domingo, 30 de junho de 2024

...24, 25, 26... de Abril (Publicado, na coletânea "Palavras de Liberdade 50 Anos de Abril)


Já lá vão cinquenta anos desde a Revolução dos Cravos. Parece que foi ontem o despertar para este novo país, com as suas gentes, os seus usos e costumes, as suas crenças e descrenças… A Liberdade e a Esperança.

1971, tinha eu dezasseis anos, aluno da Escola Industrial e Comercial, descobri o boletim “Presença”, de que fui leitor e colaborador assíduo e fiel durante os três anos seguintes. Esse foi o meu despertar.

2 de abril de 1972. Fazia parte do grupo de teatro da Escola Industrial e Comercial de Bragança. Nesse dia, apresentávamos a peça “Mar” de Miguel Torga. A encenação coube ao professor Fernando Pires e o cenário esteve a cargo do Dr. António Ferra. Foi um belo espetáculo, a sala estava cheia e no final, como tudo tinha corrido de feição, fomos todos, menos os professores, comemorar para o circuito turístico. Ríamos, cantávamos e falávamos alto. Estávamos felizes. De repente, apareceu a Polícia que nos levou para a esquadra. Alguém avisou o professor Fernando Pires que, rapidamente foi saber de nós e explicou a situação. Fomos alertados: “Se voltar a acontecer, as coisas serão diferentes.” Depois disso mandaram-nos para casa. Nesse dia juntei mais um tijolo à minha, ainda débil, consciência política.

            1973, eu, o Teófilo, o Manuel de Jesus e o Lino, jovens de dezassete anos, decidimos dar largas ao nosso descontentamento contra Salazar na avenida do Sabor. O Manuel, com um grãozinho na asa, assim como todos nós, deitou-se no muro e adormeceu tão profundamente que nada o poderia acordar. Lá ficou até ao raiar do dia. Foi a sua sorte. Nós continuámos em grande algazarra. Apareceu a polícia que nos levou para a esquadra. Julgo que nem repararam no Manuel, placidamente adormecido. Lá chegados, fomos sujeitos a interrogatório, assinámos o depoimento e fomos avisados de que, da próxima vez, seríamos presos. Deste episódio resultou o regresso do Teófilo para Angola onde se encontravam os seus pais.   

O jornal “Mensageiro de Bragança” era dirigido pelo Padre Manuel Sampaio. Da lista de colaboradores fazíamos parte, eu, Teófilo Vaz, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues e Jorge Morais, entre outros. Certo dia, fui chamado pelo diretor. Precisava de falar comigo. Havia recebido ordens do Senhor Bispo no sentido de prescindir da minha colaboração no jornal. “Este garoto não escreve nem mais uma palavra para este jornal.” Fiquei, como é natural, triste. O Padre Sampaio olhou para mim e perguntou-me: “E se escrevesses com um pseudónimo?” Perfeitamente estupefacto aceitei e passei a ser José Valverde e Bernardo Faria.

Há coisas que decididamente a memória não esquece. Costumávamos juntar-nos em casa do Zé Manuel onde falávamos de política e ouvíamos música proibida: Adriano Correia de Oliveira, Zeca Afonso, Sérgio Godinho, José Mário Branco…

Enquanto estudantes, durante o verão de 1973, eu, o Malan, o Dias, o Buiça, o Carlos, o Eurico e outros, trabalhávamos na apanha e tratamento do lúpulo. Era um trabalho árduo, feito em pleno verão, com muito calor. Resolvi agitar as águas convencendo todos os trabalhadores a fazermos greve por nos sentirmos mal pagos. Unanimemente aderiram à greve que se prolongou das oito da manhã até às vinte e duas horas. A verdade é que eu já estava muito preocupado, a pensar no que poderia acontecer se o responsável pela LUPULEX decidisse chamar a PIDE e a polícia o que, felizmente, não aconteceu. O patrão havia perdido a esperança de que a greve acabasse e, tendo prazos a cumprir, decidiu falar com os grevistas. Correu tudo bem e foram atendidas as nossas reivindicações. Foi, sem dúvida, uma grande vitória. 

