quinta-feira, 30 de abril de 2026

Águas profundas

        Hoje acordei tonta. Tonturas vãs ou mareantes, como se estivesse a navegar em águas profundas.

        Será que é porque sim ou será fruto da loucura dos pretensos "líderes" mundiais, que apregoam a toda a gente, como salvadores da pátria que não são, que está quase perdida, deglutida, que o mundo "nunca esteve tão bem"?

        Não sei o que pensar desta leveza mortífera que calca cadáveres inocentes aos pés. Que são obrigados a ir porque, os que pensam que são libertadores, salvadores dos valores que cantam aos ouvidos uns dos outros... não são nada senão bufos.

        Pensava que os bufos já não existiam... Enganei-me. Rotundamente enganada, tento agarrar-me a qualquer coisa. Que coisa ou coisas existiram que mo permitam fazer?

        Haverá, ainda, a leveza de um abraço, seguido de um beijo molhado na bochecha da avó, que sorri aliviada e serena?

        Será que os avós ainda novos ou mais idosos, sustentam o sonho de poder mostrar o caminho certo ou melhor, o caminho que eles julgam certo?

        Alguém saberá as respostas a estas perguntas? 

        Alguém sobreviverá à angústia de já não conseguir sonhar?


Maria Cepeda   

            


 

Primavera 2026

Mais vale pensar que a esperança é a última a morrer. 
Acreditar piamente, que essa é uma verdade incontestável. 
É aconchegar a primavera. E ela precisa tanto de aconchego... 
Sorrir, porque é mais fácil sorrir do que chorar, para além do facto propalado, de que sorrir não cria rugas. 
É melhor apreciar a beleza amarela dos junquilhos, tão bela, tão simples! 
Pura como o sorrir de uma criança e o doce olhar da minha gata Mia, tão azul como o céu.
 
 

Maria Cepeda

terça-feira, 28 de abril de 2026

Fotografia de Jorge Morais

            Aí vai uma inédita foto de outra crise petrolífera com as carrimpanas e faméis da época a fazerem fila e encherem os depósitos, antes de nova carestia, de combustível, nas bombas do João Miguel Pires, perto do cemitério velho. 

            Esta foi tirada por voltas de 1988, com a minha velha Canon F1. Parece que de 30 em 30 anos algo se repete e não é só com as crises energéticas.

            Abraço

Jorge Morais




     Mais uma fotografia de Jorge Morais que apresenta um quotidiano semelhante ao que se vive hoje: filas para adquirir combustível.  
       
    Obrigado Jorge.

Maria e Marcolino Cepeda

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Jorge Morais - Carvoeiras

            23 de janeiro de 2026, de repente, ao passar em Vila Verde, junto a Vinhais, pareceu-me rever uma das mulheres com o seu jumento carregado de brasas ou carvão e, ainda, a companhia do seu cão que, em dias rigorosos de geada ou frio, calcorreavam estradas e montes para vir encostar-se ao gradeamento do antigo mercado à espera de freguês. 
          Algumas vezes não traziam só combustível lenhoso, traziam os vestígios dos rigores climatéricos, como a interessante escultura que Vila Verde evoca.

Jorge Morais 


     Mais uma fotografia de Jorge Morais com a qualidade que se lhe reconhece. Esta mostra os rigores invernais de outros tempos que a muitos trará lembranças, boas ou más. O inverno de 2026 apresentou-se rigoroso e mandão, trazendo todos os seus soldados. 

    Obrigado Jorge

Maria e Marcolino Cepeda 

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Jorge Morais

Aí vai o prometido. Foto de época, de um sistema de extração do ouro líquido, tirada em dezembro de 2025, puxado a muares e força humana num lagar centenário em Latedo, pequeno pueblo perto de Alcanices, junto à fronteira com Portugal.

Bom ano e bons fluidos.

Jorge Morais



Mais uma vez, agradecemos ao Jorge Morais, amigo de longos anos, esta fotografia cheia de vida e movimento. Perfeita como todas as outras.

Maria e Marcolino

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Fotografia de Jorge Morais

            Aí vai uma análise cubista dos telhados da nossa velha Vila e castelo quando ainda havia nevadas ao sério, esta foto que eu tirei com uma velha Nikon, foi em Janeiro de 1997, faz agora quase 30 anos.

