quinta-feira, 4 de janeiro de 2024

Museus e Monumentos de Bragança ficam com gestão do Estado (29/12/23 POR LUSA)

 


Os equipamentos culturais e monumentos propostos para gestão dos municípios de Bragança e de Miranda do Douro ficam, afinal, sob gestão do Estado, esclareceu hoje à Lusa o Ministério da Cultura.

29/12/23 POR LUSA

CULTURA BRAGANÇA

    reorganização anunciada para museus e monumentos em junho teve forte contestação no distrito de Bragança, com os autarcas dos dois concelhos transmontanos a rejeitaram a transferência destas competências.

    O ministro da Cultura, Pedro Adão e Silva, apresentou nessa altura a criação de duas novas entidades, a entrar em funções no início do próximo ano.

    Uma delas é a Museus e Monumentos de Portugal, "uma entidade pública empresarial responsável pela gestão dos museus, monumentos e palácios nacionais", pode ler-se na página oficial da internet do ministério.

    Foi ainda criado o instituto público chamado Património Cultural, "que tem como objetivo a salvaguarda, investigação, valorização e divulgação do património imóvel e imaterial", explica-se na mesma nota.

    Em resposta às questões colocadas via correio eletrónico, o Ministério da Cultura detalhou à Lusa que o Museu do Abade de Baçal (Bragança) e o Museu da Terra de Miranda (Miranda do Douro), ficam a partir de 1 de janeiro sob gestão da Museus e Monumentos de Portugal.

    Já a Domus Municipalis e o castelo da cidade de Bragança passam na mesma data para o Património Cultural.

    Contactado pela Lusa, o presidente da câmara municipal de Bragança, Hernâni Dias, mostrou-se satisfeito.

    "Era a solução que defendíamos. (...) A vitória é sempre aquela que faz com que o nosso território não seja desvalorizado", afirmou o autarca. 

    "Defendemos os interesses do nosso concelho, do nosso distrito e da nossa região. (...) E quando sentimos que há propostas que vão contrariar essa intenção, obviamente que lutamos contra elas", disse ainda Hernâni Dias.

    A posição é acompanhada por Helena Barril, autarca de Miranda do Douro.

    "Estamos muito satisfeitos com esta decisão por parte do Governo. Faz, sobretudo, justiça a esta zona do país. Valeu a pena toda a nossa união em torno desta causa. É um reconhecimento para as entidades e para o Museu Terra de Miranda (...), declarou a presidente.

    Para Jorge da Costa, diretor do Museu Abade de Baçal, o anúncio também foi "uma grande alegria".

    "São dois espaços culturais emblemáticos [o museu e a Domus Municipalis] e desta importância nacional. Garantirá a continuidade de todo o trabalho que tem vindo a ser desenvolvido".

    A Lusa tentou uma reação da diretoria do Museu Terra de Miranda, mas sem sucesso.

    Após o anúncio desta intenção, várias foram as manifestações contra na região. Além das autarquias e das direções dos equipamentos culturais em causa, outras vozes discordantes se juntaram, como a Comunidade Intermunicipal Terras de Trás-os-Montes ou o Movimento Cultura da Terra de Miranda, que se mostraram descontentes com a passagem, que não chegou a acontecer, da gestão para os municípios, que consideraram uma desqualificação do património.

 Retirado de: www.noticiasaominuto.com

terça-feira, 2 de janeiro de 2024

TRANSMONTANOS AINDA MANTÊM HÁBITOS DE NATAL NO COMÉRCIO LOCAL Qua, 27/12/2023


Em Trás-os-Montes apesar da inflação, há produtos de Natal que não podem ficar por comprar

Um estudo do Instituto Português de Administração de Marketing concluiu que 60% dos portugueses iriam gastar menos este ano em compras de Natal.
Na região transmontana, as opiniões dos proprietários de comércios locais dividem-se perante este estudo. Para uns, a situação “não é tão má quanto o espectável”, mas, para outros, “é terrível”.

Em Bragança, horas antes da habitual troca de prendas nas casas dos familiares, ainda se sentia a azáfama das compras feitas à última da hora, como manda a tradição.

