Não me posso esconder
Mar ao largo
Não o posso ter
Se fosse gaivota
Talvez voasse
Talvez gritasse o aperto que trago
enclausurado no peito
Talvez em sombra me transformasse
Se a luz me enjeitasse.
Maria Cepeda
Não me posso esconder
Mar ao largo
Não o posso ter
Se fosse gaivota
Talvez voasse
Talvez gritasse o aperto que trago
enclausurado no peito
Talvez em sombra me transformasse
Se a luz me enjeitasse.
Jorge Nunes, presidente
da Câmara Municipal de Bragança, de 1998 a 2013, apresenta, na próxima semana,
o livro a “Ferrovia em Trás-os-Montes, memória do passado, luta do presente”. O
ex-autarca, Comendador da Ordem do Infante D. Henrique, é um dos maiores defensores
do regresso do comboio à região. Em entrevista ao Jornal Nordeste esclareceu
defender que o que verdadeiramente interessa ao território é uma via com
ligação internacional, de alta velocidade, de transporte misto, de bitola
europeia, para servir o futuro, o desenvolvimento, a coesão e a competitividade
da região.
Apresenta, na quarta-
-feira, dia 5, em Bragança, o livro “Ferrovia em Trás-os-Montes - Memória do
passado, luta do presente”. Comecemos por falar do passado, a chegada do
comboio a Trás-os-Montes representou uma revolução no transporte de pessoas e
de mercadorias. Como foi, para a região quando tudo isto se perde, sendo que
Bragança foi a última localidade a ter ferrovia e a primeira perdê- -la?
Naquela altura, a ferrovia já não era competitiva, mas levá-la, de todo, embora
foi a melhor opção?
A luta dos transmontanos
para poderem aceder ao comboio, foi muito persistente. Lisboa teve o primeiro
troço de ferrovia inaugurado em 1856 e ao concelho de Miranda do Douro chegou
85 anos depois de se ter iniciado a sua construção no país. A província,
constituída pelos distritos de Bragança e de Vila Real, foi a última a aceder à
designada viação acelerada, que na via estreita atingia a média de 20 km/h.
Ainda assim, comparativamente ao que era o transporte por tração animal, de
mercadorias e de pessoas, era uma grande revolução, para o desenvolvimento
da economia do país. Trás-os-Montes, sendo o último território a dispor do
acesso ao comboio, foi ficando para trás e perdendo oportunidades de
desenvolvimento. A ferrovia em Trás-os-Montes, estando já construída no resto
país, veio a concretizar- -se num período extremamente difícil, em termos
políticos e económicos. Apanhou a crise de 1890, agravada com o Ultimato
Inglês, decorreu uma década para que o país conseguisse negociar um plano de
financiamento com credores estrangeiros. De seguida veio a queda da monarquia,
a instalação da 1ª República, a Grande Guerra, o fim da 1ª República, a
instalação da Ditadura Militar e o Estado Novo. É já durante o Estado Novo, em
1938, no início da Segunda Grande Guerra que termina a construção do plano
ferroviário em Trás-os-Montes, com a inauguração da Estação de Duas Igrejas. A
construção lenta e em via estreita, com características geométricas de traçado
que não permitiam velocidades elevadas e diminuíam a segurança, atrasavam o processo
de transporte que, na década 30, estava já num processo de competição com a
introdução do automóvel no país, adicionando o facto de as três linhas em
Trás-os-Montes terem ficado como linhas terminais, sem ligação à rede ibérica.
Tudo isso contribuiu para que a ferrovia acumulasse prejuízos, de ano para ano,
não servindo, de todo, o desenvolvimento futuro desta região. Mesmo assim, a
ferrovia rompeu com a interioridade e criou uma oportunidade enorme, como o
território nunca tinha tido. O comboio serviu, durante décadas, para o
transporte de pessoas e de mercadorias. À volta ferrovia foram construídas
infraestruturas relevantes de apoio à atividade económica, como sendo no
armazenamento e escoamento de cereais, construção de silos, de armazéns, de infraestruturas
para o escoamento de batata e de ferro das minas de Torre de Moncorvo, de onde
saíram milhares e milhares de vagões de minério. A estação de Carvalhal foi a
mais rentável da província. Dali foi feito muito transporte, até ao Pocinho,
onde o minério era baldeado para vagões da via larga. Mais um erro que acumulou
na decisão de não construir uma via larga na linha do Sabor, que também foi o
meio de transporte para milhares de operários e muitas dezenas de milhares de
toneladas de materiais para a construção das barragens do Douro Internacional.
