quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Castanheiros no outono

       
O castanheiro é das árvores mais bonitas que conheço. Em qualquer estação do ano a sua mensagem é que a vida continua mesmo quando parece que a seiva não lhe corre nos anéis que compõem o seu tronco.
Estes pertencem à aldeia de Vilar de Peregrinos que dista, sensivelmente, uns escassos 6 km da minha: Brito de Baixo. Pertencem as duas ao concelho de Vinhais.
     

Que idade teria este enorme exemplar?


Mara Cepeda

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Crise

Ontem, ao fim de um dia de trabalho, desloquei-me a uma superfície comercial a fim de efetuar algumas compras.
Estacionei o carro no parque e dirigi-me ao supermercado. Junto da porta de entrada do mesmo, fui interpelada por um homem dos seus quarenta anos, convenientemente vestido, talvez pouco agasalhado, que me disse:
- Minha senhora, dê-me um dinheirinho para comprar comida.
Por norma, não costumo dar dinheiro a pedintes e devo ter feito uma expressão indiciadora dessa minha maneira de ser. Ato contínuo, apercebendo-se da minha expressão, disse, rapidamente, o senhor:
- Ou então, compre-me lá dentro alguma coisa para comer, por favor...
Não sei o que senti. A alma caiu-me aos pés, um nó instalou-se-me na garganta e entrei fazendo um leve aceno com a cabeça ao homem, que o compreendeu.
Estava frio, bastante frio até, em dia de nevoeiro denso...
Os meus olhos, marejados de lágrimas, dificultavam-me a visão. Embotou-se-me o pensamento. Ao passar junto do pão, peguei no maior que lá havia e segui, diretamente ao corredor dos frios, de onde tirei um fiambre. Passei pelo espaço destinado à fruta e coloquei alguma no carrinho. Assim segui até fazer um pequeno cabaz de produtos alimentares básicos. Dirigi-me à caixa, paguei, agarrei nos sacos e saí para o frio da noite onde me esperava o pobre homem, sem pedir mais nada a ninguém.
Entreguei-lhe os sacos e ele agradeceu, sem subserviência, dignamente e, desejou-me Bom Natal...
Agradeci. Quando cheguei ao carro, chorava já, sem pejo das lágrimas que corriam livres pela minha face.
A minha imaginação, sempre criativa, transmitiu-me uma história para aquele homem, pai de filhos, trabalhador desempregado, sem dinheiro para fazer face às necessidades da sua família. Mal agasalhado mas dignamente vestido, não tinha nenhum cigarro na mão. O aspecto era cuidado. Não se notavam vestígios de ingestão de drogas. Era digno na sua, julgo, recente pobreza.
Estamos em 2011. Como será o ano de 2012?


Mara Cepeda

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Amadeu Ferreira lançou, em Bragança, a tradução "Ls Quatro Eibangeilhos"


Ontem, pelas 15h00, no Centro de Arte Contemporânea Graça Morais, teve lugar o lançamento da tradução para mirandês da obra "Ls Quatro Eibangeilhos" de Amadeu Ferreira.
Durante a apresentação ficámos a saber que esta tradução foi feita entre 2001 e 2004, tendo-se baseado na versão latina Biblia Sacra Iuxta Vulgatam Versionem.
Apoiou-se, para uma profunda revisão, na Nouae Vulgatae Bibliorum Sacrorum Editione.
Uma nova revisão foi levada a cabo entre 2008 e 2010 e, para tirar algumas dúvidas e resolver alguns pontos formais, serviu-se de várias traduções em português e noutras línguas, utilizando mais particularmente, a Bíblia Sagrada, edição da Difusora Bíblica - Franciscanos Capuchinhos, Lisboa/Fátima.
Nesta data memorável para as culturas mirandesa e portuguesa, Amadeu Ferreira contou com a presença do Presidente da Autarquia, Eng. Jorge Nunes, do Secretário Geral da Sociedade Bíblica, Dr. Timóteo Cavaco e alguns amigos, entre os quais nos incluímos.
A apresentação da obra ficou a cargo do Dr. António Pinelo Tiza que nos ofereceu uma análise dinâmica da obra, pautada por gratas recordações das vivências havidas entre os dois, já que se conhecem desde os onze anos de idade.
Amadeu Ferreira prometeu, ainda, prosseguir na sua cruzada em prol da língua mirandesa, com a tradução de mais alguns textos da bíblia dos quais destaco "Os Salmos", O Livro de Job" e o "Apocalipse". Aguardamos ansiosamente que estas novas traduções nos cheguem às mãos.

