sábado, 6 de agosto de 2011

Esta semana entrevistamos Telmo Verdelho

Aqui está a 4ª entrevista. Conforme prometido, esta semana o nosso entrevistado é o Professor Doutor Telmo Verdelho, maior especialista português em lexicografia.

Agosto IV

O mês de agosto é, para mim, um mês muito especial. Foi nesse mês que nasceu o meu irmão Tojé, faleceu o meu pai e me casei. 
O meu irmão, apesar de nove anos mais velho do que eu, era o meu exemplo, o meu ídolo. O seu jeito descontraído de ser, sem nunca perder o sentido da responsabilidade, da família, mesmo quando foi mandado para Angola como combatente na guerra do Ultramar, fascinava-me. 
A morte do meu pai foi a minha primeira grande perda. Já lá vão vinte e quatro anos e ainda se me oprime o coração quando penso nele, no seu humor único, na sua forma carinhosa de nos tratar, na sua força tranquila... 
Foi neste mês, ainda, que me casei com a mulher que me acompanha em todas as lides da vida, há quase vinte e três anos, sem nunca desistir de nós, lutando contra todas as intempéries que nos calhou superar. 
Agosto, para além do acima descrito, traz-me, também, um sorriso divertido.
Teria eu três ou quatro anos, a tia Vitória, irmã da minha mãe, acabava de me dar banho. Enquanto foi buscar a toalha para me secar, ouvi, a subir a minha rua - Almirante Reis - a Banda Filarmónica dos Bombeiros a tocar muito afinada. Era a festa do São Bartolomeu e os músicos abriam o cortejo de gente que se dirigia à capela do Santo, no monte. 
Não tive outra atitude senão descer as escadas, completamente nu e descalço e seguir atrás da banda. E lá fui eu, feliz e contente, sem me importar pela triste figurinha que faria no meio da multidão.
Convém dizer que as bandas fascinam-me desde tenra idade. Sem ajuda de ninguém cheguei à capela e continuei a ouvir a música enquanto a banda tocou.
Silêncio... e agora? Sem música que me guiasse senti-me perdido e, a verdade, é que o estava verdadeiramente. Com a pouca idade que tinha não era capaz de voltar para casa.
Nesse meio tempo já os meus pais, tia e irmãos haviam corrido a cidade de lés a lés à minha procura. Como é óbvio, ninguém fazia ideia de onde eu estaria.
Dizem que "ao menino e ao borracho, põe Deus a mão por baixo" e assim foi. Uma cliente dos meus pais que tinham uma barraca de peixe, no antigo Mercado Municipal, reconheceu-me e, não vendo ninguém a quem eu pudesse estar entregue, pega em mim ao colo e leva-me. 
A minha mãe, enquanto os outros corriam todos os cantos de Bragança a saber de mim, mantinha-se à janela, olhar angustiado, à espera de um milagre que, às vezes, acontecem. Ao longe avistou a senhora comigo ao colo. Deu um grito e correu para a rua a fim de me tomar nos braços e agradecer à boa mulher que, tinha feito o favor de me trazer para casa, são e salvo.
Isso foi o que me contaram todos, mãe, pai, tia e irmãos, ao longo da minha infância, em todos os "agostos" de São Bartolomeu.
Não tenho nenhuma memória consciente do facto mas, quando chega o mês de agosto, recordo-me deste episódio e sorrio.
Realmente, a música das bandas filarmónicas mexe comigo.

Marcolino Cepeda

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Agosto III

Era verão e eu era menina muito pequenina.
O sol aquecia inclemente a terra árida, seca, quase estéril.
A menina que fui, brincava, sentada no meio do caminho, fazendo montinhos de pó.
Observava o que à sua volta se passava, serenamente... até que um sapo, carregado de ovos, corria no meio do verde das hortas.
De um ápice, ágil como uma gazela, corria atrás do pobre sapo que deixava metade dos ovos para trás.
Em simultâneo, um saltão cometia a imprudência de passar por ali. O sapo fugia o saltão era agarrado e acabava sem as pernas de saltar depois de muito sofrer às mãos da menina, como besta de carga das pequenas partículas de pó que ela tinha juntado no meio do caminho.
A mãe chamava e... Ah! Já vamos embora? Eu não brinquei nada mãe!
E a menina pequenina pegava na mão estendida e seguia, sentindo desta vez um calor diferente, mais cálido, mais terno.
Anda filha, vamos que já é tarde. Estou cansada mãe. A mulher pega na filha ao colo e vai, quase descalça, leve como uma borboleta. A filha dorme.
O verão mudou muito desde então.

Mara Cepeda

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Entrevista com Francisco Terroso Cepeda

A esta entrevista demos-lhe o nome: “À procura do cerne”.

Nasceu em Bragança, na freguesia de Santa Maria. Que recordações guarda da sua meninice, da sua juventude?
Excelentes recordações. Quer das actividades desenvolvidas pelo saudoso Padre Miguel como: jogos de futebol, Pardais da Montanha, construção de presépios na Igreja de S. Vicente, etc. Quer de iniciativas próprias da idade e do tempo, como as cascatas de S. João que se faziam na rua em busca de alguns tostões para comprar rebuçados e os “desenhos animados dos jornais” que passavam numa caixa de sapatos iluminados por uma vela…Enfim, uns tempos felizes. Vivi em Santa Maria durante os primeiros anos. Ainda muito novo fui residir para a Freguesia da Sé.

Mas os amigos ficaram em Santa Maria?
É verdade, ficaram os amigos mas continuaram as amizades. Outras surgiram na Freguesia da Sé, muitas delas para toda a vida.