O casario da velha urbe tinha e ainda tem, em parte e apesar de algumas alterações, uma sequência interessante.

Com uns bons palmos de neve cobrindo os telhados e uniformizando o tom torna-se ainda mais simples a perceção das linhas limítrofes e dos volumes desfilando em sucessivo contraponto e ritmo que se direcionam para o topo em direção à torre da igreja de Santa Maria.

Boas nevadas é que precisamos, para acalmar e curar os campos e as mentes. Saúde.

Jorge Morais



        Mais uma vez, obrigado Jorge. É uma excelente fotografia, que nos deixa cheios de saudades de uma boa nevada. 
        Vamos ver se este inverno, mais frio do que o do ano passado, nos presenteia com uma bela nevada no Carnaval.
         Bom ano para todos! 
         Muita saúde e paz!

Maria e Marcolino Cepeda

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

A natureza em todo o seu esplendor

 

Que dizer desta imagem tão linda?

Que Deus nos ama?

Que nós não damos valor ao que nos cerca?

Que basta parar um momento e olhar para o que nos envolve?

É de graça. Não nos cobra nada, apenas respeito e cuidado.


Aldeia de França, rio Sabor, fim de tarde, inverno transmontano.

Maria Cepeda

sábado, 20 de dezembro de 2025

Feliz Natal para todos - Jorge Morais

Aí vai outra foto minha da antiga Praça do Mercado, zona dos talhos, num dia também de neve e que hoje evocamos com bastante saudade.

Bom Natal para todos. 

Jorge Morais


Obrigado Jorge. 

sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

Foto de Natal - Jorge Morais

Aí vai, caríssimos, para o Blogue, a minha oferta de Natal: Uma grande
nevada em 1997, daquelas de verdade e de que já quase não tínhamos
presente na memória os seus contornos visuais.

Acresce que foi tirada por uma Canon F1, rolo analógico, claro, e de um ponto a meio da rua Direita, enquadrando na estrela de iluminação, a torre de menagem e castelo, bem como rasando os telhados nevados de várias casas da rua.

Revelei em casa. Permito-me acrescentar que a decoração natalícia dessa rua Direita, nessa altura, era mais interessante e elaborada do que aquela que vemos hoje no mesmo local parecendo precisamente mais pobre do que a desse tempo e, iria mesmo dizer, a parente mais pobre de todas as iluminações de rua deste ano de 2025.

Boas Festas e saúde.

Jorge Morais


        Mais uma belíssima fotografia de Jorge Morais que nos relembra invernos passados. 
        O clima mudou, o aquecimento global nota-se e nós temos saudades de acordar com a brancura imaculada da neve. Obrigado Jorge.


Com o desejo de um Feliz Natal, em paz e harmonia com o coração cheio de alegria.

FELIZ NATAL!!!✨⛄ 

Maria e Marcolino Cepeda

  

terça-feira, 28 de outubro de 2025

Jorge Morais - D. Celeste Ferro

Celeste, dona Celeste Maria Ferro, falecida há aproximadamente um mês e que não resistiu a uma queda grave que deu nas fatídicas escadas das "Moreirinhas" que tantas vezes subiu e desceu nas suas iniciativas de pendor empresarial que a levavam a locais centrais da nossa cidade aonde amiúde a víamos de sorriso simples e afável mercadejando; em bom tempo, em plena Praça da Sé, vendendo tremoços e um ou outro aperitivo e, em tempo mais careta e de castanhas, ousando também preparar e vender estas iguarias de Outono, instalando-se às vezes, também, na pequena eira frente aos correios. 

Empresária de fracos recursos que começou por apresentar a sua mercadoria num carrinho quase de brincar adaptado a partir de coisas triviais e que aparentemente resultavam do seu próprio engenho, evoluiu, possivelmente auxiliada, para carrinhos mais elaborados ou transformados e formais de chapa e até de inox até que, por fim, a entidade camarária, vendo o seu engenho e agradabilidade para se relacionar e vender lhe arranjou um pequeno quiosque de madeira com assador e tudo frente aos correios. E era vê-la assim, porém, mais atarefada e concentrada preparando o saboroso produto para o público. Pessoalmente parecia-me, nessa condição e compromisso, menos à vontade, menos espontânea e sorridente, talvez porque mais sobrecarregada.

