quarta-feira, 9 de maio de 2012

A caravana

A primavera tardia adentrava, lentamente, no espaço temporal que deveria ocupar em pleno.
Os campos começavam a refletir a sua presença silenciosa e tímida.
Os pássaros chirlreavam contentes escolhendo os melhores lugares para fazer os ninhos. Os ribeirinhos acordavam da secura atípica do inverno. Cantarolavam de pedra em pedra, saltitando e borrifando as margens com pequenas gotas de água fria.
Um sol tímido e envergonhado, espreguiçava-se como se ainda fosse cedo para realizar os desígnios da natureza.
Chegava, com atraso, é verdade... as urzes arroxeavam os montes, as maias floriam as sua pequenas flores amarelas. As estevas, com as cinco chagas de Cristo, estendiam-se viçosas pelos campos incultos.
Na curva do caminho um alarido de gritos e latidos de cães. O chiar das rodas das carroças nas pedras anunciava a chegada de uma caravana de ciganos. O tilintar dos tachos e panelas não deixavam margem para dúvidas.
Lá ao fundo, o pequeno vale encoberto pela sombra dos montes, aguardava-os sobressaltado e ansioso. Um frémito de incertezas pairava no ar.
Seriam os mesmos do ano passado? Trariam com eles o Taludo, causador de tantos desacatos? Teria conseguido, a matriarca, controlar a impulsividade do seu filho mais novo?
Perguntas a que só a chegada da caravana à aldeia poderia responder.
Os animais cansados da longa jornada, suportavam, dolorosamente, a última etapa. Na aldeia o burburinho da população misturava-se com o alarido da caravana. As mulheres, em casa, faziam a retrospetiva dos latos e caldeiros que tinham para consertar.
"Ó de casa! O ti Joaquim!"
"Que queres Mata Mouros?"
"Estamos de volta para mais uma temporada. Queríamos a sua benção..."
"Ó homem, entra lá! Vem beber um copo de vinho."
O ti Joaquim era a pessoa mais influente da aldeia e, tacitamente, todos entendiam necessitar da sua aprovação, fosse para o que fosse.
"Mata Mouros era bom homem. Era o patriarca da família e desde pequeno tinha por hábito passar algum tempo naquela pequena aldeia. Não teria mais de quarenta anos, era casado com Alzira e tinha dez filhos e outros tantos netos.
A família era constituída por cerca de cinquenta pessoas, entre pais, mães, irmãos, tios, tias, avós... o elemento mais velho era a tia Ana que teria setenta anos, talvez. O mais novo tinha nascido naquela noite, dentro de um dos carros.
Era uma grande família de ciganos transmontanos que tinham como ganha pão a latoaria e a venda e compra de animais e seus acessórios como albardas. Tinham, é claro, aquele uso de mendigar, de não terem medo de pedir.
Depois da benção do ti Joaquim, lá se instalaram na eira onde permaneceriam enquanto houvesse latos para compor animais para negociar.
As gentes da aldeia estavam habituadas à grande família e logo as mulheres rodearam a jovem mãe com a criança recém-nascida ao colo. Era um menino, milagrosamente, saudável. Estava embrulhado em alguns panos limpos e chorava desalmadamente. A mãe, mal alimentada, não tinha leite suficiente e a criança tinha fome. Joana, rapariga corada, bem constituída, tinha uma menina de três meses que dormia placidamente no seu regaço. Não podendo ouvir mais o choro do bebé, entregou a sua menina à mãe e, pegando no pequenino Mário, sentou-se numa pedra e deu-lhe de mamar.
Teresa teria quinze anos. Era o seu primeiro filho. Tinha fome. Estava cansada, preocupada e não passava de uma menina.
Num repente, o pequeno Mário, passou a ser responsabilidade das mulheres da aldeia. Eram tempos difíceis aqueles que se viviam ainda sob os ecos da Segunda Grande Guerra. A miséria era muita, a solidariedade também.

