quarta-feira, 15 de fevereiro de 2023

Butelo com Casulas e Carnaval dos Caretos de regresso a Bragança (Retirado de www.evasoes.pt)

Em fevereiro, o centro histórico brigantino junta dois eventos emblemáticos do Nordeste Transmontano.

Entre os dias 17 e 21 de fevereiro, o Município de Bragança vai acolher o Festival do Butelo e das Casulas e o Carnaval dos Caretos. Em simultâneo, entre os dias 11 e 26 de fevereiro, decorre a Semana Gastronómica do Butelo e da Casulas, que conta com 27 restaurantes aderentes.

Com o intuito de valorizar a gastronomia local, as festividades arrancam no dia 17, pelas 14 horas, no Auditório Paulo Quintela, com a sessão pública de apresentação da candidatura da capital das Terras de Trás-os-Montes à Rede de Cidades Criativas da Unesco, na categoria Gastronomia.

São 48 os expositores que vão estar presentes no Festival do Butelo e das Casulas. Fumeiro, artesanato e outros produtos regionais, como o mel, vão ser comercializados ao longo do evento.

A Praça Camões será o epicentro da mostra, acolhendo também demonstrações gastronómicas com alguns chefs. No domingo 19, será Flor Bonet, do restaurante espanhol Palácio Cañedo, a brilhar. Segunda 20 é a vez de Hélio Loureiro, deixando para terça 21 Óscar Geadas, detentor de uma estrela Michelin. Dia 20 contará ainda com um concurso para eleger o melhor pastel Brigantino. Com degustação aberta ao público, qualquer pessoa vai poder saborear o doce confecionado com produtos locais, como o mel, a castanha e o azeite.

Os mais novos contam com o workshop “Mãos na Massa” e com a atividade “Butelo de Histórias”, ambos no sábado, 18 de fevereiro, na Praça Camões. É também no sábado 18, pelas 14.30 horas, que se dá início ao Carnaval dos Caretos, com uma apresentação encenada do livro “Os reis dos caretos”, de autoria de António Pinelo Tiza.

Os caretos, nascidos das entranhas do mundo rural, tomam de assalto a cidade, trazendo consigo um património cultural e histórico. O objetivo é valorizar e promover as tradições, de forma que habitantes e visitantes entrem em contacto direto com este mundo ancestral.

A partir das 17 horas decorre o tradicional desfile pelas ruas da zona histórica de Bragança, que conta não só com os caretos e outros mascarados provenientes de Portugal e Espanha, mas também com a presença de alunos dos agrupamentos de escolas do concelho e de utentes de várias instituições particulares de solidariedade social.

No fim do desfile, terá lugar a tradicional Queima do Mascareto, uma figura com sete metros de altura. A cidadela do Castelo de Bragança será palco do espetáculo cénico.

O Carnaval dos Caretos despede-se ia 22 de fevereiro, com o Diabo, a Morte e a Censura a saírem à rua para recriar uma tradição secular.

Escrito por Mariana Marcelino (09/02/2023)



sábado, 21 de janeiro de 2023

Parabéns Daniel Catalão!



 Excelente profissional, este transmontano, merece esta e outras homenagens.

Muitos e bons anos, com saúde e energia é o que nós desejamos Daniel.


Maria e Marcolino Cepeda 

Teresa Martins Marques, Não matarás! Romance de um crime - Lisboa, Gradiva, 2022

Por Rita Marnoto - Recensão publicada na Colóquio/Letras Nº 212 de 2023.

As duas palavras que Teresa Martins Marques (TMM) escolheu para título do seu livro afirmam-se como súmula metafórica do intrincado e sinistro ardil que conduziu ao assassínio de Aldo Moro, a 9 de Maio de 1978: Não matarás! Provêm do Êxodo (20: 13 da vulgata) e de um conjunto de versículos que consagra a aliança primordial entre Deus e o povo de Israel. O paralelismo entre o plano do divino e o plano do terreno é sustido pela ordem social da pólis e pelo sistema de valores a que deve obedecer, conforme plasmados nos Dez Mandamentos. Aliás, a lei hebraica distinguia-se de outros códigos do seu tempo por um entendimento muito avançado do que é a justiça: a punição devia ser adequada ao crime.