Li muito. Livros absolutamente proibidos, que ainda hoje se encontram na minha biblioteca: Karl Marx, Lenine, Mao Tsé-Tung, António Sérgio e muitos outros. Alguns adquiri-os na livraria Mário Péricles, clandestinamente.   

Às leituras que fiz, acrescento as conversas que mantive com muitos amigos: Manuel Rodrigues (Calouste Gulbenkian), Manuel Gomes (professor na escola Industrial e Comercial). Também com o Victor Cordeiro mantive conversas muito interessantes sobre o que se passava no ultramar e em Portugal.

Era, ainda, em casa do Manuel Gomes, que aos sábados à noite, ouvíamos, em surdina, a Rádio Argel. Muitas vezes, rua abaixo, rua acima, ouvíamos os passos. Desligávamos o rádio e aguardávamos que se fosse embora quem por ali andasse.

Um amigo do partido comunista enviou-me para casa, o jornal “A voz do Povo”. Assustei-me. Não por mim, mas pela minha família. Tomei consciência do perigo em que os estava a colocar. Sim. Podiam prender-nos pelo simples facto de possuirmos este jornal ou outro do mesmo género. Pedi-lhe que não me enviasse mais jornais.

Um ano antes da revolução, eu e o Malan decidimos que não faríamos o teste da disciplina de Educação Moral e Religiosa, na escola do Magistério Primário, marcada pelo padre que lecionava a disciplina. Disso o avisámos e ele ficou muito irritado. Note-se que não era obrigatória e não contava para a nota final. Foi, obviamente, um ato de rebeldia. O que me fez espécie foi a atitude do professor que, depois do 25 de Abril, sempre que por ele passávamos, todo se desfazia em cumprimentos.

Estas vivências que aqui relato, todas acontecidas antes da Revolução, fizeram de mim quem sou. Sempre interveniente, sempre combativo, sempre interessado no que se passava e passa à minha volta.

Aconteceu o 25 De Abril. Vasco Lourenço, Otelo Saraiva de Carvalho, Salgueiro Maia, Melo Antunes cheios de ideais e cansados da guerra ultramarina deram “um murro” na mesa. “É agora ou nunca!” E foi, felizmente.

Durante algumas horas nada se soube. Nem rádio nem televisão noticiavam fosse o que fosse. Através da BBC de Londres, em casa do António Carneiro, soube o que se passava em Lisboa. A televisão portuguesa começou a transmitir pelas 16:00 ou 17:00 horas   

Para mim e, talvez, a maioria da população portuguesa, o 25 de Abril de 1974 foi uma explosão de alegria. Senti-me livre. Fomos manchete pelo mundo todo. A nossa revolução fora feita com cravos nos canos das espingardas, sem derramamento de sangue. Passámos de uma ditadura com quarenta e oito anos para uma democracia.

Acordar para a realidade dos tempos conturbados pós Revolução, foi o reaprender a caminhar. Nem tudo foi pacífico no arrumar da casa. Ainda hoje não é.

No tempo da euforia, realizou-se em Bragança, uma reunião no antigo Quartel dos Bombeiros. Fui um dos convidados como ilustre personalidade de Bragança, ao lado do Dr. Eduardo Carvalho e do Padre Manuel Pires. Senti-me orgulhoso pelo reconhecimento público por toda a atividade que, bem ou mal, desenvolvi em prol da liberdade. Desiludi-me pouco tempo depois quando passámos do “Nós” para o “Eu”. É preciso pensar no todo e agir em conformidade. Precisamos de acreditar mais em nós.

Portugal precisa de pessoas preparadas, com ideias, com uma visão de futuro que englobe todos os quadrantes do desenvolvimento, da cultura, da saúde, do ambiente, dos oceanos, da agricultura, etc. Devemos valorizar as nossas referências. Somos um país riquíssimo em bons exemplos.   