A ferrovia para melhorar resultados e competir com o automóvel, necessitava de
modernização de traçado e do material circulante. Isso não ocorreu, e entrou
num processo de declínio até ao seu encerramento. O processo de encerramento
iniciou na década de 70, com a realização de estudos sobre a rede em via
estreita, tendo em vista ou a modernização ou o encerramento, com substituição
de transporte para autocarros. Este processo foi suspenso com o 25 de Abril e foi
retoma-do em 1980, numa tentativa de transferir encargos financeiros para os
municípios. Em 1984 foi decretado o regime simplificado de exploração
ferroviária na via estreita, e a situação agravou-se. Este plano previa o
encerramento de 180 estações e apeadeiros e de algumas linhas. O processo
acelerou a partir de 1988, com o plano de modernização da rede ferroviária, a
nível nacional, apostando na via larga, é decidido o encerramento da via
estreita. A região empenhou-se contra o encerramento, particularmente na linha
do Sabor e do Tua. As populações manifestaram-se, barricaram estradas e
bloquearam autocarros, mas todo este processo de contestação não resistiu a uma
situação política que tinha sido em parte negociada com responsáveis políticos
a nível regional. O pretexto foi erradamente marcado pelo déficit de exploração
na via estreita, insignificante face ao déficit global da CP e pelas reformas
exigidas em prejuízo do Interior, numa atitude de injustiça com os
transmontanos. A região foi fraca em poder reivindicativo, colaborou com uma
decisão de encerramento a pretexto de melhorias na rede rodoviária. Poderia ter
sido exigida a modernização da ferrovia em Trás-os-Montes ou até a construção
de linhas modernas, capazes de ajudar a região a progredir para o futuro e não,
condená-la a um processo de isolamento, mais incentivador do despovoamento. Ou
seja, o encerramento da ferrovia foi uma má decisão para a região.
Porque é que decidiram
simplesmente acabar com isto e não modernizar. Porque é que se esqueceram de
nós?
Esqueceram-se de nós na
ferrovia como se têm esquecido em muitas outras situações. Os efeitos negativos
do centralismo não são recentes. Na década de 1980 e seguintes, com problemas
financeiros, e a exigências de reformas impostas por credores externos, o país
tomou um conjunto de decisões, de racionalização de vários serviços, não só da
ferrovia, atingindo sempre de forma negativa o Interior, esvaziando-o de
serviços, reforçando o centralismo. Trata-se de uma questão política que tem
por base a racionalidade dos números e não uma exigência de coesão e presença
soberana do Estado no território.
O regresso da ferrovia
a Trás-os-Montes deve contemplar o que?
Em cada momento devemos
defender o que nos compete e o que é viável. Compete-nos defender o regresso da
ferrovia com uma rede moderna, que se integre com a rede europeia, nomeadamente
uma nova linha ferroviária ligação à rede espanhola, por Bragança-Vila
Real-Porto, mas também na ligação pelo Interior, ligando Macedo-Pocinho-Vila
Franca das Naves, justificável na perspetiva de ligação longitudinal entre dois
corredores ferroviários internacionais: Porto-Vila Real-Bragança- -Valladolid e
o corredor da Beira Alta. Justifica-se que a linha do Douro, que fechou já há
um bom par de anos, entre o Pocinho e Barca d’Alva, seja requalificada e
eletrificada, tal como a linha do Corgo. O que nos compete fazer neste momento
é lutar pela inclusão de Trás-os-Montes no novo mapa de rede ferroviária 2030,
sem esquecer que, em fase posterior, será necessário lutar pela sua
concretização. E ter presente que há infraestruturas rodoviárias que são
essenciais e não estão concretizadas. O mesmo acontece a nível aeroportuário. A
ligação Bragança-Puebla de Sanabria, que muito tarda em ser concretizada, é
essencial para desencravar e dar permeabilidade ao território do Nordeste. Bem
como a melhoria da ligação Bragança-Vimioso e Bragança-Vinhais. São
reivindicações que têm anos. Também não podemos esquecer a urgência de
continuação da autoestrada A4 de Quintanilha a Zamora. Esta é a nossa luta,
neste momento, visando o crescimento da economia e o combate ao despovoamento.