Mara Cepeda

Marcolino

Ontem o Marcolino fez anos. Mais um ano na vida de um sobrevivente de quem as estatísticas diriam ser uma exceção.
A teimosia e a persistência de viver que tem demonstrado ao longo destes anos, faz-me compreender porquê é que o amo.
Apesar das sequelas que o AVC lhe deixou, não perdeu o sentido de humor e a vontade imensa de fazer algo pela sua cidade e por Trás-os-Montes.
Continua a acreditar que é possível apostar no desenvolvimento sustentado da nossa província e torná-la uma região atrativa, capaz de trazer pessoas que, essas sim, fazem a diferença.
Defende, intransigentemente, que é preciso acreditar e agir.
Preconiza a necessidade de apostar no turismo de natureza, do património, da tipicidade... se nos quisermos "vender" temos de ser únicos e especiais.
A verdade é que me apetece deixar-lhe, aqui, esta pequena mensagem de incentivo e amor.
Quero que continue a acreditar que tudo é possível e que a sua capacidade de superação tem dado bons frutos.
Quero que lute contra a insensibilidade social e que seja ele próprio, sempre, como até aqui.
Parabéns Marcolino. Que nunca percas esta teimosia positiva e atuante, que fez e faz de ti, a pessoa maravilhosa que és.

Beijo
Mara   

segunda-feira, 7 de maio de 2012

O povo do Sol e da Lua

Três pequenas crianças maltrapilhas, sujas, ranhosas, brincavam junto de um monte de sucata e lixo que se aglomerava perto do que parecia ser um barraco coberto com folhas de zinco.
Sorriam as três, correndo, saltando, rindo, gritando em grande algazarra atrás dos pequeninos cães que ali se encontravam, tão sujos como eles.
No acampamento, recheado de barracas improváveis e de carros-casa, o sol brilhava, primaveril, depois das intensas chuvas de abril. Era o primeiro dia de verdadeira primavera e, como tal, era recebido com exuberante alegria.
Para um espectador distraído, o que ali se vislumbrava, cheirava a pobreza, a decadência, a terceiro mundo... para mim não passava de um cenário necessitado de musculada intervenção.
Manter e fomentar a alegria seria um dos objetivos. A limpeza, uma necessidade premente, exigia que muita coisa mudasse. Urgia unir esforços para que aquela situação se alterasse e aqueles meninos e as suas famílias pudessem ter uma vida digna, adaptada às suas tradições. Aquele era o povo do Sol e da Lua.
Eram livres e as amarras transformavam-se em prisões insuportáveis. Incompreendidos, auto-excluídos, esta gente não se insere (não os inserimos) no nosso modus vivendi.
Não conseguimos entender que o seu modo de vida não se rege por um trabalho das 9 às 18. A sua alma anseia campo, animais, verde... hoje aqui, amanhã acolá é assim que vive este povo. Quem manda são as crianças. Não importa que se sujem no ato mesmo de se lavarem e vestirem. Não importa que uma pedrada certeira tombe um triste e pobre cão que, tropego, gane dolorosamente.
Que fazer? Como agir?
Se a minha avó ainda aqui estivesse diria que "água mole em pedra dura, tanto bate até que fura". Devagar, devarinho, através da educação, da escola, com carinho e compreensão, criando as condições mínimas de sobrevivência digna.
"Os ciganos não têm jeito, são um caso perdido. Há milénios que este povo deambula por aí a mendigar o sustento, a roubar o que está a modo..." Diremos todos ou quase...
E então, os risos transparentes como água cristalina emudecem. O brilho do olhar ensombrece. Os pés descalços sentem o chão frio. O corpo semidespido arrepia-se com a brusca aragem vinda do norte. O nariz sente os cheiros nauseabundos que conspurcam o ar até agora perfumado de flores. As mães-madrastas maltratam os filhos. Os gritos são impotência e revolta. O cibo do pão amarga como a fome que dói.
Estalou-se o paraíso e o purgatório consome as almas que o sol aqueceu.
As crianças choram mágoas suas e alheias de muitos séculos de vidas errantes.
Os lobos anunciam a chegada da lua que não é de mel. A chuva bate nas folhas de zinco como pedras de David.
Dentro das barracas o frio é insuportável. A fome engana-se com sopa de fiolho e pão. O dinheiro gastou-se em vinho insensível e bruto que turva o amor.
As bátegas inclementes arremessam-se contra os carros-casa desassossegando os bebés que dormem. Gritos. Português semeado de romance (a sua língua) brada raios e coriscos contra tudo e todos. O inferno instala-se em dias de paraíso.
O povo do Sol e da Lua não consegue seguir o caminho principal. Segue por atalhos tortuosos e íngremes que o aldeano não ajuda a trilhar.
A tempestade passou. Tudo é silêncio no acampamento.
Amanhã, as crianças sorrirão, soltando gritinhos de alegria, atrás do pequeno cão, sujas, felizes, quase despidas, os pequenos pés a sentirem a frieza do chão...

