quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Jovem alfandeguense vence programa televisivo de cozinha -“Tento sempre ir buscar um bocadinho da minha região quando confecciono os meus pratos”



Maria Manuel tem 13 anos e é uma jovem transmontana apaixonada pela cozinha. Nasceu em Bragança e aos dois anos mudou-se com a família para Alfândega da Fé, considerando-se, por isso, alfandeguense. Venceu a primeira edição do MasterChef Júnior em Portugal.



Inscreveram-se no programa televisivo mais de 5 mil crianças entre os 8 e os 12 anos e Maria foi uma das 18 seleccionadas para entrar na cozinha destinada aos melhores. A final do programa da TVI foi transmitida no passado Domingo. Maria apresentou uma entrada de guacamole com tártaro de salmão, como prato principal cozinhou arroz de limão com lulas grelhadas e, para sobremesa, a proposta da concorrente foi um cheesecake de frutos vermelhos. Acabou por vencer ao concorrente João Mata, de Alverca do Ribatejo, com quem disputou a final. Ganhou um curso na prestigiada escola de cozinha Cordon Bleu, em Madrid e uma viagem naquele que é considerado o maior navio cruzeiro do mundo.
Em entrevista ao Jornal Nordeste, confessa que não estava a à espera de vencer esta competição e que foi uma experiência única. Além da cozinha também gosta de moda e até tem um canal no Youtube onde dá dicas de maquilhagem. Para Maria “a cozinha é uma arte” e o seu futuro passará, certamente, por tachos e panelas.
Estavas à espera de ganhar esta competição? Como é que te sentiste?
Não…Não Estava mesmo à espera. Senti-me a pessoa mais felizarda, mais orgulhosa, mais feliz e mais tudo do mundo…
O que é gostaste mais e menos nesta competição?
Gostei de tudo…mesmo… Dos colegas, da produção, dos jurados, de conhecer pessoas novas, de conviver, de liderar, de competir, gostei de tudo ali dentro…
Como surgiu a ideia de participar no programa?
Eu estava a ver televisão como qualquer pessoa e passou publicidade do programa. Na brincadeira, disse que gostava de me inscrever no MasterChef. Umas amigas minhas levaram aquilo a sério e inscreveram-me. Começou por uma brincadeira e ainda agora parece brincadeira. Só quando me vejo na televisão é que acredito…
Como surgiu o teu gosto pela cozinha?
Eu via a minha cozinhar e ajudava-a. Gostava de ajudá-la a fazer receitas, bater natas, fazer bolos, não só a ela mas a várias pessoas. Um dia a minha mãe foi comprar pão e eu experimentei fazer arroz  No segundo dia em que fiz arroz correu bem e nunca mais parei, fazia arroz, massa, depois fazia bolos… Já parecia uma autêntica chef…(risos).
O que é que gostas mais de cozinhar?
Doces. Adoro pastelaria e gosto também muito de fazer pão.
A cozinha transmontana influencia os teus pratos?
Influencia. Tento sempre ir buscar um bocadinho da minha região quando confecciono os meus pratos. No programa cozinhei, por exemplo, as sopas da matança. Na nossa zona um dos pratos tradicionais é alheira com batatas e grelos e eu gostava de ter cozinhado esse prato mas não foi possível porque no programa não tinha condições para encher a alheira e pô-la a curar. Como na altura em que gravei esse programa era altura da matança do porco, decidi fazer esse prato, com rojões. Foi um prato muito elogiado pelo júri.
Que ingredientes e pratos transmontanos gostas mais?
Todos. Adoro cabrito, gosto muito mas muito mesmo de feijoada. Deve ser dos pratos que mais gosto. O meu pai cozinha bem feijoada e eu adoro. Também gosto muito de feijoada com feijão preto, à moda brasileira, com picanha.
Vais continuar a cozinhar por gosto ou queres fazer da cozinha profissão?
Ainda não sei bem o que quero fazer… Mas quero fazer da cozinha uma arte…
Como é que correu o curso na Escola Cordon Bleu? Tiveste a companhia de algum familiar?
Sim, foi muito giro. Tive a companhia da minha irmã, que foi minha assistente no curso. Aprendi muita coisa. Gostei de extrair clorofila dos alimentos, de fazer bolos, aprender técnicas de caramelização, de saturação, maturação e muitas outras coisas essenciais.
Além da cozinha há outra área que gostes e estejas a pensar seguir no futuro?
Sim, gosto de teatro e arte e também gostava de ser estilista. 

