Ernesto Rodrigues nasceu em Torre de D. Chama, em 1956, é pai de duas filhas, Célia e Lídia, e professor de Cultura e Literatura Portuguesas na Faculdade de Letras de Lisboa, onde se licenciou em 1980, Guardo as melhores recordações. Foi o primeiro paraíso. Vivi na minha Torre dez anos, antes de ir para o seminário de Vinhais e, depois, para o de Bragança, onde estive até aos quinze anos, incompletos. A meninice decorreu entre jogos próprios da idade, desde imitações de cow-boys contra índios a partidas de futebol, enquanto nascia para a leitura e para a capacidade, que na literatura eu já desvelava, de me comover. A memória do lugar está no romance Torre de Dona Chama.
Veio estudar para Bragança e depressa se integrou no meio cultural. Como era ser estudante em Bragança, nessa altura?
Após alguns choques, no seminário, com padres que não deixei de contactar, esparsamente, ao longo das décadas, dormi já o 6 de Junho de 1971 no Lar Calouste Gulbenkian, onde só estive um mês, aí iniciando, contudo, ingénua oposição política, que me marcou para a vida. Fundámos, capitaneados por Domingos Neto, O Grupo, de que saíram três números, enquanto vivíamos a noite, ora discutindo, ou ouvindo a voz radialista de um Manuel Alegre exilado, e sonhando com outro futuro em país livre. Sabíamos de reticências dos maiores, a começar nos professores, mas também de figuras como o presidente da Câmara Municipal ou o governador civil; mais duradouro, tivemos um espaço de liberdade no Mensageiro de Bragança, pelo que, conciliando vários mundos, e, sobretudo, na doce clandestinidade e liberdade que hauríamos junto do Padre Manuel Sampaio, director deste, conseguíamos viver em paz com a nossa consciência desperta para a justiça social, sem deixar de cumprir os mínimos no liceu.
Referiu que, desde muito novo, enveredou pelo jornalismo. Fale-nos dessa experiência.
Aos doze anos, eu fundava jornais de parede. Desde os catorze, estou em letra de forma, já director, já simples ou variado colaborador. Na fase mais significativa, a do Mensageiro de Bragança – onde entrei em 1971 –, uma pequena equipa, em que o mais velho era Carlos Pires, relançou, a partir de Janeiro 1972, o semanário que conhecemos hoje, quanto ao formato, mas num grafismo inovador e com secções irrepetíveis. Abandonei-o, com o director, em Outubro de 1974. Estendia-me, simultaneamente, a publicações de Mirandela e Mogadouro, ou à Imprensa escolar. No nascente Instituto da Juventude, fundei Novo Rumo (no seminário, deixara Rumo, 1971), número único em que entrevistei o ministro da Educação, Veiga Simão, que veio a Bragança no dia 17 de Janeiro de 1974. Desde 1972, inseria poemas no Diário Popular – ou, em 1973, n’A Capital –, que Maria Alberta Meneres antologiou em O Poeta Faz-se aos 10 Anos (Assírio & Alvim, 1973). Quis estudar em Lisboa por causa dos jornais. Mas isso pedia um longo capítulo. Seria estagiário, repórter e redactor, durante a licenciatura. Nunca me libertei do bichinho dos jornais, que, profissionalmente, troquei pela Universidade. Fiz convergir a dupla paixão, que me orienta, na tese de doutoramento.