Mara Cepeda 

domingo, 6 de maio de 2012

Fátima Castanheira a nossa 44ª entrevistada



Fátima Castanheira é uma boa amiga. O seu sentido de solidariedade social e entrega aos mais necessitados é comovente. A sua vida tem sido pautada por momentos de grande entrega aos outros.
Esta função de direção da Pastoral dos Ciganos é muito exigente e ela nunca se negou a esta entrega, embora, por vezes, tenha sido mal compreendida.
Leiam a nossa pequena conversa e descobrirão a pessoa humilde, inteligente e solidária de que tenho a honra de ser amiga.
Beijinho Fátima

sábado, 5 de maio de 2012

Chegámos à 44ª entrevista...

A entrevista que amanhã postaremos foi realizada em 2006. Não perdeu, no entanto, atualidade.
A nossa convidada é a Dr.ª Fátima Castanheira, natural de Vinhais, Diretora da Pastoral Diocesana dos Ciganos de Bragança/Miranda.
Fátima Castanheira, de quem sou muito amiga, tem desenvolvido um trabalho hercúleo no que à situação degradante dos ciganos diz respeito.
Dá-nos opiniões sinceras sobre o que entende poder melhorar a situação de vida desta etnia e não se coibe de apresentar soluções.
Leia. Vai gostar.

Mara Cepeda 

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Entrevista: Doutor Amadeu Ferreira - Vice Presidente da CMVM - grande impulsionador da divulgação do mirandês


Bem-vindo! Vamos chamar à sua entrevista, “A construção do céu”.
Nasceu em Sendim, Trás-os-Montes de que forma é que esta região o marcou?

Sabe que o local onde nascemos e a família onde nascemos marca-nos sempre, independentemente da nossa vontade. O facto de termos crescido numa determinada rua, marca-nos para a toda a vida; ainda hoje me lembro da rua em que nasci que é a rua da Fragua, Frauga como nós dizemos. Éramos muitos miúdos e havia sempre colegas para a brincadeira, havia sempre brincadeiras sem fim, umas porradas pelo meio também faziam parte e isso é algo que nos encheu a juventude de gritos de alegria, de brincadeiras, com muitas dificuldades pelo meio, mas o que é curioso é que eu me lembro desta parte e, de facto, costumo dizer que nas muitas vidas que tenho tido, dessa ficaram-me muitos amigos em que as referências são essas, em que nós construímos os nossos brinquedos, as nossa bolas, os nossos carrinhos… Quando surgiram as barragens do Douro, fazíamos as nossas próprias barragens que eu nunca tinha visto, nem fazia ideia de como eram, mas a gente fazia barragens à mesma e de facto ter nascido naquela rua pequena, mas olhando para trás eu diria que crianças pequenas e já mais crescidas, seriam à volta de cinquenta. É muita gente. Sendim, hoje julgo que não terá tantas. As famílias hoje não têm tantas, esse ambiente onde se tem sempre com quem brincar, inventar coisas para a brincadeira, ter o tempo todo ocupado na rua que era a nossa sala de estar, era a nossa escola em grande medida. Acho que isso me marcou para toda a vida e de facto hoje quando olho para trás tenho de pensar para ver as dificuldades porque elas existiam mas, se não pensar o que me vem são ruas cheias de crianças a gritar e a brincar, ora essa imagem é uma imagem que não pode deixar de nos marcar porque dá-nos uma certa atitude perante a vida, isto é, eu sou uma pessoa que nunca me queixo e portanto olho as coisas e luto, é como ir à brincadeira, uma das brincadeiras que nós tínhamos eram lutas, lutas de touros, idealizávamos lutas de touros, uns faziam de vacas, outros faziam de arado que era o que era a nossa coisa do dia-a-dia e portanto eu acho que é isto que nos marca. Lembro-me de quando andava na segunda classe e começaram a ir os carros da Gulbenkian para as aldeias com os livros e eu adorava ler e eles só davam dois livros a cada miúdo, só ia uma vez por mês e logo os lia então os colegas de rua iam todos requisitar livros para eu os ler era assim que arranjava livros para ler, estas coisas são de facto marcantes, se eu tivesse nascido noutro lado, não estou a dizer que seria melhor nem pior mas seria seguramente diferente.

