Nasceu numa pequena aldeia do concelho de Bragança, Trás-os-Montes. Que recordações guarda da sua meninice?
Muitas. Faço aqui uma recordação Espinhosela é a freguesia. Eu nasci em Vilarinho que é uma aldeia raiana. É uma aldeia que tem uma história interessante. Se calhar, pelo facto de ser raiana e, sabe que as aldeias raianas, além da história que fazem e integram no país, fazem a história dos desígnios espanhóis. Eu não fui contrabandista mas conheço contrabandistas. Conheci carvoeiros, conheci homens que andavam durante dias inteiros a arrancar carros de toros para vender depois à firma João Manuel Pires. Penso que vendiam um carro de toros a 20 escudos. Eu sou desse tempo, lembro-me disso, tenho essas recordações, tenho outras recordações que, se calhar, alguns cidadãos, hoje, acham estranhas e, se calhar, provocatórias. Vou referi-las porque são recordações. Eu fiz a quarta classe em Vilarinho com uma professora, a D. Maria que acho que nunca mais esqueço, tinha seis anos e fiz as restantes classes da primária com a minha mãe que era regente escolar e fiz a segunda classe em Formil. Vínhamos de Formil para Bragança a pé. Num sábado, por volta das dez e meia, começou a nevar em Gostei e quando chegamos à ponte do Castro já não se passava. Eu tinha oito anos, o meu irmão tinha seis e vínhamos a pé com a senhora professora. Fiz a terceira classe em Terroso e de Vilarinho a Terroso serão três quilómetros só que, metade é a subir e outra metade é a descer e íamos todos os dias a pé de Vilarinho para Terroso. Fiz a quarta classe na Mofreita e todas as semanas íamos a cavalo numa burra para a Mofreita e depois vínhamos ao sábado eu e os meus irmãos e a minha mãe, portanto, isto transferido para os tempos actuais, peço desculpa, mas eu rio-me com algumas das coisas que ouço. Um dia, num Inverno chuvoso, na altura da construção da estrada de Espinhosela a ligar a estrada nacional, o meu pai, que Deus tenha, fazia-nos um pontão de madeira porque o pontão que existia passava a água por cima. Muitas vezes passávamos de manhã o pontão e à tarde já não podíamos passar porque já ia com água e o meu pai fazia-nos um pontão e um dia passamos no pontão de manhã e à tarde por volta das três, três e meia, já não havia pontão, então eu, a minha mãe e o meu irmão subimos, andamos talvez quinhentos metros e foram uns senhores que andavam a por as manilhas na travessia da estrada de Terroso onde junta com a estrada de Vilarinho e foram os senhores que andavam aí que nos passaram porque aquilo ia tudo alagado de água. Os garotos passam-se bem porque pesamos pouco mas a minha mãe, já na altura era bem nutrida e foi um problema para a passarem. São estas recordações todas que eu tenho.
De que forma é que nascer nesta região nesta localidade o marcou?
Eu em 1976, tinha 21 anos entrei para a Função Pública, para o Ministério do Comercio Interno, para o gabinete do Doutor Magalhães Mota e estive em Lisboa até 1983. Em 1983 por causa da orgânica do governo, eu estava na Direcção Regional de Agricultura, o Ministério do Comércio foi sendo integrado, ora num ministério, ora noutro. Nunca sabíamos bem o que os Governos pensavam. Eu estava na Direcção Regional de Agricultura e houve mais uma reorganização do governo e tive que regressar a Lisboa. Entretanto, toma posse o governo do Bloco Central, se não estou em erro, era Ministro do Comércio, o Dr. Álvaro Barreto e eu, felizmente, sendo um lutador antifascista, como na altura se usava dizer, mas fui sempre um homem que esteve perto do poder e um dia eu falei com o Dr. Álvaro Barreto e disse: “Ó senhor Doutor (eu na altura estava casado e tinha um filho) precisava de ir para Bragança e vocês nunca mais se entendem, nunca mais se decidem. Vem um senhor, quer uma lei orgânica, vem outro ministro, quer outra lei orgânica, de maneira que eu precisava de ir para Bragança, definitivamente.” E o homem disse: “Vê lá, resolve lá para onde queres ir e depois diz-me.” “Se calhar, para a saúde”.Porque eu, na altura, achava que a saúde era o Ministério mais estável em estrutura orgânica e ele liga e diz: “Tenho aqui um problema com um funcionário. Ele é de Bragança, tem a família em Bragança, esteve a dar alguns argumentos para ir para Bragança. A ver se, pelos dois, pomos o homem em Bragança.” Isto deve ter sido em Novembro de 85 e no dia 9 de Janeiro de 86 tomei posse na ARS de Bragança, era presidente da ARS o nosso amigo Aires Ferreira que é hoje Presidente da Câmara de Moncorvo.