sábado, 27 de agosto de 2011

Entrevista com Nicolau Sernadela - "Tio João" da RBA

Nicolau, ou devemos chamá-lo “Tio João”?

Nicolau. Tio João é só o meu nome “artístico”, se é que posso falar assim.

Fizemos esta entrevista para que nos possa contar um pouco daquilo que foi a sua vida. Vamos chamar-lhe “À procura do fim da solidão”, Nicolau Sernadela, homem da rádio desde muito novo, líder de uma grande família radiofónica. Nasceu em Bragança e a não ser o período que passou no seminário de S. José em Vinhais, julgo saber que sempre viveu em Bragança, quais são as recordações que guarda da meninice da juventude?

Todas, porque a primeira, foi uma situação de minha vida que aconteceu quando tinha apenas dois anos e da qual me lembro dela todos os dias da minha vida. Foi marcante. Lembro-me de quase tudo a partir dos dois anos, lembro-me de tudo da minha vida, em especial, esta: estavam a construir a Caixa Geral de Depósitos, eu vivia ali ao lado, vivi durante vinte anos naquela casinha muito humilde, na Rua Nova numero 23, aquelas escadinhas em frente à Caixa. Tinha então dois aninhos de idade, ainda quase não sabia andar e caiu-me uma daquelas cantarias da construção, que me deu cabo de um pé, mais propriamente um dedo, fui hospitalizado, fui operado e etc… e lembro-me, todos os dias me lembro desse marco da minha vida, e não sei porque a partir daí, lembro-me de tudo. Até aos dois anos não me lembro de nada, a partir daí lembro-me de tudo como se fosse hoje; se calhar a pedra fez com que eu ficasse um homem cheio de pedra…

É uma pesada recordação!

Sem dúvida. Prejudicou-me muito e nós os portugueses temos sempre a mania, e com razão, às vezes, de dizer “podia ter sido bem pior” porque realmente era uma criança… as pedras ainda hoje existem…. Caixa Geral de Depósitos… eram pedras de cantaria e uma caiu-me no pé estive internado e a partir daí é que me lembro de tudo. Depois a minha meninice foi muito simples, muito humilde, eu recordo isso… estive vinte anos numa casa… embora a minha vida não tenha sido tão difícil como a de muita gente mas, eu vivi numa casinha muito humilde que nem casa de banho tinha, fui sempre habituado a balde e essas coisas. Para ir tomar banho tinha que ir a casa dos meus pais. Tive uma infância muito humilde mas espectacular, porque desde pequenininho - eu dantes era gordinho, era, inclusivamente, mais gordo, em proporção, do que sou hoje e desde pequenino tinha a mania de correr a Rua Nova, aquelas ruas, eu ainda me lembro, teria três, quatro anos, de jogar à bola ao pé dos correios, na rua Almirante Reis, incrível, impensável, lembro-me, ainda, de ter aquela coisa de tentar fazer rir os outros.
No seminário também fui conhecido por todos e hoje sabem quem sou. Lembram-se que eu já na altura tinha qualquer coisa… eu, no seminário, era considerado mágico porque tinha a filosofia da magia. Desde criança, toda a gente tinha a ver comigo, porque eu sempre fui animado, envergonhado sim, muito mas, quando tinha a estrada aberta fazia rir toda a gente.
Na quarta classe embirrei que queria ser padre, “namorei os meus pais”. Convém dizer que não vivi com os meus pais, porque a minha mãe, na altura era muito doente e esteve hospitalizada em vários hospitais e eu afiz-me aos meus avós e, para mim, o meu ídolo era o meu avô. Vi que havia chegado o momento, na quarta classe, de seguir outro rumo. Estava dividido entre os meus pais e os meus avós. Cheguei ao pé dos meus pais e pedi-lhes para ir para o seminário, e fui para o seminário.

E as recordações do seminário? Normalmente é um mundo que deixa marcas.