Muito novo deixou a sua terra para ir a caminho do seminário de Vinhais. Fale-nos um pouco da sua meninice e juventude.

Foram tempos muito difíceis, muito dolorosos do ponto de vista pessoal sobretudo. Fui para o seminário onde não conhecia ninguém. Eu gostava de estudar, era uma coisa que me apaixonava. Sabia como criança que essa era uma necessidade que eu tinha mas, de facto, aquilo era outro mundo. Era um mundo que eu não conhecia, a que eu não estava habituado. Chorava com frequência, não gostava de chorar em público, como é óbvio, escondia-me, como outros colegas fariam, estou convencido disso.

Na altura era feio um homem chorar em público.

Exactamente. Não gostava de dar parte de fraco. O meu pai dizia: tu nunca dês parte de fraco. Mas, foram tempos em que a parte que eu mais recordo é essa parte dolorosa, pessoal, etc. Recordo muitos colegas. Recordo coisas engraçadas. Foi a primeira vez que eu vi cinema na minha vida. Lembra-me que uma vez foi lá o Pinóquio, acho que foi o primeiro filme que eu vi, era o Pinóquio e depois nos dias a seguir ter visto o Pinóquio fiquei tão impressionado com aquilo que escrevi um caderno inteiro de versos, eu devia ter dez anos e depois o que eu sei nós tínhamos umas carteiras, as carteiras eram fechadas, tínhamos lá os livros e houve alguém que me roubou o caderno de versos, muito eu chorei por aquele caderno, era um caderno completamente cheio daquilo porque eu tinha passado horas e horas às escondidas porque estávamos todos numa sala a estudar e éramos vigiados e éramos obrigados a estudar e eu meio às escondidas ia fazendo os versos para que o perfeito que estava a ver não visse e portanto aquela actividade proibida que sabia bem e a gente sabia que não devia fazer e depois daquele esforço todo fiquei sem o caderno de versos.

Quem sabe se faz parte dos arquivos do seminário?