Os partidos políticos devem ser “reformulados, recriados, modificados” para que possam dar resposta aos problemas cada vez mais diversos e singulares que surgem pelos diferentes países que compõem o nosso mundo. Infante Dom Henrique (n. Porto, 4 de março de 1394 – Sagres, 13 de novembro de 1460), foi um infante português e a mais importante figura do início da era das descobertas. Almeida Garrett (n. Porto 1799, f. Lisboa 1854), grande impulsionador do teatro em Portugal, alertou-nos para a cultura. Mário Soares (n. Lisboa 1924, f. Lisboa 2017) deixou, inequivocamente, a sua marca no partido que ajudou a fundar. Como ele, também Sá Carneiro (n. Porto 1934, f. Camarate 1980) mostrou que as suas intenções visavam sempre o bem comum.

Independentemente da incompletude da Revolução de Abril está nas nossas mãos completá-la. Citando Pedro Soares dos Santos, CEO da Empresa Jerónimo Martins: “Portugal podia ser a Califórnia da Europa, mas está a caminho de se tornar a Cuba europeia, há falta de ambição, não se pensa o futuro e por isso não admira que os jovens fujam daqui.”

Assim, cinquenta anos depois desta Revolução dos Cravos, ainda não cumprida na totalidade, convém olhar agora, para daqui a vinte anos com olhos de ver, com a esperança de ver cumprida a liberdade que nos permita viver na Califórnia da Europa e não na Cuba europeia.  


Texto com algumas/pequenas alterações.

Marcolino Cepeda

sexta-feira, 28 de junho de 2024

Câmara de Bragança apresentou projeto de aeroporto regional

                                                                Publicado por António G. Rodrigues

O presidente da Câmara de Bragança, Paulo Xavier, apresentou ontem, na Assembleia Municipal, um estudo prévio para a transformação do aeródromo municipal em aeroporto regional. O plano diretor municipal daquela zona foi aprovado segunda-feira em reunião de Câmara.

“É um grande instrumento para o município, um anteprojeto do que poderá vir a acontecer.

Precisamos de apoios para esta obra tão importante, de um aeroporto à escala regional”, frisou o autarca.

A perspetiva é de um projeto em oito fases, com um custo total de cerca de 37, 7 milhões de euros (entre certificação e desenvolvimento da obra), que podem ir avançando à medida das necessidades. O objetivo é ter uma pista em funcionamento, permitindo acolher aviões com cerca de 150 passageiros, os mais usados na aviação comercial mundial.

As primeiras duas fases deverão avançar a partir de 2026, com um custo de cerca de 4,2 milhões de euros.

O projeto implica a construção de mais hangares, taxiway, um novo terminal, ampliação da pista, construção de novos acessos.

Retirado de www.mdb.pt

 

IPB vê mais dois doutoramentos aprovados

                                                                    Publicado por António G. Rodrigues 

    O Instituto Politécnico de Bragança (IPB) viu serem aprovados mais dois doutoramentos que tinha submetido à Agência de Avaliação e Acreditação do Ensino Superior (A3Es), que devem abrir já no próximo ano letivo.

    Segundo explicou o presidente do IPB ao Mensageiro, a A3Es aprovou os doutoramentos em Tecnologia de Biossistemas e em Tecnologia e Produtos de Base Natural, respetivamente.

    Estes dois juntam-se a um em Engenharia de Sistemas Inteligentes, que já tinha sido anteriormente aprovado, em abril deste ano.

  “Vamos agora ultimar o regulamento e os prazos de matrícula. Em setembro entrarão em funcionamento”, anunciou ao Mensageiro Orlando Rodrigues.

    De acordo com o presidente do IPB, “são três doutoramentos que assentam muito na investigação aplicada, com uma forte componente de internacionalização, no âmbito dos centros de investigação que têm classificação de excelente (CEDRI e CIMO), potenciando toda esta capacidade de investigação que tem vindo a ser desenvolvida”, frisou. 

