sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Autárquicas 2017 sem novidades (Editorial do Jornal Nordeste de 08/11/2016)



A menos de um ano das eleições autárquicas, os municípios do distrito de Bragança continuam, na generalidade, a viver numa estranhamente tranquila paz do senhor, sem que se vejam surgir candidaturas capazes de animar a participação política dos cidadãos.
Até poderia ser um bom sinal, se não vivêssemos os dias derradeiros de todas as oportunidades perdidas para inverter um caminho, que ameaça tornar-se sem retorno.
Com honrosas excepções, as quatro décadas de poder local democrático não demonstraram condições de ruptura com a gestão atenta e obrigada pela torneirinha no fontenário, do tempo obtuso de Oliveira Salazar, promotor reconhecido de um ruralismo sem horizonte que não fosse a contemplação de uma eternidade redentora, depois da passagem torturante por este mundo.
As referidas excepções poderiam ter alentado outros voos, porque demonstraram que a subserviência e a omissão relapsa são enxotáveis do nosso quotidiano.
Durante décadas ninguém há-de esquecer o rasgo inovador de José Gama, à frente dos destinos de Mirandela, como não haverá quem negue a importância decisiva de José Luís Pinheiro na criação de condições para o que se chama, agora, a capitalidade de Bragança. Júlio Meirinhos, na década de 80, conseguiu que Miranda do Douro recuperasse peso no contexto regional, ao mesmo tempo que um homem bom foi fazendo o que podia em Macedo de Cavaleiros, sem grande orientação estratégica, mas de forma voluntariosa, o inefável António Ferreira, o Pescadinha.
Outros houve que deixaram memória de dedicação e denodo, com resultados nem sempre notáveis, mas respeitáveis: Sobrinho Alves, que lançou para o mundo o fumeiro de Vinhais, a que os seus sucessores, José Carlos Taveira e Américo Pereira, deram mais solidez; Aires Ferreira, que se esforçou até ao desespero por garantir um estatuto no contexto regional ao concelho de Torre de Moncorvo; Luís Vaz, que nunca desistiu de Macedo de Cavaleiros e ainda Artur Pimentel, que conseguiu gerir um município, suportado na força dos afectos.
Naturalmente, a memória futura do nordeste não deixará de ter na devida conta o legado de 16 anos de Jorge Nunes, em Bragança, gerador de despeitos de alguns medíocres, refastelados nas doçuras decadentes da demissão.
Mas, nem estes lideraram os seus municípios suportados em projectos partilhados, suficientemente claros para todos os seus concidadãos. Foram simplesmente exemplos de voluntarismo e coragem, dignos de respeito.
Nestes tempos já seria esperável que as forças políticas na região se dedicassem a construir projectos de intervenção autárquica, suportados na identificação dos problemas vitais, capazes de conceber estratégias de intervenção, técnica e politicamente sólidas e de mobilizar equipas de cidadãos verdadeiramente empenhados na construção de alternativas ao marasmo que nos foi tolhendo gerações inteiras.
Pelos vistos, o panorama é um definitivo deserto, agora de ideias, também de equipas coesas e preparadas, deixando, mais uma vez, que o acaso nos traga a sorte de novas revelações de cidadãos autênticos, sobre os quais descarregaremos o nosso conformismo e exercitaremos a maledicência sem responsabilidade.
Ou, ainda pior, assistiremos, quais palonços, a movimentações de pseudo cidadania, em que o oportunismo, o golpe de vista e o pé ligeiro nos trarão mandatários que não se colocarão sequer as questões inquietantes do devir desta terra, que merecia outro destino.

Escrito por: Teófilo Vaz (Diretor do Jornal Nordeste)

domingo, 6 de novembro de 2016

Outono em Bragança










Numa tarde de outono,
apenas caminhava,
sem nenhuma intenção,
e o olhar desviava do meu coração
que ia triste pensando.

E assim a paisagem,
vestida de cor,
inebriou-me os sentidos
de uma espécie de amor

Maria Cepeda

sábado, 5 de novembro de 2016

IPB está a ajudar a criar primeiro politécnico de Timor



Representantes do politécnico e do governo timorense estiveram em Bragança para discutir a formação da nova instituição


