Foi o “descobridor” se assim se pode dizer, de algumas das mais importantes pinturas rupestres existentes em Portugal…
Eu, realmente, nunca apliquei essa expressão de descobridor, acho que as coisas estão onde estão e o facto de nós depararmos com elas… no caso de Masouco e no caso de outras coisas que estão ao ar livre, se há realmente descobridores, em princípio, são as pessoas que sempre conviveram com esse património. No caso de Masouco as pessoas que tinham propriedades naquela zona já referenciavam aquilo como sendo um carneiro embora houvesse meia dúzia de pessoas que tinham propriedades ali que sabiam, embora atribuíssem aquilo a pastores. Mesmo no caso do Côa, os moleiros, os pescadores, os pastores, conheciam essas coisas, portanto, nós quando muito, podemos ter uma percepção dessa realidade. Se isso é descoberta ou não? Acho que é um pouco.
Sabem referenciar se são coisas recentes?
Normalmente, no que estou a falar, quer no Côa quer em Masouco, são coisas atribuíveis à época paleolítica mas, o povo atribui tudo a Mouros. Digamos que no seu imaginário são coisas intemporais, míticas, não têm, digamos, as tabelas cronológicas metidas na cabeça como nós temos e daí não fazem essa interpretação mas, isso não impede que não tenham conhecimento dessas coisas. Eles, sim são os descobridores.
É um pouco como a história da América, quem descobriu a América foi Colombo? Outros disseram que foram os Vikings que já lá tinham estado antes mas, para mim, foram os índios, as populações que em dado momento terão atravessado o estreito de Bering, há dez ou doze mil anos e entraram na América, se é que foram os verdadeiros descobridores, que vieram da Ásia…
É natural de Angola, embora a sua família seja de Torre de Moncorvo. Tem com certeza muitas recordações desses tempos…
Tenho algumas, embora tenha sido uma fase distante da minha vida. Nunca mais lá voltei mas, vim numa idade em que ainda há um recorte bastante nítido. Temos já uma percepção muito grande daquilo que vimos e, realmente, guardo isso na minha memória como tempos felizes da primeira infância, inesquecíveis. Tinha doze anos.
Ainda se recorda, com certeza, de algumas brincadeiras diferentes…
Recordo-me das praias do sul, das praias desertas da costa sul. Lembro-me daquilo que nós chamamos o mato. Era aquela paisagem natural que foi desde sempre a zona da savana. Eu nasci no deserto.
Completamente diferente da zona para onde veio depois…
Com algumas diferenças, mas muitas semelhanças, e se calhar as semelhanças vão ser maiores no futuro.
As suas raízes estão em Trás-os-Montes, mais precisamente em Torre de Moncorvo. Foi ali que completou o ensino secundário. Teve, portanto, uma adolescência dividida…
Sim. Dividida em relação à aldeia e à vila. Nessa fase, até ao secundário, era mais entre a vila onde era a escola e a aldeia onde ia nas férias. Depois, já posteriormente, na ida para a Faculdade aí, foi entre a vila e a cidade. Portanto andamos sempre divididos.