sábado, 11 de maio de 2024
Quem se recorda?
quinta-feira, 25 de abril de 2024
Teófilo Bento, Capitão de Abril (Natural de Sendim, faleceu a 29 de julho de 2020, aos 75 anos)
Aconselhamos a leitura da entrevista que nos concedeu.
Aqui deixamos alguns excertos.
Penso
que o ter participado no “25 de Abril” teve um pouco que ver, ou talvez muito,
com o ter nascido nesta região. Como disse, sou filho de um guarda-fiscal, sou
um filho já tardio, tinha dois irmãos muito mais velhos que, por acaso,
estiveram em África mas, tinham regressado antes dos acontecimentos que se
verificaram, os acontecimentos relacionados com a guerra ultramarina. O
regresso, de pelo menos um deles, deveu-se ao falecimento do meu pai.
A
minha mãe viu-se com um miúdo de oito anos para criar. A única coisa que sabia
fazer era a lida da casa. Como o meu pai era guarda-fiscal e, numa aldeia, isso
significava mais que ser remediado, quase significava ser duma classe alta,
porque havia dinheiro, a minha mãe fez das tripas coração, virou-se como se costuma
dizer. Ela ainda está viva, tem 98 anos, está num lar em Miranda, mas foi
sempre uma pessoa que me marcou muito porque fez realmente um esforço fabuloso
para conseguir educar-me com aquilo que ficou. Quase diria que teve de inventar
formas de fazer dinheiro para me educar. Tive o azar de ser de uma aldeia, de
não ter feito o exame de admissão na devida altura, o que me obrigou a ir para
um colégio em vez do liceu que ficava mais caro e, assim, estudei em Miranda e
diga-se de passagem que ao fim do primeiro ano já estava a dizer que não queria
estudar mais, porque via os miúdos que estavam a trabalhar na barragem e não
tinham que ir preparar as lições para casa. Aí valeu o meu irmão, regressado de
África por causa da morte do meu pai que disse: se tivesses tirado más notas,
talvez, assim como tiraste boas notas tens de continuar a estudar. Também lhe
devo muito a ele, como é evidente, por causa disso.
Fui
criado de maneira a perceber as dificuldades que existiam em casa. Fiz o 2.º e
5.º anos, vim fazer exames a Bragança e, depois do 5.º, tive de mudar para o
Porto. Eu não podia vir para o liceu, como disse e tudo isso ficava bastante
caro. Fiz os estudos equivalentes ao terceiro ciclo e aí voltei a Bragança.
Tive
sempre uma ligação com Bragança e quando chegou a altura de ir para a
universidade escolhi a academia militar fundamentalmente por questões
económicas. Percebia, perfeitamente, que não podia ir para a universidade. Até
gostaria de ter ido para engenharia, mas percebia perfeitamente que não tinha condições
financeiras para tal.
Ouvi
dizer que na academia militar pagavam um salariozinho, enfim, davam subsídio,
davam alimentação e não pagava pensão. Foi isso que condicionou a minha ida
para a vida militar, não foi efectivamente a minha vocação especial. Foi mais
uma condição económica que, diga-se de passagem, aconteceu a muita gente que
depois veio a participar no “25 de Abril”, vieram a ser capitães de Abril.
Temos que nos lembrar que nessa altura já tinha começado a guerra. A frequência
na academia era alimentada, fundamentalmente, por classes ricas. Enfim toda a
tradição da nobreza, mas quando começou a guerra deixaram isso para os pobres e
os pobres preferencialmente, do interior, por isso é que nessa altura a
frequência na academia militar era de Trás-os-Montes e das Beiras.
Falemos de liberdade e Capitães de
Abril. Comente, por favor, a incursão das Caldas.