Retirado de www.mdb.pt


Inaugurada fábrica de embalagens na zona industrial que arranca com 23 postos de trabalho


Publicado por Glória Lopes

    Foi inaugurada hoje em Bragança, a primeira fábrica em Portugal da C-Pack-Creative Packaging, uma empresa de embalagens de plástico para cosmética fundada há 20 anos no Brasil. A fábrica iniciou a produção com 23 trabalhadores, mas a meta é chegar aos 120 postos de trabalho, quando estiver a trabalhar em pleno, o que pode acontecer nos próximos dois anos.

    A fábrica está instalada em 10 lotes da zona industrial de Bragança implicou um investimento de 20 milhões euros, com financiamento do Compete-Portugal 2020, e foi construída em tempo recorde. A primeira pedra foi colocada em abril do ano passado. “Já estamos a trabalhar, mas hoje é a inauguração formal. Já temos equipa, com 23 pessoas, e produção. Até ao final do ano poderemos estar próximos dos 40 postos de trabalho, mas o projeto total terá cerca de 120, quando a fábrica estiver a trabalhar em pleno”, explicou Augusto Oliveira, o diretor da fábrica de Bragança. A maioria dos trabalhadores são portugueses e metade são da zona de Bragança.

    Augusto Oliveira referiu que a empresa “já tem clientes e está a fazer entregas para marcas espanholas, italianas, francesas e portuguesas”.

    Com grande esperança neste novo investimento está o presidente da câmara de Bragança, Paulo Xavier. “É estratégico para o concelho e para a região, gerando mais riqueza e mais empregabilidade”, indicou o autarca.

O município investiu cerca de 4,5 milhões de euros na ampliação da zona industrial e foram criados 46 novos lotes. “Vemos que há retorno, o que é bom. Já estão vendidos 30, o que significa que será feito investimento de 50 milhões. A curto prazo, com as novas empresas, serão criados 300 postos de trabalho que a nível de exportações pode significar 120 milhões de euros”, referiu o autarca.

Retirado de www.mdb.pt

quinta-feira, 27 de junho de 2024

CAMÕES EM CRUZEIRO LITERÁRIO (Publicado: Jornal Mensageiro de Bragança), escrito por José Mário Leite



No passado dia 7 de junho o nordestino Ernesto Rodrigues apresentou, na Feira do Livro de Lisboa o seu livro mais recente “Cruzeiro Literário” editado pelo açoriano Vamberto Freitas, nas insulares edições Letras Lavadas. À novela, que deu título à obra, o escritor mirandelense acrescentou cinco contos. O leitor é convidado a percorrer os bastidores da produção e investigação literária desmascarando as recorrentes e recíprocas (quando não auto) citações que enformam e sustentam alguns curricula e promovem quem, para, precisamente, para promover, se promove. Lembra a cantiga do Sérgio Godinho “famoso, por ser famoso”. Depois de passagem breve por cinema “série B” encontramo-nos sentados à mesa do freixenista Guerra Junqueiro ouvindo-o esgrimir literários argumentos com cura minhoto escandalizado com as prosas dos contemporâneos João de Deus (e não São João de Deus), e, principalmente do autor das Farpas, Ramalho Ortigão. Antes, porém, de franquear a entrada em singular Cruzeiro, já referido e que igualmente abordarei, de seguida, Ernesto transporta-nos para a quinhentista Lisboa de há cinco séculos atrás, dando-nos por companhia Camões, a celebrar o seu quingentésimo aniversário. O Poeta acaba de chegar do seu epopeico périplo pelo oriente de onde trouxe, débil saúde e longo poema épico arrumado em dez cantos e cento e oitenta e seis folhas. A Lisboa que o recebia era bem diversa da que, fervilhando de vida, de ostentação, riqueza, mordomias e atividade cultural, deixara, duas décadas atrás. A capital do reino, fustigada e dizimada pela peste, definhava, em recessão, com a moeda em desvalorizações contínuas e, dirigida por fraco rei que a forte gente enfraquecia, preparava-se para dar cumprimento aos pueris sonhos do monarca, empenhando o que tinha e não tinha para organizar a desgraçada aventura em África a caminho da perdição nas escaldantes areias de Alcácer Quibir. Doente, frágil, cansado, Luís Vaz vivia já e só, para a sua obra que, cumpridos os requisitos mínimos, começava a ser impressa nas oficinas de António Gonçalves. “Rolava a máquina deste pequeno mundo, e não sabia se tocaria outros mundos. Morresse ele à míngua, doravante desapossados dos decassílabos, ganhassem estes a fortuna dos séculos.” De Paris chegavam notícias da chacina dos luteranos que, aos milhares, atapetavam o Sena enquanto no Palácio dos Estaus o Santo Ofício reforçava o seu poder, controlando e penalizando qualquer heresia ou desvio, por bem pequeno que fosse, ao catecismo instituído e imposto. Assim no-lo relata o autor “O clero vingava, pois – e vingava-se. Há vinte anos, só os alfaiates e ourives tinham mais porta aberta do que os ministros de Deus.” Felizmente o poema obteve o necessário imprimatur, e depois de termos celebrado em 1972 (andá- vamos nós por Bragança) os quatro séculos da sua edição, preparamos os quinhentos anos do nascimento do épico poeta, sob a orientação da camoniana Rita Marnoto, com quem, com orgulho e honra, partilho um lugar nos órgãos sociais do PEN. A obra encerra com a novela policial “Cruzeiro Literário”, uma sátira ao mundo editorial de que destaco um trecho que reconhecendo caracterizar o ecossistema literário, assenta que nem uma luva aos bastidores políticos locais que tive oportunidade de conhecer num passado próximo: “Estes foram sempre uma tribo convivial, falando mal de todos, menos de quem estava ao lado (enquanto não virava costas), e isso soltava a tensão em que vivíamos, com ajuda de um cigarro e décimo copo.”


