terça-feira, 21 de setembro de 2021

Ernesto Rodrigues: “Eu próprio asfixiava, se não mostrasse este rosto desconhecido”


 

1-Depois da ficção, como surgiu o teatro no percurso da sua escrita?

R- Escrevi a primeira peça em Setembro de 1973, meses depois de me estrear com um livro de versos, e, já, com os primeiros contos à espera de edição. Nestes, as dificuldades da vida rural e dos pequenos ofícios, no Nordeste, conduziam à emigração, que saldava um passado de dívidas. Mas resolver a economia familiar era insuficiente, e solução passageira, se o país não se perguntava sobre outras saídas: por isso, exigia-se liberdade de expressão, que a polícia persegue na figura de filho universitário. Tal como “A pedra” do título sufoca um pai emigrante, doente e sem futuro, assim cresce a revolta colectiva, após o funeral, resumida num letreiro: «Queremos respirar!» Eis como, da ficção assente em quadros ou cenas, com treino em diálogos (o que fez com que a quarta peça  [1977] fosse por mim lida, primeiro, como conto, editado em A Flor e a Morte, 1983), vim a um teatro político, mais interventivo após o 25 de Abril.

 

2- Quais são as principais linhas temáticas das suas peças?

R- Da denúncia e reivindicação de um direito passei à hipótese de uma comunidade democrática, mau grado vícios que diríamos segunda pele (Faca no Sol, 1974-1975). Era um teatro hierático, pausado, contra a maré, em dias agitados. Daí, O Golpe (1975), neste ano de todos os possíveis, também na cena internacional, entre golpes e contragolpes, quadros soltos, sarcasmo, liberdade total ao encenador (como, aliás, em quase todas as peças). Esse teatro de guerrilha, confrontando poderes, criava um impasse, resolvido na violência de Guerra Civil (2019), que todavia, situei em cenário fratricida árabe. Já o modo como o Poder se mantém – entre mentira, manipulação, crime e ridículo, responsabilizando os meios de comunicação e comícios de sono – inspirou Sábado (2012-2013) e Doença (2016-2017). Assim, seis das onze peças entrevistam facetas do Poder. As outras debatem relações interpessoais e as síndromes que escondemos (Jardim, 1977; Acidente, 1998-2000; Delírio, 2015). Salientaria O Divino (2002), em que perpassam vidas nos últimos momentos de Almeida Garrett. Síntese destas interlocuções e de novos poderes que nos afectam é a derradeira, Pandemia (2020): sonhando-se romance com seis personagens (em que estas aparecem segundo a lógica da sextilha) e 36 cenas resolvidas, no Epílogo, por três vozes laterais, regresso ao pensamento originário de uma respiração democrática, sem deixar de celebrar a medicina.

 

3-Qual a ideia que esteve na origem desta antologia agora publicada?

R- Havia um trabalho secreto de 47 anos. Editara poemas, novelas, contos, romances; centenas de crónicas na Imprensa; crítica, ensaio, dicionarística e edição literária ocuparam-me 45 anos, inaugurados com trabalho sobre A Morte do Papa, peça de Jorge de Sena; traduções do húngaro, quatro décadas. Tinha uma dívida com a edição crítica da Exortação da Guerra vicentina, a publicar; com a leitura anual da Castro ferreirina e regular do Frei Luís de Sousa. Após o Théâtre de la Cruauté (1932) e Le Théâtre et Son Double (1938) de Artaud e Un Théâtre des Situations (1973) de Sartre, fiz récitas amadoras no Verão Quente de 1975. É o género mais livre e participável, onde melhor cabem as falas de todos. Eu próprio asfixiava, se não mostrasse este rosto desconhecido.

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Ernesto Rodrigues

Teatro

Edição do Autor  25€

Ernesto Rodrigues na “Novos Livros” | Entrevistas

Retirado de www.novoslivros.pt 

Teresa Martins Marques: Grande mulher, excelente escritora

 


Partilho convosco a capa do meu romance A MULHER QUE VENCEU DON JUAN, traduzido para romeno por Georgiana Barbulescu. Acabou de sair pela editora ELECTRA, de Bucareste. (Teresa Martins Marques)


Parabéns Teresa!
Maria Cepeda



terça-feira, 14 de setembro de 2021

Festival de música clássica vai encher espaços culturais e religiosos em Bragança

ClassicFest” acontece entre 1 e 10 de Outubro e há concertos gratuitos

Jornalista Ângela Pais

Bragança vai realizar pela primeira vez um festival internacional de música clássica. Nos dois primeiros fins-de-semana de Outubro, o Teatro Municipal, a Sé Velha, a Igreja de Santa Maria e a Cidadela vão abrir portas aos brigantinos e visitantes que queiram ouvir música erudita.

