Nasceu em Pinelo, uma pequena aldeia do concelho de Vimioso, onde esteve até completar a escola primária. Que recordações guarda desse período da sua vida?
Recordações são as melhores que se pode ter duma infância de dificuldades, muitas vezes mas, também, de muitas alegrias e muitas recordações. Recordações da escola primária dos colegas, das professoras. Recordações também do trabalho que muitas vezes tínhamos que fazer. Recordações dos anseios que uma criança pode ter, uma criança da aldeia. Uma criança de pais remediados com uma casa de lavoura, com rebanho, com animais domésticos e além da escola, como dizia, era necessário, não só estudar mas, também, ajudar os pais nas tarefas diárias. Muitas vezes, eu vinha da escola, chegava a casa pegava na marmita e na cesta e ia a cinco quilómetros ou seis quilómetros para junto de uma irmã que guardava o rebanho e aí ficava toda a noite e de manhã cedo, ao acordar, voltar a casa para ir à escola e era assim o dia a dia e, outras vezes, ajudar os pais, já um pouco mais crescido, nas tarefas da cava da vinha.
As coisas mais fáceis… ir com os animais para o lameiro. Uma vida, de algum modo, sacrificada mas alegre e feliz porquê, como filho mais novo da família, não passei aquelas dificuldades que os meus irmãos mais velhos passaram. Os meus irmãos mais velhos eram os meus segundos pais. Uma dela até é minha madrinha…
Os mais velhos ajudavam a criar os mais novos e nesta vida de trabalho, de estudo, houve sempre um receio, sobretudo nos últimos anos, porque eu lutei de alguma… o meu projecto de vida em esboço e que se foi delineando até que fiz a quarta classe e manifestei desejo de ir para o seminário porque os meus colegas também teriam ido para o Seminário das Missões e foi precisamente aí que nasceu este projecto de vida, este ideal que pouco a pouco se ia delineando em mim e que os meus pais tiveram dificuldades em aceitar, não só pela situação económica que não era fácil mas, também que, pelo facto de eu ser o mais novo seria o seu protector quando já em idade avançada e eu seria o sucessor, o pastor do rebanho para dirigir propriamente a casa quando os meus irmãos começassem a sair e afinal foi isso mesmo que aconteceu mas, mesmo assim, os meus pais deixaram sempre em aberto o meu desejo embora pondo sempre dificuldades, a ver se esmorecia esse ideal em mim, até que chegou o dia. Só um ano depois de fazer a quarta classe é que eu tive o caminho aberto para eu ir para o seminário.
Para o seminário das missões católicas ultramarinas em Tomar. Nessa altura teve que lutar muito contra as saudades que sentia da sua família…
Sim e bastante. Veja um menino que sai da aldeia sem nunca praticamente andar de autocarro a não ser Pinelo/Vimioso. Em Bragança, despedi-me dos meus pais e encontro um grupo da mesma idade. Éramos dezasseis os que fomos para o seminário nessa altura. Entrámos no comboio, chegámos ao Pocinho e aquele menino que eu era, não sabe para onde há-de ir porque não sabia se havia primeira classe, se havia segunda classe. Chegámos ali e entrámos na primeira porta que encontrámos que foi, precisamente, para a primeira classe. Eu e o meu colega andámos à procura de lugar naquele compartimento de pessoas distintas, não encontrámos e ficámos no hall do comboio sentados naqueles assentos que havia que se dobravam. Quando chegou o revisor fomos a apresentar o bilhete e ele disse-nos logo: “Os meninos aqui não têm lugar, têm que ir para a terceira classe”. Nós sabíamos lá o que era terceira classe. “Mas vós portais-vos bem, deixais-vos estar aqui”. E lá fomos até ao Porto em primeira classe. Ao chegar à estação de São Bento vimos o sacerdote de barbichas lá ao fundo mas, ele passou pela primeira classe e não nos ligou porque, os meninos virem em primeira classe, seria demais. Fui eu ter com outros que vinham então na terceira classe lá em baixo. Nós, quando vimos que realmente não nos ligava, acenámos e ele ficou todo admirado quando nos viu acenar da janela da primeira classe, ficou admirado e lá nos cativou e fomos todos juntos.
Ao chegar ao Convento de Tomar foi um deslumbramento. Ao chegar ao Convento de Cristo em Tomar, aqueles corredores…podia andar um autocarro, quase, lá por dentro. Aquilo era enorme, grande, sentíamo-nos perdidos à primeira vista. Portanto, as saudades dos primeiros dias, embora tivéssemos gente da terra, gente das aldeias próximas, colegas…mesmo assim começava a nostalgia, começava a saudade. O filho mais novo é sempre o mais acarinhado, é sempre o mais babado, de maneira que a gente, de vez em quando, punha-se lá num cantinho… lá vinham as lágrimas. Não queríamos mostrar que éramos fracos mas, lá vinham as lágrimas de saudade…
Apesar de todas as dificuldades faltavam os carinhos e os mimos, não é?
Sim, embora o aconchego do seminário, de alguma maneira, compensava. Éramos dezasseis transmontanos, aqui de Vimioso, Mogadouro, Vinhais. Protegíamo-nos uns aos outros mas, sempre havia aquela saudade. Os superiores, no princípio, também eram compreensivos para o nosso à vontade de crianças mas, depois, começaram as exigências. Quarto de banho, havia só um. Não podiam ir dois ao mesmo tempo. Acho que de alguma maneira foi uma ida tranquila e uma estadia tranquila no Seminário.
Como é que foi esse percurso até ser ordenado padre em 1968?