sábado, 1 de dezembro de 2012

O touro

(Continuação: "Inverno")

Tentei correr na neve macia, ainda quase imaculada. Não consegui. A perna doía-me mais do que eu quereria. Aos poucos a dor foi atenuando e, se não conseguia correr, saltitava alegremente.
Apercebi-me de que era cedo para levantar num dia de inverno, no entanto, havia no ar um alarido, um revoluteio de gargalhadas e gritos infantis que faziam esquecer tudo o resto. Não havia sono, apenas olhos imensamente abertos para absorver a beleza daquele dia.
"Ana, não vás prá rua assim. Anda cá rapariga!"
A menina não fez caso dos apelos da mãe. Mal vestida e mal calçada, enterrou as suas pequenas mãos na brancura fria que atapetava o chão.
"Raças na garota que não sei o que lhe faça!"
Uma mão firme agarra-a e faz com que se volte. O pai ri-se e, como se de uma leve pena se tratasse, levanta-a pelo ar e entrega-a à mãe que a recebe nos braços cheios de roupa.
"Não vês que não podes ir assim que ficas doente, filha? Vem vestir o casaco e calçar as botas. Depois podes ir brincar."
"Ah, mãe!"
Relutantemente, lá deixou que a vestissem, sempre com o olhar preso nos amigos que riam a bom rir, divertidos a atirarem com neve uns aos outros.
Encontrámo-nos na rua, ou melhor, chocámos, caindo uma para cada lado, naquela macieza de flocos, rindo prazerosamente. Não perdemos tempo a juntar-nos aos nossos camaradas. Num ápice entrámos na brincadeira e corremos pela rua acima até perdermos o fôlego.
Todos à uma, sem conseguir respirar, atirámo-nos para o chão e, instantantaneamente, fez-se silêncio.
Tudo parou. Fechei os olhos e foi como se tivesse saído do meu corpo. A serenidade tomou conta de todos nós. Apenas existíamos naquele sonhar acordado.
Uma mão cheia de neve estalelou-se no meu rosto. Manel corria e ria como se fosse a última coisa que faria na sua vida.
Como se uma mola me impulsionasse, agarrei em duas mãozadas de neve e desatei atrás dele. Parecia um revoar de passarinhos novos, uns atrás dos outros, tontos, felizes...
Já não era imaculada a brancura. A nossa presença e as nossas brincadeiras marcaram-na, irremediavelmente.
Um grito de alerta despertou-nos. Tresmalhámos, cada um para seu lado. A aflição estampada nas nossas geladas e afogueadas faces.
Vindos da Portela, os urros e a fuga desenfreada de um touro. O boieiro, vara na mão, tentava em vão pará-lo.
Vários homens saíram do aconchego das suas casas com a intenção de ajudar. Preparavam o cerco ao animal. Gritos, braços no ar...
O enorme animal bufava descontroladamente. Batia com as patas poderosas no empedrado, arremetia contra tudo e todos.
As mães gritavam pelos filhos dizendo-lhes que não saíssem de onde estavam. Cada um de nós tentava proteger-se onde lhe parecia estar menos exposto. Uns tinham subido escadas a correr, outros escondiam-se nas soleiras das portas, alguns tentavam colar-se às paredes como se assim ficassem invisíveis...
A minha mãe estava lívida. No meio daquela imensa brancura, destacava-se o meu belo casaquinho vermelho, no patamar das escadas da tia Engrácia. Estava tão desamparada como um pequeno porco-pisco num fino ramo de árvore, açoitado pelo vento inclemente.
A tensão respirava-se ruidosamente. Por breves instantes, viveu-se um hiato de tempo, sem pensamentos, sem palavras, sem vento...
Um casaco vermelho rodopiou como se impulsionado por um pequeno tornado. Um baque surdo. Um grito angustiado, mais homens, mais gritos, mais alarido... o cerco ao touro, consumado, a vara brandida com os agilhões enterrados na carne do animal.
A mãe, asas nos pés, em busca do ponto vermelho no branco do chão...
"Oh meu Deus! Oh meu Deus!"
"Está morta a menina! Está morta."
"Santo Deus! Ajudem-na!"...
As mulheres gritavam frases soltas, ais e uis, corriam sem saber para onde... ou abraçavam os filhos ou lhes davam delicadas nalgadas seguidas de afagos nos cabelos, aliviadas por estarem sãos e salvos.
Nenhuma delas teve coragem de se aproximar da mãe e da filha que jazia, imóvel, num amontoado de roupa, donde sobressaía o vermelho.
A minha mãe levantou-me. Abri os olhos assustados e abracei-a. Nem um único arranhão, nada...
Não tenho lembrança consciente deste episódio. Sei que aconteceu porque me contaram várias vezes essa história...
Confesso que quando vejo um bovino, me tremem as pernas e o coração acelera.

Mara Cepeda

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