Dalila Luso, proprietária de uma drogaria na rua Almirante Reis, contou que no princípio do mês de Dezembros “esperava-se uma véspera muito má para as vendas”, no entanto, com o aproximar do dia de Natal, “os portugueses deixam tudo para a última da hora”. “Nesta última semana antes do Natal ainda movimentamos alguma coisa. As pessoas fazem sobretudo compras online nos últimos anos e, quando não encontram aquilo que querem na internet, passam aqui na drogaria”, acrescentou Dalila.

Metros mais abaixo, numa sapataria, a opinião não se manteve tão positiva em relação à da vizinha da drogaria. Luís Ferreira, gerente do estabelecimento, falava de “poucas vendas e pouco movimento de pessoas pelas ruas”. “Os horários das grandes superfícies vieram destruir o comércio local. Além disso, a falta de estacionamento aqui no centro da cidade, em relação ao estacionamento gratuito nas grandes superfícies, também não vem ajudar o nosso negócio”, disse Luís Ferreira.

Entre roupas, brinquedos, perfumes ou joias, há quem prefira uma prenda mais original, com um toque praticamente personalizado. Mário Ortega é proprietário de uma loja com produtos à base de madeira alusivos, sobretudo, a temas relacionados com a região de Trás-os-Montes. “Estamos a sentir que as pessoas se vão distribuindo um bocadinho nas suas compras. Uns optam por peças alusivas ao Natal e outras por aquilo que podem ser as peças compradas em qualquer altura do ano. Os que querem comprar várias prendas optam pela coleção de Natal porque são um pouco mais baratas”, explicou Mário Ortega.

No entanto, entre as várias prendas que se podem encontrar num presépio, há uma que nunca passa de moda e continua a ser valorizada apesar da digitalização ter tomado conta do dia-a-dia.

Os livros, segundo Casimiro Fernandes, proprietário de uma livraria junto à Praça da Sé, “continua a ser uma prenda de ocasião e sobretudo de tradição”. “Há pessoas que ainda têm bom gosto e boa leitura. Sabem aquilo que compram e optam pelo comércio local. Há quem venha de fora e acabam por comprar aqui, nas papelarias locais para oferecerem um livro àqueles que ainda cultivam o hábito de terem um livro na mesinha de cabeceira”, contou Casimiro Fernandes.

 

Em Miranda do Douro “não se veem tantos espanhóis” antes do Natal

Com a fronteira mesmo ao lado e a partilha de costumes, manda a tradição que em Miranda do Douro, com a chegada da quadra natalícia, os espanhóis procurem as suas prendas na cidade vizinha.

Mas, este ano, segundo os proprietários dos comércios locais, a situação piorou drasticamente e já nem se sente a presença da língua espanhola a pronunciar-se pelas ruas. “Este ano está a ser um fracasso, porque parece que os emigrantes não vieram à terra e os espanhóis não aparecem. Estamos numa cidade isolada e isso só tem vindo a piorar todos os anos”, disse António Pires, proprietário de um comércio em Miranda do Douro.

Também José Raposo, gerente de uma loja conta que, pelos últimos dias, vão vindo mais algumas pessoas, “mas praticamente o mesmo dos outros anos. “Quem não comprava antes desta crise também não compra agora. Ainda se vão vendo alguns espanhóis, mas muito poucos em relação aos anos anteriores. Vamos ver se para os Reis eles voltam”.

Num outro ponto da cidade mirandesa, Alfredo Delgado é proprietário de uma loja de produtos artesanais, aberta há apenas dois anos. “Infelizmente este ano não temos visto mais pessoas nesta época das festas. Está a acontecer o inverso e temos cada vez menos clientes, por incrível que pareça não temos mais gente por ser Natal. Vão passando espanhóis mas não entram”, disse Alfredo Delgado.

“O polvo está ao mesmo preço, mas as pessoas não compram”

Para a ceia de Natal, há quem prefira o bacalhau, mas também são muitos os que preferem polvo, sobretudo na região.

Por esta altura, os preços são os mesmos do ano passado, mas a procura tem diminuído bastante, “porque não há dinheiro”.

