terça-feira, 11 de outubro de 2011

Procura

Talvez que o mar imenso me conduza à minha alma líquida de ancestrais marinheiros e as contradições de que sou feita, amenizem.
Estava frio na noite do mar.
O calor que sinto não teme frios e o mar é um rio muito grande que me conduz ao país que procuro.
Esta distância semeada de crateras lunares não é fácil de percorrer e as praias estão cheias de corpos ao sol.
O amanhã, talvez seja uns olhos azuis e tristes que conheço, já velhos mas belos, com a dignidade de uma rosa que morre sem dobrar e os cabelos brancos, são as ondas deste mar.
Esmorece a vontade numa tarde de calor, dia de trabalho em tempo de férias. A piscina está repleta de corpos que se espraiam no verde relvado de poucas árvores e são felizes mesmo assim.
É tão fácil ser feliz quando esqueço a procura de mim!
Já quando quase fui feliz, não fazia parte daquele lugar onde nasci.
Já ali, era um ser incompleto, já ali destoava da paisagem que tanto amo.
Já ali, entre montes e poucos vales, entre socalcos imperfeitos, corriam aragens do mar tão longínquo que nunca alcancei.
O avô marinheiro que a água tragou chama por mim no reino de Neptuno.
Não irei. Fico contigo, pois tanto faz ser aqui como além.
Se o dia passa e a noite levanta, para que fingir fugas sem fim?

Mara

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Terra de ninguém

Penso um poema lindo que não escrevo, já que a essência do meu pensamento se perdeu na incapacidade de o realizar.
Razão tinha quem disse que os melhores poemas são os que nunca ninguém escreveu.
Os melhores são os que alguém pensou, mas não sendo anjo nem deus, não conseguiu passar para o papel e então fica a sensação de que apenas sonhou.
Sonho muitos poemas que jamais escreverei e o que plasmo no imenso oceano branco é o que menos diz, é o que foi menos conseguido.
Sofro a minha incapacidade, as minhas limitações que são tantas e apenas consigo uma leve brisa dos poemas que jamais escreverei.
É como se fosse uma sombra, ao cair da tarde, que se alonga mas nunca será uma entidade.
Sofro, eu que não sou senão um arremedo do que gostaria de ser e imagino o quanto sofrerão todos os poetas deste mundo e talvez doutros que os deve haver também.
O que terá sofrido Fernando Pessoa que, mesmo sendo um deus das palavras se deixou morrer de tristeza! Amou tanto, quis tanto e nunca conseguiu dar-se totalmente. Pensou tantas pessoas dentro de si mesmo e mesmo sendo tantos não conseguiu ser nenhum. Foi poeta, quase deus e morreu sem encontrar a sua essência, sem realizar a pessoa una que queria ser. Foi grande, universal, e foi triste como um cair de tarde no Inverno que chove.
Admiro os grandes poetas que apenas dizem o que não está escrito e sei que nunca serei assim.
Admiro um dia de sol.
Mas, um dia de sol sem água que rumoreje, sem vento que despenteie, sem verde que eu possa alcançar não me diz o que eu quero ouvir. Não desperta o meu olhar.           
Um dia de sol apenas, não faz sorrir e sem sorrisos a vida é pobre. É como uma mulher muito bela sem brilho no olhar. É como um deserto de areias brancas sem oásis nem dunas.
Neste dia que apenas começa o meu pensamento está muito longe do que eu realmente devo fazer. Só o pensar no quotidiano do dia que lentamente passa desassossega a minha vontade.
Penso nas aldeias da fome que nos rodeiam neste pequeno mundo que é nada, na imensidão que nos circunda e acho que as minhas preocupações são comezinhas e fúteis.
Não consigo deixar de pensar no que gostaria de poder fazer como pintora de imensidões brancas, de papel porventura reciclado.
E vou como quem vai de passeio debicando aqui e ali uma flor do campo que eu quero agreste.
Vou sozinha nesta viagem que só acabará com a minha morte.
Levo, no entanto, a tua presença inalienável de mim e sei que voltarei sempre para ti.
Esta terra onde me encontro não é de ninguém.

Mara Cepeda

Mais algumas fotografias de Jorge Morais


domingo, 9 de outubro de 2011

Olá!

Hoje é domingo e, portanto, já devíamos ter postado a 13ª entrevista. Estamos a aguardar que o nosso entrevistado acabe de a rever.
Logo que esteja pronta, publicá-la-emos.
Obrigados
Até já

sábado, 8 de outubro de 2011

Entrevista com Dr. Arnaldo João Rodrigues - médico

Terá nascido por volta do ano de 1935 sentiu, de alguma forma, o impacto da II Grande Guerra?

Sentir, já não senti, recordo-me da fome que ainda havia pelas aldeias, a vinda de espanhóis que vinham procurar apoio à raia portuguesa, disso ainda me lembro.

Tuizelo foi o seu berço, pertence ao concelho de Vinhais, como foi a sua infância?

A minha infância foi igual à de todas as crianças dessa altura. Aos 6 anos fui para a escola primária, depois da escola brincávamos, havia muitas crianças que agora já não há. Na minha escola éramos 62 alunos e agora está prestes a fechar.