“Bragança ClassicFest” conta com artistas como Diana Tishchenko, violinista, Héctor Del Curto, bandoneonista, e até com a Orquestra de São Petersburgo, da Rússia. O Teatro Municipal de Bragança, entidade responsável, quer assim colocar Bragança na rota mundial dos festivais de música clássica.

“Há aqui uma vontade muito grande que o festival não fique só para aqueles que costumam vir assistir a música clássica. Queremos cativar e conquistar todos os públicos”, afirmou o director artístico do festival. Filipe Pinto-Ribeiro, também pianista, explicou que um dos objectivos da iniciativa é alterar o estigma de que a música clássica é dirigida a um grupo de pessoas específicas e salientou que, contrariamente ao que muitos pensam, está bastante presente no dia-a-dia. “A música clássica inspira muitas músicas populares, está presente em filmes que vemos, nas séries, nas telenovelas, em tantos anúncios. Ouvir por exemplo,

‘As Quatro Estações’, de Vivaldi, sem saber, muitas pessoas vão reconhecer”, referiu.

O concerto de abertura é no dia 1 de Outubro e é a Orquestra de São Petersburgo que dá o arranque. O bilhete é grátis, como muitos outros do festival. Noutros, o custo é sete euros, “um preço simbólico”, que pode ainda ser reduzido, com descontos para crianças e idosos. “Os preços são para as pessoas poderem vir e repetir.

Chegar a um maior número de pessoas possível e que venham, experimentam, gostem e possam vir outra vez”, frisou Filipe Pinto-Ribeiro.

Envolver o Conservatório de Música e Dança e os agrupamentos de escolas é também uma preocupação do director do teatro. Cristiano Cunha quer aproximar os mais novos também deste tipo de música e, para isso, vai reunir com os professores para que se estabeleça uma ponte entre o teatro e as crianças. “Tentaremos ainda no futuro próximo, não sei se será ainda nesta edição, levar um dos músicos de renome internacional ao conservatório. Para os alunos seria uma coisa marcante para o resto da vida”, referiu, concluindo que é uma “missão educativa” do teatro criar “novos públicos”.


Retirado de www.jornalnordeste.com 

Portugal assina Carta Europeia das Línguas Regionais ou Minoritárias

A língua mirandesa esteve na base da assinatura do documento

Jornalista Carina Alves

Portugal assinou a Carta Europeia das Línguas Regionais ou Minoritárias. A Língua Mirandesa esteve na base da assinatura, concretizada na quarta-feira da semana passada, dia em que o Ministério dos Negócios Estrangeiros anunciou que a Câmara Municipal de Miranda do Douro e a Associaçon de la Lhéngua i Cultura Mirandesa (ACLM) haviam desenvolvido a lista de compromissos a cumprir para que a adesão fosse possível.

A assinatura do documento, que visa, desde 1992, proteger e promover as línguas regionais e minoritárias da Europa, já estava a ser trabalhada há vários anos, sendo que, em Janeiro de 2019, o município de Miranda do Douro já avançara com a assinatura de um protocolo com a ACLM, para cumprir os princípios com que o país teria que se comprometer, tendo disponibilizado, 25 mil euros.

Estes princípios que ditaram que Portugal estivesse pronto para a assinatura foram transcritos por José Pedro Ferreira, vice-presidente da ACLM. O também linguista, um dos mentores da assinatura, esclareceu que estes compromissos, sendo que no mínimo é preciso assumir

35, são “adequados à realidade de cada país”. Neste caso, segundo esclareceu, os compromissos, em diferentes sectores, nomeadamente justiça, educação, comunicação social, cultura, administração central e local, “protegem a língua ameaçada”. “Até aqui, não era possível que uma pessoa fosse ouvida em mirandês num tribunal, mas agora é”, deu como exemplo. Também na Câmara Municipal as pessoas podem agora ser escutadas nesta língua. Além de as ouvir em mirandês, a entidade também é obrigada a responder-lhes na mesma língua. “Era uma medida simples de implementar, mas nunca tinha sido”, salientou.

Também ao nível do ensino, por exemplo, todos os anos, o mirandês, que é ensinado como disciplina opcional, dependia de uma autorização anual, dada pelo titular da pasta da Educação. Agora não haverá mais essa necessidade.

