sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Entrevista com o arquitecto João Ortega

Senhor arquitecto, começamos, sempre, pelo local de nascimento. É aí que tudo começa. Nasceu numa das maiores cidades do mundo, é caso para perguntar, o que faz um “paulista” em Bragança?

Nascer em São Paulo, penso que, foi um acidente na minha vida. Nunca me naturalizei português, continuo com naturalidade brasileira, e se tenho algumas questões em me considerar português, não tenho nenhumas em me considerar transmontano, ou seja, o nascimento em São Paulo, foi um acidente, de resto, tirando o período de formação superior, sempre estive em Bragança e, portanto, não me parece que me possa chamar “paulista”, agora, sou transmontano, certamente.
Eu diria que não há, tirando o facto de lá ter nascido, mais nenhuma relação, neste momento, com a cidade de São Paulo, ou com o Brasil; mantenho a nacionalidade brasileira, mas a minha ligação é aqui a Trás-os-Montes, primeiro por força da idade que tinha e de os meus pais serem daqui e aqui residirem e depois por uma opção de ter vindo para Bragança depois de ter acabado a licenciatura.

Que recordações guarda da sua infância e da sua adolescência? Foi uma adaptação difícil?

A minha infância decorreu muito perto de Bragança, e diria que em condições, de alguma forma, particulares e até excepcionais; os meus pais trabalhavam aqui perto num local chamado Minas da Ribeira que é um mundo à parte, porque não sendo um espaço urbano, e hoje faço essa afirmação com todo o peso que o urbano significa, também pela minha formação profissional, não sendo um espaço urbano também não era um espaço rural; a minha infância é vivida num espaço protegido, um espaço que estava bem delimitado, e que nos fornecia uma segurança muito grande; eu vivi lá até as minas fecharem em 1973, e de facto penso que era um óptimo sítio para ter vivido a infância.

Concluiu o ensino secundário em Bragança, na escola secundária Emídio Garcia; segui depois para Lisboa onde se licenciou em arquitectura e imediatamente regressou à cidade de Bragança. Não é um percurso muito usual nos dias que correm, fale-nos desse percurso.

Até à entrada na faculdade a ideia que tinha do mundo era uma ideia aqui do lugar, aqui de Bragança. A passagem por Lisboa e os cinco anos de formação superior são, necessariamente, de alargar horizontes e de ver outros mundos, no entanto, e sobretudo nos dois últimos anos de formação superior, foi-se tornando cada vez mais claro, que não era uma cidade ou um espaço com aquelas características do local onde eu queria viver e, por isso, a decisão de regressar a Bragança, que era tempo em que eu me formei, e que em conversa ainda muito recentemente com algumas pessoas mais novas que eu, estava eu convencido que eram hoje as coisas diferentes, mas afinal não são; efectivamente a saída para o ensino superior significa para Bragança, no que eu posso chamar já o meu tempo, a saída de gente que não regressou, dos que andaram comigo no liceu, regressou, anos depois, um outro que continua cá em Bragança; de resto todos os meus amigos e colegas de liceu que entraram no ensino superior, acabaram por ficar fora de Bragança, e isso, parece-me que significou e continua a significar, para Bragança, uma perda muito significativa de pessoas que certamente interessariam à região.

Sim, porque a partir do momento em que se formam é que elas podem contribuir de alguma forma para o desenvolvimento da região…

Não me parece que sejam só aquelas que se formam no ensino superior, serão todas, e penso que esta é que é a questão fundamental da região, é a necessidade de haver cá pessoas mas, certamente, aquelas que têm formação ao nível superior seriam desejáveis à região.

Acabou o curso de arquitectura e desde então tem desenvolvido a sua actividade profissional aqui em Trás-os-Montes. Nunca sentiu o apelo dos grandes centros?

Podemos encarar o apelo dos grandes centros de duas formas: por um lado a falta de qualidade de vida que um centro determina, não é uma opção a falta de qualidade que nós lá temos para viver, e nesse aspecto a minha opção de regressar a Bragança, é uma decisão consciente de que eu quero viver num local que me proporcione vida, e é coisa que entendo que uma metrópole não proporciona, hoje em dia e, mesmo no passado, embora as metrópoles sejam relativamente recentes, historicamente, as grandes áreas urbanas só começaram a crescer depois da revolução industrial e, portanto, mesmo na história não temos exemplos que possamos considerar muito antigos.

Biografia do Arquitecto João Batista Ortega

João Baptista Ortega, nascido em São Paulo, Brasil, no ano de 1963, casado;
Nesse mesmo ano termina a licenciatura em arquitectura pela faculdade de arquitectura de Lisboa, vive e trabalha e Bragança.
Trabalha em regime de profissão liberal, com atelier na cidade de Bragança. Em Maio de 1999 funda a empresa Morfopolis, oficina de arquitectura, que se encontra situada no loteamento do Sabor, nº9, também na cidade de Bragança.
Tem um vasto leque de obras entre as quais destacamos por ser uma das mais recentes a Caixa de Crédito Agrícola Mútua de Bragança, edifício destinado às novas instalações com 8 pisos na Av. João da Cruz.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

É tempo

É tempo de família
reduzido a um único fim-de-semana
Já não há horas de qualidade
apenas horas
que é preciso aproveitar
como se fossem as últimas
sem nunca terem sido as primeiras

É tempo.
passa tão rapidamente
ou tão devagar
que me custa saber
se alguma vez saberei
que dias são estes de agora

Se não fosse, já, o Natal passado
talvez sentisse alegria,
verdadeira.
A que agora sinto
ou minto
é tão pouco consistente
que os dias raiados de sol
gelam-me como as noites
cobertas de geada.