Considera que vamos
ganhar este processo?
des tendências, como o
caso das alterações climáticas, que influenciam grandes decisões de política
pública. A Europa aposta na descarbonização da economia. Isso significa, entre
outras decisões, utilizar meios de transporte de pessoas e de mercadorias menos
poluentes, com menos emissões de dióxido de carbono para a atmosfera. Sendo a
ferrovia um meio de transporte de grande escala, seguro e amigo do ambiente,
será uma boa solução, necessária para este território, para nos colocar no bom
caminho da descarbonização da economia, tornando-nos mais competitivos, e mais
atrativos para a fixação de atividade económica e de empregos qualificados,
neste que é o território ambientalmente mais qualificado no país. É uma luta
essencial e, sendo alinhada por decisões prioritárias da União Europeia,
acredito que haverá condições de vontade política para a poder vir a incluir no
mapa ferroviário e, em fase posterior, iniciar um processo de calendarização,
tendo em vista a sua construção.
Em Fevereiro, de
passagem por Bragança, o secretário de Estado das Infraestruturas disse que a
associação Vale d’Ouro mostrou que é possível voltar a trazer o comboio para
Trás- -os-Montes, de forma viável, mas para não se ter ilusões de que isso iria
acontecer já amanhã. Questionado sobre o facto de se poder começar o plano
nacional por aqui, disse que primeiro é preciso estruturar a espinha dorsal do
país. Portanto, os distritos de Bragança e Vila Real foram os últimos a
beneficiar da viação acelerada e agora podem voltar a ficar nessa posição. Como
vê a situação?
Trata-se de um
investimento elevado, não se concretiza de um momento para o outro. O tempo
passa muito rápido e se nós conseguíssemos ter a ferrovia de regresso a
Trás-os- -Montes dentro de duas décadas seria bom. Não penso que seja uma
decisão desfasada no tempo, o facto de o secretário de Estado dizer que não é
para amanhã. Mas para amanhã, no meu ponto de vista, é a exigência da inclusão
no mapa ferroviário nacional, com ligação internacional e não como fim de
linha. Essa é a primeira grande conquista que temos de alcançar. A segunda
começar a lutar pela calendarização do investimento. Compreendo as prioridades
definidas no país, as que servem mais economia e população, sendo que a ligação
Porto- -Vila Real-Bragança-Valladolid é inquestionavelmente estruturante para o
Norte de Portugal, em termos económicos e de mobilidade da população, que serve
de forma mais significativa a competitividade global da região Norte, mesmo em
relação a outras alternativas previstas. A primeira proposta que foi feita ao
Governo da Monarquia, em 1845, por parte de uma empresa francesa que, na
altura, era concessionária e explorava a linha de Madrid a Valladolid, foi de
uma ligação internacional ferroviária de Lisboa às capitais europeias, com um
traçado que previa a saída de Lisboa e seguiria Porto-Bragança-Valladolid. A
nossa perspetiva não é uma reflexão nova. Vai fazer dois séculos. Mas ainda
aqui estamos, com entusiasmo, a lutar por esta ligação e por justiça para o
Nordeste Transmontano. Há três décadas que Trás-os- -Montes está excluído do
mapa ferroviário do país e temos de lutar para que a ferrovia volte a preencher
este vazio erradamente criado neste território.