José Pedro Ferreira, que recebeu a notícia “com grande felicidade”, nomeando o dia como “glorioso”, afirma que as medidas “vão facilitar a vi[1]da aos falantes e às entidades locais”, caso se pretenda que a língua tenha uma maior presença na vida pública dos habitantes da Terra de Miranda, que, além de Miranda do Douro, é integrada por Mogadouro e Vimioso. “Para nós é uma grande vitória. Desde 2002, altura em que a ALCM foi criada, que reclamávamos a assinatura da carta. É um sinal de que o Estado central, de facto, está atento às nossas preocupações”, rematou ainda.

A continuidade da língua, que, por agora, ainda se assume que está ameaçada, não será assegurada, de todo, pela assinatura desta carta. O documento permite que o mirandês esteja mais protegido e que haja outra facilidade em algumas questões, sobretudo para os seus falantes, mas quem determina que esta não morra é o próprio povo. “Esperemos que as pessoas perpetuem a língua através da transmissão entre gerações. Se olharmos para outros casos, línguas que estiveram à beira da extinção, e olharmos para o que lhes aconteceu, percebemos que, muitas vezes, tudo depende de medidas institucionais, tanto centrais como locais. Veja-se o finlandês, que era secundarizado, pelo sueco, quando a Finlândia não era independente. Há cem anos o país tornou-se independente e hoje em dia não passa pela cabeça de ninguém pôr em causa a viabilidade futura da língua”, esclareceu o linguista.

Artur Nunes, presidente do município, que admite que “a carta vem dar força, sobre[1]tudo à educação, que é um dos pilares para que a língua continue”, reportou-se à assinatura do documento como “uma oportunidade para o mirandês”, uma verdadeira forma para que a língua “surja e ressurja.”

 

Retirado de www.jornalnordeste.com

Lançada marca ‘Terras de Trás-os-Montes’ que já identifica 39 produtos

 Jornalista Olga Telo Cordeiro

Já foi oficialmente lançada a marca ‘Terras de Trás-os-Montes’, que promove produtos da Comunidade Intermunicipal (CIM-TTM) com o mesmo nome.

O objectivo é valorizar e divulgar os produtos deste território, que engloba nove concelhos (Alfândega da Fé, Bragança, Macedo de Cava[1]leiros, Mirandela, Miranda do Douro, Mogadouro, Vila Flor, Vimioso e Vinhais), ao mesmo tempo que “contribui para consolidar a identidade territorial”.

Até agora aderiram 15 produtores e 39 produtos já têm este selo identificativo. Os empresários aderentes esperam que esta designação que juntam ao produto possa ajudar na valorização dos produtos e aumentar as vendas.

“Espero que ajude a divulgar a região de Trás-os-Mon[1]tes e todos os produtos que estão associados. Quando me foi proposto foi fácil aderir, porque o projecto é interessante”, disse Francisco Figueiredo, produtor de fumeiro no concelho de Bragança.

“Isso vai também dar a garantia que é um produto regional e que efectivamente é feito em Trás-os-Montes”, refere Elisabete Ferreira, da empresa Pão de Gimonde.

Há também 75 interessados em aderir a esta marca. Os produtores, de áreas como o azeite, o vinho, mel, pão, fumeiro, queijo e carnes, acreditam que a designação Terras de Trás-os-Montes será uma mais-valia por ser associada à qualidade.

O pasteleiro Miguel Ribeiro, que criou o pastel “Os meus amores”, acredita que a marca regional “é uma mais-valia, quando as pessoas virem o produto à venda saberem que pertence às Terras de Trás-os-Montes” e entende que os artigos “vão acabar por se destacar mais, chamar mais a atenção e o comprador acaba por dar mais valor ao produto que tem o selo, a referência”.

“O facto de verem a marca de Trás-os-Montes faz logo com que as pessoas parem, fiquem a olhar, porque são desta zona ou já ouviram falar que os produtos daqui são de grande qualidade”, referiu Francisco Figueiredo, reportando-se à experiência que teve em feiras.

Vera Santos, produtora de azeite em Vimioso, diz que aderiu porque os clientes “valorizam muito se os produtos são mesmo genuínos e procuram qualidade acima de tudo” e espera que a marca ajude a alargar a projecção da marca Distintus.

Na apresentação oficial da marca e produtos aderentes, o presidente da Comunidade Intermunicipal Terras de Trás-os-Montes, Artur Nunes, explicou que qualquer empresa dos nove municípios pode candidatar-se, sendo as características avaliadas, para dar garantia aos produtos.