A
incursão das Caldas, ou seja, 16 de Março é realmente um movimento feito por
pessoas ligadas ao 25 de Abril, em que se verificou uma descoordenação bastante
grande. Nessa altura, eu já tinha feito reuniões com elementos da comissão
coordenadora do MFA; nessa altura tínhamos uma organização que, como costumo
dizer, era uma organização desorganizada. Uma vez tive de explicar numa
entrevista, precisamente, a seguir ao 16 de Março das Caldas, e que me
perguntaram: "Mas como é que vocês conseguem funcionar tendo a PIDE (que
era a polícia política) à perna?" Embora nos sentíssemos vigiados e
tivéssemos de andar meio fugidos, o que respondi a esse jornalista foi: "A
gente lá se vai defendendo porque isto é uma organização desorganizada. Eles
ainda não perceberam muito bem quem são os cabecilhas e, por isso, a
dificuldade de actuar. Andam a tentar seguir-nos, a gente troca-lhe as voltas
conforme podemos e, se calhar, isto vai dar certo precisamente por causa desta
forma muito portuguesa de criatividade, há quem lhe chame desenrascanço, sempre
nos resolveu muitos problemas e continuará a resolver."
Nessa
altura do 16 de Março, já estava na Escola Prática da Administração Militar.
Sou chamado pelo comandante do aquartelamento que, manda reunir todos os
oficiais por volta das quatro da manhã e, explica-nos que há tropas a caminho
para invadir Lisboa, tropas não, uma coluna, diz ele. Quando eu ia entrar no aquartelamento,
aparece-me um oficial que fazia parte da comissão coordenadora do MFA, a
dizer-me que já havia tropas a movimentarem-se, designadamente, os comandos de
Lamego, que iriam ocupar o Porto e que vinha muita tropa sobre Lisboa e,
portanto, fiquei assim sem perceber o que se estava a passar porque,
oficialmente, o comando diz-me que era uma coluna militar, a fonte interna do
MFA dizia-me que havia muita tropa. Eu próprio não tinha ainda objectivos
definidos, dentro das minhas funções de comandar essa unidade. Não sabia qual
era o objectivo que me competia ocupar, por outro lado tinha sido feita uma
reunião com o comando para verificar o estado de operacionalidade da unidade e
quais as funções que lhe poderiam ser atribuídas.
Tinha-lhe
sido apenas atribuída uma função de reserva em segunda prioridade, isto é, nem
sequer era reserva em primeira prioridade e o comando, ao dizer-nos que vinha
uma força sobre Lisboa, diz-nos também, que lhe tinham sido dadas ordens para
ocupar uma das entradas de Lisboa, designadamente a entrada do Lumiar; achei
estranho e pus ao comandante a seguinte questão: Então, se nós tínhamos,
apenas, uma missão pouco prioritária, agora diz-nos que vamos defender Lisboa?
De certeza absoluta que vem realmente muita tropa? – “Não, vem só uma coluna,
são as ordens que eu tenho e as ordens que eu cumpro, preciso de oficiais que
se ofereçam como voluntários para comandar uma companhia que vai posicionar-se
e defender uma determinada entrada de Lisboa”.
Nessa
altura ofereci-me como voluntário e disse: “Cá dentro não sei bem o que se
passa, vou lá para fora”. Houve mais uns oficiais que se ofereceram, formamos
uma companhia e fomos então situar-nos, por acaso, junto a uma escola. Tivemos
que pedir às professoras dessa escola para ficar ali, dizendo-lhes que ia haver
ali um exercício militar e que podia haver uma bala perdida, embora fosse de
madeira, que dispensassem os miúdos da escola e elas, efectivamente,
mandaram-nos para casa. As pessoas andavam por ali. Lá nos fomos posicionando
e, entretanto, dei indicações aos oficiais, que transmitissem aos soldados que
não havia tiros; isto é, íamos verificar o seguinte: se viesse muita gente, se
viesse muita tropa faríamos apresentar armas e íamos marchar atrás deles por
Lisboa, se fossem poucos íamos tentar dissuadi-los, porque assim não valia a
pena. Ficámos, assim, nessa posição. Ainda houve uma altura em que se perdeu o
contacto, foi precisamente quando essa coluna voltou para trás, aí ficámos
mesmo aflitos e pensámos que ia aparecer mesmo. Enfim, não apareceu, tudo
correu bem.