Retirado de www.mdb.pt 

segunda-feira, 24 de junho de 2024

JORGE MORAIS "PERSONAGENS" (2)


Foto do Carlinhos


Pensei numa série de fotos de figuras típicas, e, de modo geral, queridas e conhecidas na Bragança tradicional, lista que poderia encabeçar no vosso blog o nome "Personagens", por exemplo.  

Começaria por: Carlinhos da Sé. (Jorge Morais)


A ideia é excelente. Publicaremos com o maior prazer.  Agradecemos a tua criatividade e generosidade.

Maria e Marcolino Cepeda


JORGE MORAIS - "PERSONAGENS" (1)


Pequeno excerto da entrevista realizada ao Professor Jorge Morais, a que demos o nome de “À procura da Fotografia”.

Nasceu em Samões, concelho de Vila Flor. Como foi a sua infância?

Foi uma infância assim um bocado mexida, um bocado de ambulante. Nasci em Samões, Concelho de Vila Flor de facto e, posteriormente, fui parar com os meus pais, que eram pessoas simples, para as barragens de Bemposta e depois Picote que ofereciam, talvez, uma via económica e de trabalho aceitável para a altura, e que era uma alternativa ao trabalho do campo. A região era bastante pobre, havia limitações e lá fui atrás dos meus pais com a trouxa às costas, muito pequeno. Essas experiências foram interessantes porque de certa maneira me abriram horizontes de luz nomeadamente a partir do contacto com novas paisagens… Samões é ali perto do Vale da Vilariça, junto a Vila Flor, e muito diferente de Miranda, da Meseta Ibérica, chamemos-lhe assim, com planuras diferentes das montanhas e na verdade foram experiências interessantes ir de um lado para o outro e posteriormente para Bragança, quando acabei a quarta classe em Samões que, era o destino daqueles que tinham a sorte de poderem continuar os seus estudos para além da primária, como era então designada e muita gente vinha das vilas de todo o distrito para Bragança… então, aos dez anos, também vim para aqui, a minha infância foi uma infância, sei lá… essa qualidade de andar de um lado para o outro também me deu uma vontade, uma curiosidade, creio que ainda persiste, de olhar para as coisas, de olhar para o mundo, para aquilo que me rodeia, para as populações etc., etc.        