Biografia de Amadeu Ferreira, pelo próprio, em mirandês, não atualizada


Amadeu Ferreira apersenta-se
Naci an Sendin (29 de Júlio de 1950) i stou a bibir an Lisboua zde 1981. Pul meio passei por Vinhais i Bergáncia, adonde studei ne l Seminário até 1972; marquei passo an Mafra (L Calhau) i an Lisboua (1973-1975), donde fiç la tropa; bolbi a Sendin an 1975-76, adonde screbi i representei (cun ua malta baliente) l purmeiro triato que screbi an mirandés anquanto trabalhaba na custruçon cebil, ne l campo i na Adega Cooperativa Ribadouro; stube meianho an Lamego (1977), outro meio na Régua (1977) i dous anhos an Vila Real (1978-81), adonde coinci la tie cun quien stou casado, indo ne ls anterbalos al Porto para studar filozofie na Faculdade de Lhetras (d'adonde passei pa la Faculdades de Lhetras de l'Ounibersidade de Lisboua). Até 1982 melitei nun partido político (UDP), chegando a sentar-me por un cachico na Assembleia de la República (onde mal apenas cheguei a abrir la boca). Apuis desso, bendi publicidade, fui porsor de música, i tirei la lhicenciatura na Faculdade de Dreito de Lisboa, an 1990, adonde passei a dar scuola zde esse anho. D'anton para acá fiç l mestrado (1994), publiquei mais dua dúzia de lhibros i artigos de dreito, bou purparando l doutoramiento, trabalho na CMVM (Comissão do Mercado de Valores Mobiliários), adonde fago parte de cunseilho diratibo, stando agora cumo porsor ousseliar cumbidado na Faculdade de Dreito de l'Ounibersidade Nuoba de Lisboua.
Nun ye nobidade que, al apersentar-me neste sítio, tenga de falar de la mie relaçon cul mirandés. Pus, essa fui la lhéngua que purmeiro daprendi i falei. L pertués tamien l daprendi lhougo de pequeinho, mas antes d'ir a la scuola quaije que nun se me lhembra de tener percison del, rezon porque solo alhá pa ls 15 anhos ye que fui capaç de drobar bien la lhéngua para falar grabe i nun fazéren tanta caçuada de mi. Cumo digo nun poema, l mirandés naciu-me i l pertués fui ua cunquista.
Deç pequeinho siempre tube la manha de screbir, subretodo bersos. Mas an mirandés solo ampecei a screbir de modo mais rigular zde 1999, cousas que stan quaije que todas por publicar. Até ende, screbi uas cousicas por 1967-68, por anfluença de l lhibro "Nuossa Alma i Nuossa Tierra" que l P.e António M. Mourinho m'oufereciu, screbi l triato de que yá falei arriba (i que há-de star, junto i anteiro, ne ls arquibos de la RTP) i zde 1982 scribo bersos para miu armano Carlos stribar las cantigas que faç i que ténen sido cantadas pul grupo Arzinales (astanho debe de salir l purmeiro disco deilhes).
Nun sei se fui d'andar ne l seminário, se de la política, se esso yá ben de mi, solo sou capaç de m'agarrar cun gana a las cousas-causas de que gusto i an que acradito. Ye assi que stou an relaçon al mirandés. Fago por poner an prática la seguinte eideia que a mi mesmo m'ampus: nun deixar passar un die sin FAZER algo pula lhéngua mirandesa.
Algues cousas que çtaco, tenendo solo an cuonta la mie atebidade pula lhéngua mirandesa, deixando muita menuda arramada pula selombra [i porque eiqui teneran pouco antresse, nada refiro quanto a la mie atebidade profissional prencipal, a la mie atebiadde cumo porsor (d'eiducaçon musical, de filosofie, de lhatin i, por fin, de dreito), a l'atebidade d'ambestigaçon i eiditorial cumo jurista, a l'atebidade política, de jornalista, atebidades lhigadas al triato, i outras]:
a) Partecipei na purparaçon i çcuçon de la purmeira adenda a la Cumbençon Ourtográfica. Nada ye purfeito, mas acho que se cunseguiu un modo de melhor aquemodar todas las bariadades de l mirandés na mesma scrita. Hoije stou cumbencido que la purmeira adenda a la Cumbençon, longe de resolber solo un porblema de l sendinés, resolbiu un porblema de l mirandés an general. Hoije sinto proua an me tener ampenhado nesta 1ª Adenda i assi, tener cuntribuído pa l'ounidade de l mirandés i de ls mirandeses. De l mesmo modo cuntino ampenhado na çcuçon de nuobas Adendas.
