a violência
destas ondas confusas,
encrespadas,
sem justificação,
desassossega-me,
inquieta-me
tão alheia de mim
ando triste
como um dia de nevoeiro
as noites são compridas
como dias difíceis
os minutos são horas
de batalhas sem fim
que há que lidar
neste tempo ruim
Mara
terça-feira, 28 de fevereiro de 2012
segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012
VARGE – A FESTA DOS RAPAZES
Viver a celebração pagã do solstício do Inverno em convívio harmonioso com o Natal cristão é o que poderemos considerar acerca dos peculiares rituais que ocorrem no contexto das festas dos rapazes. Exemplo dos mais representativos e simbólicos deste fenómeno é o Natal celebrado em Varge, aldeia situada na Baixa Lombada, atravessada pelas águas límpidas do rio Igrejas, com a celebração da festa dos rapazes. É como se as antigas e pagãs festas chamadas Juvenálias, protagonizadas pelos jovens, estivessem, dois mil anos passados, em plena actualidade.
A festa é anunciada no Dia de Todos os Santos, com a reunião dos rapazes para a recolha da Lenha das Almas. Já no mês de Dezembro, os preparativos intensificam-se com as rondas à aldeia, todos os sábados, ao som da gaita de foles, para uma visita à casa de todos os rapazes participantes.
No dia de Natal, à hora aprazada, reunem-se os rapazes na casa da festa. Devidamente perfilados em formatura, com os mordomos, revestidos das insígnias do seu poder – um chapéu enfeitado - e o gaiteiro à frente, dirigem-se para a missa. Já no espaço do adro, a formatura dá duas voltas à igreja até parar em frente à porta principal. O gaiteiro cala-se para que todos possam entrar no espaço sagrado sem o som da música profana que, segundo as determinações eclesiásticas, “da porta da igreja para dentro não toque gaiteiro nenhum a gaita”.
No final da missa, os rapazes saem a correr para se indumentarem com seus fatos de mascarado. Chegou a hora de os “caretos” entrarem no exercício das suas funções. Transformam-se em figuras diabólicas e mágicas, sob a máscara de latão pintado, o colorido dos seus fatos, com fitas, campainhas e chocalhos à volta do corpo.
Entretanto, os mordomos saem também, transportando a imagem do patrono dos rapazes – Santo Estêvão – no percurso entre a igreja e o largo onde vão ser recitadas as “loas”.
As loas são uma espécie de revista do ano e constam da proclamação dos acontecimentos ridículos ou como tal apreciados, ocorridos durante o ano. É o ritual solene da crítica social institucionalizada. A crítica social é uma das funções dos mascarados a que o povo tem de assistir porque a ele diz respeito.
Reunido no largo, o povo aguarda com expectativa. No meio de uma algazarra enorme, o primeiro interveniente sobe ao carro para saudar o povo.
Cada um dos que se segue tem a seu cargo o relato, em verso, de um dos acontecimentos seleccionados. Recita de memória um rosário de quadras por ele próprio engendradas, com a cara encoberta pela máscara para não ser identificado. No final de cada quadra, os colegas aplaudem à sua maneira.
Alguns destes factos são representados ao vivo. Os actores são os próprios rapazes que assumem o papel das personagens intervenientes no caso: de mulher, de velho ou mesmo de animais.
A primeira representação refere-se a um conflito familiar que pôs em confronto uma mulher da aldeia e seu primo pela posse da casa deste que ele queria doar à sobrinha. No auge da discussão houve insultos e empurrões e só terminou com a intervenção da Guarda Nacional Republicana.
No segundo acto é representado o despique entre dois vizinhos, pretendendo cada um leiloar para si as terras pertencentes à confraria de S. Sebastião. Um deles chegou a vias de facto, agredindo o outro que teve que receber tratamento hospitalar.
O ritual chegou ao fim e o povo dispersa. Agora é o momento de os “caretos” darem largas às suas diabruras, de manifestarem a sua superioridade perante todos executando actos de valentia, desafiando os próprios elementos da natureza, o rigor do clima e colocando-se acima das normas sociais instituídas.
Segue-se o cerimonial mais solene da festa, a ronda das Boas Festas. Mordomos e gaiteiro à frente, organiza-se o cortejo que percorre a aldeia, de porta a porta, ao som da música da gaita, dos gritos, das pantominas e da chocalhada dos “caretos”.
