícil…

Vai ser muito difícil, sempre foi muito difícil. O futuro de Trás-os-Montes sempre foi difícil. Se olharmos para trás sempre foi um futuro difícil mas não é impossível. A região não vai acabar, isso não vai acabar de certeza absoluta. Que aqui se exige o triplo, o quádruplo, sei lá, eu ainda não consegui multiplicar por quanto é que se exige mais às pessoas daqui para que a região se sustente. Portugal vive de uma forma inacreditável. Nós continuamos a encher o litoral se isto fosse uma placa instável, nós já tínhamos ido ao fundo completamente. Se calhar a única coisa que estava à tona era Trás-os-Montes porque o país inclinava-se para o litoral, afundava-se e ficava só Trás-os-Montes em pé. Era a única maneira de isto ter gente para que não morressem todos afogados.
As pessoas estão todas concentradas, de Braga a Setúbal e cada vez mais em Lisboa, com todos os problemas sociais que nós conhecemos. Viver em Lisboa hoje, é inacreditável, é horrível. Aliás, não vivem em Lisboa, trabalham em Lisboa e mesmo assim é lá que está a fonte de riqueza, é inacreditável e esse é que é o problema é a distribuição da riqueza que é muito desequilibrada em Portugal. É um problema enorme, gigantesco e é muito complicado gerir toda esta região, os países grandes têm estes problemas.
Vocês já pensaram que se pegássemos em toda a gente do distrito de Bragança, enchíamos os estádios de Lisboa, o de Alvalade e o da Luz…

Ficariam alguns fora para a bilheteira…

Quanta gente é que temos? É terrível. Eu cada vez que penso nisto, fico aterrado. É inacreditável.

Para terminar, que personalidade ou personalidades mais o marcaram ao longo da sua vida?

Essa é sempre muito difícil porque, confesso que não tenho… nunca idolatrei ninguém em particular. O que vou é retirando sempre, pequenas coisas de muita gente. De políticos, de escritores, de músicos. É difícil eu indicar um nome como sendo a minha figura, o meu modelo. Desde o liceu até hoje procuro referências em gente que vai da extrema esquerda à extrema direita, ao centro porque todos eles têm alguma coisa, nem que seja pela componente negativa. Olhar para eles e dizer assim: “Com o que esta pessoa fez, eu não quero, de facto, ser assim. Não é isto que eu quero ser”.Nunca tive esse ídolo essencial de referência de vida. Procuro retirar ensinamentos de todas as áreas e se há algo de extraordinário, é conhecer a bibliografia das pessoas, perceber como foi a vida delas.
Às vezes conhecemos um político, um músico ou um escritor e reduzimos a vida deles àquilo e acho que é interessante procurarmos as biografias, vermos como é que chegaram lá, o que é que fizeram mais na vida, como é que marcaram, como é que foram marcadas. Isso é extremamente interessante e é por aí que nós apanhamos algumas lições.

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