Maria Cepeda

DOURO: ÚNICO E IRREPETÍVEL


Nós somos um hiato no tempo. Neste micromundo a que pertencemos, criamos a nossa história e somos fruto da envolvência da época em que vivemos, do que a antecedeu e do que virá depois.

A história de Portugal é rica em acontecimentos e personagens. Demos novos mundos ao mundo e espalhámos a nossa cultura, as nossas tradições e a nossa “saudade” por todo o planeta. Este país já passou por muito, as suas gentes também.

Não sou historiador, nem disso aqui se trata. Sou, antes, um observador atento dos acontecimentos que presenciamos e sobre os quais reflectimos e tiramos conclusões. As nossas conclusões. Neste caso, as minhas.

Por tudo que tenho presenciado e vivido ao longo dos meus 67 anos, defendo a existência dos Governos Civis, não conforme legislado desde a sua implementação, mas revestidos de um forte teor regionalista. Porquê? Porque potenciam uma maior proximidade com a nossa terra, a nossa cultura, os nossos usos e costumes, a nossa gastronomia.

Cada vez mais se sente a influência do poder central que nos desenraíza, que nos atrai para os grandes centros urbanos, sejam eles em Portugal ou noutro país qualquer. Todos querem viver numa grande cidade, porque ali “a vida acontece”. É esta a ideia que, ao longo do tempo, tem vindo a impregnar-se na cultura dos nossos jovens. Mantemos a capacidade inata de ser cidadãos do mundo.

Somos governados por pessoas que não conhecem ou não querem conhecer, a realidade do país na sua interioridade, na sua singularidade, na sua riqueza patrimonial, urbanística, natural. Esse é o busílis da questão.

Nós, os que cá vivemos, somos únicos. Somos Douro. Somos Trás-os-Montes. Somos Nordeste. Somos Alto-Douro. Somos Norte. Temos vinhos e socalcos. Temos produtos de eleição.

Temos Quintas debruçadas sobre o rio porque é necessário vê-lo todos os dias, a toda a hora. Hotéis, modernos, conservadores, inovadores, todos de beleza ímpar, com maravilhosas piscinas e esplendorosas paisagens, são exemplo de qualidade e conforto.

Montes e montanhas. Desfiladeiros por onde correm alguns dos nossos rios, com as suas pequenas cascatas que nos transportam para a música que a natureza tão generosamente nos proporciona.

O rio Douro, que a intervenção do Homem tornou navegável, proporciona aos naturais e aos turistas que nos visitam, cruzeiros, passeios de barco cercados pelas arribas, desportos náuticos, paisagens soberbas onde as vinhas são o ex-libris desta riquíssima região.

É preciso “ensinar”, quem nos quer conhecer, a descobrir todos os segredos que as montanhas escondem, todos os recantos onde podemos ser felizes, todas as sombras dos rios, todos os raios de sol… sentir na boca a doçura das uvas e o veludo único do vinho. Ouvir o crocitar da Águia Imperial, tão ameaçada. E as nossas gentes, sempre disponíveis, sempre simpáticas.     

A província de Trás-os-Montes e Alto-Douro é, sem sombra de dúvida, o meu paraíso. O paraíso que gostaria de mostrar ao mundo inteiro.

Desgraçadamente, o país insiste, apenas, no desenvolvimento da faixa litorânea, qual “jangada de pedra” saramaguiana, que já se teria libertado se fosse geologicamente possível fazê-lo.

O foco dos nossos governantes anda perdido. Eles não conseguem abarcar o interior em todas as suas especificidades. A região norte-nordeste de Portugal é uma das mais ricas do país e, principalmente o nordeste, uma das mais esquecidas e abandonadas. É difícil lutar contra todas as adversidades entre as quais se inclui a desertificação.  

Temos, no entanto, entre outras potencialidades, a bacia hidrográfica do Douro, grande produtora de energia para o país. Contribuímos também, com o terceiro maior reservatório de água de Portugal, a Albufeira do Baixo Sabor.