O Instituto Politécnico de Bragança (IPB) está a apadrinhar a criação do primeiro politécnico de Timor-Leste. A instituição de ensino superior transmontana vai ajudar a desenvolver as vertentes científicas das ofertas formativas da escola superior que deverá começar a funcionar já em Janeiro do próximo ano.
O IPB recebeu na semana passada uma delegação de Timor, composta por representantes do ministério da Educação, da embaixada de Portugal em Timor e da futura da instituição timorense, que também se designará IPB, ou seja, Instituto Politécnico de Betano.
O presidente do Politécnico de Bragança, Sobrinho Teixeira, espera que esta colaboração seja proveitosa para as duas instituições, perspectivando “uma troca de experiências entre ambas as instituições”.
“Iremos receber aqui professores e funcionários, que vão ver uma instituição que iniciou o seu percurso há mais de 30 anos e, portanto, já tem alguma experiência. Naturalmente, também haverá deslocação do nosso corpo docente e de funcionários para Timor mas, sobretudo, haverá um enriquecimento conjunto. Há um ganho muito grande para o politécnico de Bragança, através dessa partilha de experiências, de poder ter novos horizontes e fazer novas investigações…”, frisou o responsável.
O IPB colaborou já anteriormente na criação de instituições similares em Angola, Moçambique e São Tomé e Príncipe. A instituição tem o único mestrado em agricultura tropical em Portugal, o que pode ter aplicações em Timor.
As aulas serão leccionadas maioritariamente em português e os primeiros dois cursos técnicos superiores serão em engenharia civil e em produção animal e vão receber cerca de 270 alunos.
Acácio Cardoso Amaral, o presidente da comissão instaladora do Instituto Politécnico de Betano, refere que estas são áreas importantes no desenvolvimento do país, visto que o governo tem projectos importantes de construções e que o país é muito dependente do mercado externo em matéria de carne. “O governo quer criar uma nova universidade pública técnica para poder receber mais jovens que terminem o ensino secundário e especialmente para os preparar para terem competências técnicas para que quando se formarem possam contribuir para o desenvolvimento do nosso país”, sublinhou.
Este ano, em Timor cerca de 18 mil alunos completam o ensino secundário e a Universidade da Nacional de Timor Lorosae só tem capacidade para acolher  4 mil. Os restantes jovens que quiserem prosseguir estudos superiores têm de frequentar escolas privadas ou deixar o país, e só na Indonésia estudam 8 mil timorenses.
No segundo ano de funcionamento, o  Instituto Politécnico de Betano prevê abrir mais seis cursos, contribuindo assim par travar a saída de tantos jovens do país.

Escrito pela jornalista: Olga Telo Cordeiro

Bragança reclama título de Capital da Castanha



Reivindicação feita na Norcaça, Norpesca e Norcastanha pelo presidente do município
Bragança vai a partir de agora adoptar o título de capital da castanha. O presidente do município, Hernâni Dias, reclamou para Bragança este estatuto na Norcaça, Norpesca e Norcastanha, já que o concelho é o maior produtor deste fruto seco no país.

“Não temos vindo a usar essa terminologia, mas se nós temos 50 por cento da produção de castanha na Terra Fria Transmontana, as maiores áreas de produção, o maior número de produtores, as empresas que trabalham o sector, uma instituição de ensino superior que faz a componente de investigação, só nos falta dizermos às pessoas as coisas que nós fazemos, que estão cá e à vista, que devem ser promovidas dessa forma”, referiu. “Perante estes argumentos não poderíamos deixar de reclamar este título, porque ele é merecido”, explica o autarca.
Ainda que haja outros concelhos que possam reivindicar este estatuto, como o caso de Vinhais ou de Carrazedo de Montenegro, no distrito de Vila Real, Hernâni Dias não tem dúvidas de que Bragança consegue marcar a diferença no que toca à produção de castanha.
“O nordeste transmontano tem cerca de 32 mil hectares de castanheiros plantados, só Bragança representa mais de 7 mil hectares dessa área”, sustenta.
O autarca mostrou ainda a sua preocupação em relação à entrada de castanha estrangeira na região, quer da Ásia quer de países europeus e pede ao governo um controlo mais apertado para a entrada deste produto em Portugal.
“Isso tem inconvenientes do ponto de vista económico e da qualidade porque a nossa castanha é de uma excelente qualidade e quando há outra castanha que vem, para cá e depois é vendida como sendo de cá, se a qualidade for inferior prejudica obviamente os produtores locais”, explica.
A 15.ª edição da Norcaça, Norpesca e Norcastanha decorreu entre os dias 27 e 30 de Outubro no pavilhão do Nerba com exposição e venda de produtos, conferências, apresentações de livros, desfiles de moda e demonstrações de culinária, sendo que a grande novidade foi a presença do maior aquário móvel da Europa. Houve ainda montarias, concursos de caça e pesca, a prova de Santo Huberto e uma chega de Touros.
A organização da Norcaça, Norpesca e Norcastanha acreditou que esta foi uma das melhores edições dos últimos anos, apesar de não ter ainda divulgado qual o número de visitantes que passou pelo certame.