Por: Sara Geraldes
Retirado de www.jornalnordeste.com

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Outros Tempos - 4º capítulo



Voltei à cozinha e pousei a caneca no louceiro. Sabia que ela não conseguiria dormir se eu não saísse do quarto. Era verão e estava muito calor. Em pensamento, apliquei a máxima transmontana "nove meses de inverno e três meses de inferno". É assim em Trás-os-Montes. Sentei-me no banco corrido que ali estava há muitos anos

"O funeral foi rápido. O tio padre tratou de tudo. Apenas a família esteve presente. Os outros tinham medo de apanhar a doença. Todas as famílias tinham perdido alguém. Outras tinham sido dizimadas completamente. Esta guerra, posso chamá-la assim, foi terrível. 
A minha mãe… a minha mãe era um fantasma de si mesma. Desmaiou mal pôs os pés em casa. Corremos todos para ela e apercebi-me de que ardia em febre. Os meus irmãos colocaram-na na cama.
“Filha. Nem te sei dizer o que fiz. O meu pai mandou buscar o médico à Vila. O pobre estava tão cheio de trabalho que demorou a chegar.
A minha irmã Maria preparou uma cama para o doutor, pois já era tarde.
O diagnóstico foi terrível. Era a gripe. Ouvimos do médico, aquilo que já sabíamos todos.
No entanto, a morte da minha irmã, mais do que nos acabrunhar, obrigou-nos a acreditar que podíamos salvar a nossa mãe.
Fui assumindo o controlo da situação. Assim tinha de ser. Sabia-o. Comecei a dar ordens a toda a gente. Ninguém me dizia que não. Era uma boa maneira de esquecer a tristeza que sentíamos.
Pedi ao meu pai que fosse dormir para o meu quarto. Eu ia ficar com a mãe. Ele assentiu como se fosse sonâmbulo.
Pedi ao meu irmão Manuel que fosse à adega e me trouxesse uma garrafa de aguardente e uma de vinagre. Esfreguei as mãos com aguardente e despejei numa malga um pouco de vinagre que pus na mesinha de cabeceira de castanho, feita pelo meu pai.
Abri a janela do quarto e deixei entrar a aragem fresca da noite. Fui à cozinha buscar um cântaro com água fresca. Deitei alguma na bacia de esmalte que ali estava e fui-lhe aplicando panos de linho molhados na testa. Não me perguntes, filha, como foi que aprendi a fazer aquilo. Ainda hoje não sei.
Quando vi que a febre tinha baixado um pouco, recostei-me, cansada, na cadeira que estava junto à cama onde deitei a cabeça e adormeci.
Acordei com um pequeno gemido. Levantei-me de um salto e vi que a minha mãe ainda dormia. Pus-lhe a mão na testa e senti que a febre já não estava tão alta. Olhei pela janela aberta e, apesar de estarmos no fim do mês de setembro, mantinha-se o calor. O dia começava a nascer. Ouvi o chiar das rodas de um carro de bois.
A casa começava a despertar e já a minha irmã Maria bulia na cozinha a preparar o matabicho para o Doutor que se preparava para ir ver outros doentes. Infelizmente, pouco podia fazer, dizia.
“Não temos remédios contra este flagelo que está a dizimar a nossa população. Tantas desgraças! Tantas desgraças, meu Deus.” – Lastimava-se.
Depois de matabichar, o bom do médico foi embora montado na nossa égua. Com ele, o meu irmão João, cavalgava a Mulata, mula valente e caprichosa.
Toda a casa estava acordada. A tristeza entranhava-se nos nossos corações.
Antes de comer, preparei umas sopas de alho e azeite para a minha mãe. Acordei-a e fiz com que comesse o máximo possível que foi muito pouco. Fiz-lhe um chá de hortelã que ela bebeu devagar, com esforço.
Sempre com muito cuidado, lavei-a, mudei-lhe a camisa e deixei-a o mais confortável possível. A febre recomeçou a subir e eu voltei a esfregar as mãos com aguardente e renovei o vinagre da malga que, por ser tão forte, empestava o quarto com o seu cheiro. Fui buscar água fresca e mudei, vezes sem conta, o pano de linho com que lhe refrescava a testa.
Não descansei até que senti a febre descer. Minha mãe adormeceu e fui à cozinha comer sopas de alho e azeite e fiz que a minha irmã as comesse.
Voltei ao quarto. A mãe estava tranquila. Respirava com dificuldade e ouvia-se o chiar dos pulmões.
Todos, aos poucos, depois de realizarem as suas primeiras tarefas, foram matabichando. Um golinho de aguardente era, nas famílias transmontanas de então, habitual na primeira refeição do dia. Era normal naqueles tempos de pouca fartura, comer caldo logo de manhã e todos comeram as sopas que eu tinha feito e uma mão cheia de figos secos, que esse ano houvera muitos.