Bem hajas Amadeu por este labor hercúleo em prol da nossa cultura.

Ontem, mãe, chorei por ti...

ontem, mãe, chorei por ti horas infindas
na noite profunda
quero-te comigo sempre
no teu colo de mulher
mãe terra
universo sem paralelo
quero-te mãe
em todas as horas que me couber viver
que dias são estes de agora?
somos nada
fomos tudo
na pequenez do lugar a que pertencemos
a criança chora as mágoas
dos dias que insistem em ser
não luz, além, nenhuma claridade
a noite pejou o dia
que dorme como quem quer esquecer

Mara Cepeda

domingo, 27 de novembro de 2011

Olá, aqui está a entrevista nº 20

A entrevista desta semana foi realizada em 2005 ao pianista Domingos António, filho de pai português (transmontano) e de mãe italiana, nascido nos Estados Unidos da América.
Foi uma entrevista difícil de realizar em virtude de as respostas serem curtas e lacónicas. No entanto, deu-nos muito prazer realizá-la pela sua vitalidade e força de viver.
É um pianista muito jovem, possuidor de um grande talento.

sábado, 26 de novembro de 2011

Entrevista com Eng. Germano Lima - Escola Paulo Quintela, em Bragança

Germano Rocha Lima nasceu em Izeda, concelho de Bragança. Vamos convidá-lo a recordar pedindo-lhe que nos fale da sua infância e juventude…

A minha infância foi semelhante a tantas outras. Éramos crianças, muito felizes, crianças que brincávamos, jogávamos ao pião, à bilharda, ao esconde-esconde… não havia televisão, mas éramos tão ou mais felizes, comparativamente com os nossos filhos, as nossas crianças neste momento. Tive uma infância feliz, uma infância com pais, apesar de o nosso pai nos deixar ainda muito novo, mas os primeiros anos, digamos até aos catorze anos, fui efectivamente feliz na minha casa com os meus amigos, onde não se falava em racismos, não se falava nessas confusões todas que temos agora de droga… enfim todos os problemas que os nossos jovens têm agora e começam relativamente cedo, neste tipo de relação com o exterior.

Onde frequentou os seus estudos, até ingressar na universidade?

Comecei exactamente em Izeda, onde fiz o primeiro ciclo, na altura com um único professor, desde o primeiro ao quarto anos, o professor Norberto que vive nesta cidade de quem tenho muito boa impressão e, de vez em quando, o vejo e relembramos os momentos que passamos juntos, curiosamente fazíamos anos no mesmo dia.
Mais tarde, frequentei um colégio, colégio Maristas durante 3 anos, posteriormente voltei para Izeda, ainda com o falecido Padre Cancela, com todas as virtudes e defeitos que eventualmente poderia ter, foi alguém que marcou a Vila. Foi alguém que proporcionou um ensino que praticamente só as grandes cidades tinham, que era o caso de Bragança, e foi aí que muitos de nós, vivendo em Izeda, tivemos a oportunidade de iniciar os nossos estudos e mais tarde seguir o nosso rumo. A partir do nono ano fui para o Porto para casa de familiares onde conclui, no antigo liceu D. Manuel II, actual liceu Rodrigues Freitas, o antigo segundo ano do curso complementar, correspondente agora ao sétimo ano e fiz ainda o último ano do propedêutico no Porto, entrando a seguir na faculdade de engenharia.

O que foi que o levou, depois de engenheiro já formado, a trabalhar nas Minas da Borralha, a enveredar pelo ensino?