No Conselho Raiano, na
semana passada, em Bragança, falou-se muito de pressão. Pressão defendeu-a o
presidente da Associação Vale d’Ouro e o deputado socialista eleito por
Bragança. É da mesma opinião? Quem deve fazer essa pressão? Que meios têm os
cidadãos para o fazer?
Antes de mais, o
processo tem vindo a evoluir. A primeira versão de discussão da ferrovia 2030
trazia uma linha por Trás-os-Montes com um grande ponto de interrogação. A
segunda e última versão já trazia uma ligação sem ponto de interrogação e um
tracejado na ligação até à fronteira. Acho que a versão definitiva tem de
contemplar esta ligação como uma ligação internacional. É preciso manter
pressão como em qualquer reivindicação que se faz. Compete aos deputados
eleitos pela região, deputados, autarcas e instituições de ensino superior,
IBP, UTAD e associações comerciais e empresariais, estarem envolvidos neste
processo para tentar acelerar a concretização da ferrovia em Trás-os-Montes.
Compete também os cidadãos, através das suas associações representativas e de
cidadania, manter de pé esta luta.
E se Bragança for o fim
de linha. O que nos acontece?
Uma linha ferroviária,
via larga, só até Bragança perde um pouco do sentido. Já noutros tempos, a via
estreita, estava condenada ao insucesso, pelo facto de ter ficado como fim de
linha. Na atualidade os ventos sopram a favor da ferrovia devido à premência do
estado de emergência climática, é necessário reduzir emissão de dióxido de carbono,
o transporte de pessoas e mercadorias representa muito em termos de emissões,
sendo necessário transferir muito do transporte individual para transporte
coletivo não poluente, assim como transferir parte do transporte de mercadorias
feito por camiões em estrada para a ferrovia. O que verdadeiramente interessa é
uma via com ligação internacional, de alta velocidade, de transporte misto, de
bitola europeia, para servir o futuro, o desenvolvimento, a coesão e a
competitividade do território. O fim de linha é uma dificuldade. Temos de
recusar essa solução. Temos de pressionar o Governo e os políticos para que nas
cimeiras ibéricas seja garantida pelos dois governos o necessário empenho em
novas ligações transfronteiriças.
Jornalista: Carina Alves
Estão criadas as
maquetes para a elaboração de dois manuais escolares para aprender mirandês.
Este é o resultado de
um estudo feito pelo agrupamento de escolas de Miranda do Douro em parceria com
a Associação da Língua e Cultura Mirandesa, no âmbito do Plano Integrado e
Inovador de Combate ao Insucesso Escolar da Comunidade Intermunicipal das
Terras de Trás-os-Montes (CIM-TTM).
De acordo com a técnica
da CIM-TTM, Elisabete Afonso, vai ser criado um manual para o primeiro e
segundo ano de escolaridade e outro para os terceiro e quatro anos. Os manuais
vão designar-se “Cachapim”. “O nome foi inspirado numa ave que se encontra nas
Terras de Miranda e que se caracteriza por ser curiosa e irrequieta tal como as
crianças”, explicou.
O mirandês foi considerado
a segunda língua oficial portuguesa em 1999, mas não tem manuais escolares. Um
problema que há muito tempo era apontado pela associação e pelo agrupamento de
escolas, onde 70% dos alunos matriculados estão a aprender a língua, leccionada
apenas por dois professores.
“Claro que o ideal
seria aumentar este número de professores, seria criar um grupo docente da
língua mirandesa, que não temos. O ideal seria equipará-la ao ensino das outras
línguas e especificar o ensino por ciclos, que é algo que não temos”, realçou o
director do agrupamento de escolas de Miranda do Douro. António Santos
acrescentou ainda que aguardam a oficialização de uma formação da língua mirandesa
para professores, num protocolo que foi criado entre o Ministério da Educação,
a Universidade de Coimbra, o município de Miranda e o agrupamento de escolas.
O Plano Integrado e
Inovador de Combate ao Insucesso Escolar da CIM-TTM acabou a 20 de Junho. Agora
a Comunidade Intermunicipal das Terras de Trás-os-Montes aguarda a abertura de
candidaturas da Comissão de Coordenação de Desenvolvimento Regional do Norte
para avançar com a realização dos manuais.