Quem o diz é Cármen Cassiano, vendedora ambulante de peixe fresco, que percorre diariamente várias aldeias nos concelhos de Mirandela e Vinhais, explicando que, os consumidores, “apertaram o cinto ao ponto de não conseguirem apertar mais”. “A diferença foi gigante em relação aos anos anteriores no que diz respeito às vendas do polvo. As pessoas têm achado tudo caro porque há definitivamente pouco dinheiro e não dá para tudo”, explicou Cármen.

Em relação aos preços do polvo, a proprietária da peixaria explicou que “os valores variam muito”. “Nas polveiras entre dois a três quilos vendi por 16,50€, a partir disso era a 18€ e naqueles polvos muito grandes vendi por 20 euros”. “O facto de vender polvo fresco também encarece o produto, mas para quem compra e gasta o dinheiro prefere sempre ter mais qualidade na mesa de Natal”, rematou.
No entanto, apesar da subida de preços “há determinados produtos que não podem faltar na mesa dos portugueses”.

Esta é um das principais frases ouvidas pelas ruas, entre aqueles que entram e saem das lojas, pastelarias e peixarias, como é o caso de Rita Fonseca, que “não descarta o polvo e o bacalhau”. “Não poupamos na comida, mas depois tentamos apertar nas prendas que damos às pessoas e não oferecemos coisas de valores muito elevados”, explicou a cliente natural de Mirandela.

Na correria das horas que passavam antes do Natal e no momento de rechear a mesa para brindar os que mais amam, os transmontanos não fecharam os bolsos perante a inflação atual, sobretudo nos ingredientes principais da quadra festiva: o amor e a fé.

Jornalista: Daniela Parente

Retirado de: www.jornalnordeste.com


FELIZ ANO DE 2024!

    Que o início deste ano de 2024 tenha sido repleto de carinho e amor, rodeados por quem mais amam e os ama num ambiente de Paz que tão necessária é.

    Desejamos que os nossos amigos e familiares possam usufruir do melhor que o mundo tem, ao gosto de cada um.

    Que a felicidade de um dia de radioso sol possa repetir-se todos os dias, agradavelmente enredados no seu ténue calor.

    Que o azul deste céu de Trás-os-Montes se reflita nos sonhos de cada um de nós.

    Obrigado por nos continuarem a acompanhar.

    Feliz 2024!








Fotos: Maria Cepeda e Eduardo Claudino

sábado, 9 de dezembro de 2023

A LARANJA


Numa pequena aldeia banhada pelo rio Tuela, vivia Anabela que nunca parava em casa e completamente sorria.

Corria, rua abaixo, rua acima, sem nunca se esquecer de correr, cantando com alegria a sua alma e o seu ser.

A mãe chamava por ela da varandinha de pedra cravejada de cravos vermelhos para que fosse almoçar, que já era tarde. 

Parava. Esticava o pescoço e olhava para a mãe com o seu olhar de mel, sorrindo como se fosse muito cedo, quase ao raiar do dia. E lusco-fusco se fazia.

"Anda filha" dizia a mãe com doçura e empatia, que queria a sua menina à mesa ao fim do dia. 

Chovia já, bátegas grossas e frias, outono, quase inverno, bem sabia. 

Lareira a crepitar, pote ao lume a fervilhar... A avó Maria a dormitar das canseiras do seu dia que muitas eram.

Anabela sorria a olhar para a mãe como se ela fosse o seu sol e a sua lua em noite de luar que iluminava a rua toda, a terra inteira!

"Anda minha querida, anda..." E ela lá subia os toscos degraus de cantaria.

"Avó! Que saudades avó!"

Acordou esbaforida, estremunhada, um sorriso na boca desdentada. Um abraço e muitos beijos.

Uma bela e cheirosa laranja do Algarve para a sua menina saiu do bolso do delido avental como por magia.

O brilho resplandecente do olhar da menina iluminava o coração de Maria, cansada de tanta labuta. Já tinha ganho mais um dia de vida. 

Assim era, sempre que regressava a casa, vinda dos trabalhos que urdia nas aldeias que pediam a sua presença. Era cesteira afamada.

