Comecemos, então, pelo princípio e, como o início é o nosso berço, diga-nos, por favor, onde nasceu? Eu nasci em Coimbra, porque o meu pai formou-se em medicina naquela cidade e tinha a nostalgia de Coimbra, a nostalgia do Choupal, portanto, quis que os seus filhos fossem nascer a Coimbra. Naquela altura não havia em Trás-os-Montes grandes condições de saúde para as mães e ele esforçou-se para que nós, quer o meu irmão mais velho quer eu, fossemos nascer a Coimbra. Só o meu irmão mais novo é que não nasceu lá porque, embora seja o mais sossegado dos três irmãos, na altura do nascimento foi o mais adiantado e acabou mesmo por ter que nascer em Trás-os-Montes. Portanto, sou nascido em Coimbra, mas transmontano de corpo e alma.
Como foi a sua meninice e que recordações guarda da sua infância?
Eu cresci numa aldeia do distrito de Bragança, do concelho de Mirandela chamada Alvites. Uma aldeia belíssima, uma terra belíssima e, portanto, eu guardo a ideia do paraíso que eu gostaria de encontrar quando chegasse a hora do “encontro final”. A ideia que eu tenho é de uma infância extraordinariamente feliz, de uma liberdade absoluta que é muito cantada e escrita pelo escritor que dá o nome à minha escola, que é a escola secundária Miguel Torga de Bragança.
É esse o mundo simples, o mundo de certezas absolutas onde os dilemas da vida moderna nunca tiveram lugar e que era óbvio, com toda a certeza, para toda a gente, que o sol nascia a leste e se punha a oeste; que ao chegar à altura das sementeiras, semeava-se; ao chegar a altura das colheitas, colhia-se. Portanto, foi uma meninice em que nunca soube o que era o problema do stress; o problema de não ter uma família que não me apoiasse; o problema de ter muita gente doente, que é um bocado o contrário do que se passa agora nessa minha aldeia.
E onde frequentou os seus estudos até ingressar na universidade?
Depois, com dez anos, infeliz ou felizmente, naquela altura, infelizmente, fui para um colégio particular, de jesuítas e que é o instituto Nuno Alvares, situado entre Famalicão e Santo Tirso. Estar nesse colégio foi uma infelicidade terrível…
Eu saí de uma aldeia que era um mundo, onde toda a gente se conhecia, eu conhecia cada cantinho, onde tudo era pessoal. Ao ir para um colégio com cerca de 600 alunos, onde o que marcava era a impessoalidade, digamos assim, eu era um número, era o 101, foi uma infelicidade terrível naquela altura, descobri pela primeira vez que também podia haver purgatório, custava-me a acreditar que houvesse. Descobri, efectivamente, que a vida era feita de encontros e de desencontros mas, estive nesse colégio, colégio Santo Tirso e, aprendi.
Agora, passados estes anos todos, acabo por recuperar coisas boas do que lá passei, nomeadamente, em termos de ensino e de condições que os jesuítas davam aos seus alunos e aquilo que tentavam incutir, parte delas com uma visão diferente... as coisas boas tento continuá-las na Escola Secundária Miguel Torga e, portanto, estive até aos 15 anos de idade no colégio Santo Tirso; depois vim para Mirandela onde fiz os 2 últimos anos de liceu.
Em Mirandela, já perto dos meus pais, fui sujeito ao contraste terrível entre o que era o ensino de qualidade no colégio Santo Tirso e uma balda, digamos assim, que havia naquela altura. Estamos a falar dos anos a seguir ao 25 de Abril, onde houve um “boom” de gente a estudar e, foram precisos muitos professores. Não havia tempo para os formar, tudo o que viesse à rede era peixe e lembro-me, por exemplo, em Mirandela que o meu professor de matemática era um rapaz um pouco mais velho do que eu. Eu tinha 16 anos e ele teria 18 ou 19. Soube mais tarde que ele teria chumbado no 7º ano. Ele ia dar Lógica e tinha o vício de dizer é lógico, é lógico, é lógico. Então, logo na primeira aula, eu disse ao professor: “O senhor está a dar lógica ou lógico?” e, ele diz-me assim: “É pá, tens razão, não percebo nada disto, não foi “nada” a palavra que ele disse, foi assim um bocadinho mais dura e saiu porta fora. Nunca mais deu aulas.

Bragança poderá vir a criar uma rede europeia da Máscara. 