O Mirandês aguarda
ainda a ratificação da Carta das Línguas Minoritárias, uma convenção que visa
promover e proteger línguas regionais ou minoritárias da Europa. Para o
presidente da Associação da Língua e Cultura Mirandesa, Alfredo Cameirão, a
validação da carta pode pôr em prática muitas das medidas que estão definidas,
nomeadamente no que toca à educação.
“Nalguns anos pode
passar a ser uma disciplina curricular, poderia não só aprender-se mirandês,
com matemática em mirandês, e por exemplo num curso profissional o mirandês
funcionar como uma das línguas a serem ministradas, um curso profissional na
área do turismo, que seja dado em Miranda do Douro, faz todo o sentido que uma
das línguas dadas seja o mirandês”, explicou.
Alfredo Cameirão compreende
que há um longo caminho a percorrer, mas a ratificação pode mudar a imagem que
se tem do Mirandês, “de uma visão pouco séria, para uma língua séria e que possa
estar ao lado de qualquer outra língua que se estuda na escola”.
Recentemente um estudo da Universidade de Vigo concluiu que se nada for feito a língua mirandesa pode desaparecer dentro de 20 anos.
Retirado de www.jornalnordeste.com
A história de Portugal
é rica em acontecimentos e personagens. Demos novos mundos ao mundo e
espalhámos a nossa cultura, as nossas tradições e a nossa “saudade” por todo o
planeta. Este país já passou por muito, as suas gentes também.
Não sou historiador,
nem disso aqui se trata. Sou, antes, um observador atento dos acontecimentos
que presenciamos e sobre os quais reflectimos e tiramos conclusões. As nossas
conclusões. Neste caso, as minhas.
Por tudo que tenho
presenciado e vivido ao longo dos meus 67 anos, defendo a existência dos
Governos Civis, não conforme legislado desde a sua implementação, mas
revestidos de um forte teor regionalista. Porquê? Porque potenciam uma maior
proximidade com a nossa terra, a nossa cultura, os nossos usos e costumes, a
nossa gastronomia.
Cada vez mais se sente
a influência do poder central que nos desenraíza, que nos atrai para os grandes
centros urbanos, sejam eles em Portugal ou noutro país qualquer. Todos querem
viver numa grande cidade, porque ali “a vida acontece”. É esta a ideia que, ao
longo do tempo, tem vindo a impregnar-se na cultura dos nossos jovens. Mantemos
a capacidade inata de ser cidadãos do mundo.
Somos governados por
pessoas que não conhecem ou não querem conhecer, a realidade do país na sua
interioridade, na sua singularidade, na sua riqueza patrimonial, urbanística,
natural. Esse é o busílis da questão.
Nós, os que cá vivemos,
somos únicos. Somos Douro. Somos Trás-os-Montes. Somos Nordeste. Somos
Alto-Douro. Somos Norte. Temos vinhos e socalcos. Temos produtos de eleição.
Temos Quintas
debruçadas sobre o rio porque é necessário vê-lo todos os dias, a toda a hora. Hotéis,
modernos, conservadores, inovadores, todos de beleza ímpar, com maravilhosas
piscinas e esplendorosas paisagens, são exemplo de qualidade e conforto.
Montes e montanhas. Desfiladeiros
por onde correm alguns dos nossos rios, com as suas pequenas cascatas que nos
transportam para a música que a natureza tão generosamente nos proporciona.
O rio Douro, que a
intervenção do Homem tornou navegável, proporciona aos naturais e aos turistas
que nos visitam, cruzeiros, passeios de barco cercados pelas arribas, desportos
náuticos, paisagens soberbas onde as vinhas são o ex-libris desta riquíssima região.
É preciso “ensinar”,
quem nos quer conhecer, a descobrir todos os segredos que as montanhas
escondem, todos os recantos onde podemos ser felizes, todas as sombras dos
rios, todos os raios de sol… sentir na boca a doçura das uvas e o veludo único
do vinho. Ouvir o crocitar da Águia Imperial, tão ameaçada. E as nossas gentes,
sempre disponíveis, sempre simpáticas.