Cheguei a pensar que os simples tempos iniciais em que aparecia com os seus carrinhos eram também mais um pretexto para sair de casa e falar e cumprimentar as pessoas do que propriamente fazer dinheiro. De uma maneira, ou de outra, iluminava um pouco e diversificava humanamente as praças aonde a víamos. Gostava de conversar com ela e, com simpatia, anuiu, em tempos ainda de pandemia, a que eu lhe tirasse uma fotografia que aqui está.


 
Jorge Morais

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Aqui temos mais uma fotografia de Jorge Morais onde o lado humano é bem patente. Como fotógrafo humanista que também é, soube captar a sensibilidade, a simpatia e a leveza de uma alma simples e genuína que, ao mesmo tempo, serve como singela homenagem pela sua partida.

Maria Cepeda

quarta-feira, 22 de outubro de 2025

Hoje

Hoje, não sei porque, não me sinto verdadeiramente eu ou tu, ou sei lá quem.

Não sei quem amargamente sou ou serei ou seremos todos dos poucos que ainda insistem. 

O que se passa com o meu coração tão saltitante e oprimido que parece locomotiva desenfreada na corrida que não sabe para onde, quando ou porque irá. 

Abro a porta, fecho-a  a seguir. Olho para ontem. Não quero ir, não quero ficar, vou sair até conseguir voltar...

Parece uma tolice! O meu olhar anseia por areia e mar, por sol e calor, pelo vermelho do Sol a pousar na minha vontade de não querer ir nem ficar. 

Serei capaz de te amar hoje, amanhã e sempre sem deixar de me amar?


Maria Cepeda

    

sexta-feira, 10 de outubro de 2025

Fotos da atual estação rodoviária de Bragança (Antiga estação ferroviária)

Para mais tarde recordar, com a esperança de um dia podermos ter, na nossa cidade, uma estação ferroviária cujos comboios rápidos nos liguem à Espanha e restante Europa. 

As promessas só se transformam em realidades se forem executadas. Bragança tem uma localização privilegiada. Acontecerá durante a minha vida?




Maria Cepeda


terça-feira, 7 de outubro de 2025

Jorge Morais - Fotos Sobre Campanhas Passadas

O fado ou fadário das eleições repete-se de vez em quando, nem sempre regular e a prazos certos, mas quando o próprio fado das dinâmicas sociais o permite ou provoca.

Os protagonistas vão mudando, bem como as estratégias de publicitação ao público, embora haja coisas que se mantêm, como a visitação às feiras, por exemplo.

É visível, no passado, um maior peso da comunicação por cartaz, por painel fixo ou móvel, grande ou pequeno, no chão, em mansões ou em barracos, nas árvores ou em postes... onde fosse possível.

Em campanhas na nossa cidade, ainda no século passado, registei em datas diferentes, os seguintes documentos à velha maneira analógica e a preto e branco. (Jorge Morais)


             

Campanha 1


          

Campanha 2 (1997)


           

Campanha 3


          

Campanha 4 (1997)

          

Campanha 5 (1997)

"Olá Mara. Aí vai um texto meu e fotos sobre campanhas eleitorais passadas noutros momentos do século passado. Antes de colocares dá o feedback sobre o que achares ou não achares. Procurarias que fossem postadas a próxima semana, ou seja, antes das eleições." (Jorge Morais) 

"Olá Jorge.  Com muito carinho recebemos as tuas fotos e os teus textos. Sabes que a tua colaboração enriquece este nosso blogue que pertence a todos os nossos seguidores e colaboradores. Por isso, usa e abusa deste espaço. Aguardamos a tua próxima "remessa". Além disso, nestes tempos de bulício eleitoral, nada se adequaria mais do que as tuas fotos únicas, que a uns trarão saudades e a outros a sensação de dever cumprido.". (Mara e Marcolino Cepeda)


quinta-feira, 31 de julho de 2025

JOÃO CRISTIANO CUNHA - DIRETOR DO TEATRO MUNICIPAL DE BRAGANÇA

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Tivemos o gosto de entrevistar o Doutor João Cristiano Cunha, Diretor do Teatro Municipal de Bragança.
Ainda não conseguimos transcrever o áudio para texto. Não demorará, acreditamos. Estamos ansiosos por dar a conhecer esta personalidade única, de enorme simpatia e competência.
Se quiserem ouvir o áudio, aqui o disponibilizamos.
Obrigado

Maria Cepeda  

Quando chegará o verão?