Passando para a Itália de Moro, este Não matarás vale como mandamento, constitucionalmente consagrado, de um estado cuja religião era o catolicismo, segundo os Patti Lateranensi, firmados entre Benito Mussolini e a Santa Sé em 1927 (revistos em 1984, etc.). Em 1978, o país era governado pelo Partido Democrata-Cristão, que tinha por presidente Aldo Moro, cabendo a Giulio Andreotti as responsabilidades de chefe do governo.

De modo instigante e sibilino, o repto fica lançado. As várias comissões de nomeação parlamentar, cujos relatórios TMM segue pari passu, nunca esclareceram cabalmente as circunstâncias em que Aldo Moro foi exterminado, e a Bíblia não era o livro das Brigate rosse.

O pano de fundo histórico do crime são os chamados anni di piombo, os anos de chumbo, ou seja, aquele período entre as décadas de 1970 e 1980 que deixou a sociedade italiana em carne viva. O piombo era o das armas que foram disparadas sobre políticos, magistrados, jornalistas, polícias, sindicalistas ou massas anónimas. Nas décadas de 1950 e de 1960, a Itália tinha vivido o seu milagre económico, mas a partir dos anos 70 o crescimento começou a abrandar, num país que descurara a organização do sector público. Foi nesse clima que nasceram dois terrorismos de sinal diferente, mas com muitas cumplicidades entre si, o terrorismo rosso e o terrorismo nero. Contudo, quando no final da década de 1970 a Guerra Fria atravessou um período menos crispado e as tensões internacionais se atenuaram, foi-se abrindo um espaço de diálogo entre os dois maiores partidos italianos, a Democracia-Cristã (38,7% dos votos nas eleições de 1976) e o Partido Comunista Italiano (34,5%). Político e católico de matriz conciliante e de visões largas, Aldo Moro era o grande obreiro do compromesso storico que eventualmente levaria à participação no governo do Partido Comunista Italiano.

O romance organiza-se em 41 pequenos capítulos, habilmente encadeados por uma estratégia narrativa que visa a captatio do/a leitor/a. A sequência dos factos confere à narrativa um ritmo empolgante, acentuando uma atmosfera indagadora que vai avolumando e associando, mais ou menos subtilmente, sucessivos entrechos. Termina com um último capítulo dedicado «Ao leitor» (mas também à leitora, dir-se-ia), que explana a elaboração do livro, numa dimensão metanarrativa.

Aflora à transparência, nesse último capítulo, a TMM estudiosa de literatura e cultura portuguesas, quando analisa algumas facetas da sua própria obra, classificando-a, muito justamente, como romance histórico. Não matarás! Romance de um crime integra-se num filão literário de grande actualidade, que encontra um dos seus antecedentes próximos, da parte italiana, na recente biografia de Mussolini escrita por Antonio Scurati e vencedora do prémio Strega.

Subjaz a este livro um trabalho ingente de pesquisa e cruzamento de fontes documentais, testemunhos e pistas, que não raro foram manipulados ou falseados. Um nó histórico tão devastador como o assassínio de Moro propeliu uma maré de ensaios críticos, documentários e controvérsias, materializada em milhares e milhares de páginas e horas de gravações. Para escrever este romance histórico, TMM cotejou todos esses materiais, guiada pelo empenho cívico de quem se propõe batalhar pela verdade. Daí resulta uma trama em que se cruzam interesses da banca, de sectores corruptos do Vaticano, de organizações criminosas italianas e de poderosas redes internacionais vinculadas ao pacto do Atlântico Norte e à Democracia-Cristã, tudo isso sob a capa das Brigate rosse. Nesse cenário, a ficção é a metáfora que vem iluminar vazios e incongruências.

Considere-se a reconstrução da geografia dos lugares onde Aldo Moro esteve sequestrado e foi assassinado. O cubículo de Via Montalcini (muitas vezes indicado como local de sequestro) não ofereceria, a um claustrofóbico como Moro, condições mínimas de sobrevivência, o que levou TMM a seguir as pistas que identificaram a sua transferência para uma casa no litoral do Lazio, aliás assinalada às autoridades, por Craxi, Prodi e outras eminentes figuras, como local do sequestro, mas nunca efectivamente inspeccionada. A partir daí, é criado um cenário de humilhações e ameaças, mas também de cumplicidades. Por sua vez, o corpo deixado no porta-bagagens do Renault 4 rosso, estacionado na Via Caetani, teria sido baleado, para TMM, em local não muito distante, uma garagem da Guardia di Finanza, entidade conivente com o crime. Os dois cabelos ruivos, um de 14, outro de 18 centímetros, que ficaram agarrados ao casaco escuro de Moro, são o rasto da ficção.

