Vamos
chamar à sua entrevista “À procura da nossa Geologia”.
Nasceu
na Póvoa de Varzim, fale-nos um pouco da sua infância, da sua juventude.
C.M. – Enfim, foi uma infância normal. Embora
eu tenha nascido na Póvoa, passei a infância e a escola primária numa aldeia em
Penafiel. O meu pai era natural de lá, a minha mãe era professora primária e passei
a minha infância entre a aldeia e o mar. Estou dividido entre o mar e o campo.
Depois desse período de infância
regressei à Póvoa porque, na altura, não havia escolas secundárias em Penafiel.
Isto em 60, 61 e havia o Liceu Nacional na Póvoa de Varzim que era o único. Regressámos,
portanto, à Póvoa e fiz ali o secundário.
De facto, marcou-me essa dicotomia…
estou dividido entre o mar e o monte e os graus de liberdade que tinha quando
era criança com os meus 7, 8 anos. O à vontade com que andava pelos campos e
pelos montes com os meus companheiros da infância… Tenho impressão de que me
marcou bastante no despertar da profissão que escolhi.
Diga-nos,
então, no seguimento do que nos contou: Porquê a Geologia?
C.M. – Foi uma professora de ciências
naturais que me fez despertar o gosto pela Geologia. Eu estava no meu quinto
ano do liceu e essa professora fez-me querer ser geólogo. O seu amor pela
disciplina era contagiante. Sabia levar-nos por caminhos inexplorados e fez com
que eu me decidisse, aos meus 15, 16 anos. Sinto-me realizado. Faço aquilo que,
de facto, gosto. Tenho esse privilégio e, embora as pessoas… Recordo-me de, algumas
vezes, amigos dos meus pais estranharem a minha escolha. Para mim e para os
meus pais não era estranho. Os meus pais tinham alguns primos que estavam
licenciados em Ciências Geológicas. Portanto, na família não era estranho o
curso de Geologia, mas as pessoas conhecidas quando abordavam os meus pais sobre
o que o filho mais velho ia fazer e os meus pais diziam que ia ser geólogo,
ficavam: “O que é isso? Geologia?”
Aliás, continua um pouco essa
ignorância, essa falta de consciência de uma profissão. Nós, que somos tão
dependentes dos materiais geológicos… Infelizmente, essa ignorância continua presente
na sociedade portuguesa. Não sei se é uma espécie de passar de esponja… de
ignorância, falta de tomada de consciência já que é uma profissão tão digna...
Valorizam-se
umas profissões e desvalorizam-se outras...
C.M. – Isso acontece com muita frequência,
não apenas com a Geologia, mas com outras profissões também.
Fale-nos,
por favor, de um estudo realizado por vários geólogos, que revela que as rochas
existentes na zona das Cantarias, pertencentes ao Parque Natural de Montesinho
são as mais antigas de Portugal.
C.M. - O estudo foi feito por um colega
meu da Universidade de Aveiro, na sua tese de doutoramento, Luís Francisco
Santos. Foi divulgado em comunicados, trabalhos oficiais em congressos,
trabalho conjunto… Espero não falhar nenhum nome, do José Francisco Santos, do
Professor António Ribeiro da Universidade de Lisboa, do Doutor Fernando Marques,
também da Universidade de Lisboa, do professor Tacinardo da Universidade de São
Paulo. Portanto, esse trabalho foi publicado, um trabalho conjunto.
Penso que o primeiro trabalho que refere
as datações das rochas dos Altos Pereiros, foi no âmbito de uma tese de
doutoramento do meu colega José Francisco Santos. Quando se organizou essa
exposição no Centro Cultural aqui em Bragança, foi referido numa entrevista,
por mim e pelo meu colega José Brilha, como um exemplo do interesse da
protecção daqueles afloramentos, porque, de facto, é uma idade polémica. Eu e os
meus colegas datámo-los em mil milhões de anos. Embora seja polémica, porque se
se confirmar que eles têm essa idade, é que em Espanha há…
Voltando um pouco atrás, estes corpos
geológicos existem na Galiza, três ou dois em Portugal, o de Bragança e de Morais.
Estas rochas resultaram de uma tectónica de placas que se começou a processar
por volta dos 400 milhões de anos até aos 320 milhões de anos, processo de
fecho de um grande oceano e da colisão de dois continentes, que agora já não
existem. Há vestígios dessas rochas, o que seria, mais ou menos, à latitude atual,
a América do Norte, as Américas. Portanto, o fecho desse oceano começou dos 400
milhões… Eu estou a falar um pouco de cor, posso não estar a dar as idades
precisas, entre os 400 milhões e os 320 milhões de anos, altura em que se deu o
fecho completo desse oceano.
E o que é que acontece quando há o
choque de duas placas tectónicas continentais? Há todo um material do fundo da
crosta oceânica e sedimentos do oceano que vão desaparecer, e há outra parte
que cavalga, que sobe. Sobe porquê? Há um encurtamento do espaço, há uma
incapacidade física de ocupar esse espaço, esse volume e, esse material cavalga.
Esta unidade imensa calcula-se que tenha cavalgado sobre um outro continente,
nas actuais latitudes cerca de duzentos quilómetros de oeste para leste e a
esta unidade chamamos nós… Os geólogos dividem a península ibérica
geologicamente em várias zonas estruturais e esta é uma delas. A zona chama-se
Galiza/Trás-os-Montes e, a característica dela é a presença destes corpos que
são deslocados doutras origens...
São
rochas do mar...