O seminário, para mim, que não fiz tropa, foi uma tropa mais pesada, talvez, porque eu tinha apenas dez anos e, nessa altura, há vinte e cinco anos, era tempo completamente diferente. Nós, inclusivamente, estávamos aos quinze dias, aos meses que, não saíamos cá para fora e, tive a infelicidade, também, de apanhar um Reitor muito conservador. Recordo que um dia nevou e proibiram-nos redondamente de jogar à pelotada e depois fomos obrigados, todos, crianças de dez, doze anos na altura, em truzes, a jogar à pelotada, o primeiro ano contra segundo. Também sou do tempo dos retiros a pão e água de três dias, crianças de dez, doze anos, por isso é que a tropa… a minha ilusão do seminário terminou com esse Reitor.
No primeiro ano tive um Reitor que foi um espectáculo, eu não vou dizer nomes com certeza mas, aí mais me cativou, no segundo ano cortaram-me as pernas porque a lei do seminário mudou um pouco, tiraram-nos a pouca liberdade que tínhamos.
No segundo ano, com a falta de liberdade, vem outra etapa da minha vida. Embirrei que tinha de sair do seminário a meio do ano. Os meus pais não queriam, ninguém queria porque ia perder o ano… deu-me uma filosofia de vida espectacular: ai é! Então vou sair mesmo. Fiz-me doente, só que depois a doença complicou-se e apareceu mesmo. Já na altura, ainda bastante pequeno, tinha tido ataques epilépticos e, depois, porque queria estar doente não comia etc… voltaram os ataques epilépticos e ai tive que ser internado em vários hospitais. Estive no Hospital de S. João durante três ou quatro meses.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Olá!

Estamos quase no final da semana. Ainda verão no calendário mas não no dia. Hoje apresentou-se-nos um dia recheado de vento que, longe de ameno e quente, parece vestido de outono profundo. Salva-se o sol que ainda brilha em todo o seu esplendor, irradiando luz neste céu de azul único, como não há em nenhum outro lugar do mundo.
Mesmo assim, tudo segue o seu rumo e os dias passam tão depressa que, ainda ontem era primeiro de agosto e agora é quase fim de mês.  
A próxima entrevista a ser colocada, no domingo, como habitualmente, será a de António Afonso, antigo Presidente Região de Turismo do Nordeste Transmontano.
Como todas as entrevistas que realizámos, traz-nos uma nova perspectiva, um novo olhar distinto de todos os demais.
Vale a pena gastar algum tempo na sua leitura e análise. Esperamos contar com a colaboração e amizade de todos. Bem hajam.
Até já. 

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Medo

                                      Fadiga de dor,
Que a cor não reflecte
Na angústia do branco
Escrito de verde.

Secou as lágrimas
À manga do casaco
Escondeu o vermelho
Que raiava o olhar
E partiu para sim
Te encontrar.

Não sabes que a dor
Para além de oprimir
Impede o grito
Que não podes ouvir.

E o teu sorriso torto
Que eu mais adivinho
Por entre aparatos
De lutas sem fim
Grita a cor
Deste negro festim.

Mara

Uma vida sem cor

Dor de gente,
Inconsciente dor.
Vegeta somente
Uma vida sem cor.

Na impossibilidade
De viver sem ideais
Não há vazios
De acabar,
De preencher.

No vácuo que existe
E é triste
Vivem o negro,
Duro viver
As toutinegras
Que não tentam ser.

Pode mover-se
Fingindo marés
Em prisão contida
Sem riso nem vida.
Vegeta somente
A pedir guarida.

Sem voz,
Na garganta enclausurada,
Rumoreja,
Não sabendo porque
O que a alguém
Sobeja.

Descoberta a razão
As coisas acontecem
É olhar sem ver
É olhar para mim
E apenas olhar
O mesmo olhar sem fim.
Sem direitos seus,
De olhos vendados
Para evitar dispersão
É preciso ver sempre
Na mesma direcção.

Olhar prá frente
Para trás é que não!
Olhar para o lado
É perder o norte
É sonhar ilusão.

É pressentir outras vidas
É aspirar vagos perfumes
De deusas iguais.
É ter nos teus braços
Sabores irreais.

É ser quem se é
E tentar até
Que a vida sorria
Aquilo que não é.

Mara

domingo, 21 de agosto de 2011

Bom dia amigos!

