terça-feira, 22 de novembro de 2011

Noite

Um grito na noite ainda dia
porquê estou acordada
nesta hora tão tardia
faz-me tremer de indignação.
O silêncio abruptamente maculado,
tão abruptamente que o meu corpo tenso
reflete a tensão na aceleração desenfreada do pulso.
Um grito de mulher,
um doloroso grito de mulher gela-me.
Na cama vive agora um rio siberiano
onde me afogo lentamente
enregelando a alma que sempre quis pura.
Não sei quem gritou ou porquê razão o fez.
Não consigo imaginar
porquê, transida de frio e medo,
é-me impossível divagar.
Agarro-te na mão macia e quente,
Encosto-me a ti como uma lapa presa às pedras no mar.
Sufoco... de quem é o grito que dilacerou a noite ainda dia?
Quantas mulheres sufocam com os seus gritos mudos?
As horas passam transidas de medos irracionais, inexplicáveis.
As mulheres choram dores primevas
o pecado de amar sem óbice
aqueles que as enredam com inultrapassáveis ameias.

Não há primaveras árabes

Mara Cepeda

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Serra da Nogueira num dia de inverno


Eu, o meu irmão Eduardo e a minha cunhada Helen num dia de vento inclemente no alto da Serra da Nogueira, junto à Capela da Sr.ª da Serra. O Marcolino ficou no carro. Não se deixa iludir por frias aragens.

domingo, 20 de novembro de 2011

QUINTELA, Paulo Manuel Pires

Nasceu em Bragança, em 24.12.1905 e faleceu em Coimbra, em 9.3.1987. 
Estudou na Universidade de Berlim (entre 1927 e 1929) e em 1929 licenciou-se na faculdade de Letras de Coimbra, onde ficou como professor, a partir de 1933. Foi professor extraordinário de Filologia Germânica, desde 1942 e doutorou-se em 1947. Contudo somente ascendeu a professor catedrático após a revolução de 25.4.1974. De 1938 a 1968 foi director artístico do Teatro dos Estudantes da Universidade de Coimbra. Em 1960 o Goethe Institut concedeu-lhe a medalha de prata e, em 1973, a medalha de ouro.    
Obras principais: A Vida e a Poesia de Holderlin (1 947), Poemas de J.W. Goethe (1949). Esta obra (que é uma antologia) é uma versão portuguesa, com notas e comentários. E a Poesia de Georg Trakl (1960). Além de colaboração em várias revistas e de numerosas traduções.: Do Elemento Social no Drama Alemão a Partir de Lessing (dissertação de licenciatura, 1929, inédita); Antologia da Poesia Alemã (em colaboração com W. Kaiser e A. E. Beau), Lx., 1944; A Vida e a Poesia de Hoelderlin (dissertação de doutoramento), C., 1947; A Poesia de Georg Trakl (com uma breve antologia em versão portuguesa), ibid., 1960; Duas Velhas Falas sobre Shakespeare, ibid., 1965.


Aqui está a 19ª entrevista

Esta semana o nosso entrevistado é o Engenheiro Germano da Rocha Lima, natural de Izeda, concelho de Bragança.
Quando em 2005 realizámos esta entrevista, exercia as funções de Presidente do Conselho Executivo do Agrupamento de Escolas Paulo Quintela.
Foi, justamente, deste ilustre transmontano/bragançano que mais se falou por se comemorar nesse ano, o Centenário do seu nascimento.
Paulo Quintela foi e é uma referência nacional e mundial ao nível da cultura e não lhe tem sido feita justiça. Fica aqui esta pequena chamada de atenção.
A Germano Lima agradecemos o trabalho que desenvolveu durante as comemorações e o empenho demonstrado na divulgação da vida e obra de Paulo Quintela.

Bem hajas

sábado, 19 de novembro de 2011

Os meus sonhos são pequenos

Os meus sonhos são pequenos 
o caminho é longo
calcorreá-lo
é sentir os pés descalços
sujeitos a todos os estorvilhos
que tenho de palmilhar

Os meus sonhos são pequenos
as horas são breves
sobreviver-lhe
é escalar altas montanhas
expostas as todas as intempéries
que devo suportar

Carreiros orlados de estevas
conduzem às fragas que amo
onde me preservo
crisálida  
de sonhos imensos
onde tudo é permanentemente azul

Vias romanas
pontes
que me levam sempre
para a outra margem
caminho solitário
onde se inicia nova viagem

Mara Cepeda

Olá amigos!

Mais um fim de semana, mais uma entrevista.
A entrevista que amanhã postaremos tem como protagonista o Eng. Germano Lima, na altura, Presidente do Conselho Executivo do Agrupamento de Escolas Paulo Quintela.
Quando foi realizada, comemorava-se o centenário de nascimento de Paulo Quintela, ilustre bragançano. As homenagens que lhe foram prestadas são um dos temas desta conversa.