b) L ansino de l mirandés ye mui amportante i debe de ser lhebado mui a sério. Quanto a esso inda mal ampecemos. Ua lhéngua ten que se falar, mas solo se fala se fur ansinada. I l ansino inda ye mais amportante quando muitos pais yá nun ansínan l mirandés als filhos. Por esso, ten que ser la quemunidade i las anstituçones a ajudar a mantener la lhéngua biba. An casa falo mirandés culs mius filhos (la mie tie queixa-se, a las bezes, de que faç parte de la minories lhenguísticas oupremidas, mas tamien eilha ye ua apuiante de l mirandés, anque nun seia mirandesa) i cun toda la mie família. Quanto al ansino tengo zambolbido las einiciatibas al miu alcance para ansinar l mirandés i para apuiar l sou ansino. Nesse sentido, dei i cuntino a dar to l apoio al porsor Carlos Ferreira para ansinar l mirandés nas scuolas de Sendin, cun el tenendo eilaborado ls porgramas pa l 1º Ciclo de l Ansino Básico, pa l 2º Ciclo de l Ansino Básico i pa ls 7º i 8º anhos de l 3º Ciclo de l Ansino Básico. An Outubre de 2000 dei un cursico eilementar de scrita de l mirandés an Sendin, adonde partecipórun al redor de 50 pessonas. Ne l berano de 2001 partecipei, cumo porsor, ne l curso de Berano dado pula UTAD an Miranda. An Márcio de 2002 ouganizei, cula Associaçon de Lhéngua Mirandesa, i sou l porsor de l 1ª Curso Eilementar de Mirandés, an Lisboua (l curso bai de Márcio a Júnio de 2002, ten 24 alunos anscritos i a cada aula bou-le dando las fuolhas de l manual que bou fazendo).
c) Zambolber la lhiteratura an lhéngua mirandesa ye tamien mui amportante. Fui por esso que m'apus a screbir an mirandés, tanto an termos lhiterários cumo noutro tipo de scrita. Para publicar obras an mirandés, acertei cula eiditora "Campo das Letras" la publicaçon dua coleçon de obras an mirandés. Nessa coleçon eiditei dous lhibricos, cul pseudónimo de Fracisco Niebro: Cebadeiros (poesie, 2000) i Las Cuntas de Tiu Jouquin (cuontas, 2001). Inda an 2000 ye publicado ne l sítio Sendim em Linha www.bragancanet.pt/sendim/ l manifesto Çtino para ua Léngua Moribunda (testo de 1999). An 2001 publiquei inda dues cuontas: "Amanhai-bos cumo podirdes", na rebista Selecções de BD, nº 31 (2ª série), de Maio de 2001, i "La Biaige", na rebista Mealibra, n.º 8 (série 3), de Júnio de 2001. Publiquei tamien 4 poemas, cun traduçon an pertués, na rebista Comentário, n.º 3, de Júnio de 2001, de l'Ounibersidade Nuoba de Lisboua. An Dezembre de 2001 ye publicado l poema L Ancanto de las Arribas de l Douro (testo de 1999), eilustrado cun ougarielhas de Manuel Ferreira i eiditado pul Parque Natural do Douro Internacional. An 2002 la rebista belga MicRomania (Márcio), publica l poema 'Deixa-te quedar', cun traduçon francesa de Carlos Ferreira i António Bárbolo Alves. Yá an 1975 screbi la pieça de triato Oubreiros i Camponeses, repersentada an Sendin i an Zenízio i que, ne l mesmo anho, passou dues bezes na RTP. Agora stá a ser anseiada puls alunos de la scuola EB23 de Sendin la pieça de triato Garabatos i Rodadeiras, scrita inda an Dezembre de 2001.
d) Cuido que ye amportante poner an mirandés testos oureginalmente scritos noutras lhénguas, yá cun cientos d'anhos de prática lhiterária, i obras de referéncia. Essa ye tamien ua forma de zambolber la lhéngua mirandesa scrita i d'amostrar que stá an cundiçones de dezir todo l que se diga noutras lhénguas. Cun essa antençon, para Setembre dastanho stá porgramada la publicaçon, pula eiditora Campo das Letras, dua Antologie de Poesie Pertuesa, traduzida an mirandés; an 2001 traduzi (cun Domingos Raposo, Carlos Ferreira i António Santos) Asterix l Goulés, de Goscigny i Uderzo, obra que yá debie de tener sido publicada pula eiditora Meribérica, mas que quedou parada por rezones que solo ténen a ber cula eiditora. Tengo an traduçon Ls Quatro Eibangeilhos (a partir de la Vulgata atrebuída a San Jerónimo), de que ténen sido publicados ne l jornal Mensageiro de Bragança i ne l sítio Sendim em Linha www.bragancanet.pt/sendim/ , semana a semana zde l die 1º de Janeiro, ls testos de ls Eibangeilhos de cada deimingo i que aspero acabar na fin de l corriente anho.
