Não posso deixar de começar por aqui, na sequência da sua opinião sobre o III Congresso de Trás-os-Montes, publicada na revista Brigantia, “vai-se à terra à procura do osso que aí deixamos guardado, enterrado”. Neste reino que será talvez maravilho que osso vem procurar sempre que a Bragança se desloca?
Antes de responder à sua pergunta, queria deixar um grande abraço para o Marcolino Cepeda e para a Mara, a companheira dos trabalhos e dos dias. Eles são bem a alma pater e a alma mater de todas estas iniciativas.
Quanto ao osso de que fala, a expressão não é minha. É, segundo penso, do escritor Lobo Antunes. De facto venho à procura do osso que deixei enterrado. Um osso que pode ter uma semântica riquíssima, que pode ter significados vários, é um osso apelativo. Vem-se aqui à procura dos amigos, à procura de vivências, à procura de recordações…
É como uma busca de sentimentos perdidos?
Vem-se à procura de momentos, de um cheiro, de um sabor... Vem-se à procura das raízes, das origens. Jorge Luís Borges dizia que é um mau costume ter pátria, mas que é um costume necessário. Se onde se lê pátria lermos mátria, a expressão faz mais sentido. É que a terra onde nascemos acaba por ser o ninho mátrio, em especial, quando as recordações são boas (porque há quem as não tenha...)
E mais tarde vai querer voltar?
Costumo dizer que quero passar aqui o resto da eternidade. Depois de me reformar (estou praticamente às portas da reforma) penso regressar. Pelo menos vir mais e com mais tempo...
De que forma e o facto de ter nascido nesta cidade ou nesta região o marcou?
Marcou-me muito. Talvez venha a propósito lembrar que ocorre uma homenagem, em Moncorvo e no Felgar, ao Afonso Praça, um homem com um roteiro de vida notável: jornalista e escritor. Quando as pessoas lhe diziam que era do norte, ele retorquia: “Eu não sou do norte, sou transmontano”. Marcou-me esta terra com todas as suas circunstâncias. Ainda bem que me calhou esta. Não é perfeita, mas é a minha. Marcaram-me estas gentes e marcou-me a ruralidade de toda esta região. Acresce que fiz a escola primária numa aldeia perto de Bragança. Sou ainda do tempo em que era muito marcante uma rica civilização da oralidade: as pessoas viviam muito do ouvir dizer e do ver fazer. Aliás, algumas das coisas que escrevo tem que ver com a aprendizagem que fiz nessa civilização da oralidade. Marcou-me esta Bragança, ainda harmoniosa, dos anos 50 e dos anos 60, que era uma cidade sonolenta e pacata, com facetas rurais. Dava a impressão de que as muralhas, que cercavam a vila, tinham vindo por ali abaixo e que cercavam toda a urbe. Era um espaço fechado: pouco entrava e pouco saía... (É a sensação que agora tenho). Mas a cidade acabava por funcionar como um espaço securizante, em que nos sentíamos bem. Gostávamos de nos perder e de nos encontrar na cidade (e nos arredores). Na pequena Bragança, toda a gente se conhecia. Dava-nos a impressão de que as pessoas que aqui viviam tinham um coração muito grande...