Aqui estamos com mais uma entrevista, a sexta. O nosso entrevistado desta semana, dispensa apresentações, tal tem sido a sua visibilidade nos orgãos de comunicação social portugueses e estrangeiros.
O "Tio João", Nicolau Sernadela, transformou-se num fenómeno mediático por razões justas e louváveis. Teve a coragem de se dar com o povo, o nosso mais genuíno povo, aquele que vive e trabalha nas aldeias perdidas de Trás-os-Montes.
Soube descer ao seu nível e, pesem embora, muitas críticas a que tem sido sujeito ao longo deste vinte anos, não desistiu. Continua, insistentemente, a alertar para a solidão em que vivem os nossos velhos, muitos entregues a si próprios, longe de filhos e netos, que esses, foram à luta para outras paragens.
Bem hajas Nicolau por esta força!

sábado, 20 de agosto de 2011

Nicolau Sernadela - Tio João

A entrevista que amanhã, domingo, postaremos é a de Nicolau Sernadela, o tio João da rádio RBA.
Este programa e o seu autor são um fenómeno social, merecedor de estudo para memória futura, no entanto, humildemente julgo, que se deve à solidão e desamparo a que estão votados os nossos idosos nas aldeias de Trás-os-Montes e de Portugal inteiro.
Nicolau Sernadela é merecedor de todo o nosso respeito e admiração por ser quem é. Foi um visionário e consegue, todos os dias, levar algum alento e alegria a muitos lares, onde o pequeno aparelho de rádio minimiza a solidão, de alguns, absoluta.
Bem hajas Nicolau. 

Entrevista com Helena Genésio

Nasceu em Bragança, na freguesia da Sé, que recordações é que guarda da sua meninice?

Da minha meninice guardo a imagem de uma horta onde o meu avô trabalhava todas as manhãs e o prazer que me dava acompanhá-lo nesses trabalhos; guardo a imagem do rio Fervença cheio de galinhas de água, patos e maçarocos; guardo a recordação de brincadeiras no rio e nas árvores ribeirinhas onde, com outros garotos da minha idade, construía cabanas e esconderijos. Depois chegava a casa toda molhada e ouvia os inevitáveis raspanetes …foi uma infância muito feliz, uma infância dourada sob o olhar atento dos avós, dos pais.


Está bem diferente o rio Fervença hoje? Para melhor ou para pior?

Está diferente. Melhor. Ainda que a imagem que eu guarde dele seja uma imagem dourada, como as infâncias, a verdade é que era um rio muito sujo e malcheiroso. Hoje é um rio que juntamente com a zona envolvente constitui um espaço de lazer muito agradável.

Até que ponto o facto de nascer nesta região a marcou?

Marcou-me profundamente porque acima de tudo sou muito transmontana. É o oceano megalítico de Miguel Torga que trago na alma; é a paisagem transmontana que me enche o olhar; a ela regresso sempre que me afasto.

Acima de tudo uma transmontana convicta?

Uma transmontana convicta.

Estudou em Bragança até ir para a Faculdade de Letras do Porto. Que vivências é que guarda desses tempos?

Eu fiz o Liceu todo em Bragança. Não posso esquecer alguns professores que tive e que marcaram a minha conduta, as minhas opções, o meu percurso académico: o Dr. Eduardo Carvalho, o Padre Gil, a Dr.ª Luísa Rio Alves, o Dr. Pimentel, a Dr.ª Marília.

Nesses tempos era tudo mais certinho?

Não sei, era diferente, todos os tempos têm o seu tempo. Estava no 3º ano do liceu, hoje 7º ano unificado, no 25 de Abril de 74. Tudo era novo, diferente, muito colorido. Na altura não percebia muito bem o que se passava. O entendimento desse tempo, a consciência política veio depois, mas agradava-me a irreverência do momento. Eu não era uma “menina certinha” era irreverente, cheia de energia, um pouco cábula.

Sempre o estudo acima de tudo?

Não, o estudo sempre ao lado do lazer, ao lado dos amigos e ao lado dos grupos de teatro que na altura já frequentava, nomeadamente no extinto FAOJ, hoje Instituto Português da Juventude.

Então o teatro é um bichinho que já vem desde há muito?

É um bichinho que vem desde sempre. O meu pai fez teatro quando era novo, era e é um apaixonado da arte dramática; cultivou nos meus irmãos e em mim essa paixão. Desde muito cedo que as festas de Natal tinham sempre teatrinhos feitos por mim, pelos meus irmãos e primos. Assistia a muitas peças de Teatro durante as férias, nas viagens ao Porto. Em Bragança recordo-me de algumas a que assisti, dirigidas pelo Marcolino Cepeda. Portanto, o teatro acompanhou a minha infância, a minha juventude, a minha adolescência e continua ao meu lado.