 Olá amigos!

Estamos em pleno verão, tempo de descanso para muitos e de trabalho para outros.

O calor tem sido presença constante nestes últimos tempos e prepara-se para continuar a aquecer-nos inclementemente.

A verdade é que gostamos mesmo do verão. Claro que precisamos de nos proteger, de nos hidratar, de nos divertir com a família e os amigos. 

A atração pelo mar é constante não vivêssemos nós num país à beira mar plantado. 

As paisagens enchem de beleza o nosso olhar. O "dolce fare niente" preenche o nosso coração. Fechamos os olhos e respiramos fundo como se tudo fosse paz e nada nem ninguém pudesse interferir na nossa alma, na nossa cabeça.

Infelizmente, o que nos cerca, o que nos entra pela casa adentro através dos meios de comunicação social, através dos telemóveis, sempre à mão de semear, não nos deixa dormir descansados. Não nos permite viver serenamente, porque é impossível não sentir a dor dos outros quando o mundo está perigosamente insensível.

Que culpa têm as crianças que todos os dias morrem de fome, de sede, dos bombardeamentos, dos ataques mortíferos  na Faixa de Gaza, na Palestina, enfim, na Ucrânia, na Russia?

Quantas vezes nos perguntaremos se e quando acabarão estas guerras assassinas?

Quando poderemos fechar os olhos e apreciar a sonora e livre gargalhada de uma criança a chapinhar na água do mar, na fresca água do rio?


Maria Cepeda

sábado, 31 de maio de 2025

Agradecimento



Jorge Morais, amigo de longa data, presente na minha vida desde crianças. 
Sempre pronto para ajudar. Companheiro das patuscadas que íamos fazendo de vez em quando, juntamente com o Teófilo, o Ernesto, o Jacob, o Vitor Alves e outros.  
Sempre simpático, sereno, trabalhador, excelente pintor, excelente fotógrafo.
Tirou, ao longo da sua vida, milhares e milhares de fotografias.
Fotografou o meu casamento e agora este evento comemorativo dos meus 70 anos.

Muito obrigado Jorge.


Marcolino Cepeda


quarta-feira, 14 de maio de 2025

Meu 70º aniversário o "Discurso"

 

José Rufino Cepeda e Emília Raquel Teixeira nasceram em plena 1ª Guerra Mundial. Tiveram oito filhos, três dos quais faleceram enquanto bebés. Os restantes sobreviveram e floresceram.

O mais velho é o Amílcar. Seguiu-se o José Emílio, o António José, mais conhecido como “Tojé”, a Maria Jacinta e, finalmente, eu, corria a década de 50 do século XX, com todas as voltas e contravoltas que lhe estavam destinadas.

Os meus pais depois de muitas noites mal dormidas a pensar no futuro dos filhos, decidiram que não podiam condená-los a uma vida de muito trabalho e de pouco dinheiro. A questão era como iria um agricultor, dos melhores, transformar-se num vendedor de peixe?

A resposta a esta pergunta, não a tinham. Estava nas mãos de Deus. Sabiam apenas que queriam um futuro melhor para os quatro filhos, que em breve seriam cinco.

O mês de fevereiro de 1955 trouxe a minha família para um mundo completamente novo. Os meus pais tomaram posse de uma banca de peixe na Praça do Mercado, que pertencera até então, aos tios Emídio e Constança, irmã da minha mãe, que estavam prestes a embarcar para o Brasil, mais precisamente, São Paulo.

O meu pai sempre fora agricultor. Quem o conhecia, enaltecia as suas qualidades de trabalhador incansável e dedicado. Para além dessas qualidades, reconheciam-lhe um sentido de humor inigualável.