Os mordomos carregam cada um sua vara, em forma de árvore com muitos ramos, onde colocam os presentes que os donos da casa lhes oferecem. Param em todas as casas e saúdam os donos que os recebem à porta.
Recebem os presentes: fruta, figos secos, roscas de pão, peças de fumeiro… e dinheiro. Bebe-se um copo e o percurso protocolar prossegue para a casa seguinte, em acto de propiciação dos bons augúrios para a natureza e para a comunidade.
Entretanto, os “caretos” desenvolvem a sua própria actividade em ordem à recolha de fundos para o financiamento da festa. Interpelam os forasteiros, exigindo-lhes um pequeno contributo, condição sem a qual não os deixam prosseguir a sua marcha.
A corrida à rosca é já ao anoitecer. Um teste à resistência física dos jovens iniciados. Os vencedores recebem uma rosca de pão, compartilhada fraternalmente por todos.
À noite, a ceia dos rapazes. Como em qualquer sociedade secreta, só eles participam na refeição, por eles mesmo confeccionada, e naquele espaço a ninguém mais é permitida a entrada. Segue-se o baile intercalado com a música do gaiteiro com a da mais moderna aparelhagem sonora.
O Santo Estêvão celebra-se no segundo dia de festa, 26 de Dezembro. O acto religioso dedicado ao santo é a missa dos rapazes. Pese embora a noitada anterior, todos marcam presença. Uma vez mais se identificam as duas celebrações: a pagã e a cristã. Uma vez mais o sagrado e o profano andam de mãos dadas.
O almoço é mais um convívio comunitário só para rapazes. Mas esta refeição reveste-se de um simbolismo muito especial – a eleição dos novos mordomos, os que irão dar continuidade à festa. A milenar tradição está entregue e em boas mãos. Para assinalar este facto, organiza-se um cortejo que se dirige para a casa dos mordomos eleitos, ao som da gaita de foles, dançando e cantando ao longo das ruas. Em cada uma das casas come-se e bebe-se abundantemente; é que a festa dos rapazes de Varge está por fim mas a sua continuidade está devidamente assegurada.
António A. Pinelo Tiza
domingo, 26 de fevereiro de 2012
Aqui está a 34ª entrevista
O nosso entrevistado desta semana é o Doutor António André Pinelo Tiza, natural de Varge, concelho e distrito de Bragança.
A sua vida está intimamente ligada ao estudo das tradições relacionadas com o solstício de Inverno e a máscara transmontana e ibérica.
Publicou o livro " Inverno Mágico, ritos e mistérios transmontanos”.
A sua vida está intimamente ligada ao estudo das tradições relacionadas com o solstício de Inverno e a máscara transmontana e ibérica.
Publicou o livro " Inverno Mágico, ritos e mistérios transmontanos”.
sábado, 25 de fevereiro de 2012
Entrevista 2: Dr. Hirondino da Paixão Fernandes
“E pelo Parâmio se quedou (para onde é que haveria de ir!), jogando a porca, ou brincadeira que a valha, até que entrou para a escola primária, já um tudo-nada tarde, porque tinha a “trave” - ainda recorda a intervenção (cirúrgica), no cimo das escaleiras da casa, com uma vulgaríssima tesoura de costura, “samumbém” enferrujada e “roma”, mas esterilizada... com algum "bucho" de aguardente).”
Doutor Hirondino, como seu antigo aluno, não resisti a fazer uso desta bela frase que faz parte do seu currículo e reporta-nos à sua infância. Fale-nos da sua meninice.
Não sei a bem dizer, o que deverei lembrar, tive uma meninice como todos os demais, uma meninice, como já frisou, a jogar a “porca”, o “tirolilo”, jogos que tínhamos na altura. Um pouco depois ia com as vacas para o lameiro, mesmo em período de férias e, depois foi deixar o Parâmio e vir para Bragança.
De que forma o facto de ter nascido nesta região o marcou?
Marcou-me profundamente. É esta região que tenho sempre presente em mim. Concluí a universidade e vim para Bragança. Podia ter ido para longe, mas não o fiz, fiz o estágio e vim para Bragança e, uma vez em Bragança, sabendo que, mais dia, menos dia sairia de cá, fui para Coimbra e, uma vez mais em Coimbra lá estou eu, sempre a pensar em Bragança. Prova disso a Bibliografia do Distrito de Bragança, pequenos outros trabalhos, mas múltiplos, todos eles tendo como pano de fundo coisas da nossa terra.
O bom filho volta sempre a casa, não é?