A província de
Trás-os-Montes e Alto-Douro é, sem sombra de dúvida, o meu paraíso. O paraíso
que gostaria de mostrar ao mundo inteiro.
Desgraçadamente, o país
insiste, apenas, no desenvolvimento da faixa litorânea, qual “jangada de pedra”
saramaguiana, que já se teria libertado se fosse geologicamente possível
fazê-lo.
O foco dos nossos
governantes anda perdido. Eles não conseguem abarcar o interior em todas as
suas especificidades. A região norte-nordeste de Portugal é uma das mais ricas
do país e, principalmente o nordeste, uma das mais esquecidas e abandonadas. É
difícil lutar contra todas as adversidades entre as quais se inclui a
desertificação.
Temos, no entanto,
entre outras potencialidades, a bacia hidrográfica do Douro, grande produtora
de energia para o país. Contribuímos também, com o terceiro maior reservatório
de água de Portugal, a Albufeira do Baixo Sabor.
A acrescentar ao acima
exposto, o Alto-Douro Vinhateiro, faz-nos, há já vários anos, conhecidos por
todo o mundo. Produz vinho há mais de dois mil anos e ali nasceu o famosíssimo
Vinho do Porto. É a região vitivinícola demarcada mais antiga do mundo.
A paisagem que resultou
dessa longa tradição é absolutamente assombrosa e reflecte, sem dúvida, a
cultura destas gentes e a sua evolução tecnológica, social e económica. Esta
resiliência é uma das características das gentes originárias desta região, que
abarca os distritos de Bragança, Vila Real, Viseu, Guarda, Porto…
Este território foi
reconhecido em 2001 pela UNESCO, como Património da Humanidade, na categoria de
paisagem cultural, com tudo o que isso acarreta.
A interacção entre o
ambiente natural e as actividades humanas, com as suas tradições, folclore,
artesanato, etc., conduziu a uma paisagem natural, alterada pelo ser humano
que, ao longo do tempo, com todos os contratempos com que se deparou, deu
origem a este território tão rico, com características únicas e irrepetíveis.
A gastronomia
portuguesa é, sem dúvida, uma das melhores do mundo. Essa qualidade deve-se à
sua diversidade e aos produtos de grande qualidade existentes em Portugal. Cada
região sabe aproveitar os seus melhores produtos para cozinhar. Nós não somos
excepção. O turismo gastronómico é, hoje, um hábito enraizado. Está na moda.
Os turistas já não
querem apenas praia, sol e mar… Anseiam por outras experiências que esta região
pode oferecer. Temos montanhas, paisagens lindas, trilhos a calcorrear,
património arquitectónico… temos rios que nos fazem sonhar.
E o que dizer dos
parques naturais?
O Parque Natural do
Douro Internacional; o Parque Natural
do Alvão; o Parque Natural de Montesinho; a Paisagem Protegida da Albufeira do Azibo e o Parque Natural Regional do
Vale do Tua…
O Parque Arqueológico do Vale do Côa, distinguido pela UNESCO como
Património Mundial, é mais uma acha para a fogueira (passe a informalidade da
linguagem) desta riquíssima região. Desde 2018 Passou a integrar o Itinerário
Cultural do Conselho da Europa.
Este parque apresenta mais de 1.200 rochas distribuídas por 20 mil
hectares de terreno, com manifestações rupestres. Foram precisos vários anos de
trabalhos de campo, para colocar a descoberto, o achado do maior complexo de
arte rupestre paleolítico ao ar livre até aos dias de hoje. Onde se encontra
este património? No rio Côa, afluente do Douro.
Como se o que referi
acima fosse pouco, sinto-me, enquanto cidadão nascido e criado na província de
Trás-os-Montes e Alto-Douro, muito orgulhoso mas, ao mesmo tempo, desiludido
pelo desapego a que somos votados pelo poder central.