De
qualquer das formas, não há dúvida alguma, que isso foi extremamente importante
para depois melhor prepararmos o planeamento do Movimento. Permitiu perceber
como é que as forças reagiam. A minha escola ou o meu quartel reagiu mas,
reagiu aparentemente contra. Nós sabíamos que estava a favor, não é?
Percebeu-se que… aquilo aconteceu por má organização mas, serviu para se
retirarem, realmente, muitos ensinamentos. Foi como se fosse um exercício real,
que nos convenceu de que era possível tomar o poder. E, portanto, foi
extremamente importante, se calhar, até mais do que se pensa, porque permitiu
melhorar muito o planeamento e evitar efectivamente confrontos militares, muito
embora, tivéssemos tido situações em que só não aconteceram porque não calhou.
Houve realmente muita sorte em determinadas situações: foi o caso de Salgueiro
Maia no Terreiro do Paço, não andou aos tiros porque não calhou. A fragata que
estava postada no rio teve os canhões apontados. A desgraça era que se
começássemos com o primeiro tiro, não sei como conseguiríamos parar.
O seu papel foi fundamental na
Revolução dos cravos. Sentiu o peso dessa responsabilidade?
Olhe,
estas coisas… quase diria que se fazem sempre, impensadamente, não há heróis
pensados, não há situações ponderadas… o objectivo que eu tomei, a escola
prática… posso dizer que antes de eu ter sido questionado pelo Otelo, sobre se
era capaz de tomar conta dos estúdios da Rádio Televisão Portuguesa, isto
porque era perto do quartel. “É só dares ali um passo. Podes lá ir?" e eu
disse: “Ó Otelo, conta com isso, conta com isso tomado”, e depois o Otelo ouviu
precisamente o Vítor Alves dizer-lhe: “Ó Otelo dizes ao Bento para tomar, ele
não tem tropa!” Porque realmente eu não tinha tropa, eu tinha soldados da
administração e soldados cozinheiros, padeiros, a maior parte deles até se
chamam padeiros, não é? Não sabiam combater com armas. Mais tarde, vim a saber
que tinham sido questionados, primeiro, os pára-quedistas para tomar esse
objectivo, porque era um objectivo importante. Os objectivos de comunicação
social, nessas alturas, são importantes, são extremamente importantes.
Eu próprio, quando li o livro do Otelo, verifiquei que ele tinha feito o seu plano de utilização dos meios de comunicação social com base num manuscrito que estava em anexo e eu, quando vou ver esse manuscrito, reconheci a letra: “é pá, eu conheço esta letra mas, de quem é esta letra?” E verifiquei que a letra era minha. Por acaso conhecia alguém da RDP e fui ouvindo umas conversas, sabia o que é que precisávamos e então fiz, fundamentalmente, uma relação de prós e contras de cada meio de comunicação social nessa altura e qual era, realmente, o mais importante. E o mais importante era, efectivamente, o Rádio Clube Português por uma razão simples. Sabem qual é que era? Porque tinha gerador próprio. Por exemplo, a televisão, a emissora nacional era muito bom, cobria tudo mas, era fácil calá-la, a televisão também não era importante, isto como primeiro meio de comunicação, porque só emitia a sério a partir das seis horas, entre as duas e as seis horas tinha a telescola. Dizia lá, nesse manuscrito que, o principal meio de comunicação era nessa altura o Rádio Clube Português e esse é que era fundamental, e foi.
Ele adoptou essa estratégia; isto só para
dizer que quando falei sobre a importância dos meios de comunicação e quando
decidi tomar a televisão, foi por ingenuidade e inexperiência. Se fosse um
combatente experiente teria respondido, provavelmente, como responderam os paraquedistas:
“Pois, sim senhor é importante e, se depois a coisa dá para o torto, como é que
é?” Porque isto, quer queiramos quer não… tudo está bem quando corre bem e hoje
é fácil dizer que o Regime estava preso por um fio mas, na altura sabia-se lá
se estava preso por um fio, o que é que íamos encontrar pela frente ou não, os
riscos que íamos correr, ninguém sabia.