Conta-se que certo dia, o meu pai e o seu sobrinho Gil decidiram fazer duas belas carradas de lenha para acautelar os frios do inverno. Cada um com o seu carro de bois tinha de passar numa rua onde mal cabiam em fila indiana. Azar dos azares, por mais cuidado que tivessem, o carrego era tão alto que levou uma fiada de telhas de uma das casas da rua.

Em alvoroço, lá veio a dona da casa a gritar e a queixar-se de que lhe tinham partido as telhas e que alguém teria de as pagar e correu a perguntar, primeiro ao meu pai e em seguida ao Gil, quem é que tinha feito aquilo:

- Ò que desgraça! Estes malandros, já é a segunda vez que me fazem isto! Quem foi tio Zezinho, que me partiu as telhas?

- Ò ti Maria, eu não sei de nada! Pergunte ao meu sobrinho.

- Ò menino Gil, foi o seu tio não foi?

- Ò ti Maria, eu não vi nada! Estava a olhar para a lenha para que não caísse. Pergunte ao meu tio.

E assim, a culpa morreu solteira. Segundo ouvi dizer, foram poucas as telhas que caíram, três ou quatro.

Contava a minha mãe que, certo dia, preparou a merenda para o meu pai que pretendia demorar-se no campo o dia inteiro e como sempre, contava com a companhia do Piloto, o cão da família. O trabalho era muito e era necessário fazê-lo. Chegada a hora do almoço o meu pai lembrou-se que tinha deixado o farnel na primeira terra onde tinha andado e voltou para o ir buscar, sempre acompanhado pelo fiel amigo.

Lá chegado, olhou para todo o lado e não conseguia encontrar o saco da comida. Ouviu um latido do cão e viu-o sentado junto de alguma terra revolvida. Pareceu-lhe ver o cordão do saco de linho. Para lá se dirigiu, ao mesmo tempo que ouviu um novo latido do Piloto. Sentou-se, puxou pelo baraço e lá veio o saco com a merenda. O cão começou a ladrar e a saltitar à volta do dono que não conseguia acreditar no que tinha visto. O primeiro bocado foi para o Piloto que bem o mereceu. Comeram os dois. Ao chegar a casa, o meu pai contou à minha mãe o que se tinha passado. Parece impossível…      

A minha mãe cuidava de nós. Convém dizer que ela e o meu pai se davam muito bem. Segundo me contaram, o meu pai, fosse no inverno ou no verão, na primavera ou no outono, nunca saía para o campo sem deixar o lume aceso e as batatas descascadas para a minha mãe.

Dividiam tarefas. Foi ela que tratou da compra da banca de peixe com os meus tios. Venderam o que tinham na aldeia e certo dia, meteu-se na carreira para Bragança a fim de acertar as contas, alugar uma casa e combinar o tempo necessário para aprender o ofício. De peixe, nada sabiam.

A mãe, no regresso, veio de comboio até à estação ferroviária de Castelãos, onde o Amílcar e o Zé Emílio estariam à sua espera com a égua. Ao chegarem à estação, o comboio apitou. A égua assustou-se, saiu a correr e eles atrás dela e não havia maneira de a alcançarem até que um senhor, que de tudo se tinha apercebido, lhe pôs a mão e, depois de a acalmar, lhes entregou o animal. A nossa mãe, depois de muito agradecer ao bom samaritano, lá foi a cavalo na égua até Gebelim.

Chegou o dia da mudança para Bragança. Foi no dia 13 de fevereiro de 1955. Segundo o Tojé, era noite escura e chovia que Deus a dava. Vínhamos duas famílias na carrinha do tio Emídio. O motorista, a minha mãe grávida de mim e a tia Constança, vinham no habitáculo. O meu pai, o tio Emídio, os três filhos dos meus tios e os meus quatro irmãos vinham na carroçaria tapados com uma lona o que não impediu que ficassem completamente encharcados. Para trás, deixaram toda uma vida e, também, o Piloto que chorou a noite toda por nós.         