A acrescentar ao acima exposto, o Alto-Douro Vinhateiro, faz-nos, há já vários anos, conhecidos por todo o mundo. Produz vinho há mais de dois mil anos e ali nasceu o famosíssimo Vinho do Porto. É a região vitivinícola demarcada mais antiga do mundo.

A paisagem que resultou dessa longa tradição é absolutamente assombrosa e reflecte, sem dúvida, a cultura destas gentes e a sua evolução tecnológica, social e económica. Esta resiliência é uma das características das gentes originárias desta região, que abarca os distritos de Bragança, Vila Real, Viseu, Guarda, Porto…

Este território foi reconhecido em 2001 pela UNESCO, como Património da Humanidade, na categoria de paisagem cultural, com tudo o que isso acarreta.

A interacção entre o ambiente natural e as actividades humanas, com as suas tradições, folclore, artesanato, etc., conduziu a uma paisagem natural, alterada pelo ser humano que, ao longo do tempo, com todos os contratempos com que se deparou, deu origem a este território tão rico, com características únicas e irrepetíveis.

A gastronomia portuguesa é, sem dúvida, uma das melhores do mundo. Essa qualidade deve-se à sua diversidade e aos produtos de grande qualidade existentes em Portugal. Cada região sabe aproveitar os seus melhores produtos para cozinhar. Nós não somos excepção. O turismo gastronómico é, hoje, um hábito enraizado. Está na moda.   

Os turistas já não querem apenas praia, sol e mar… Anseiam por outras experiências que esta região pode oferecer. Temos montanhas, paisagens lindas, trilhos a calcorrear, património arquitectónico… temos rios que nos fazem sonhar.

E o que dizer dos parques naturais?

O Parque Natural do Douro Internacional; o Parque Natural do Alvão; o Parque Natural de Montesinho; a Paisagem Protegida da Albufeira do Azibo e o Parque Natural Regional do Vale do Tua…  

O Parque Arqueológico do Vale do Côa, distinguido pela UNESCO como Património Mundial, é mais uma acha para a fogueira (passe a informalidade da linguagem) desta riquíssima região. Desde 2018 Passou a integrar o Itinerário Cultural do Conselho da Europa.  

Este parque apresenta mais de 1.200 rochas distribuídas por 20 mil hectares de terreno, com manifestações rupestres. Foram precisos vários anos de trabalhos de campo, para colocar a descoberto, o achado do maior complexo de arte rupestre paleolítico ao ar livre até aos dias de hoje. Onde se encontra este património? No rio Côa, afluente do Douro.

Como se o que referi acima fosse pouco, sinto-me, enquanto cidadão nascido e criado na província de Trás-os-Montes e Alto-Douro, muito orgulhoso mas, ao mesmo tempo, desiludido pelo desapego a que somos votados pelo poder central.

Tudo leva a crer que, mais uma vez, ficaremos sem comboio. Sabe-se lá quando teremos uma ferrovia onde possam circular comboios que nos levem, rápida e confortavelmente, onde quisermos ir, a nós e aos nossos produtos. E nós tão perto da Europa e a Europa aqui tão perto. Lisboa quase ao virar da esquina… Estamos cansados de sermos, sempre, os últimos a ser chamados para a equipa.

O desenvolvimento de qualquer país deve ser global. Todos os cidadãos devem poder ter as mesmas oportunidades. Para quando a regionalização?

Os governos civis podem ser uma boa opção pela maior proximidade. Entendo que a regionalização deve ser instituída conforme consta na Constituição Portuguesa desde 1976, com os ajustes necessários.

Defendo a divisão do país em seis grandes regiões. A região do Douro constituída pelos distritos de Bragança, Vila Real, Viseu e Guarda. A região da Ribeira, constituída por Braga, Viana do Castelo, Porto, Aveiro. A região da Serra da Estrela com os distritos de Castelo Branco, Covilhã, Coimbra, Leiria. A região de Belém com os distritos de Santarém, Lisboa, Setúbal. A região do Alentejo com os distritos de Portalegre, Évora, Beja. E a última Região, Faro (Algarve) como não poderia deixar de ser. Estas regiões, obviamente, em Portugal continental. Os respectivos Governos Civis ficarão instalados onde cada uma das regiões entender.