As brincadeiras eram muito diferentes das de hoje?

Eram com certeza, desde o esconde-esconde, à bilharda, à porca, o pião.

Fez os estudos primários na aldeia, quais são as boas lembranças que guarda desse tempo?

Boas lembranças são coisas quase esquecidas, no entanto, as boas recordações estão diluídas no tempo, quer a gente queira quer não. Vão-se apagando.

Guarda uma que o marcou. Quer falar-nos dela?

Quando estava na segunda classe mandaram-me ler um trecho qualquer, era “o pucarinho”. Eu sabia tudo de cor, li. A professora deu-me uma bofetada tão grande que atirou comigo ao chão. Dali por diante quase deixei de ler porque lia de cor, era difícil. Primeiro decorava e depois lia. Nunca mais me esqueço é da minha professora que ainda é viva, a dona Carlota. Foi minha professora até à segunda classe, a seguir foi uma outra professora chamada Elvira, que é uma senhora aqui de Bragança.

Depois veio da aldeia de Tuizelo para Bragança. Foi estudar para o Liceu Nacional, que por acaso fez 150 anos de existência há pouco tempo, foi sem dúvida uma mudança grande?

Foi diferente porque quer a gente queira quer não, das aldeias, nós vínhamos um pouco para ver como é que isto era. Ficámos numa casa onde nos trataram como família mas, seja como for, a gente tinha que estudar mais para aguentar os que cá estavam.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Olá amigos!

Mais uma semana no fim, mais um jogo da nossa seleção que já ganha à Islandia.
Como é hábito, a próxima entrevista será publicada no Domingo. O nosso próximo entrevistado será o Dr. João Manuel Neto Jacob, que era, na altura da realização da entrevista, Director do Museu Etnográfico Abade de Baçal.
Neste momento está à frente desta prestigiada instituição, a Drª Ana Maria Afonso, a quem, mais uma vez, agradecemos a disponibilidade demonstrada para acolher o lançamento deste blogue.
Neto Jacob é amigo de infância do Marcolino e meu desde há vinte e três anos.
Foi difícil convencê-lo a dar-nos esta entrevista. Lá se conseguiu e, no domingo estará disponível para ser lida e comentada.
Continuamos a contar com a vossa colaboração e amizade.
Bem hajam

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

INQUIETUDE

Ando triste como quem tenta e não consegue, como a andorinha que é breve passagem de Verão.
Ando triste como quem não sabe dizer nem sim nem não.
Ando triste como uma manhã ensolarada que não nos convence.
Tenho o sentir embaciado, como céu sem estrelas e sem luar. Como um fado de Coimbra cantado na noite de não te encontrar.
Dói-me o sentir-me assim, longe de mim.
O meu olhar espraia-se pelos montes que avista e não consegue ver o verde da esperança, apenas as casas mal alinhavadas que o conspurcam e humanizam demais.
Tento, através do carinho que me dás, sair de mim assim tão triste, mas não consigo. Não sou capaz de chorar agora e preciso que chova e que eu seja árvore em descampado aberto.
A minha alma tem medo deste sentir de agora. Quero fugir daqui mas a porta não se abre. Temo o que ninguém teme e sinto um torpor enorme que não me permite acordar descansada pela manhã de sol que agora faz.
Não sei o que tenho e não tenho nada. Apenas sinto o que não queria sentir e quero sentir o que apenas minto a mim mesma, tão longe de mim.
Amo-te, não há dúvida, mas não sei acordar em ti.
Dá-me a mão tira-me deste abismo em que caí. Não posso mais estar enterrada nesta indiferença que não é também.
Dá-me a mão, delicadamente, como quem afaga um bebé recém nascido, ainda envolto na placenta primeira e primária que todas nós carregamos desde a hora inacabada.
Abre-me a janela para que eu veja um céu de estrelas cheio e lua quase dia.
Chama por mim como se por ti eu chamasse em sonhos de amor.
Cantarei o Barco Negro nos teus braços e sei que jamais morrerás. Saberei que o dia acorda cheio de luar.
Seremos as águas do Sena, que em Paris fomos e amar-nos-emos num Verão qualquer em qualquer parte.
Anda. Vamos passear por este bulevar de mãos dadas, sem que a mais pequena palavra perturbe o teu doce e pequeno olhar tão grande.
Anda. Toma a minha mão pequena entre as tuas mãos tão macias e belas e sente comigo o dia que anoitece e que os vaga-lumes alumiam dançando danças primordiais. Ouve o suave remanso do rio que somos e a orquestra dos arraiolos que nos acompanha neste local tão ermo.
Quanta gente neste espaço agora. Cada um vai olhando o carreiro das formigas que já não alcançam e nenhuma delas leva carregos visíveis.
Vamos por entre esta multidão que não sonha e sonhemos nós por todos.
Anda, a noite acontece sem que o dia passe e nos meus olhos negros viaja o teu olhar verde de musgos no rio que corre.
Subamos àquele pequeno monte. Avistemos o que ninguém avista. Dá-me um beijo que ao de leve roce os meus lábios tristes e sorri.

Mara Cepeda
(Do que poderá vir a ser o livro "Inquietude")