Tudo leva a crer que,
mais uma vez, ficaremos sem comboio. Sabe-se lá quando teremos uma ferrovia
onde possam circular comboios que nos levem, rápida e confortavelmente, onde
quisermos ir, a nós e aos nossos produtos. E nós tão perto da Europa e a Europa
aqui tão perto. Lisboa quase ao virar da esquina… Estamos cansados de sermos,
sempre, os últimos a ser chamados para a equipa.
O desenvolvimento de
qualquer país deve ser global. Todos os cidadãos devem poder ter as mesmas
oportunidades. Para quando a regionalização?
Os governos civis podem
ser uma boa opção pela maior proximidade. Entendo que a regionalização deve ser
instituída conforme consta na Constituição Portuguesa desde 1976, com os
ajustes necessários.
Defendo a divisão do
país em seis grandes regiões. A região do Douro constituída pelos distritos de
Bragança, onde se instalaria o Governo Civil, Vila Real, Viseu e Guarda. A
região da Ribeira-Porto, constituída por Braga, Viana do Castelo, Porto,
Aveiro. A região da Serra da Estrela com os distritos de Castelo Branco, (concelho)Covilhã, Coimbra, Leiria. A região de Belém com os distritos de Santarém,
Lisboa, Setúbal. A região do Alentejo com os distritos de Portalegre, Évora,
Beja. E a última Região, o Algarve como não poderia deixar de ser. Estas
regiões, obviamente, em Portugal continental. Os respectivos Governos Civis
ficarão instalados onde cada uma das regiões entender. O puzzle fica completo
com as regiões autónomas da Madeira e dos Açores.
Devemos aproveitar os
fundos europeus, entre outras coisas, para tornar a regionalização uma
realidade. A nossa constituição é bem clara no que ao tema diz respeito. É
altura de o Senhor Primeiro Ministro cumprir a promessa eleitoral de fazer um
referendo em 2024 sobre a regionalização.
A 15 de Junho de 2022, em Bruxelas, na Bélgica,
o Douro foi distinguido como “A Cidade Europeia do Vinho 2023”, apesar de não
ser uma cidade e sim uma região com dezanove municípios. Devemos aproveitar,
carinhosamente, esta distinção e usufruir dos benefícios que daí advirão.
Se queremos maior
reconhecimento nacional e internacional? Claro que sim. Se desejamos mais
população? É óbvio. Precisamos de gente que aprenda a amar toda a riqueza que
nos cerca, com todas as suas particularidades. Tem de começar por nós. Proteger
e defender este território é uma obrigação. É um desiderato.
Foi, também, o desejo de Guerra Junqueiro, na sua muito amada Quinta da Batoca em Barca D’Alva. Comemora-se este ano, no princípio de Julho, o centenário da sua morte.
P. S. O texto não segue a grafia do novo acordo ortográfico.
Foto de conjunto: Eng. Jorge Nunes, Presidente da Câmara Dr. Hernani Dias, Dra. Assunção Anes Morais, Dra. Odete Costa Ferreira, Vereadora da Cultura Dra. Fernanda Silva, Dra. Avelina Ferraz, responsável pela Editorial Novembro e alguns membros da Academia de Letras de Trás-os-Montes, entre os quais destaco o meu marido, Marcolino Cepeda.
Escrito por: Olímpia Mairos
“Leitura, Escrita e Inclusão” é o mote para o Festival Literário
de Bragança que decorre um pouco por todo o concelho - na cidade, no meio
rural, nas escolas, nos estabelecimentos prisionais e junto da comunidade,
entre 24 e 27 de maio.
O FLB realiza-se desde 2015 e, segundo a organização,
pretende ser um evento literário, que liga diferentes locais e instituições do
concelho, do meio urbano e rural. Tem como objetivo promover a leitura,
elevando o nível de literacia do concelho e a preservação da cultura e do
território, através da inclusão de diferentes gerações e diferentes públicos.
O evento cultural que celebra, este ano, a sétima edição oferece, assim, um programa diversificado com apresentação de obras, debates e entrevistas, conferências e vários momentos musicais.