O Francisco apareceu a esfregar os olhos, ensonado, descalço, a perguntar pela mãe.
Ninguém disse nada. Todos lutaram contra o nó que se formava na garganta.
José pega-o ao colo e diz-lhe que ela não está em casa. O menino aninhasse nos seus braços e uma pequena lágrima escorre-lhe pela cara.
- Vamos comer que tu vais comigo trabalhar, filho! Vais ajudar o pai, queres?
Meneou com a cabeça em sinal afirmativo com um brilhozinho no olhar. O pai sentou-o na tripeça e foi buscar uma malga de sopas. O pequeno gostava. Comeu bem.
Dirigiram-se os dois ao quarto e regressaram poucos minutos depois preparados para saírem. Juntaram-se-lhes os meus irmãos      
Voltei ao lar onde a minha irmã se atarefava para fazer o almoço. Ajudei-a a descascar as batatas e as cebolas que íamos comer. A carne de porco já cozia no pote ao lume.
O meu pai, pálido e cansado, sobe com esforço as escadas vindo da rua. Tinha, mesmo assim, uma figura imponente e austera de que se desprendia uma grande bondade.
Corri a abraçá-lo. Senti o seu sorriso triste nas minhas costas e o seu abraço foi diferente de todos os outros que tinha recebido. Parecia um marinheiro agarrado à sua tábua de salvação.
“Deixa-me garota! Que rapariga esta que nunca mais cresce!” A sua voz parecia um afago, um carinho triste. Parecia ter envelhecido vinte anos num dia. Arrastou-se até ao escano e sentou-se pesadamente.
Maria largou o que estava a fazer e sentou-se ao seu lado sem dizer palavra.
Sentada na tripeça, olhava para eles. Vi como era bonita Maria. Mantinha os olhos que sabia ser de um azul resplandecente, baixos. Algumas lágrimas insistiam em correr pela sua face alva de neve. O meu pai pega-lhe na mão e aperta-a.
“Pai! Estou tão triste!” Murmurou num fio de voz.
“Eu sei filha. Eu sei.” Quase sem mexer os lábios, disse o meu pai.
“Ó minha irmã, meu pai, que se queima o jantar!” Gritei eu a fingir-me atrapalhada.
Quebrou-se o enleio de sofrimento que ali se gerara.
Do quarto, um murmúrio.
“Mãezinha?” Corri para lá.
“Tenho sede filha. Dá-me tantinha água.”
Fui à cozinha como se voasse e voltei com um púcaro de esmalte cheio de água fresca da bilha de barro.
Ajudei-a a erguer-se e amparei as suas costas com duas almofadas. Só então lhe cheguei a água aos lábios que apenas molhou.
“Dói-me tanto a cabeça.” Balbuciou num esgar de dor.
Amparei-a para que se deitasse. Molhei o pano de linho na água fresca do púcaro e coloquei-lho na testa.
Fui à cozinha e vasculhei as caixas do chá. Fiz um chá de hortelã. Fui à cortinha colher algumas folhas de hortelã fresca.
Amornei o chá e dei-lho a beber adoçado com mel. Queixava-se que lhe doía a goela. Fui insistindo até que o acabou. Tossiu muito. Limpei-lhe o nariz com os seus lencinhos perfumados com alfazema. Deitei-a e fui buscar as folhas de hortelã que tinha esmagado ligeiramente. Pus-lhas na testa e no peito. Adormeceu.
Aconcheguei-lhe o cobertor. Tremia. Tinha febre novamente. Coloquei o pano húmido e fresco por cima das folhas na testa e chamei pelo meu irmão Domingos.
“Sim, Alzira? O que precisas?”
“Mata a minha garniza amarela. Preciso fazer uma canja prá senhora nossa mãe.”
Fez que sim com a cabeça e foi à capoeira. Domingos era de poucas falas. A angústia que trazia no olhar dizia tudo o que a sua alma sentia. Éramos próximos em idade e entendíamo-nos muito bem.
Olhei para a minha mãe e vi que a sua respiração era mais fácil. Suspirei.
Maria atarefava-se à volta dos potes. O meu pai dormitava. Volta e meia deixava escapar um gemido.
Na rua reinava um silêncio sepulcral, como tu dirias, minha neta.
Aos poucos, os meus irmãos foram voltando das suas tarefas. Ouvi o relinchar da égua e o zurro da Mulata. O João chegou, pensei.
O Castanho soltou o seu urro habitual acompanhado pelos chocalhos das vacas.
“Hei touro, hei!” Gritou o Abel.
Senti abrir as portas das lojas e os animais a entrarem.
Domingos entra com a galinha depenada e limpa. Sem dizer nada, vai buscar um pote com água e põe-no ao lume.
“Elvira, já está. Vem fazer a canja.”
Ainda sem dizer nada, vai buscar mais lenha e ajuda Maria a escoar o pote das batatas.
Deito uma cebola picada ao pote e dois bons dentes de alho. Espero que ferva e deito a galinha partida aos pedaços e um pouco de sal.
Parecia que a vida estava a entrar no seu ritmo normal.
Todos sabíamos que não era verdade.