Nasci em Bragança, na rua Almirante Reis, no dia 8 de maio de 1955. Dizem que nasci muito pequeno e magro e que foi um bocado difícil aguentar-me por cá nos primeiros meses da minha existência terrena. Tanto assim foi que o meu irmão Tojé chama-me “Escapou” duas vezes.

Fui o menino que seguiu, completamente despido e descalço, atrás da Banda Filarmónica dos Bombeiros Voluntários de Bragança até à Capela do São Bartolomeu.

Fui o menino que quando teve sarampo exigiu um guarda-chuva aberto pendurado no teto do quarto.

Fui o menino que quando ia com o Zé Emílio até à estação do comboio, lhe matava o bicho do ouvido com todas as perguntas que fazia.

Fui o apanha-bolas nos jogos de ténis de mesa quando a bola corria para debaixo da cama e nenhum dos meus irmãos a conseguia tirar.

Fui o menino que o Amílcar angariou com 25 tostões para torcer pelo Futebol Clube do Porto…   

Tinha eu dez anos quando mudamos para uma casa um bocadinho maior. Os meus irmãos foram saindo de casa. O Amílcar para estudar e trabalhar; o Zé Emílio para cuidar da sua saúde e mais tarde estudar; o Tojé para jogar futebol e depois para a guerra do Ultramar. Recordo-me, como se fosse agora, que acompanhámos o Tojé à estação. Nunca tinha visto o meu pai chorar até àquele dia. Foi realmente um dia muito triste. Felizmente, passado o tempo regulamentar, o Tojé voltou, são e salvo. A Maria Jacinta saiu para estudar; eu fui o último a sair.  

As histórias de cada um escreveram-se e escrevem-se nas linhas do infindável livro do universo. Algumas gravitam ao nosso redor para não serem esquecidas. Outras são mais discretas, mais serenas.

E é aqui que me compete fazer alguns agradecimentos especiais. Aos meus pais que Deus tenha, agradeço a vida. À minha mãe em particular, as lágrimas que derramou por mim.

À Adeliza, à D. Filomena e ao Amílcar nunca poderei agradecer o suficiente pelo que fizeram por mim e pela minha mulher. Foram, juntamente com o Luís e o Zé Manuel, o nosso esteio, o nosso porto seguro no meio da tempestade que se abateu sobre nós.

Com o Zé Emílio aprendi a coragem de resistir. Ao Tojé, à Piedade, ao Jorge e à Márcia, ao Pedro e à Ana, agradeço a vontade imensa de viver e a prontidão da ajuda certa.

À Maria Jacinta e ao Santos, agradecemos o aconchego e os miminhos; à Raquel, uma força da natureza, uma super mãe, agradecemos a linda Inês; ao Rui agradecemos a Daniela, mãe do Afonso e do Dinis que são os descobridores do sótão dos avós e a alegria da casa.

Aos meus sogros, José e Natália agradeço o maior presente que me podiam dar: a minha mulher.

Aos meus cunhados, David e Sandra com os seus dois lindos milagres, Mariana e Catarina, agradeço a certeza de conseguir; à Mariana agradeço a calma e a doçura; à Catarina agradeço a força e a atitude; à Maria Antónia, mãe da Sandra, agradeço o cuidado e o carinho com que me trata.

Aos meus cunhados Elizabete e Galbas, agradeço o Guilherme, que está sempre disponível para nos ajudar e a minha linda afilhada Natália, que sai ao padrinho no que à música diz respeito. Felizmente, ainda não saiu em pelotas atrás da banda.

Aos meus cunhados Eduardo e Helen agradeço a paciência de nos aturarem e a linda Carolina, a menina mais doce do mundo.

À Irene e ao Pedro Fernandes agradeço a delicadeza, o cuidado e o carinho com que me tratam.

À Isaura Videira agradeço a disponibilidade, a certeza de poder contar contigo e as gargalhadas que damos juntos com as nossas maluqueiras.

Ao Eduardo Videira, agradeço a presença, a boa disposição e a certeza de poder contar consigo, assim como com a Elisabete e o Pedro, pais do Gabriel, do David e da Adriana, seus maravilhosos e inteligentes netos. Também ao Sérgio e à Rita, pais da Ana Raquel e do José Eduardo, agradeço por poder contar convosco sempre e poder usufruir de toda a alegria que os teus filhos demonstram.    