Há, de facto, várias alusões (Pietro di Donato, Paolo Cucchiarelli e outros) a uma jovem mulher de cabelos longos que participou no sequestro e da qual foi desenhado um retrato robô, porém loura. Desse vulto nebuloso e dos dois cabelos ruivos, TMM faz sair o fio condutor da narrativa romanesca, ou seja, a personagem à qual atribui o nome de guerra Anna, e na qual se poderá de imediato reconhecer aquele perfil de mulher injustiçada, inteligente e combativa, saída das páginas do seu primeiro romance, A mulher que venceu Don Juan.

Numa obra em que inesperadas mudanças de voz e de ponto de vista mimam as dissonâncias das mediações da história, Anna, personagem de ficção dotada de várias faces e de várias máscaras, loura e ruiva, é o corpo em ferida dessa história. A infância de violência e pobreza numa Matera ancestral, e o modo como conseguiu chegar a Roma e foi cooptada por monsenhor Paolo Martelli para serviços sexuais e de transporte de dinheiro, não lhe turvaram a mente, bem pelo contrário. A personagem faz-se espelho de uma Itália que, apesar de desconjuntada, não denegou uma consciência cívica e ética. A infelicidade de nascer mulher, de ter sido estuprada e de logo em criança ter descoberto como se envenena um violador ensinaram-na a dizer reiteradamente: «Faço o que a minha consciência me mandar fazer» (pp. 41, 64). Através dela, TMM mostra como a mais aviltada das criaturas pode ser a consciência mais lúcida daquele covo de terroristas, a ponto de se tornar cúmplice de Aldo Moro, numa tentativa (falhada) de combater o sistema a partir de dentro. Anna é por isso o lugar diegético privilegiado da articulação entre história e ficção.

Personagem de charneira por excelência, é também o elo de ligação entre Itália e Portugal, o país para onde foge e onde passará o tempo mais feliz da sua vida. A cidade na qual o romance é escrito, Lisboa, é a mesma para onde TMM a traz, a seguir ao crime. Quando os terroristas levaram Aldo Moro para a garagem da Guardia de Finanza em que foi baleado com uma corona de disparos à volta do coração, assinatura de um killer calabrês, Anna ia ao seu lado, disfarçada com uma cabeleira ruiva. Mas os seus cabelos, louros ou ruivos, naturais ou falsos que sejam, não são apenas os do relatório de autópsia de Moro. Os cabelos deixados no casaco de Moro são da mesma matéria daquele cabelo loiro que denunciou a Condessa Luísa, no Mistério da Estrada de Sintra. Essa matéria é a metáfora romanesca que constrói a história.



Rita Marnoto

Escrito segundo o antigo acordo.


terça-feira, 27 de dezembro de 2022

Feliz Ano Novo!


Tão simples!
Tão complexo!
Este ano não sei o que será.
Talvez um pequeno conto
Talvez um romance ao Deus dará

Que seja o que cada um para si desejar
Com amor, saúde e paz e um dinheirinho pra gastar...
Ou um ano de férias num país tropical

Os desejos a cada um pertencem
Cada um sabe os seus
Que se cumpram é a minha vontade

Sempre com aqueles que se amam se deve estar
Aprender a perdoar, perdoando-nos
Esquecer o que não se consegue
Reviver o melhor de 2022 sem viver no passado
O futuro é amanhã, é sempre em frente.

Feliz Ano de 2023! 

Maria Cepeda

sábado, 24 de dezembro de 2022

FELIZ NATAL! (Com saúde, paz e família.)

É Natal!
Recebemo-lo com o carinho devido ao nascimento de um bebé que há 2000 e tal anos nos acompanha, quer acreditemos ou não. 
Vivemos tempos difíceis e inseguros. Não sabemos o que acontecerá amanhã.
Apenas nos compete viver o melhor possível sem descurar os nossos deveres com quem precisa.
É Natal. 
Que todos possam estar com quem amam.

Bom Natal!



      Maria Cepeda
 

segunda-feira, 19 de dezembro de 2022

Para matar saudades de tempos que já não voltam...