“Avó, não gosto de a ver tão triste. Se vai ficar assim, não quero que me conte mais nada da sua vida.”
“Não minha neta, não te preocupes. Sou mesmo assim. Emociono-me com estas coisas. Olha, já sou velha! Vou-me deitar.”
“Já levo o seu chá de hortelã e um pedacinho do bolo de chocolate que fiz hoje. Vai ver que bom é, avó.”

Maria Cepeda

sexta-feira, 22 de julho de 2016

A POLÍTICA E A ARENGA (Editorial do Jornal Nordeste de 19/07/2016)

Daqui a 50 anos, se for consultado um arquivo digital “super fancy”, da memória do meado de julho de 2016, quem estiver em frente ao écran, se é que ainda haverá écrans…, passará como cão por vinha vindimada (tentação retro, esta de falar em provérbios) por uma nota obscura sobre perspectivas de investimento estrutural para o nordeste transmontano, avançadas de forma pouco clara por um ministro do governo de agora, de mão dada com a responsável de uma unidade de missão para o desenvolvimento do interior.
Falaram em Macedo de Cavaleiros, onde repetiram lugares comuns sobre a localização estratégica do distrito de Bragança relativamente ao coração da Europa, o que seria, naturalmente, uma vantagem a ter em conta no contexto do país, mas principalmente da região, acrescida de uma mais valia fundamental: a conexão com territórios do país vizinho, numa Europa sem fronteiras. Lugares comuns, porque há mais de 30 anos que tal condição é celebrada, sempre com resultados pífios, ou pior do que isso.