A sopa chamava, a fome pedia. Sentaram-se no escano junto à lareira. O pote, à mão de semear. A mãe, concha na mão, servia. 

"Está a ferver. Cuidado!" 

"Gosto desta sopa mãe! Gosto muito!"

"Então come!" "Coma mãe. Não se queime."

"Sim filha. Que bem me vai saber! Está frio."

Estava exausta. Foram quinze dias em casa da senhora Cremilde. Desde o nascer do sol até ao escurecer, com pequenos intervalos para comer alguma coisa. 

"Então mãe? Trataram-na bem?" 

"Sim. São boas pessoas. Ajudaram muito. Preocupavam-se com que eu comesse, dormisse, repousasse..."

Via-se que a fadiga era grande. Já não era nova e a vida não tinha sido mãe, antes madrasta...

A menina acabou a sopa e começou a descascar a laranja. Com algum esforço, conseguiu e dividiu-a em três partes distribuindo-as pela avó, pela mãe e por si própria. 

O tempo parou à primeira dentada. A doçura espalhou-se pela boca e demorou-se carinhosamente. 

"Que boa é a laranja!" E era.

A mãe levantou-se para lavar a louça. A avó deu as boas noites e foi dormir. A menina continuou sentada no escano, tentando conservar na boca o sabor divino da laranja.

 

Maria Cepeda

sexta-feira, 8 de dezembro de 2023

QUIÇÁ


Alegria? Talvez um dia.

Hoje quiçá não.

Não se sente a melodia.

Não se sente o coração.


Anseio gente verdadeira,

sem guerras, sem agonia.

Mais vale ser a primeira

ou a última fantasia.

 

Maria Cepeda (Poema e fotografia)

terça-feira, 5 de dezembro de 2023

ESPEREI POR TI



Esperei por ti

Horas imensas

Buscando noites

Luas suspensas


As noites passaram

Em horas incertas

Dores cruzaram

Ilhas desertas

 

Eu aqui,

Imersa em mim,

Caminho por ti

Serenando desejos

Semeando ensejos

Vivendo tristezas

Dirimindo certezas

Acumulando horas

Fingindo demoras

 

Noites e dias

De mim fugia

Sonos e sonhos

Por vezes medonhos

A dor vem tardia,

Segura e atuante

finge melodia.


Maria Cepeda

 

sábado, 21 de outubro de 2023

A IDENTIDADE REGIONAL DO INTERIOR NORTE (Ernesto Rodrigues)


A descentralização «nunca estará acabada», afirmou o primeiro-ministro em 30 de Setembro de 2023, no Seixal, na abertura do XXVI Congresso da Associação Nacional de Municípios Portugueses. António Costa nunca fala de regionalização, como pretendem os autarcas – e, em especial, os de uma região que constitui um sétimo do poder camarário no Continente.

Há uma «identidade do lugar» que a História e a Geografia definem como fronteiras, marcando «a noção de território e da diferença», segundo José Mattoso (Portugal – O Sabor da Terra. Trás-os-Montes, Lisboa, 1997: 7). Marão, Alvão, Cabreira e Gerês separam do Minho; o rio Douro, das Beiras. No curso internacional deste e da serra de Montesinho à do Larouco (com o Gerês, as de maior altitude no Continente, após a serra da Estrela) correm as comunidades de Castela e Leão e da Galiza.

A designação geral ‘Trás-os-Montes’, de uso mais comum a partir do séc. XIII, ainda se dividia, no séc. XII, por Leão, sob influência de Zamora e dos Templários, a par da dos cistercienses galegos sobre Pitões das Júnias, até à Vilariça, do influxo de Moreruela sobre Miranda, e, até aqui e Vinhais, dos beneditinos de Castro de Avelãs, em cujo mosteiro está sepultado Nuno Martins de Chacim (finais do séc. XIV), o último braganção, avô materno de Inês de Castro. O arcebispado de Braga influía até Barroso, vales do Tâmega e Corgo. Os Bragançãos (ou Braganções) inclinam-se para D. Afonso Henriques e tornam-se decisivos até

D. Dinis.

Em tempo de D. Manuel, Trás-os-Montes é uma das seis comarcas do reino, percebida, pois, como sui generis, até hoje. A política de forais, póvoas e ‘vilas novas’ organiza e sedentariza populações; os castelos vão passando de mãos numa fronteira fluida. Alheios à guerra, galegos e portugueses misturam-se em Ruivães, Vilar de Perdizes, Rio de Onor, etc., conforme os numeramentos de 1530 e o tombo da demarcação fronteiriça de 1538. Propõe-se a divisão do couto misto da raia de Montalegre somente em 1859.