Agradeço aos meus queridos primos Olímpio, Nelly, Laida, Joana, Gina, Telmo, Vicente, Isabel, Rui, Emília, Manuel, David o favor de estardes aqui para comemorar comigo os meus 70 anos de vida. Muito obrigado. Não fazeis ideia da alegria que sinto.

Agradeço aos meus amigos a paciência com que me aturaram ao longo destas décadas, com quem sempre pude contar. Obrigado por estarem aqui. Tenho muita pena de não poder contar com o Teófilo que nos deixou tão precocemente.

Há pessoas, que ao longo da nossa vida, nos marcam indelevelmente e que eu não posso deixar de referir. O Dr. Arnaldo Rodrigues, Dr. Horácio Correia, Dr. José Guilherme Monteiro, Dr. Rui Fernandes, médicos.

         O Padre Sampaio, diretor do “Mensageiro de Bragança” durante a minha juventude que, por minha causa não cumpriu uma ordem direta do Senhor Bispo: “Este garoto não escreve nem mais uma linha para o jornal.” e me aconselhou a escrever com pseudónimos, José Valverde e Bernardo Faria; o Dr. Eduardo Carvalho que me ensinou a ser jornalista e escritor; o Engenheiro José Luís Pinheiro que era uma pessoa excecional. Foi Presidente da Câmara Municipal de Bragança durante três mandatos e foi com ele que aprendi a ser político. Vou contar um pequeno episódio. Depois do AVC e de ter tido alta hospitalar, mal falava e mal andava. Entrámos, eu e a minha mulher que me amparava, para o hall da câmara pela entrada principal e, ao mesmo tempo, ele entrava por uma lateral. Colocou um pé no primeiro degrau e virou a cabeça para nós. Reconheceu-nos, caminhou até mim, abraçou-me e começámos os dois a chorar. Não posso esquecer que ele era um militar de carreira.

         Resta-me falar da pessoa que me acompanha há 36 anos, quase 37. Começámos a namorar numa noite de Ópera, no teatro da Torralta, no dia 3 de Abril de 1987. Nesse dia nevara. Os flocos que foram caindo encheram a noite de poesia. Levei-a a casa e ficamos durante algum tempo a conversar. Namorámos um ano e três meses. Ao fim desse tempo, casámos. Ela é o meu rochedo, o meu abraço, a minha estrela guia.

Cumpre-me dizer que a vida não foi condescendente comigo. Pregou-me muitas partidas difíceis de lidar. Conheci um mundo para o qual não estava preparado. Senti-me sempre cercado de amor incondicional. Perdi a esperança, tantas e tantas vezes, principalmente quando via escapar a luz dos meus olhos, literalmente. Lutei contra todos os percalços que tive de suplantar e nunca estive sozinho. Tive sempre uma mão a segurar a minha, uma palavra de conforto, uma ténue luz de esperança a acompanhar-me. Nunca me deixaram desistir. Sou o que sou por ter a felicidade de vos ter aqui comigo. Muito obrigado.

Marcolino Cepeda


70º aniversário do Marcolino

 








Estas  três fotografias ilustram a passagem do tempo e diferentes momentos da nossa vida. Estamos a celebrar a vida e a vontade de viver. 

Maria Cepeda

quinta-feira, 8 de maio de 2025

Jorge Morais - Tempos que já lá vão...

Antigo mercado municipal

Um misto de oferta, convívio e festa de produtos, cores e sons no centro da cidade.

 

Alicerces de edifício porticado, do período romano


            Quem diria que, por debaixo de um tradicional mercado no centro de Bragança, havia os alicerces de uma construção bem lançada arquitetonicamente e de consideráveis dimensões e de eminente traça romana. 

            Ali junto ao muro poente do mercado e virados para a atual biblioteca municipal, antigo ciclo preparatório, alicerces que estiveram pouco tempo a descoberto aquando das intervenções Polis. 

            Um dia com a minha Nikon Fm2, consegui captá-las antes de serem soterradas ou destruídas para construir o atual parque de estacionamento.


Fotos e textos de Jorge Morais