Fotografia de Jorge Morais (inédita)
Esta foto podereis colocá-la no vosso site, se assim o entenderdes, talvez no 25 de Abril, agora que faz 50 anos. Acho que ficava bem no dia da efeméride." (Jorge Morais)
Obrigado Jorge Morais por esta foto.
O texto que se segue foi retirado de uma crónica do Eng. Jorge Nunes, no Jornal Nordeste.
"Na visita oficial feita a Bragança, a 29 de abril de 1985, o Primeiro-ministro Dr. Mário Soares, reagindo às preocupações apresentadas pelo Presidente da Câmara Municipal, Eng.º José Luís Pinheiro, relativas ao destino da Linha do caminho de Ferro do Tua, manifestou reservas quanto á viabilidade de manutenção da linha, lembrando os pesados défices das empresas públicas de transportes.
Também durante a Presidência Aberta, de 15 a 26 de fevereiro de 1987, realizada na cidade de Bragança, o tema foi abordado em notícia relativa à viagem do Presidente da República, feita de comboio entre Bragança e a estação de Frechas.sábado, 13 de abril de 2024
SE EU SOUBESSE
Na biblioteca, pensava em ti.
A hora tardava.
A tua presença não era aqui.
Onde estás no denso minuto
que agora passou
quando penso em ti na biblioteca?
Observo universos tão longe de nós,
dispersos em galáxias anãs
e nos teus olhos o nascer das manhãs.
Maria Cepeda
sexta-feira, 22 de março de 2024
POEMA XVII
Fechou-se o diálogo
amiga.
Ter-se-á fechado uma
porta
um desejo
uma vontade
ou um túnel
voluntário
estranho
indeciso?
Um túnel
esbatido
sem trilhos e sem luz
no fundo.
Que diálogo era
amiga?
Quando nos sentaremos
ansiosos no café
na fonte
na beira do rio?
Quando falaremos de nós
ininterruptamente?!
(que coisa diferente)
Talvez não mais, amiga.
O túnel esbateu-se
por completo.
Já não há vontade
nem porta.
E para sempre, amiga:
que diálogo era o nosso
em que tanto ou tudo
ficou
por dizer?
Marcolino Cepeda
FLORIR
Maria Cepeda (Poema e fotografia)
SÓ SEI QUE NÃO VOU POR AÍ! (Teresa Martins Marques)
(Aqui têm um exemplo da função social da literatura
em que eu acredito.)
O «Cântico Negro» de José Régio (Poemas de Deus e do
Diabo - 1925) é um dos textos de maior notoriedade na poesia portuguesa do
século XX , tornando-se pelo seu veemente tom declamatório um hino emblemático de rebelião, a própria
rebelião por antonomásia, vindo a adquirir a função social que Régio certamente
lhe não previra: Poema-bandeira de todo o inconformismo, de toda a
incompreensão, de toda a diferença relativamente a uma norma-doxa que é, ou se
supõe ser, por demais impositiva e violentadora da individualidade do homem.
Corroborando esta «tradição de leitura» do poema,
afigura-se-nos um trágico grito de solidão na diferença, consubstanciado na
rejeição do caminho que é o dos outros, o «nunca ir por aí». Os outros, são
delimitados no poema como «alguns com olhos doces», «estendendo-me os braços, e
seguros / De que seria bom que eu os ouvisse». (vv 1,23, – 1ª est.). Não existe
qualquer marca textual que incrimine estes outros como possuidores de más
intenções relativamente ao Eu poético. A alteridade que se estabelece entre Eu
e os Outros é baseada na diferença, o que não implica necessariamente ainda um
juízo de valor. Esse juízo surge mais tarde (5ª estrofe) através da
desvalorização que os Outros sofrem relativamente ao Eu:
«Corre nas vossas veias, sangue velho dos avós.
e vós amais o que é fácil!»
Os Outros representam o velho, o ultrapassado
(romântica recusa da «herança») vista da perspectiva do Eu que representa o
novo, tudo o que é preciso conquistar: «Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada,
O mais que faço não vale nada» (4ª estrofe)
Os Outros («Vós») representando o velho, não poderão
compreender o novo, ainda que lhe «estendam os braços». Quer se leia este
estender de braços como solidariedade amiga ou imposição camuflada de
hipocrisia, o certo é que o gesto redunda em inútil pois o Eu não acredita que
a sua salvação dependa deles:
«Ao que busco saber nenhum de vós responde» (v. 3, 3ª
est.)