As declarações foram proferidas numa reunião do partido que lidera o governo, nesta fase em que se vivem tempos que, para uns, são de rupturas prometedoras, enquanto outros os encaram como caminhos de alto risco, passíveis de reconduzir o país a um trajecto de certo e sabido naufrágio, para gáudio dos novos adamastores, não só tonitruantes, mas verdadeiramente sanguinários, num festim realizado sobre as milhentas misérias que repõem o mundo no verdadeiro lugar da eterna perdição.
Perante isto, as gentes do nordeste transmontano não romperam em entusiásticos hossanas, até porque lhes vão faltando as forças, sequer para respirar. Mas também porque, em tempos idos, já se ouviram responsáveis da condução política do país, proclamando quererem redimir-se, apesar de relapsos, do pecado da omissão que nos tem posto à mercê da gadanha da história.
É quase constrangedor continuar a ouvir discursos redondos, sem consequências, aparentemente destinados a funcionar como paliativos, mesmo à espera que chegue o dia em que deixaremos de perturbar o folguedo das turbas sem horizonte, como aconteceu com o famoso “pôr Bragança no mapa”.
Quando ouvimos um ministro retomar arengas recocadas, em conjugação com a responsável da unidade de missão por vir à luz, que admite ainda colocar-se a possibilidade de a região vir a ser contemplada numa redefinição da rede de ligações ferroviárias, a primeira pulsão é a do desabafo carroceiro, para depois, mais serenamente, lançar um olhar reprovador, mas misericordioso, sobre a dissimulação, talvez envergonhada, de quem aparece à flor do palco, para uma representação mal amanhada nos bastidores da politiquice nacional. Porque nós até conhecemos os planos de intervenção na rede ferroviária.
Naturalmente, os protagonistas locais que apoiam o governo, estarão a debater-se com o dilema de aplaudir mais uma opereta ou ter a coragem de dizer, olhos nos olhos, aos enviados da capital que já basta de procrastinar e ou sim ou sopas.
Esta situação de falinhas mansas, mesuras e palmadinhas não tem contribuído para nos dignificar e muito menos para mudar a nossa condição, que continua a ser a de atentos e obrigados lacaios cerimoniosos de um poder que precisa de conhecer o vigor e a coragem de que, por aqui, somos capazes.