A violência dos elementos – terra dura (salvo nas veigas: Chaves e trechos da Terra Quente nordestina), clima contrastante –, é «pacificada pelo trabalho imperceptível e incansável do tempo», de que resulta o «carácter intocado, “natural”, da paisagem». Em síntese de Mattoso: «Trás-os-Montes é, pois, simultaneamente, a terra da natureza intacta, das grandes violências, da energia acumulada e do “tempo longo”.» (p. 7)

As dificuldades, que outras províncias ibéricas do século V também conheceram – o bispo Idácio de Chaves conta na sua Crónica, finda em 469, como a razia das invasões bárbaras, com os Vândalos dominando a Galiza, foi acompanhada de pestes e fome, dos humanos fazendo antropófagos –, criaram formas de resistência e solidariedade, além de variedades de uso comunitário agora extintas: o boi e forno do povo, coutos e vezeira (guarda do gado por todos).

A riqueza aurífera dos séculos I e II foi desaparecendo, e só a exploração do volfrâmio reanimou com a Segunda Guerra Mundial; outros minérios valem menos do que os cereais, o vinho, o azeite, a amêndoa, a castanha, os enchidos, as águas minerais, insuficientes para atrair ou reter populações, como não retiveram as indústrias da seda e linho, em Setecentos, nem as termas hispano-romanas e oitocentistas, e as muitas barragens do Douro (que sacrificaram povoações, além dos trabalhadores: ver as condições de vida destes, nos anos 50, em Telmo Ferraz, O Lodo e as Estrelas, 1960). A oliveira das baixas de Mirandela, a par de Freixo de Espada à Cinta (também com pão e vinho), é já memorada na Geografia d’Entre Douro e Minho e Trallosmontes (c. 1549), do Doutor João de Barros.

Entendemos melhor a região de Trallosmontes à luz das três condições na definição de cultura, segundo T. S. Eliot (Notas para a Definição de Cultura, Rio de Janeiro, 1965: 16): uma «estrutura orgânica» assente em classes sociais e transmissão hereditária; a especificidade geográfica, ou «regionalismo», desembocando em «culturais locais»; a religião, com seus cultos e devoções. «O principal canal de transmissão de cultura» (p. 43) é a família, conceito que salta facilmente as paredes de um lar para formas colectivas. Assim se explicam estudos continuados sobre o romanceiro; sobre a oratura em prosa; o teatro popular; sem esquecer o disperso cancioneiro de redondilha maior, a pedir balanço, confrontadas as quinhentas densas páginas do Cancioneiro Popular Transmontano e Alto-Duriense (1966), de Guilherme Felgueiras.

Sirva-nos o índice geral deste para entendermos, numa Europa que se pretende de regiões, esta pequena parcela. O quotidiano é de relação: com a múltipla natureza, os mundos animal e vegetal, entre galanteios e requebros, arrufos, chacota, «penas de amor», relação que fundamos em três núcleos essenciais: vida social e moral, incluindo-se, aqui, os costumes; vida material; linguagem.

Na vida social e moral, convergem bodas, baptizados, ritos fúnebres, demandas, entre outros eventos; com datas fixas, há cerimónias religiosas, festas, Entrudo, e houve o Galo do professor; constantes, não raro conjugando-se, são, por exemplo, a má-língua e o serão. Este associa transmissão em família e região. Estamos no seio da cultura intersocial.