As horas arrastam-se
como fantasmas anónimos
em anónimas casas
onde já não vive ninguém...

Mara Cepeda

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Olá amigos! Aqui está, com atraso, a 24ª entrevista...

Depois deste pequeno interregno, aqui estamos novamente com a 24ª entrevista. O Nosso entrevistado desta semana é o Arquitecto João Ortega, nascido em São Paulo, Brasil e a viver e a trabalhar em Bragança para onde veio com a tenra idade de dois meses.
Nesta entrevista, fala-nos da sua profissão e da sua ideia para Trás-os-Montes.
É uma entrevista muito interessante, donde podemos tirar muitas ideias interessantes para o futuro da nossa região.

Bem hajam por continuarem connosco e pedimos desculpas por não termos conseguido colocar ontem a entrevista.

Mara e Marcolino Cepeda

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Biografia de Doutor Chrys Chrystello - Congressos da Lusofonia

Dr. Chrys Chrystello, nascido a 2 de Outubro de 1949, prestou serviço no exército colonial português, sendo destacado para o Comando Territorial Independente de Timor, onde chegou em Setembro de 1973, regressando a Portugal dois anos mais tarde. Começou, então, a escrever o seu livro “Timor-Leste: 1973-1975, o Dossier Secreto”, antes de rumar a Macau em 1976 e, posteriormente, à Austrália, onde se fixou e naturalizou.

Ao longo de mais de três décadas de jornalismo político, trabalhou em rádio, televisão e imprensa escrita, tendo sido correspondente estrangeiro durante décadas, da Agência Noticiosa Portuguesa “ANOP/LUSA”, da RDP e da Rádio Comercial, TDM em Macau, Jornal de Notícias, Europeu, Público, entre muitos outros. Tem sido publicado em inúmeros jornais e revistas em todo o Mundo; escreveu guiões de filmes e documentários australianos sobre Timor, tem colaborado em jornais e revistas sindicais como “The Journalist”, da “Australian Journalist Association”, “The Maritime Union” (Sindicato Marítimo Australiano), “The Metal Worker” (Sindicato Metalúrgico Australiano).

Entrevista com Doutor Chrys Chrystello


Começo por lhe perguntar Doutor Chrys Chrystello, que recordações guarda da sua infância e adolescência?

Tendo nascido em Portugal, as únicas recordações que eu mantive sempre bem vivas, ao longo dos anos, dando jus à existência da palavra saudade, que, infelizmente, não tem tradução em qualquer outra língua, as recordações que eu guardo, curiosamente, sendo eu um urbano, um citadino, nascido no Porto, as recordações são todas relacionadas com Trás-os-Montes.
Os meus avós maternos eram transmontanos, a minha mãe era transmontana, saiu de Bragança há cerca de 60 anos, e, portanto, as férias acabavam por ser passadas com os meus avós, em aldeias do distrito de Bragança.
Primeiro, a liberdade dos campos, o poder deitar-me à noite nos palheiros a ver as estrelas, coisa que era impossível, já nessa altura, e, já lá vão para aí 40 anos ou mais. Era impossível, já na altura, verem-se estrelas no Porto. O simples facto de poder jogar à bola com os outros miúdos da aldeia, sei lá…, o ranger dos carros de bois, os burricos a irem com os cântaros à fonte da Crichinha na aldeia da Eucísia, os carros de bois no Azinhoso perto do Mogadouro, as idas à igreja e todos os rituais religiosos, totalmente diferentes da cidade, as procissões com rituais ainda muito antigos que já se tinham perdido nas cidades, e, sobretudo, a liberdade dos campos.

Recordações, essencialmente, todas elas, do meio rural…

Bucólicas…

Do meio rural.

Do meio rural. Eu sou do meio rural. As aldeias que, infelizmente, estão a desaparecer porque as pessoas, também, estão a desaparecer, representam aquilo que há de mais vital na cultura tradicional portuguesa. E, lamentavelmente, não se está a fazer o suficiente, para recuperarmos essas aldeias; seja através da própria imigração, por que não trazer gente dos países de Leste que tanto querem ficar cá e radicar-se e encontrar uma nova pátria, assim como eu encontrei na Austrália. Por que não trazê-los para estas aldeias desertas, dar-lhes as casas abandonadas, os campos abandonados, e, assim, revitalizar toda uma economia.
Porque, com a vinda deles haveria escolas, haveria necessidade para médicos, para advogados, para mais serviços públicos.
As aldeias deixariam de ser aquilo que são. Por exemplo, Guadramil, neste momento, tem menos de cem pessoas, todas elas, noventa e tal por cento, com mais de cinquenta anos, e, é esse aspecto desolador de ver as casas a ruir, as pessoas a ruir, é como se eu visse, também, um bocado do Portugal que eu amo, a desaparecer.

E os que não morrem lá, fogem para outros sítios, não é?

E a tentativa de fuga é muito grande. Evidentemente, que as pessoas só se apercebem depois de irem para o Porto, para Lisboa e para as grandes cidades. Só se apercebem que largam este maravilhoso distrito para irem viver no meio de cimento. Quando abrem a janela, começam a ver os vizinhos ou paredes de cimento, a poluição e tudo o mais. Mas, enfim, é a escolha dos jovens.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

O nosso entrevistado da próxima semana é o Arquiteto Ortega

No próximo domingo postaremos a entrevista do Arquiteto João Batista Ortega, natural de São Paulo, Brasil, a residir e trabalhar em Bragança desde a tenra idade de dois meses. Os seus pais são transmontanos.
Como o próprio diz, o facto de ter nascido em São Paulo foi um acidente de percurso e ele considera-se brigantino de alma e coração.

Até já