“Há um conjunto de normas que têm que cumprir ao nível do regulamento, a Comunidade Intermunicipal faz esse acompanhamento cumprimento de normas, e o próprio consumidor quando compra um produto com este selo tem a garantia de originalidade e qualidade”, sublinha, destacando que esta é uma forma de “agregar os produtos que querem aderir” e “promover os produtos bons da região, a nível nacional e internacional”, que pode “valorizar muito Trás-os-Montes, como terra de sabores únicos, originais e tradicionais”.

Para já a marca Terras de Trás-os-Montes abarca produtos da área do agro-alimentar, mas será estendida a serviços, da área da restauração e turismo, bem como ao artesanato. A adesão é gratuita e todos os custos são suportados pela CIM-TTM.

 

Retirado de www.jornalnordeste.com

quarta-feira, 8 de setembro de 2021

Freixo, Festival Internacional de Literatura 2021 (FFIL)

Decorreu, no passado fim-de-semana, o Freixo, Festival Internacional de Literatura (FFIL), em Freixo de Espada à Cinta, terra natal do poeta Guerra Junqueiro, patrono do prémio  literário  com o mesmo nome.

Tive a honra e o gosto de estar presente na 5ª edição deste Festival.

Fui convidada pela minha amiga Lídia Machado Dos Santos para apresentar o seu livro "As Paisagens Junqueirianas em a Velhice do Padre Eterno", de Guerra Junqueiro. Foi um orgulho fazê-lo.

Cabe-me agradecer à Senhora Presidente da Câmara de Freixo de Espada à Cinta, à Doutora Avelina Ferraz e à sua equipa, a todos os participantes e à Professora Doutora Lídia Machado dos Santos, pelo excelente trabalho realizado sobre a obra de Guerra Junqueiro a que, com certeza, dará continuidade.

Foi um excelente fim-de-semana.





















Estas fotos dão-nos uma ideia das atividades do FFIL. A Lusofonia esteve muito bem representada.

Maria Cepeda  




Ernesto Rodrigues: A terceira margem (Retirado de www.novoslivros.pt)

 


1– O que representa, no contexto da sua obra, o livro A Terceira Margem?

R – Oitavo romance desde A Serpente de Bronze (1989), que anunciava a actual casa comum europeia (desde 2004) e rastreava momentos altos da nossa História, também expandida ao desastre de Alcácer Quibir, A Terceira Margem vai além desse espírito viageiro cosmopolita e remitificação sebástica: debate o fim da pena de morte em Portugal e, sobretudo, a abolição da escravatura no Brasil, sem o que nações, comunidades e indivíduos não darão o salto para a terceira margem, a da dignidade. Por outro lado, irmana-se, aqui, a vertente regional, patente desde a estreia novelística (1980) até ao segundo romance, Torre de Dona Chama (1994), nome da vila transmontana donde sai (além do autor, além do narrador) a linha dos Cabrais que apelida a história entre 1756 e 2022. Adequando o registo discursivo a tempos, lugares e personagens – algumas bem conhecidas no imaginário luso-brasileiro, em que relevo Machado de Assis –, A Terceira Margem é o título-síntese das minhas diligências literárias.

2 – Qual a ideia que esteve na origem deste livro?

R – O narrador, Pedro Álvares Cabral (1956), já comparecia naquele segundo romance, onde também pesava a lembrança de um avô, agora, em A Terceira Margem, figura central (1870-1966) e fonte de informação. Precisava de biografar um alter ego e sua linhagem num período – século XIX, em particular – que, com a independência política do Brasil, conduziu Portugal ao regime demo-parlamentar de hoje, sem termos ainda chegado à plena independência dos indivíduos. Choca-me que, sob formas várias, milhões de pessoas continuem a ser «mercancia», no dizer do padre António Vieira. Sem debelar esta chaga – sendo solução Uma Bondade Perfeita (2016), sexto romance –, a humanidade não é digna deste nome. Lateralmente, na sequência de ficção histórica como O Romance do Gramático (2011) e A Casa de Bragança (2013), faltava-me homenagear cerca de dois séculos e meio, que melhor conheço, enquanto investigador universitário. Era, também, outra forma de revisitar uma cidade de eleição, o Rio de Janeiro.

3 – Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?

R – Donald Trump e outros títeres inspiraram três novelas que se debruçam sobre o Poder – a principal preocupação de 11 peças em 47 anos de Teatro, que acabo de editar. Estão em retoques finais, à atenção de um futuro que se deseja mais responsável.

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Ernesto Rodrigues

A Terceira Margem

Retirado de www.novoslivros.pt