Nasceu em Bragança, na freguesia da sé. Que recordações guarda da sua meninice e juventude?
Bom, as minhas recordações são, naturalmente, muito boas e são muito boas porque Bragança, quando eu era menino, era uma terra muito diferente daquilo que é hoje. Não digo que hoje seja pior, é diferente. Desenvolveu-se, cresceu, as relações entre todas as pessoas da cidade são naturalmente mais longínquas e naquela altura Bragança era uma terra pequena em que toda a gente era muito próxima e independentemente dos estratos sociais havia de facto uma vivência muito forte, de grande ligação entre as pessoas.
Eu tive a felicidade de viver sempre na Rua Direita, a Rua Direita era o centro de Bragança, era a rua mais comercial de Bragança. Vejam bem, nestes anos todos, a volta que isto tudo levou! E tinha outra característica que era a de ser o núcleo onde toda a população estudantil da cidade se encontrava. O Liceu era junto à Sé, ainda todos nos lembramos disso. Havia o Liceu dos rapazes, o Liceu das raparigas e a escola Industrial era a meio da Rua Direita na entrada para a Rua dos Gatos e, portanto, a população estudantil vivia e frequentava aqueles dois quarteirões da Rua Direita.
A Escola Industrial era onde é hoje o Instituto Português da Juventude?
Era onde é hoje o IPJ, exactamente, e era, exactamente, aí que eu vivia em frente àquela viela que vai para a antiga Praça do Mercado. Sempre foi aí a minha casa. Depois, era na Rua Direita que se localizavam todas as livrarias e papelarias da cidade e, portanto, era onde todos os estudantes confluíam. Havia a livraria do senhor Mário Péricles, junto da viela que hoje se chama a viela do senhor José Machado. Dizem-me que eu aprendi a andar no balcão, da livraria do senhor Mário Péricles. Era a livraria da viúva do Geral da Assunção, em frente à minha casa, onde é hoje a casa do Benfica; um bocadinho mais abaixo a gráfica Transmontana e já na entrada para a viela que vai para a antiga Escola Industrial, portanto para a Rua dos Gatos, era ainda uma outra livraria de um senhor simpatiquíssimo que como era conhecido cá por Antoninho testa a arder e era, efectivamente, ali, o núcleo da vivência da juventude e da população escolar, e toda a gente se conhecia naquele grande ponto de encontro e por isso a minha vida, enquanto na escola primária, vinha de manhã para a escola da estação, a escola da estação era já praticamente fora da cidade, já era uma longa caminhada…
Com que sentimento encara a perda de todos esses itens de que falou, existentes na Rua Direita?
Eu encaro com um sentimento de alguma nostalgia, mas encaro também com um sentimento de acompanhar as realidades da evolução do mundo e das cidades. Acho que apesar de tudo há condições para fazer viver os centros das cidades, os centros históricos que hoje estão bastante desertificados e essas condições passam por variadíssimas iniciativas. Ainda não perdi a esperança de que havemos de ver, com resolução de várias questões que têm sido inibidoras, refluir população aos antigos centros de maior animação, porque à semelhança do que se tem passado noutras cidades por essa Europa fora, uma reconstrução de qualidade tem transformado essas zonas em zonas residenciais de muito bom nível.