Onde residiu na freguesia de Santa Maria?
Em frente à igreja de S. Vicente, numa casa que infelizmente já só tem fachada, mesmo ao lado do Museu Abade de Baçal.

Sente, com certeza, alguma nostalgia por a casa onde viveu conservar apenas a fachada, sendo um monte de escombros no seu interior?
 É triste obviamente. Tenho pena e também algum receio que mais dia, menos dia, a própria fachada caia ou seja derrubada para dar lugar a uma “nova casa”. No mundo em que vivemos – e que ajudámos a formatar – a pressão económica não se compadece com emoções ou romantismos, por muito que tal nos custe aceitar.

Olha com os mesmos olhos para a zona degradada de Bragança?
Tenho muita pena da degradação das casas da zona histórica da minha terra. Repare numa coisa: a mais-valia de Bragança é exactamente a sua zona histórica e, sobretudo, a denominada “vila” entre muralhas. Quem nos visita pode ficar mais ou menos impressionado com as avenidas novas, os túneis, as passagens superiores, etc. E ainda bem que as temos, já que são instrumentos de bem-estar e qualidade de vida dos residentes. Mas, em maior ou menor quantidade, existem em todas as cidades. O que não existe em qualquer outra é aquele núcleo histórico, peça preciosa do património cultural da humanidade. Temos de arranjar engenho e arte para tirar partido dessa mais-valia, o que passa, numa primeira fase, por estancar a saída de moradores dessa zona, através de incentivos fiscais e/ou financeiros para recuperação de casas. É imperioso dar vida àquela zona, acabando com a sua lenta e penosa agonia.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Agosto II

Aziago começou este oitavo mês. Não sei se assim seguirá, tudo leva a crer que muitas mais "novidades" nos chegarão através de ministros e secretários de estado.
Os portugueses continuam, com o seu bom temperamento, de sorriso no rosto, mais amarelo talvez, mas sempre sorriso.
Os que estão em férias, tentam que elas se prolonguem o mais possível.
Se amanhã é outro dia, vou fingir que ainda é noite.
Vou prá praia mesmo que chova.
Vou dançar até que doa. O arraial da festa da minha aldeia é o melhor do mundo...
Vou aproveitar os amigos e a família.
Aproveitar para visitar os museus, ver as novidades da minha terra... vou, simplesmente esquecer que a volta ao trabalho, de que gosto ou não, está tão próxima.
Amanhã já vou embora.
Que tristeza no olhar.
Mulher, vamos lá ajeitar a mala, compra o que puderes comprar mas, cuidado que o dinheiro não é muito.
Que será do amanhã, do amanhã que quer dizer futuro, nosso e dos nossos filhos?
Mulher, que será dos nossos pais?
Somos saltimbancos modernos, mas saltimbancos.
Para Lisboa, Porto, Aveiro, Coimbra, Algarve, Alentejo... tanto Trás-os-Montes por tanto lado!
Tanto Trás-os-Montes por desbravar.

Mara Cepeda

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Vila Praia de Âncora

Não. Não tem nada a ver com Trás-os-Montes. É Minho, concelho de Caminha, como é do conhecimento geral. 
Falamos desta localidade porque aqui nos encontramos a passar uns dias de descanso. 
Aqui conseguimos relaxar, sem grandes atropelos, muito vento "as famosas nortadas", e algum sol.
Hoje foi um dia excelente. Não gostamos particularmente de nos estender na areia para "torrar". No entanto, o mar exerce um fascínio que não se explica e, andar à beira mar, depura a alma. 
Aproxima-se o dia de regressar ao Nordeste e preparamo-nos para abraçar o imenso sol que tem tisnado as nossas gentes ao longo dos séculos.
Uma vez lá, irei, com certeza, retemperar o coração à belíssima paisagem da minha aldeia, Brito de Baixo, onde sinto pertencer desde tempos ancestrais. 
As ligações afectivas com as pessoas são ténues. Não vivi ali tempo suficiente para que me pudesse afeiçoar, no entanto, desde o momento de avistar, do alto da serra, descendo até quase ao rio, o meu cérebro transborda de sensações únicas, primitivas... 
Sinto-me como se pertencesse àquela verde paisagem, de pequenos montes, pequenos vales, pequenas ravinas, salpicada, aqui e ali, por alguns aglomerados habitacionais, donde sobressai a capela da Senhora da Saúde.

Mara Cepeda
     

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Agosto

Começou mal este mês de agosto. Chuvoso, escuro, aziago. Esperemos que seja de bom augúrio e que, a partir de agora, ele venha repleto de sol e calor.
Sol é sinal de vida, de luz... permite sonhos mais bonitos e convida à positividade. 
A situação do país tem-nos apoquentado todos os dias e, mais do que isso, mexe-nos nos bolsos, descaradamente, sem escrúpulos nenhuns.
Aliviar destas preocupações, tão patentes em todos nós, é o que desejamos e, no entanto, falo por mim, não consigo. 
Que venham, ao menos, o sol e o calor, se possível, banhados pelo mar azul/verde, pelo rio límpido, pela montanha imponente, pela natureza serena, pelo sossego das nossas casas, pela cervejinha com os amigos...
Enfim... que venha um verão a sério. Nós merecemos, mesmo que alguns de nós estejam ainda, trabalhando e, fiquem cheios de inveja por não poderem estar "lá fora", aproveitando o que de melhor tem este país: o clima e o povo.

Continuamos a pedir colaboração e novas ideias. Venha daí!