Por Teófilo Vaz, Diretor do Jornal Nordeste
Retirado de www.jornalnordeste.com 

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Outros Tempos - 3º capítulo



- Minha neta, sei que tenho de te contar as minhas memórias nestas tuas férias de verão. O meu tempo esgota-se. Sinto-o. Não, não digas nada. Como tu própria dizes, sou a pessoa mais sábia que conheces. Quando chegamos a esta idade, começamos a sentir o fim. Tenho oitenta e oito anos, filha. Estamos em 1991 e o mundo mudou como eu nunca pensei. Sabes, gostava de ter, agora, os teus vinte e dois anos. Quanta coisa eu faria!
- Ó avó! Ainda parece uma menina com esses seus olhos azuis a faiscar como se todas as estrelas do universo morassem neles!
- Quem te ouvir não é surdo! Riu-se com gosto.
“Ao mesmo tempo, ato contínuo, ensombreceu-se-lhe o olhar e continuou o seu relato que eu ouvia com avidez.”  
- Estávamos no fim de setembro de 1918. De nada tinham valido as visitas do médico, tantas vezes chamado pelo meu pai.
A tristeza que sentíamos pela morte da nossa irmã era tão densa que quase a podíamos tocar como se fosse uma orvalhada.
O meu pai mostrava os olhos marejados de lágrimas, ele que nunca chorava. Os meus irmãos e eu, não nos atrevíamos a aumentar a sua tristeza, embora fosse quase impossível estarmos mais tristes.
O meu cunhado, com o pequeno Francisco pela mão, chorava desconsoladamente. Com vinte e três anos era ainda muito novo. Perdera o amor da sua vida. Ficara sem chão, sem destino. Não sabia viver sem ela. Estavam destinados um ao outro desde o momento do nascimento. Tinham a mesma idade e eram os melhores amigos.
José subiu os quatro degraus que conduziam à casa com o filho ao colo. Era um rapaz alto e bonito, tão bonito que, lhe chamavam "Pimpão".
Posso dizer-te que tinha tanto de bonito, como de bom rapaz. Tinha um coração maior que o mundo e nunca abandonava quem precisasse de ajuda. Além disso, era muito trabalhador e habilidoso. Tinha tanta vontade de aprender que não se satisfazia com pouco.
Pode parecer que estou a descrever-te um santo… Felizmente, filha, estou a descrever-te um homem, de quem tive a felicidade de ser amiga e que considerava como irmão.
Era, também, inteligente e esperto e soube tirar partido do que a vida lhe ofereceu sem nunca prejudicar ninguém.
O meu sobrinho tinha quatro anos e não entendia nada daquilo. A mãe adoecera no fim de maio. Desde então, não a tinha visto. Ela não queria que o seu menino ficasse doente. Desfazia-se em lágrimas de cada vez que o ouvia chamar.
Quando sentiu que a morte a levaria sem redenção, chamou o marido e ditou-lhe as suas últimas vontades.
- Meu querido marido, meu amigo, peço-te que ponhas o nosso menino nos estudos quando tiver idade.
A sua voz saía num fio, sussurrada como brisa que não se sente, vestida pelo calor do estio em tempo de segadas, tal era a febre que a consumia.
- Ajuda-o a escolher um bom curso.
Tentava respirar desesperadamente. Tossia. A minha mãe pedia-lhe que não falasse mais.
- Temos o dinheiro que os nossos pais nos deram. Deve chegar, senão, alguém...
As palavras iam saindo aos solavancos, cada vez mais inaudíveis.
- Com a tua vida, José, faz o que o teu coração ditar. Se encontrares uma mulher que te mereça, casa com ela. Vou amar-te sempre.
Estas últimas palavras saíram-lhe numa golfada de ar e sangue. Num estertor angustiante, que lhe sugava a vida.
Fechou os olhos. Respirava com muita dificuldade. Os seus pulmões deixaram de funcionar. O sofrimento era impossível de ver. Insuportáveis foram os seus últimos momentos. Pedimos a Deus que a levasse.
Finalmente, a vida deixou o seu corpo delicado e frágil. Suspirámos de alívio.
A minha mãe mandou-nos sair. Com ela, apenas José e o meu pai.
A minha irmã Maria, com o Francisco ao colo, assistia da cozinha ao desfecho daquela situação. Saiu para a rua e, como se uma voz a guiasse, tomou o caminho do rigueiro onde se lavavam as tripas na matança do porco, sem olhar para trás. 
Não queria sofrer mais. Tinha de tirar o menino de casa. Não podia permitir que ele ouvisse os sons do sofrimento.
A minha mãe escancarou a pequena janela do quarto e todas as janelas da casa. Abriu todas as portas e gritou o grito que tão duramente guardara no coração.
Maria abraçou o menino, apertando-o contra o peito.  
Conceição arregaçou as mangas da camisa, foi ao lar buscar água morna que pousou na cadeira junto à cama. Da arca tirou a mais alva toalha de linho fino e pediu ajuda aos dois homens para lavar e vestir a sua menina. 
Quando acabaram, os três olharam para ela como se fosse um anjo e, finalmente deixaram cair todas as lágrimas que tinham."
Parou de falar. Chorava. Ainda não consumira a sua dor. Ainda não fizera o seu luto.

Abracei-a. Senti um nó a crescer na garganta. 
- São horas de ir dormir avó. 
Olhei para ela como se apenas agora a reconhecesse. Aquela mulher era maior que a própria vida.
Beijou-me com um breve beijo de seda. Lentamente nos dirigimos para o seu quarto e ajudei-a a meter-se na cama que ela queria imaculadamente branca.
Ajeitei-lhe a almofada e finalmente, suspirou como se não houvesse outro remédio. Sorriu o seu meigo e divertido sorriso e pediu-me o habitual chá.
- Não fiques triste filha. Os teus olhos são lindos demais para neles sepultares tamanha tristeza.
No trajeto para a cozinha, duas gordas lágrimas rolaram pela minha face. Não podia continuar com aquela situação. O sofrimento dela era infinito. 
Fiz o chá e levei-lho, adoçado com mel das nossas colmeias.