Esta acrescenta uma componente instrumental, um saber-fazer, na passagem à vida material: além da cultura da terra (sentido literal de cultura) e suas técnicas, além de ofícios ou indústrias caseiras, somem-se adornos e trajes, alimentação, iluminação, etc. De tudo isto dá conta, miudamente, a leva de etnólogos, sociólogos e historiadores (também das mentalidades, da cultura, da comida). O estado de conservação seduz, para lá de paredes que ecoam “Entre quem é!”. Não menos actua a literatura, alargando o leque das potencialidades. Estas residem na linguagem, parcial repositório do que acabei de enumerar.

O que, no tocante às línguas – entidade donde manam linguagens (lá iremos) –, tem a região de diversidade, tem de unidade em matéria de religião. Responde ao voto final de Eliot, pois, «sem uma fé comum, todos os esforços para unir mais as nações, em cultura, não poderão produzir mais do que uma ilusão de unidade» (p. 82). Esta visão medieval vazou-se em catolicismo apostólico romano, jamais imune ao paganismo de rituais festejados pelos mais crentes, a par de crendices e bruxedos, de medicina popular combatida pela Igreja e Universidade desde o século XIII, de pactos com o Diabo e tentações da carne que arrepiam serafins. Veja-se como o cónego Ochoa, que dá título (2007) a A. M. Pires Cabral, desonra a filha do feitor Querubim, Gervásia. Aproveito a personagem Herculano para dizer como se reforça a palavra da rua, a atmosfera de merenda à lareira, e, por breves histórias interpoladas, se oferece um quadro aldeão disputado entre igreja e taberna. Citei quatro lugares de eleição, em que a igreja não tem primazia.

É extraordinário, entretanto, ver reunidas família, região e religião em dois núcleos: nos santuários, ermidas e ex-votos que pontuam a geografia; e na figura do padre-escritor, quase sempre obscuros abades vivendo do seu passal ou da côngrua. Novos tempos alteraram este imaginário oitocentesco.

Santuários, ermidas e nichos devotos vêm do tempo de Panóias romanizada, coetâneos de pontes e vias romanas – reformadas em finais de Setecentos, com o provimento de fontes e novas estradas reais –, antes de chegarem os caminhos de Santiago, com que a região se transladava em romarias, feiras francas (de um ou dois dias por mês, quando não de três, na dos Santos, em Torre de Dona Chama; eram, sobretudo, de gado), e se ligava à Europa. O comboio, hesitante, veio e foi-se entre 1906 e 1992. Modernas vias, por ar e terra, não fixam gente.

Entretanto, outros cultos primitivos sobrevêm, documentados nos berrões/berroas, associados ao pelourinho. Seria preciso estudar castros, antas, dólmenes, etc., face ao êxito das antigas festas do solstício de Inverno, agora recuperadas – na antropologia, na geografia, na engenharia e arquitectura, no cinema, no documentário, na ficção, nas artes plásticas, na caricatura, na fotografia. Padres houve que foram além de curas de almas e melhor organizam um imaginário, em que o santo-e-senha é Francisco Manuel Alves: se os 11 volumes (desde 2002, com um décimo segundo de índices) das Memórias Arqueológico-Históricas do Distrito de Bragança (1909-1947) realçam, no título, Arqueologia e História, não esquecem Bibliografia, Toponímia e demais domínios da investigação local, incluindo um par em que a região a todas sobreleva – na Língua e suas falas, e na Literatura Oral e Tradicional.

Onde buscar, entretanto, o peso ou o sentido de região à luz do estrato cultural que é a literatura, cujo universo referencial fugidiamente descrevi? Na linguagem. Terra de duas línguas oficiais, português e mirandês, tem registados, quando não pronunciados, os falares barrosão, sendinês, guadramilês e rionorês, ou riodonorense. Quer-se mais diversidade linguística?