Com destaque para a literatura enquanto meio de inclusão, a
iniciativa conta com a participação de autores nacionais e locais,
tais como Pedro Chagas Freitas, Raúl Minh’Alma, Miguel Gouveia, Mário Augusto,
Hélder Reis, Cláudia Lucas Chéu, Rui Ramos, Ernesto Rodrigues, Fernando Calado,
Teresa Martins Marques, entre outros.
Promovido pelo Município de Bragança e pela Academia de
Letras de Trás-os-Montes e produzido pela Editorial Novembro, o Festival
Literário de Bragança propõe-se chegar aos mais diversos públicos.
Neste contexto estão programadas várias ações pensadas para
a comunidade escolar dos diferentes níveis de ensino, incluindo ações
personalizadas para o ensino profissional, ações nos estabelecimentos
prisionais e também no meio rural, como forma de envolver diferentes gerações
nas atividades.
Na comunidade e
para a comunidade
O Festival arranca na quarta-feira, dia 24 de maio, junto da
comunidade escolar com a iniciativa “O Escritor vai à Escola”, com a
participação de Rui Ramos, Miguel Gouveia e Raúl Minh’Alma.
Ao final da tarde, às 18h00, a Biblioteca Municipal recebe o
jornalista, autor e apresentador, Mário Augusto, que apresenta o livro “Mandem
Saudades”.
Pelas 21h00, tem lugar a conversa subordinada ao tema “Entre
o Real e a Ficção”, com Raúl Minh’Alma, e moderação de Mário Augusto. O
primeiro dia encerra com o “Concerto de Leitura” de Miguel Gouveia.
No dia 25 de maio, quinta-feira, prosseguem as visitas de
autores às escolas (com Bru-Junça, Miguel Gouveia, Luís Ochoa e Teresa Martins
Marques) e o “Encontro com o Escritor” que leva Pedro Chagas Freitas aos
estabelecimentos prisionais de Izeda e de Bragança.
Neste dia, será organizado um debate sobre o tema “O Editor
e o Processo Criativo na Literatura”, com Miguel Gouveia, assim como o curso
“Livro é um Lugar” com Bru-Junça e uma Oficina de Escrita Criativa com Pedro
Chagas Freitas.
À noite, a partir das 21h00, a Biblioteca Municipal será
palco de uma conversa sob o mote “A Escrita Como Espelho”, conduzida pelo
jornalista Pedro Mesquita da Renascença e com a participação
de Pedro Chagas Freitas, Fernando Calado, Ernesto Rodrigues e Luís Ochoa. O
momento musical e literário “Rimas Perdidas”, apresentado por Leonor Afonso e
Cristiano Ramos, encerra o segundo dia de Festival.
No dia 26 de maio, o Festival Literário de Bragança
desloca-se até às aldeias de Parada e Faílde, para um encontro com a comunidade
e com os escritores Miguel Gouveia, Balbina Mendes, Ernesto Rodrigues e
Fernando Calado.
Já às 15h00 a Biblioteca Municipal recebe a escritora
Cláudia Lucas Chéu e às 16h00 o escritor/ apresentador Hélder Reis apresenta
“Sabíamos Tão Pouco Sobre o Amor”.
Os autores transmontanos têm encontro marcado para o último
dia do FLB, dia 27, no Centro de Arte Contemporânea Graça Morais
No período da manhã, “Palavras Contadas e Ilustradas” dá voz
aos autores Ana Pereira, Roberto Afonso, Elza Mesquita e Miguel Gouveia.
À tarde realiza-se a “Sessão de Poesia e Prosa”, com os
autores associados da Academia de Letras de Trás-os-Montes - Manuel Catumba,
José Maldonado, Virgílio Gomes e Ana Freitas, com moderação de Odete Costa
Ferreira.
A encerrar a programação da iniciativa, Assunção Anes Morais
apresenta a Coletânea da Academia de Letras de Trás-os-Montes “Douro – Um
Território de Palavras”. Momento que culminará com um apontamento musical, com
o coro do Conservatório de Bragança “Brichoir-T”.