O bom filho volta sempre a casa, psicologicamente, intelectualmente, porque fisicamente tem que ficar por fora.
Como seu antigo aluno, atrevo-me a pedir-lhe que nos fale da Trave…
A Trave, já lhe soube o nome científico, é uma prisão da língua, sublingual não é? Que prende um bocadinho a língua e que nos obriga a pronunciar o “R” natural, e não o “R” pronunciado com a ponta da língua; fora disso penso que não tem outros problemas, tem esse que é o de não pronunciar o “R”.
Que não é problema nenhum...
Não é problema nenhum, foi em parte anulado com a tal tesoura, esterilizada com um bucho de aguardente, porque álcool nas aldeias, na altura, não havia e os médicos também não o levavam.
Tinha de ser com aguardente…
Os organismos resistem muito e o meu resistiu a uma pequena cirurgia do corte dessa ligeira prisão sublingual. Claro que só cortou um bocadinho, não o suficiente. Já agora, este esclarecimento, cortou só um bocadinho, porque não gostei da brincadeira. Foi o Dr. Rapazote, que me disse que aquilo não era nada mas, quando senti a tesoura a cortar, ele quis cortar mais, mas depois não deixei. Até me deu jeito como professor de francês, que fui, mais tarde, pois fiquei com uma pronúncia mais correcta.
Fale-nos da sua experiência como aluno no Liceu Nacional de Bragança.
Um aluno como tantos mais, sem nada de especial, fui andando, foram passando os anos. No 5º ou 6º ano fundei o “Alvorada”, no 7º ano fui presidente da Academia e mais nada, portanto, não vejo assim nada de especial como aluno do Liceu de Bragança.
Biografia 2: Dr. Hirondino da Paixão Fernandes
FERNANDES, Hirondino da Paixão, Parâmio, 1931. 06. 07
Dizem as pessoas (lá do burgo, que outras haveriam de ser!) e rezam as crónicas (os livros de registo paroquial e civil, que outros haveriam, também, de ser!), que nasceu, como se disse, no Parâmio, pelas 9h da manhã, no ano, mês e dia indicados.
E pelo Parâmio se quedou (para onde é que haveria de ir!), jogando a porca, ou brincadeira que a valha, até que entrou para a escola primária, já um tudo-nada tarde, porque tinha a “trave” - ainda recorda a intervenção (cirúrgica), no cimo das escaleiras da casa, com uma vulgaríssima tesoura de costura, “samumbém” enferrujada e “Roma”, mas esterilizada... com algum "bucho" de aguardente).
Feito o exame de admissão aos liceus (1943), matricula-se no Liceu Nacional de Emídio Garcia (Bragança), que termina em 1950, com, viva o velho!, 13 valores.
Neste último ano, na qualidade de Presidente da Academia, e obviamente que em consoI1ância com os restantes membros da Comissão, não deixa que os festejos comemorativos do 1º de Dezembro corram sob o signo da MP (como pela primeira vez se queria que acontecesse), o que lhe valeu (e aos mais, como é evidente) ver-se sem a tradicional companhia dos democráticos senhores reitor e professores (nem um, para amostra!) no cortejo e récita de gala.
Virá, mais tarde, a ser delegado distrital desta MP! Imponderáveis do destino, ou talvez não, tudo dependendo do conceito que desta mesma MP se queira fazer.
É ainda, neste ano de 1949/1950, a mola real da fundação do jornal escolar "Alvorada".
Depois (1951) é a Universidade, de que é supérfluo falar - um curso (Filologia Românica) que se lhe veio a revelar, cada vez mais, incolor, inodoro, insípido [mas não cristalino como é, ainda, alguma (pouca) água], não tanto por culpa dos Mestres (de vários, entenda-se) quanto por erro seu, se não mais ainda de um sistema que, demasiado cedo, o forçou a optar pela alínea a) do art° 5° do decreto-lei nº 36507.
Entrevista: Professor Doutor Dionísio Gonçalves
Professor, nasceu no concelho de Bragança, onde passou a sua meninice e início de juventude. Que recordações guarda desse tempo?
As recordações de Bragança são muito diferentes do actual mas, há uma variância, também, como hoje, que era acolhedora. O liceu era prestigiado e existia uma grande vivência entre as pessoas. Porquê, como sabe, Bragança é uma zona tão interior, uma cidade tão interior que criou sempre muitos laços entre todos nós que aqui vivíamos. Por isso também se chamava a Bragança uma mini Coimbra. Havia, de facto, um ambiente académico muito grande. É com muita saudade que eu recordo esses tempos. Nomeadamente, ainda há poucos dias comemorámos o final do curso de liceu, em 1962/1963, há quarenta e dois anos, portanto e ainda nos reunimos com muita saudade, aqui, em Bragança. (A entrevista foi realizada no final de 2005)
De que forma o facto de ter nascido nesta região o marcou?