Zona de caça da lombada

Por mais um ano, a Zona de Caça Nacional da Lombada, situda no concelho de Bragança, foi um tema debatido na edição deste ano.
O presidente do município de Bragança aproveitou a presença secretário de Estado Adjunto e do Ambiente na abertura da feira para reiterar a preocupação com a gestão da zona de caça nacional da lombada e afirmou que “é uma perda enorme para a região o facto de não estar a ser devidamente aproveitada”.
O secretário de Estado José Mendes garantiu que o governo está empenhado em discutir alterações ao sistema de gestão e deixou a promessa de transmitir as preocupações à tutela.
“Levo a questão devidamente sinalizada para a colocar à minha colega, a secretária de Estado do Ordenamento do Território e Conservação da Natureza, porque entendermos que os activos e recursos endógenos locais, devem merecer do Estado, o devido enquadramento para serem explorados no sentido da criação de valor na região”, garantiu.
A zona de caça foi o tema do debate que reuniu especialista e contou com a presença de Armando Loureiro, director do Departamento de Conservação da Natureza e Florestas do Norte.
O responsável reconhece que “há trabalho para fazer para mudar e melhorar muitos aspectos da gestão da Zona de Caça Nacional da Lombada”. Uma das reclamações prende-se com a falta de fiscalização. Problemas que Armando Loureiro acredita que se podem resolver, mas com a actuação das autoridades fiscalizadores. “A autoridade fiscalizadora da caça e da pesca cabe à GNR”, sublinha, recordando que aquando da extinção dos serviços de guardas florestais e venatórios, as competências foram transferidas para essa força de segurança.
O ICNF tem ainda algumas competências de fiscalização e tem um corpo de vigilantes da natureza, no entanto, o responsável da estrutura acredita que não pode ser ela a combater a caça furtiva.
O director do ICNF Norte agendou um conjunto de encontros de trabalho para discutir metas e objectivos para alteração da gestão com as entidades locais.
O presidente da União de Freguesias de São Julião de Palácios e Deilão, algumas das localidades abrangidas por esta zona de caça, mostra-se satisfeito com a abertura do ICNF em aceitar negociar as alterações à gestão da zona de caça.
Altino Pires refere que os responsáveis locais autárquicos reclamam “um outro tipo de gestão, que implique um maior envolvimento dos locais, não só das juntas de freguesias, das comissões de baldios, caçadores e proprietários dos terrenos”.
O autarca considera que quase não existe caça menor, “não tem sido feito quase nada para sua manutenção, há caçadores que conhecem a zona de caça e depois de lá caçar saem defraudadas”. Quanto à caça maior, falta alimentação o que leva a que haja prejuízos nos campos agrícolas.

Escrito pela jornalista Olga Telo Cordeiro

Feiras de vaidades (Editorial do Jornal Nordeste)



Pregar no deserto foi sorte que acompanhou profetas, nesta nossa civilização, longos milénios hesitante entre semear a solidariedade ou, pelo contrário, manter a selva predatória, sempre com renovadas ameaças, a ressurgir do sangue derramado na disputa de míseras migalhas do tempo.
Dificilmente haverá espectáculo mais penoso do que presenciar dois miseráveis a esgadanharem-se por uma côdea bolorenta, que pode matar quem lhe ferrar os dentes.
Visionários, alguns profetas foram desprezados, objecto de chacotas seculares, até que os tempos lhes deram razão. Mas, então, já nada havia que pudesse aconchegar arrependimentos, condenando comunidades, povos e nações ao verdadeiro nada.
Na tradição democrática europeia, os órgãos de comunicação social, sem presunção de profetizar, partilham a responsabilidade cívica de contribuir para trazer à praça pública as grandes questões que se colocam no exercício da cidadania. Por isso, o jornalismo nacional nos legou contributos de reflexão e propostas ponderosas de condução dos destinos nacionais e regionais, ao longo de décadas, mesmo quando poderes anti democráticos se instalaram sobre a generalizada demissão dos portugueses.
No entanto, tais contributos raramente foram tidos em conta pelos responsáveis políticos, muitas vezes com consequências nefastas para gerações sucessivas.
A lucidez e a serenidade também não têm encontrado terreno fértil entre os protagonistas da região, apesar de repetidos apelos para a identificação de opções comuns, de objectivos profícuos para todos os concelhos, em vez de insanas divisões.
Continuamos a ver aprofundar clivagens, a propósito de actividades fundamentais para a economia regional. Não podemos, assim, disfarçar o espanto por sentirmos que não há forma de que se aprenda a lição.
Nos últimos quinze dias realizaram-se dois certames relacionados com a castanha, o produto mais notável da Terra Fria transmontana. Depois de grande festa em Vinhais, o presidente do município de Bragança veio proclamar que o seu concelho reivindica tornar-se a capital da castanha, o que foi entendido como o retomar de uma guerra sem sentido, depois do que aconteceu com a instalação de dois matadouros, que mutuamente se inviabilizam e de escaramuças a pretexto dos recordes do Guiness, o maior assador do mundo versus o maior pote do universo.
O certame de Bragança, designado Norcaça, Norpesca & Norcastanha, já é, também ele, o resultado de outras guerras fratricidas, que condenaram à morte uma feira regional de caça, depois do município de Macedo de Cavaleiros ter marchado, entusiasticamente, contra os encontros venatórios em Bragança, pulverizando iniciativas no tempo e no espaço, com resultados que as reduziram à quase insignificância.
Apesar de ouvidos moucos, as palavras não são necessariamente loucas. A região está num estado de debilidade que não permite, se quisermos sobreviver, alimentar disputas. Não há mais tempo para feiras de vaidades. Encontrem formas de cooperar para que todos os nordestinos possam conhecer dias de serenidade, mesmo de esperança, em vez de nos empurrarem alegremente para as novas arenas, onde se celebra o silenciamento dos inocentes.

Escrito por Teófilo Vaz (Diretor do Jornal Nordeste)