Jorge Morais, Professor recém reformado, da Escola Superior de Educação, do Instituto Politécnico de Bragança, amigo de há muitos anos, enviou-nos esta belíssima fotografia do antigo Mercado da Praça Camões. 
Convém dizer que é um fotógrafo de extrema sensibilidade. Consegue sempre as melhores perspectivas, onde depressa nos localizamos e perdemos em silenciosa reflexão.
Obrigado Jorge, Continua a tirar fotografias de todos nós, de todos os lugares a que pertencemos. Pedimos-te, por favor, que faças uma exposição de algumas das tuas fotografias. 

Aqui deixamos, esperançosamente, a PRIMEIRA. 
Parabéns Jorge.

Maria e Marcolino Cepeda



   Maria Cepeda

quarta-feira, 7 de dezembro de 2022

ENTREVISTA – GUARDA: TERESA MARTINS MARQUES (Esta entrevista foi-me enviada por Teresa Martins Marques, grande e querida amiga, excelente escritora, mulher com uma enorme capacidade de trabalho, pouco tempo antes do lançamento do seu último livro)



Autora de dois estudos relevantes sobre José Rodrigues Miguéis (fruto da dissertação de mestrado) e David Mourão-Ferreira (resultado de uma tese de doutoramento), um romance que perspetiva a síndrome de donjuanismo (A Mulher que Venceu Don Juan), uma biografia de Amadeu Ferreira, vários contos e múltiplos ensaios sobre grandes nomes da Literatura Portuguesa, a investigadora, conferencista e escritora Teresa Martins Marques é também uma inconformada ativista cultural. Concluiu há uns meses o mandato de Presidente do PEN Clube Português (2019-2022): eis o pretexto para conhecer um pouco mais esta personalidade com raízes na freguesia de S. Pedro do Jarmelo.

PV. - O seu percurso biográfico deixa entrever uma mulher de cultura, de ideais e de causas. Quem teve o privilégio de interagir consigo retém a imagem de uma personalidade forte, determinada, solidária, com espírito de missão, regida por um conjunto de princípios que definem as suas ações culturais e intervenções públicas.

Revê-se neste retrato sumário?

Agradeço-lhe a generosidade do retrato, mas ele favorece-me muito! Diria que tento arduamente desbravar alguns desses caminhos, mas quantas vezes me deparo com a minha incapacidade para atingir tais objectivos.

PV. – Entre 2019 e 2022, exerceu o cargo de Presidente do PEN Clube Português. Que balanço faz do mandato que concluiu recentemente?

Penso poder dizer que o balanço é bastante positivo, porque entre 2019 e 2022 a direcção a que presidi aprovou a entrada de 131 novos associados, após análise dos respectivos currículos literários. Também no plano internacional o PEN Clube Português se distinguiu celebrando o Centenário com a publicação de um volume de 630 páginas que organizei com o título OS DIAS DA PESTE (Gradiva, 2021), o qual reúne 272 autores de 58 países, que escreveram em português, inglês, espanhol e francês.

Neste conjunto de autores tive o gosto de incluir vários guardenses.

PV. – A Teresa tem presença ativa em páginas do Facebook. Partilha reflexões e artigos, lança desafios que visam a produção do conhecimento, questiona temas da sociedade atual, divulga eventos culturais, interage com quem pergunta ou comenta.

Aliás, o romance que publicou em 2014 teve a particularidade de ter sido dado a ler, nos anos 2012 e 2013, na referida rede social como uma narrativa seriada aos seus «seguidores» que, de algum modo, colaboraram, através das suas reações, na escrita do romance. Afinal, sempre há uma via possível para o bom uso das redes sociais?

As redes sociais são excelentes, se forem bem aproveitadas. Para responder com algum rigor, perguntei aos meus leitores do Facebook quais as características da minha página que mais apreciam. Aceitaram de imediato o repto e apontaram as seguintes: diversificação de conteúdos; tratamento inclusivo dos intervenientes; incentivo à pesquisa; colocação de questões que suscitam debate saudável. É este o caminho que desejo prosseguir.

PV. – Enquanto mulher apaixonada pela literatura e pelas ideias, de que lhe serve esse conhecimento no seu dia-a-dia? Ler, escrever, pensar, investigar, divulgar não serão práticas que a afastam da realidade da vida quotidiana, como se estivesse reclusa num mosteiro ou numa torre de marfim? Lida facilmente com os assuntos práticos, tais como gerir património, reclamar de um mau serviço prestado, preencher o IRS, ir ao supermercado, supervisionar a manutenção automóvel, agendar consultas médicas, executar as tarefas domésticas ou acionar um seguro?