Ora, é face à regra e sua reversão, à pronúncia oblíqua e seu registo, ao novidoso vocábulo, servindo um olhar de alturas e abismos a verter, que esteticamente se perfila e transmite um conjunto particular de imagens em que nos solidarizamos, seja neste chão ou nas comunidades deslocadas. O nosso mundo é «em qualquer Brasil», disse Torga, em conferência de 1948 sobre “Teixeira de Pascoaes”: «Nascemos aqui, mas nascemos desterrados, reais ou potenciais, e sempre com parte do sangue no exílio. Todos temos um irmão, um filho, um primo ou a família inteira em qualquer Brasil.» Nessa conferência, “Trás-os-Montes no Brasil”, lida no Centro Transmontano de São Paulo e no do Rio, em 14 e 16-VIII-1954 – onde surge o célebre «O universal é o local sem paredes» –, é um paradoxo notável afirmar que a «realidade sem muros», que eu traduzo em região da cultura (e, nela, de uma literatura peculiar), realidade paralela a «qualquer Brasil», era a região com mais muros e muretes: Trás-os-Montes...

História, Geografia e uma singular Cultura sobreviva (nos idiomas e suas variações, numa antropologia de quotidiano resistente e solidário) trazem identidade a um território que se prova voltado para o mundo e, desde logo, para Espanha. A emigração dos anos 60 foi uma tábua de salvação; mas quase 50 anos de democracia são mais do que 48 de Estado Novo e as estatísticas mostram que, entre 1960 e 2021, os 34 concelhos de Trás-os-Montes e Alto Douro (na desejada regionalização, falaremos em 40) passaram de 692 029 habitantes para 384 410, seja, de 7, 82% para 3, 74% do todo nacional, quando representam mais de dez por cento dos municípios. Nas eleições legislativas de 1976, Bragança elegeu cinco deputados; agora, elege três; Vila Real veio de sete para cinco. Seja, perderam-se quatro deputados, e as respectivas distritais não parecem preocupadas.

Deixando de lado a ladainha dos serviços públicos extintos ou subtraídos; considerada, histórica e culturalmente, a singularidade de uma região objectivamente abandonada pelos sucessivos poderes e suas promessas ocas, é sensato concluir que as médias cidades da região provaram já uma invejável capacidade de governo, desde o ensino superior à segurança e qualidade de vida sustentável, em que Bragança é modelar, em termos europeus.

Dói, todavia, que os responsáveis adiem o cumprimento da Constituição, e que a Assembleia da República, de posse de um documento fundamental do IPPS-ICTE (2019) sobre a organização do Estado e as competências dos municípios, não leia sabiamente os resultados: «A maioria dos autarcas quer a regionalização e órgãos diretamente eleitos nas regiões e áreas metropolitanas, mas não nas CIM». Percentagens: criar regiões no curto prazo defendem 77 por cento dos municípios; regiões administrativas com órgãos próprios eleitos directamente: 84 por cento. «A regionalização é uma ambição transpartidária», com 100 por cento de votos da CDU, 85 por cento do PS, 67 por cento do PSD e CDS. À pergunta se as regiões devem ser criadas no curto prazo, o litoral diz que sim (75 por cento) e o interior sobe aos 80 por cento. Perante este quadro, não se avança porquê?

Fiz-me leitor constante, ultimamente, do programa eleitoral do PS para 2022-2026. Na 3.ª parte, “Desafio estratégico: desigualdades”, o capítulo V, “Coesão territorial”, promete: «Tornar o território mais coeso, mais inclusivo e mais competitivo; Corrigir as assimetrias territoriais; Atrair investimento para o interior; Diversificar e qualificar o tecido produtivo; […]; Promover a fixação de pessoas nos territórios do interior; Afirmar os territórios fronteiriços; Assegurar serviços de proximidade.» Reconhecido um «estatuto especial», garante «infraestruturas rodoviárias de proximidade, nomeadamente no âmbito do PRR», e promove «a mobilidade transfronteiriça» com «serviços de transporte a pedido», sem jamais falar da indispensável ferrovia. Não se vê como coadunar isto com a seguinte entrada: «Implementar com Espanha a Estratégia Comum de Desenvolvimento Transfronteiriço, no âmbito do próximo Quadro Financeiro Plurianual, reposicionando o interior de Portugal como espaço de uma nova centralidade ibérica.» Face às perdas em 49 anos de democracia, como reposicionar o Interior Norte enquanto centralidade ibérica sem a experiência da regionalização, que maiorias tão claras defendem? Porquê tresler a Constituição e travestir a regionalização em descentralização sem fim à vista?

 

*Universidade de Lisboa. Escritor.