e) L mirandés ten que star presente an todos ls lhados adonde fur possible, chegando a cada beç mais alhargados grupos de pessonas. Por esso tengo partecipado an bárias einiciatibas de dibulgaçon de l mirandés, feito cunferéncias an bários lhados, partecipado an porgramas de rádio (de que çtaco un porgrama de trés horas na TSF, antre las siete i las dieç de la manhana, ne l die 5 de Márcio de 2002) i publicado crónicas (al todo 20 testos até la fin d'Abril de 2002) i notícias an mirandés ne l www.diáriodetrasosmontes.com/ Cul mesmo oujetibo screbi (2002) las lhinhas generales dun guion para un decumentairo subre la Tierra de Miranda (apersentado a cuncurso al ICAM) chamado Mirando Miranda i mui assente na lhéngua i cultura mirandesas. Para alhá desso dou l apoio que puodo als sítios de l mirandés n'anternete, subretodo www.mirandes.no.sapo.pt i ls yá apuntados arriba.
f) Las actuales einiciatibas de zambolbimiento de l mirandés nun duraran se nun s'apuiáren an anstituiçones que lo deféndan i promuoban. Fui cun esse spírito que me ampenhei na criaçon de la Associaçon de Lhéngua Mirandesa, an Lisboua, an cunjunto cun outros mirandeses. Ye cula mesma eideia que apoio la criaçon de l Anstituto de Lhéngua Mirandesa, que debe de andar palantre quanto antes i tornar-se ua anstituiçon de referéncia de l mirandés.
g) L'ambestigaçon subre l mirandés ye tamien mui amportante. Anque nun tenga speciales habelitaçones lhenguísticas para ambestigar, bou fazendo l que puodo. Assi, fago parte de GELM (Grupo de Studos de la Lhéngua Mirandesa) i publiquei l pequeinho artigo 'Modos de tratamiento ne l mirandés de Sendin', na rebista El Filandar/O Fiadeiro (Zamora, 2001). Tengo tamien feito ambestigaçon subre l bocabulairo de la lhéngua mirandesa, subre la cunjugaçon de ls berbos mirandeses, subre toponímia, subre decumientos de l lhionés antigo i, subretodo, subre las caratelísticas de l sendinés, algo de que muito se fala mas mui pouco se conhece. Quanto más studo, más chego a la cuncluson de que l mirandés inda ten muita, muita cousa por çcobrir.
h) L mirandés ten que salir de la Tierra de Miranda i de la raia de Pertual, para que seia coincido i studado ne l strangeiro. Por esso dei l miu melhor para ajudas a l' ourganizaçon de l V Simpósio de Lhénguas Ouropeias i Lhegislaçones que tubo lhugar an Miranda ne ls dies 25 a 28 d'Abril dastanho. Cula mesma eideia trabalho para ajudar a poner de pies la ourganizaçon que repersente l mirandés ne l EBLUL.
i) L statuto jurídico de l mirandés percisa de ser studado i zambolbido ne l ámbito de l dreito a la lhéngua cumo dreito de las pessonas i de ls pobos. Cumo jurista a esso tengo dedicado muita atençon, stando a chegar al fin la scrita dun librico que bou a publicar cun Júlio Meirinhos, inda astanho.
Apuis de todo l que acabei de screbir acho que nun fázen muito sentido todas estas cousas, subretodo quando ténen a ber cula nuossa lhéngua (anque téngamos dues i gústemos tanto dua cumo doutra, cumo ye l miu caso). Ende l más amportante ye l'atitude que ancarna an pequeinhas cousas, cousas mesmo mui pequeinhas que hai que fazer todos ls dies, an qualquiera sítio i delantre de qualesquiera pessonas. Cousas tan pequeinhas cumo falar, registrar, oubir, nua atitude de star siempre a daprender, a çcobrir. Cousas tan pequeinhas cumo trasmitir l que daprendimos. Cousas tan pequeinhas cumo tener pacéncia para cumbencir de l que achamos que stá cierto, sin tener que oufender. Cousas tan pequeinhas cumo acraditar que bamos a morrer purmeiro que la nuossa lhéngua. Desso nun fálan ls 'curricula', mas essas pequeinhas cousas... esso ye l más amportante.
Lisboua, 14 de Maio de 2002
Amadeu Ferreira