[...]
«Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas, e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?» (vv 1-3 – 5ª
est.)
Os Outros representam a quietude na pacatez da ordem
estabelecida dentro dos conceitos do Útil («as estradas», «os tectos»), do Belo
(«os jardins», «os canteiros») do Sapiente («regras, e tratados, e filósofos, e
sábios).
A utilização cumulativa da vírgula e da copulativa
«e» transmite ao verso um tom de redundância, de organização desmesurada que
ressalta ainda mais pelo violento contraste do 5º verso desta 6ª estrofe: «Eu
tenho a minha Loucura!»
A loucura vista como um «bem» porque singular, porque
produto de uma singular forma de individualidade, assumida como uma glória –
maiusculada – em contraponto com a enumeração dos «teres» dos Outros. Loucura
que é a suprema honra do Eu, a luz da sua noite/vida: «Levanto-a, como um facho
a arder na noite escura». (v. 6 – 6ª est.). «Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...»
(vv. 6, 7 – 5ª est.);
assumindo o canto de raiva sangrenta:
«E sinto espuma e sangue e cânticos nos lábios...
(v. 7 – 6ª est.);
assumindo a fatalidade da sua origem:
«Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo»
(v. 4 – 7ª est.).
O 2º verso da 7ª estrofe – «Todos tiveram pai, todos
tiveram mãe» soa mais como um lamento do que como gloriosa afirmação de
diferença que nem a condição de intemporalidade (o velho sonho do homem)
consegue colmatar:
«Mas eu que nunca principio nem acabo».
Condição de eternidade no sofrimento, pela diferença,
carregando uma culpa original que o transcende e que o condiciona:
«Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém»
(v. 1 – 7ª est.).
«Mais ninguém», excluindo os Outros, exclui também o
próprio sujeito que passa à condição de «objecto guiado» e se perde, perdendo a
liberdade. É a imagem de um Prometeu agrilhoado pelo que há de contraditório no
seu ser dividido entre os impulsos positivos simbolizados por Deus e os
impulsos negativos simbolizados pelo Diabo.
O sujeito poético tem consciência da sua condição de
herói romântico e da necessidade de «derrubar os obstáculos» (v. 3-5ª est.) que
o separam afinal de umanorma, podendo ler-se «obstáculos» como os primeiros
muros de incomunicação que o cercam e que sente não poder derrubar, numa
(lógica) contradição inscrita na duplicidade do (seu) ser.
A última estrofe insiste nessa contradição explicando
a vida do sujeito poético através de metáforas que vão da exuberância («A minha
vida é um vendaval que se soltou / É uma onda que se alevantou» (vv. 4, 5) até
à pequenez da matéria:
«É um átomo a mais que se animou».
Átomo a mais entre tantos outros (semelhantes) mas
que se animou, isto é adquiriu uma anima que lhe concedeu a diferença. O
próprio título do poema inscreve em si mesmo a conotação positiva «cântico» e a
negativa «negro» que para além da associação a satânico, implica o negrume da
vida do homem complexamente oblíqua mas cuja
grandeza consiste, segundo Nietzsche, em ser uma ponte e não um fim e o
que podemos amar no Homem é justamente a transição e a perdição.
Ponte como forma de vida superior (átomo com anima)
que liga (pela inteligência) as restantes formas de vida entre si. Como ponte é
transição para o divino (a perfeição) que não atinge e por isso se perde e se
destrói através da auto-ironia com que se aceita, mas também se recusa.
O sujeito poético diferente dos Outros e diverso em
si mesmo inscreve-se numa tradição romântica em que predominam «o desafio à
norma, ao razoável, ao racional, a obsessão do diferente, o desejo de
permanência na ruptura. Permanência do Eu, ruptura com tudo o que possa ser ou
transformar-se no «não-eu».




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