O Presidente é o Governador Civil. Haverá seis Secretarias: Saúde, Educação, Agricultura, Cultura, Ambiente e Indústria. As verbas da União Europeia serão aplicadas, como é óbvio, pelos Governos Civis.

As eleições serão realizadas em cada uma das regiões.   

A 15 de Junho de 2022, em Bruxelas, na Bélgica, o Douro foi distinguido como “A Cidade Europeia do Vinho 2023”, apesar de não ser uma cidade e sim uma região com dezanove municípios. Devemos aproveitar, carinhosamente, esta distinção e usufruir dos benefícios que daí advirão.   

Se queremos maior reconhecimento nacional e internacional? Claro que sim. Se desejamos mais população? É óbvio. Precisamos de gente que aprenda a amar toda a riqueza que nos cerca, com todas as suas particularidades. Tem de começar por nós. Proteger e defender este território é uma obrigação. É um desiderato.

Foi, também, o desejo de Guerra Junqueiro, na sua muito amada Quinta da Batoca em Barca D’Alva. Comemora-se este ano, no princípio de Julho, o centenário da sua morte.  

 

Marcolino Cepeda

domingo, 2 de junho de 2024

Transmontano Pedro Rego integra produção de documentário para canal Odisseia (29/05/2024)

O colaborador da Rádio Brigantia é fotógrafo desde 2015

O transmontano e colaborador da Rádio Brigantia, Pedro Rego, fez parte da produção de um documentário sobre reciclagem que está a ser transmitido no canal Odisseia. Fotógrafo de profissão, em 2015 decidiu dedicar-se às alterações climáticas, ecossistemas em perigo e animais em perigo de extinção. E assim abriu uma porta para aquele que veio a ser mais um desafio. “Consegui fazer esse trabalho no Ártico, no entanto quando estava a preparar o trabalho deparei-me com uma questão que fiz a mim próprio, que foi, eu ia lá fotografar, mas há esta possibilidade, hoje em dia, de as máquinas fazerem fotografia e vídeo, então porquê não aproveitar também para fazer vídeo? Então comecei a estudar e a pesquisar para fazer vídeo e fiz. Fui para o Ártico e fiz o trabalho de vídeo e e isso abriu-me uma nova porta profissional na vida, que é o trabalho na realização de histórias documentais sobre a natureza, alterações climáticas e ecossistemas”.

O documentário [R]- Reciclagem em Portugal começou a ser produzido em 2020. As gravações duraram um ano e meio. Pedro Rego disse ter ficado chocado com a situação de Portugal em relação ao ambiente. “Toda a informação que recolhi neste documentário me deixou um pouco chocado, com aquilo que é a realidade em Portugal e ver que ainda é preciso fazer tanto para chegarmos mais além. Fiquei escandalizado com a quantidade de produtos que estão hoje embalados e que não era preciso, como legumes. Desde logo, o que me saltou mais à vista foi um número, nós produzimos um quilo de lixo que por dia, quer é uma coisa brutal. E, depois, fiquei escandalizado com aquilo que ainda é preciso fazer”.

Pelas dificuldades da profissão e da falta de apoios, o transmontano vê esta conquista como uma recompensa. “Acima de tudo, uma recompensa de honra e de orgulho pessoal, em que as coisas tenham corrido. Isso enche-me de orgulho, não só como pessoa mas como transmontano porque sabemos bem a dificuldade que é viver longe dos grandes centros e das empresas que dão os grandes patrocínios”.

Pedro Rego tem já mais dois documentários na calha.

Desafios que dá a conhecer numa entrevista que pode ser ouvida na integra, esta quarta-feira, depois do noticiário das 17h.

Escrito por Brigantia

Jornalista: Ângela Pais