Bem hajam por continuarem a acompanhar-nos. 

Entrevista com o escultor Hélder de Carvalho

Hélder José Teixeira de Carvalho, nasceu em Carrazeda de Ansiães, distrito de Bragança. Como foi a sua infância?

Recordo com saudade e muito prazer esses momentos de juventude vividos no interior transmontano. Gostei muito das condições que tive e que sei que são bem diferentes das condições que outros encontram, sobretudo os do litoral. Vivi a juventude com muito gosto, com muito prazer e acho que não será por acaso que grande parte da minha prática de cidadão e de professor radica muito daquilo que trouxe dessa experiência de juventude.

Onde fez os seus estudos antes de ir para a Faculdade?

Realmente a partir do agora chamado ciclo preparatório, desci o Douro e fui continuar os meus estudos no porto, onde estudei no Colégio Universal e no Colégio Lúmen e aí fiz o liceu e depois ingressei em Belas Artes.

E que recordações guarda desses tempos?

Custou-me bastante a adaptação à cidade, estava de facto muito enraizado ao interior. E é evidente que também havia a questão familiar. Eu fui para a cidade sem o apoio dos pais. Éramos e somos muitos irmãos e portanto fomos um grupo de irmãos estudar. Alugou-se uma habitação e foi entre nós que a gente conseguiu, de facto, fazer aquele percurso que geralmente é acompanhado pelos pais.

Mesmo assim, o facto de ter os irmãos por perto ajudou a tornar as coisas mais fáceis?

É evidente que os irmãos ajudaram, uma delas era mais velha que eu, a suplantar a falta dos pais, e vale a pena sublinhar esta questão porque realmente isto confirma o que é na realidade. Nós, no interior, lutamos um pouco mais, sofremos um pouco mais, precisamente por não termos condições, neste caso da educação e, portanto, tínhamo-nos desenraizado do meio e da própria família para lutar e vencer, essa questão no meu caso, foi realmente uma questão que me levou a sofrer bastante, realmente custou-me a adaptar à cidade. É evidente que hoje estou perfeitamente adaptado à cidade. Mas, como digo, a fase inicial, todas as convenções e regras e os processos, os meios, os métodos, o falar, tudo isso causava alguma confusão num meio completamente ignorado. Na altura eu fui para o Porto com 14 anos e antes tinha estado no Porto duas vezes, conhecia mal a cidade, tinha poucos dados sobre a cidade.

Mas o tempo lá o habituou...

É evidente que nos fomos habituando. Começa a conviver-se e a encontrar referências que se vão também, entendendo e a gente depois há-de saber entender as normas e as regras que realmente, às vezes, são diferentes e as condições. A verdade é que a partir do momento em que se começou a estudar a gente fazia o percurso à terra trimestralmente, só no período das férias é que a gente voltava a reaver os pais e o ambiente de que tinha saído.

Acabado o liceu ingressou na Escola Superior de Artes Plásticas. O que o levou a seguir esse caminho?

É curioso, realmente houve sempre alguma apetência da minha parte para o brincar e o lidar com as matérias, com os materiais, tentar moldá-los… mesmo no desenho parece que, desde tenra idade, houve alguma apetência para desenhar, houve algum incentivo de algumas pessoas amigas. Na altura, poucas noções tinha sobre o que é que me ia esperar ao ingressar num curso de belas artes mas, realmente, depois dei conta que era por ali que eu me sentia capaz de realizar e, portanto, a experiência, apesar de o período ter sido de alguma instabilidade ao nível das estruturas, porquê ainda vou apanhar o período pós 25 de Abril mas, a experiência no curso acabou por ser frutuosa, sobretudo todo o experimentalismo que surgiu após a revolução. Aceitei aquilo com um certo agrado porque surgiu uma abertura bastante grande e a liberdade de a gente poder evoluir e sem condicionalismos de academismos e isso tudo no meu caso acho que me ensinou alguma coisa.

Um percurso que faz lembrar Graça Morais. Não é?

É provável. Eu não quero comparar-me, de modo algum, a Graça Morais que passa em belas artes talvez três, quatro anos antes de mim. Ainda frequentámos a escola juntos, estaria eu, talvez, no primeiro ano, portanto conheço pouco do percurso dela na escola. A verdade é que a Graça segue um rumo que lhe permite a projecção que ela hoje tem. Ela vai para os grandes centros, vai para Lisboa e para além da apetência e da capacidade inata dela, é evidente que a aproximação aos centros de decisão ajuda sempre muito para poder divulgar a nossa obra.