As Minas da Borralha foram o meu primeiro emprego. Lembro-me que em 1985, salvo erro, fiz estágio e foi considerado já um primeiro emprego como engenheiro, em que ganhava na altura 30 contos por mês, mas 30 contos líquidos porque tinha casa, tinha comida, tinha todas as condições, digamos então que eram líquidos no verdadeiro sentido da palavra. Nessa altura tive a minha primeira experiência na escola profissional das Minas da Borralha como professor de matemática e, é evidente que adorei e, desde essa altura mais ou menos, ficou marcado o meu destino como profissional, rapidamente a família foi crescendo. Na altura a minha namorada era professora e veio para Bragança era, por isso, completamente incompatível ter dois locais de destino. Esse factor fez com que envereda-se definitivamente pelo ensino, coisa que agora é bastante complicado. Na altura fiquei vinculado ao Ministério de Educação logo no primeiro ano em que dei aulas; hoje em dia andasse anos, muitos anos, para conseguir esse vínculo.

Vive em Bragança já há dezassete anos, aqui nasceram os seus filhos, é esta a cidade onde verdadeiramente quer viver?

Foi a cidade eleita desde muito cedo, a partir do momento que deixei a parte prática do meu curso de engenharia e enveredei pelo ensino, nunca tive outra perspectiva que não fosse Bragança como local de residência.

De há sete anos a esta parte preside ao Conselho Executivo EB2,3 Paulo Quintela, fale-nos da sua escola?

Penso que a escola Paulo Quintela, neste momento, é uma referência a nível local. É uma escola onde encontrei uma grande família, uma família de professores, uma família de funcionários, uma família de alunos. É uma escola que tem evoluído com esta família, que entretanto veio crescendo. Somos hoje, dentro da escola Paulo Quintela, cerca de cem professores e cinquenta funcionários a que acrescentamos, desde há um ano a esta parte, as escolas que foram integradas no agrupamento onde perfazemos um total de mil e trezentos alunos, cerca de trezentos professores, cinquenta e cinco funcionários. É uma escola que pretendemos que seja realizada, pretendemos que quem está se sinta bem, se sinta em casa, porque só assim conseguimos que o trabalho efectivamente renda e tenhamos sucesso e vontade de fazer aquilo que fazemos.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

As obras do Polis e do PROCOM, desertificaram o centro da cidade...

As intervenções na zona histórica de Bragança, no âmbito do Polis e do PROCOM, contribuíram para afastar as pessoas do centro da cidade.
A constatação é do arquitecto João Ortega, que na passada terça-feira participou no colóquio “Reabilitação Urbana no contexto das Novas Políticas Urbanísticas”, promovido pela Assembleia Municipal de Bragança.
João Ortega afirma que o comércio saiu prejudicado, porque as intervenções dificultam a vinda das pessoas ao centro da cidade. “Estas duas intervenções, sobretudo o PROCOM, reduziram claramente a plurifuncionalidade da nossa rua, o que significa que temos os lugares arrumados para cada uma das funções, mas aquelas que não foram previstas é muito difícil acontecerem, nomeadamente o simples parar para comprarmos o jornal ou qualquer outro produto”, salienta o arquitecto.
O arquitecto, que também é professor no ensino secundário, afirma que os estudantes não conhecem o centro histórico de Bragança, uma situação que considera preocupante.
“Eu como professor sempre que tento abordar a cidade com os meus alunos há duas constatações muito preocupantes, primeiro que não conhecem a cidade e segundo que não gostam da cidade”, realça o professor.
João Ortega afirma que a solução para dinamizar o centro histórico é voltar a trazer serviços para esta zona da cidade. “Para mim, uma das questões do centro histórico passa pela recuperação da centralidade que ela perdeu. Saíram os serviços públicos e podemos enumerá-los desde os bombeiros, a outras instituições públicas, que só regressando podemos resolver o problema do despovoamento na zona histórica”, remata João Ortega.


Por: Teresa Batista
in: jornalnordeste.com