Maria Cepeda    

domingo, 3 de julho de 2016

Entrevista áudio com o Dr. Francisco Manuel Rodrigues Alves, natural de Varge

https://www.dropbox.com/s/e4fuqa0gpihb61m/DR_FRANCISCO_ALVES.mp3?dl=0

Este link dá-lhe a possibilidade de ouvir a entrevista realizada no passado dia 23 de junho, na aldeia de Varge, concelho de Bragança.

Fomos muito bem acolhidos por este casal, ele de Varge, a sua esposa de Chaves, na sua casa totalmente restaurada e belíssima, mas não descaracterizada.

A conversa que levámos a cabo com o Dr. Francisco Alves, deficiente visual, com uma história de vida que é uma lição com muitas lições dentro.

Posteriormente, publicaremos esta entrevista em formato texto.




Maria e Marcolino Cepeda 

quinta-feira, 30 de junho de 2016

Faurecia investe 41,5 milhões e cria 400 empregos em nova fábrica em Bragança



Segunda unidade no concelho foi inaugurada dia 15 e vai começar a produzir em Setembro

As novas instalações para produção da empresa de componentes automóveis Faurecia, em Bragança, foram inauguradas quarta-feira, dia 15. A extensão da unidade industrial de tecnologias de controlo de emissões representa um investimento de 41,5 milhões de euros e a criação de mais 400 postos de trabalho até 2018, que se juntam aos 850 já existentes.
A produção para novos clientes, de marcas inglesas, francesas e espanholas (algumas das quais produzem automóveis topo de gama), arranca em Setembro e deverá dentro de 2 anos atingir vendas anuais de quase meio bilião de euros.
Face a novas encomendas e a outros projectos, a empresa tinha várias opções, mas a decisão de instalar em Bragança uma segunda unidade de componentes de automóveis teve a ver com o facto de já aí existir “uma fábrica de muito sucesso” e devido ao apoio do governo e da autarquia local.
“Na unidade Bragança 1 temos trabalhadores muito qualificados, bons técnicos, bons engenheiros e gestores, o que é o factor mais importante quando tomamos a decisão sobre o local onde instalar uma unidade de produção”, avança o vice-presidente executivo da Faurecia, Christophe Schmitt.
O representante da empresa francesa acrescenta ainda que, em Bragança, encontram “a combinação do compromisso do governo português, da Agência para a Competitividade e Inovação, das autoridades locais, do ensino superior em Bragança e das pessoas que trabalham na fábrica”, uma combinação que, afirma, “tem sido óptima”, assegurando que o investimento “não é a curto prazo, um investimento desta envergadura é a longo prazo”.
Presente na inauguração das novas instalações, esteve o Secretário de Estado da Indústria, João Vasconcelos, que destacou o facto de uma unidade “mais sofisticada em Portugal, com tecnologias de indústria 4.0, muito rara de encontrar não só no país como em toda a Europa” tenha decidido continuar a apostar em Portugal, “em particular num momento de crise da economia nacional”. “Acho que é um belo momento para a indústria portuguesa. A Faurecia fez aqui um bom trabalho, Portugal limitou-se a acompanhar”, frisou o governante.
O autarca de Bragança, Hernâni Dias, espera que com o alargamento da produção da multinacional e a instalação de outras empresas que produzem para a Faurecia, seja possível criar um “cluster industrial” na área das componentes automóveis.
“Com a ampliação desta unidade e do número de pessoas aqui a trabalhar, que chegará a um total de 1200, estamos a pretender criar aqui um “cluster” automóvel através da atracção de outras empresa que virão “atrás” da Faurecia uma vez que serão os directos fornecedores”, frisa o presidente do Município que garante criar as condições para que se instalem, seguindo o exemplo de duas empresas italianas que já produzem para a Faurecia e que se instalaram no último ano na zona industrial de Mós e adiantando que “há outras que estão com vontade de se instalar”.
A multinacional francesa, um dos líderes de mercado a nível mundial na produção de equipamento automóvel, tem uma fábrica em Bragança desde 2001 e alargou agora as instalações, devendo a nova unidade, agora inaugurada, começar a produzir em Setembro, estando para já a funcionar em fase de testes.

Jornalista: Olga Telo Cordeiro