Consegue conciliar esses dois mundos?

Considero-me uma pessoa polivalente. Sem esta característica dificilmente teria conseguido dirigir a organização do espólio de David Mourão-Ferreira, na Fundação Calouste Gulbenkian, tendo como resultado final do trabalho 33 metros de caixas, contendo milhares de documentos acondicionados, inventariados e classificados.

Durante sete anos foi necessário comer muito pó, carregar muitos quilos de papel, subindo e descendo de escadotes durante sete anos… Mais do que conciliar os dois mundos tento fundi-los, complementá-los. Deste trabalho resultou a tese de doutoramento de 800 páginas - biografia literária da obra davidiana. E tudo isto passa quase inconscientemente para a minha ficção em osmose. É à vida prática que vou buscar fonte de inspiração para o que escrevo.

PV. – Depois de uma parte significativa da sua vida dedicada ao estudo e à investigação, o que a impeliu a lançar-se na literatura de ficção? Que registos e pressupostos definem a sua voz literária?

Sempre escrevi ficção, embora a sua publicação não seja anterior a 2008. A minha “voz literária”, se é que tal existe, tenta recuperar o registo realista, criando personagens com as quais o leitor se identifica. E talvez por isso a minha escrita tem funcionado em tradução, encontrando eco nos leitores de diferentes níveis etários e sociais.

PV. – Pode explicar como encara a sua escrita de ensaísta e a sua escrita de ficcionista?

A minha escrita ensaísta decorre das necessidades académicas, mas nunca cedi ao jargão. As minhas teses - O Imaginário de Lisboa na Ficção Narrativa de José Rodrigues Miguéis e Clave de Sol – Chave de Sombra. Memória e Inquietude em David Mourão-Ferreira - foram ambas publicadas, com várias edições no caso de Miguéis, sem ter sido necessário adaptar a escrita a um público mais alargado. Entendo que a universidade tem obrigações culturais extra-muros e por isso recuso-me a escrever apenas para ser percebida pelos meus pares.

No que concerne à escrita ficcional, gosto de criar personagens populares, que interagem com outros meios, não raro criando registos humorísticos, mostrando a variedade do mundo dos nossos dias. O importante é não ceder a hermetismos pedantes, que fazem fugir os leitores a sete pés! A escrita pode ser límpida, mesmo quando os temas são duros. Gosto de mostrar as motivações, sobretudo quando desenho psicopatas e as respectivas vítimas. É para isso que serve o monólogo interior, o diário, que implicam reflexividade do sujeito. No fundo, tenho uma imensa curiosidade em eu mesma perceber e dar a perceber ao leitor os enigmas do ser humano.

PV. – Quem a segue no Facebook, sabe que a Teresa Martins Marques está a escrever – e já lá vão alguns anos de pesquisa e de preparação para atingir esse fim – um romance cujo enredo se baseia no sequestro e assassinato de Aldo Moro, em 1978, um episódio tremendo da recente história italiana: porque é que esse intelectual e político a marcou assim tanto? Que nova luz ou visão pretende trazer a este caso já sobejamente tratado por historiadores, jornalistas, escritores e realizadores de cinema?

A verdade do Caso Moro só agora começa a ser contada, 44 anos depois do crime. Os membros das Brigate Rosse contaram a “verità dicibile”, ou seja, carradas de mentiras com as quais reduziram as penas poupando os nomes dos mandantes. A Segunda Comissão Moro, cujos trabalhos decorreram entre 2014 e 2017, contribuiu para que a VERDADE começasse a surgir. Aldo Moro foi um estadista e um ser humano notabilíssimo que os corruptos do governo e da loja maçónica P2 quiseram abater, antes que fosse eleito Presidente da República, o que aconteceria com forte probabilidade, se não o tivessem assassinado. As Brigate Rosse não foram mais do que os idiotas úteis…

PV. – Passou parte da sua infância na aldeia dos Gagos, pertencente à freguesia de São Pedro do Jarmelo, e cursou o 3º ciclo de ensino na Guarda: que memórias gratas lhe ficaram desse tempo? De que é que, nesse período da sua vida, não tem saudades?