Digamos… não posso dizer que me marcou: marcou-me pela positiva, obviamente, porque desde cedo, gostei muito do território. Gostei muito de estar ligado às questões do ambiente, meteorologia, etc. Desde criança que olhava muito para as montanhas, Montesinho e Sanábria e recolhia os dados climáticos como um hobby. Era praticamente um rapaz de liceu, digamos assim.
Então não foi a sua actividade como oficial miliciano de meteorologia da Força Aérea Portuguesa que despertou a sua vocação?
Não, já estava desperta. Eu posso dizer, tenho hoje 62 anos (agora tem 69) e há 57 que me posso considerar uma estação climatológica, porque guardo na memória praticamente os fenómenos meteorológicos relevantes, é um hobby e, quando fui, de facto, para o exército, enfim para a minha vida militar, tive a oportunidade de fazer a vida militar na Força Aérea como técnico oficial de meteorologia onde aprofundei e tirei um curso coerente sobre a meteorologia e previsão de tempo.
Licenciou-se em Lisboa. Sentiu-se desenraizado, perdido, adaptou-se bem à vida da capital?
Não, naturalmente que me adaptei bem. Naqueles tempos nem poderia ser de outra maneira, não havia a dispersão do ensino superior que há hoje, e portanto, adaptei-me muitíssimo bem. E também tinha colegas daqui, da nossa região, outros colegas que estavam noutras faculdades. Gostei imenso de estar em Lisboa, posso dize-lo. E digamos que era ali que teria ficado se não fosse, aliás, pelo ensino superior.
Passou da capital para Vila Real. Fez o percurso inverso da grande maioria das pessoas…
Exactamente, porque aproximar-me da minha região foi sempre um grande objectivo da minha vida. Escolhi a vida académica, escolhi, profissionalmente, a vida universitária. Se não tivesse havido essa desenraização do ensino superior era mais um que estava, que tinha continuado em Lisboa. Mas também poderia ter continuado, obviamente que sim mas, quando foi criado o politécnico de Vila Real e, aliás, sou o docente mais antigo desta universidade, porque fez exactamente este mês de abril 30 anos que eu vim para Trás-os-Montes, Abril de 1975, regressei nessa altura e portanto com uma grande paixão e com uma grande dedicação. Também ajudei, à minha maneira, a construir o que é hoje a Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro.
A sua vida profissional está intimamente ligada à vida académica e ao Instituto Politécnico de Bragança. No entanto, durante alguns anos, deu o rosto ao projecto do Parque Natural de Montesinho. Fale-nos, por favor, desse percurso.
Biografia: Professor Doutor Dionísio Gonçalves
Professor Dionísio Afonso Gonçalves, natural de Bragança, é casado, tem duas filhas e um filho, nascido a 18 Dezembro de 1942.Em 1972 licenciou-se em Engenharia Agronómica no Instituto Superior de Agronomia na Universidade Técnica de Lisboa.
De 1972 a 1975 foi assistente da disciplina de mesologia e meteorologia agrícola do instituto superior de agronomia.
Em abril de 1975 transitou como assistente para o então instituto politécnico de Vila Real, hoje Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro.
Obteve o grau de Doutor em Dezembro de 1985, com distinção e louvor em engenharia agrícola.
A sua produção científica tem abrangido a agro climatologia e o estudo de climas locais com a finalidade do ordenamento do território, defesa das culturas dos elementos climáticos adversos e contribuição da adaptação das previsões meteorológicas à escala regional e local.
Em 1992, obteve a agregação tendo sido aprovado por unanimidade e é professor catedrático da nomeação definitiva da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro.
De Outubro de 1978 a Janeiro de 1983 e Maio de 1976 a Fevereiro de 1993 foi coordenador do parque natural de Montesinho, tendo sido responsável pela sua delimitação e instalação.
De Janeiro de 1983 a Maio de 1988 foi presidente da escola superior agrária do instituto politécnico de Bragança e é presidente deste instituto desde Junho de 1988.
Coordenador do centro de investigação de montanha da fundação para a ciência e tecnologia desde Janeiro de 2002.
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