segunda-feira, 6 de maio de 2013

A vida de Natália, parte 5

Até Lisboa, menino assustado, indisfarçável no olhar verde, José sentia, ainda, algum chão. Lá chegado, exausto de tantas horas de viagem e de tantas mudanças de comboio, arribou, qual andorinha, em Santa Apolónia. Agarrou na pouca bagagem e apressou-se a sair para a gare. Espraiou o olhar, usando linguagem marinheira, em busca de um porto de abrigo que ali deveria estar à sua espera. Não viu ninguém.
Seguiu no fluxo de gente que o empurrava para a saída, desnorteado, de amarras perdidas. Que faria se o primo não o viesse esperar? Que seria dele?
O dinheiro que tinha era pouco, muito pouco. Decidiu esperar e encolheu-se a um canto, longe da turba de malta que se apressava para sair e entrar.
Fechou, por breves instantes os olhos cansados de tanto pensar. Abriu-os com um leve toque no braço, sobressaltado. Viu à sua frente o bem aventurado primo António. Reconheceu-o pelo retrato que a mãe lhe dera. Deu-lhe um abraço de náufrago e agradeceu a Deus por o ter mandado.
Estendeu-lhe a mão calejada dos trabalhos do campo e notou a macieza da outra, habituada a trabalhos mais amenos. Sorriu-lhe e, finalmente, falou. "Olá meu caro primo. Sou o José. A minha mãe manda-te esta lembrança." Estendeu-lhe um saco de volume apetecível e cheiro condizente.
"Há que tempos não te via rapaz! Tu cresceste! Quando saí da Terrinha, terias prá'i uns quatro anos. Estás um homem! Pimpão, não há dúvidas! Anda daí..." Agarrou-o por um ombro e lá foram os dois, pelas ruas apinhadas de Lisboa, num dia fresco, mas radioso de sol.
Embora pouca, a bagagem começava a pesar-lhe. Como descobriu, cerca de trinta minutos depois, a casa do primo não ficava longe. Era a subir, por uma rua estreita e íngreme. Estava realmente cansado.
Lá chegados, deparou-se com uma pequena e acolhedora casa térrea, pintada de branco, com uma borda de azulejos azuis que pareciam refletir a luminosidade do sol e do rio.
José voltou-se, por breves instantes, para apreciar o caminho que tinham percorrido. Pasmou. Nunca tinha vislumbrado nada assim. Nem sequer imaginava que pudesse haver paisagem mais bonita que aquela. Natália ficaria maravilhada...
Sentiu um baque doloroso no coração. Como estaria ela? Que pensaria ela? Sentiu que uma lágrima furtiva lhe corria ligeira pelo rosto.
Deu com o primo a olhar para ele com ar interrogativo. "Então rapaz, choras de alegria ou de tristeza? Anda daí que eu sei que estás cansado."
Abriu a porta e a escuridão das janelas fechadas invadiu-os com um ligeiro perfume a laranjas frescas e doces.
"Entra e põe-te à vontade. Deixa-me abrir as janelas para termos mais luz."
José continuava parado no umbral da porta. Tentava assimilar todas as emoções que vivia e sentia-se perdido. Resolveu entrar e parou no meio da pequena sala, bem arranjada e limpa, prática como convinha a um homem. Não tinha luxos. Era funcional e confotável. Bastava.
"Anda, homem! Não tenhas medo que não cais à loja dos porcos! Pareces pasmado!"
António puxou-o por um braço e obrigou-o a sentar-se num pequeno sofá. Fechou a porta da rua e dirigiu-se para o pequeno espaço destinado à cozinha. "Vou preparar alguma coisa para comermos. Deves estar esfomeado."
"Não. A minha mãe mandou-me uma boa merenda. Ainda tenho restos no saco. Vê lá se ainda se aproveita alguma coisa."
Pareceu ganhar alguma desenvoltura e foi até onde se encontrava o primo. Tirou do recipiente da merenda um pão quase intocado, um bom salpicão, uma chouriça, um naco de presunto, bacalhau e polvo fritos, uma garrafa de vinho... Pouco tinha comido e não sentia grande fome. Tinha sede de água. Perguntou ao primo pela cântara e pediu-lhe um copo. Viu como ele abria uma bica e lhe enchia o copo de água. Ficou admirado com o conforto que proporcionava o facto de ter a água ali ao pé. Bebeu sofregamente. Sim, era isso que lhe faltava. Água fresca e cristalina. Voltou a encher o copo e bebeu. Mais um copo e ainda outro. Estava sedento, árido como um deserto.

Continua...

Mara Cepeda      

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